SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PORTO ALEGRE REGISTRA QUASE O DOBRO DE ASSASSINATOS



ZERO HORA 2 de dezembro de 2016 | N° 18704


EDUARDO TORRES

SEGURANÇA JÁ. Capital registra aumento de 84% nos assassinatos. EM SEIS ANOS, homicídios dispararam de 366 para 676. Guerra do tráfico é uma das razões da violência



A iniciativa de uma força-tarefa para frear os homicídios em Porto Alegre acontece em momento crítico. Ontem, terminou o novembro mais violento na Capital desde 2011, quando o Diário Gaúcho começou o levantamento dos assassinatos na Região Metropolitana. Foram 71 homicídios na cidade em apenas 30 dias – média superior a duas mortes violentas por dia. É mais do que o dobro dos 30 casos no mesmo mês do ano passado.

E ainda assim, não foi o mês mais violento de 2016. No ano, a Capital já registrou 676 homicídios, índice que parece não ter freio. Uma alta de 84,6% em relação ao mesmo período do primeiro ano do levantamento. Em janeiro, 75 pessoas foram vítimas de homicídios em Porto Alegre. No mês seguinte, pelo menos 87 vítimas – exatamente três casos diários.

– O crescimento de homicídios em Porto Alegre é resultado direto de três fatores: drogas, armas e o sistema prisional. Enquanto não conseguirmos dar resposta efetiva contra esses aspectos, vai ser difícil fazer parar as mortes – avalia o delegado Paulo Grillo, diretor do Departamento de Homicídios.

Pelo menos 70% dos assassinatos na Capital têm no tráfico de drogas o pano de fundo. A explosão desses crimes teve início em 2014, quando o departamento já atuava em Porto Alegre. Era o último ano do governo Tarso Genro (PT). Àquela altura, o projeto dos territórios da paz, implantado nos bairros mais violentos da cidade – que continuam nessa situação –, se arrastava. E os investimentos na segurança pública, minguavam.

O ano foi marcado pela “lei do caixão fechado”, como definiam investigadores de homicídios. Não bastava matar um rival com um ou dois tiros. Triplicaram em relação ao ano anterior os casos de mortes com mais de 10 tiros e com o uso de armamento pesado.

MAIS DE 30 BAIRROS SÃO DOMINADOS POR FACÇÕES

Com as quadrilhas já fortemente armadas, em 2015, segundo o Departamento de Homicídios, houve a consolidação do poder das facções sobre as ruas a partir das cadeias. Levantamento do Diário Gaúcho demonstrou que os grupos já controlavam áreas em pelo menos 32 bairros de Porto Alegre.

A consequência disso foi a saída da guerra de dentro das vielas. Aumentaram as vítimas de balas perdidas em confrontos e de execuções em locais de intensa movimentação de pessoas.

Em 2016, a guerra de poder entre as facções criminosas enfrenta polarização. Diversas quadrilhas uniram-se numa frente contra a facção criminosa que mais cresce na Capital na última década. Tudo começou com rixa entre os bairros Bom Jesus e Vila Jardim. Alastrou-se pela cidade e transformou em rotina as mortes por tiros a esmo, quando um grupo invade a área controlada pelos rivais e dispara sem um alvo específico – foram registrados assassinatos na rodoviária, em supermercado, no aeroporto, em hospital.

Para o diretor de investigações do Denarc, delegado Mario Souza, a violência envolve mais vinganças e demonstrações de poder do que propriamente disputas pelo controle de pontos de tráfico.

– Os grupos são muito bem armados, e as atitudes cada vez mais violentas – define.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Não surpreende diante da falaciosa e inoperante gestão político-partidária da segurança pública que sucateia os efetivos policiais e penitenciários, promove a evasão e desmotivação dos policiais, atrasa salários, não aplica incentivos, desvincula instrumentos e processos da justiça criminal, age com irresponsabilidade na execução penal, sequestra a perícia da investigação de delitos, abandona o policiamento ostensivo preventivo, desvia policiais de finalidade e transforma policiais em carcereiros e viaturas em presídios. Além disto, o RS tem um parlamento omisso e uma justiça que lava as mãos para as questões de justiça, ordem e segurança pública. Não são a toa o aumento da criminalidade, os assaltos, os latrocínios, as execuções e o terror nas ruas.

sábado, 19 de novembro de 2016

BONDES DA MORTE EM POA


DIÁRIO GAÚCHO - Guerra do tráfico21/07/2016 |

Bondes da morte são a nova estratégia de guerra do crime. Como em uma guerra civil, matadores dos Bala na Cara invadem áreas rivais em comboios munidos de mapas, fotos e detalhes sobre os alvos a serem atacados em suas missões. Tudo é planejado pelo whatsapp



Imagem flagrou o momento da invasão da Vila Jardim por homens armados no último sábado Foto: Divulgação / Polícia Civil



Eduardo Torres


A cena, capturada por um morador, lembrava imagens de lugares que vivem em guerra civil. Mas tudo acontecia a apenas 1km de um dos shoppings mais movimentados da Capital. Eram 16h do último sábado e pelo menos dez homens em três carros entraram na Rua Marajó, Bairro Vila Jardim, exibindo armamento pesado pelas janelas dos veículos. Era a volta de um verdadeiro bonde da morte àquele local, provavelmente sob ordens da facção dos Bala na Cara.

A ação do grupo aconteceria no dia 22 de abril, mas acabou abortada, terminando com as mortes de quatro suspeitos e dois PMs feridos em um confronto intenso finalizado em frente ao Hospital Cristo Redentor. Passados quase três meses daquele crime, dados do whatsapp de um dos criminosos morto no confronto revelaram à polícia o grau de organização da facção. Eles seguiam até a Vila Jardim fortemente armados com pelo menos dois fuzis e diversas pistolas 9mm para cumprirem uma missão.

Como se fossem soldados em operação, receberam um mapa onde estavam marcados três pontos que seriam os alvos do ataque entre as ruas Marajó e Doutor Alberto Barbosa, além de quatro fotos de jovens considerados os "alvos principais". De acordo com a polícia, os quatro, que não tiveram as identidades reveladas, seguem vivos.


Mapa encontrado no whatsapp de um dos criminosos mortos pela BM. Eram alvos na Vila Jardim Foto: Divulgação / Polícia Civil

— Eles contavam com um guia, que conhece a região e durante o percurso deles dava as dicas de como agirem e onde agirem quando chegassem. Havia ainda uma mulher, ainda não identificada, que fez um levantamento prévio dos movimentos dos alvos. Como se estivessem mesmo em uma operação — relata o delegado Cassiano Cabral, que apura o caso pela 3ª DHPP.

Desde o final do ano passado, foram pelo menos quatro missões semelhantes entre a Capital, Viamão e Eldorado do Sul. Em todas, as ordens para o bonde eram detalhadas pelo whatsapp.

De acordo com o delegado, em abril o bonde foi surpreendido ao acaso por uma viatura da Brigada Militar na Avenida Circular, quando já estavam prestes a iniciar o ataque na Rua Marajó. Pelo menos uma rajada de fuzil foi então disparada contra os policiais, deixando dois deles feridos.

Naquele momento, um dos suspeitos acabara de avisar ao restante do grupo que estavam chegando ao local. Em seguida, ele, já bastante nervoso, diz aos outros para "ficarem espertos":

— Deu os homi, cupinxo!

Carros roubados formam o comboio

Um bar na Rua Marajó, em abril, era uma espécie de alvo alternativo do bonde caso não encontrassem seus objetivos nas casas marcadas previamente. Em uma das mensagens, um interlocutor ainda não identificado pela polícia avisa:

— Se o cara não estiver ali, vai no bar que ele sempre fica e passa o fogo.

Pois no sábado os criminosos foram direto ao tal bar, no final da rua sem saída. Moradores relatam uma cena de horror, com mais de 100 tiros disparados. Denilson Sieber Correa, 37 anos, foi morto e outro homem ficou ferido. O crime ainda é apurado pela 5ª DHPP, mas há suspeita de que nenhum dos dois atingidos fossem os alvos deste ataque.

Na segunda-feira, dois carros — um Fox branco e um Sentra preto — suspeitos de terem sido usados na ação foram encontrados abandonados na Rua Francisco Braga, Bairro Partenon, Zona Leste da Capital. Os dois veículos eram roubados e estavam clonados.

A suspeita é de que o bando os tenha abandonado e, pela proximidade, seguido para o Bairro Bom Jesus, principal reduto dos Bala na Cara.

O uso de carros potentes e clonados é outra característica dos bondes da morte. Em abril, o i30 envolvido no confronto com os PMs estava nessa situação. Assim como um Civic prata recuperado horas depois, abandonado na região do Parque Chico Mendes, no Bairro Mario Quintana. A polícia ainda investiga um possível terceiro veículo naquele crime, que acabou não sendo percebido pelos policiais. A 3ª DHPP ainda trabalha para identificar os ocupantes do Civic e prováveis integrantes da quadrilha que estivessem no terceiro carro.

"Gasta todas as balas"

Se nos casos da Vila Jardim o bonde partiu com alvos bem definidos, em outro caso, a polícia comprovou que os Bala na Cara também seguem uma estratégia de "procurar e destruir", como acontece em guerrilhas. Foi assim na noite de domingo, 6 de dezembro do ano passado, em Viamão, quando Cristiano Bach foi executado com diversos tiros na Rua Narciso de Aguiar, Bairro Martinica. Na saída, os criminosos ainda dispararam a esmo, ferindo um homem que não tinha nenhuma relação com a criminalidade.

A ação foi toda gravada pelo whatsapp, com um dos atiradores prestando informações a um comando. Este interlocutor ainda não foi identificado pela polícia. Há suspeita de que, assim como nas outras ações, o comando tenha partido da cadeia.

São mais de 40 minutos de áudio. E o nível de violência impressiona.

— Quem vocês pegar, faz de chuveirinho. Gasta todas as balas, não tem miséria — avisava o criminoso ainda não identificado pela polícia.

De acordo com os investigadores da Delegacia de Homicídios de Viamão, o crime foi resultado de quase uma hora em que o bonde com pelo menos três carros vagou por locais com pontos de tráfico mantidos por grupos supostamente rivais aos Bala na Cara. Os criminosos vestiam camisetas pretas com inscrições da Polícia Civil.

Duduzinho era "linha de frente" nos ataques dos Bala na Cara Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal/Facebook



O "linha de frente" era Cláudio Eduardo Bandeira da Silva, o Duduzinho, 19 anos. Ele, juntamente com Anderson Henriques da Silva, 29 anos, Júlio César de Moura Santana, 22 anos, e Luiz Cainan Ribeiro da Silva, 21 anos, foi morto no confronto com PMs diante do Cristo Redentor em abril.

— Desde muito jovem o Duduzinho era bastante violento, tinha essa função de linha de frente mesmo e acabava chamado para ações em outros lugares — explica a delegada Larissa Fajardo.

Duduzinho era morador de Viamão e, na cidade, tinha pelo menos outros dois indiciamentos por homicídios. Nos últimos meses de vida, jurado de morte na sua cidade, ele estaria atuando em áreas controladas pelos Bala na Cara — e cumprindo missões da facção — em Porto Alegre.

Suspeito mapeou o alvo em Eldorado do Sul

Na madrugada de 6 de junho, um bonde da morte agiu em Eldorado do Sul, deixando cinco homens mortos em um bar no Bairro Cidade Verde. No dia seguinte ao crime, um Focus supostamente usado no ataque foi recuperado pela polícia no Bairro Bom Jesus, em Porto Alegre. O carro havia sido roubado em Viamão e estava clonado. Peritos comprovaram sinais das digitais de William Garcia da Silva, 23 anos, no veículo. Ele acabou preso.


De acordo com a delegada Patrícia Sanchotene, a investigação ainda detalha como foi todo o planejamento do grupo para aquele ataque. Já se sabe que William serviu como guia e foi um dos executores naquela madrugada. Segundo os investigadores, o suspeito viveu durante três meses na cidade e conseguiu mapear os pontos de tráfico dos rivais. Por enquanto, há apenas suspeitas dos demais participantes do crime.



Toda a ação foi gravada e enviada pelo whatsapp. Assim como em Viamão, os criminosos se fizeram passar por policiais e pareciam ter um alvo específico: Gérson Darif dos Santos, o Balu, 27 anos. Ele foi um dos executados, mas os outros quatro — Dan Menahen da Silveira Votnamis, 15 anos, Maurício de Sousa, 25, Wagner Carvalho da Silva, 32, e Dênis Fabiano Rodrigues Xavier, 32 —, segundo a polícia, teriam morrido de graça. Foram disparados diversos tiros de pistola 9mm e espingarda calibre 12.

Ainda gravando, depois de atirarem mais de 30 vezes no bar, um dos criminosos comenta na volta ao carro em que estavam se "o cara certo" foi morto. Outro responde:

— Se não era, azar.

Guerra não é territorial

Em nenhuma das ações investigadas pela polícia o objetivo era a tomada de pontos de tráfico dos rivais. O objetivo de cada ação dos bondes, de acordo com a delegada Patrícia Sanchotene, está ligado a vingança pelas rivalidades crescentes entre facções.

Mais do que controlar territorialmente a boca de fumo, as missões serviriam para aniquilar rivais e mostrar poder de fogo dos Bala na Cara. Não é à toa o armamento sempre ostensivo em cada uma das ações.


No confronto em frente ao Hospital Cristo Redentor, por exemplo, foram apreendidos um fuzil 5.56 e quatro pistolas 9mm. A polícia tem convicção de que os bandidos estavam armados com pelo menos outro fuzil, possivelmente de mesmo calibre. Desta arma, que estaria com criminosos no Civic prata abandonado horas depois, é que teria partido a rajada que feriu os dois PMs.

O armamento em cada um dos ataques é estratégico. Nas conversas de whatsapp encontradas pelos investigadores da 3ª DHPP, um interlocutor ainda não identificado se certifica antes sobre qual dos comparsas ficará com cada um dos "bicos" (fuzis). De acordo com o delegado Cassiano Cabral, o criminoso também determina quem ficará em cada carro.

— Eles apontam quem tem mais habilidade para cada função, quem atira melhor com o fuzil, quem conhece a área, e aí organizam o ataque — explica o delegado.


Tiroteio diante do Hospital Cristo Redentor, em abril, deixou quatro criminosos mortos e dois PMs feridos Foto: André Ávila / Agencia RBS

Tiroteio no hospital foi por acaso

A partir das informações levantadas sobre o bonde da morte, a 3ª DHPP concluirá o inquérito do confronto diante do hospital com o apontamento de tentativa de homicídio contra os policiais que, no entendimento do delegado Cassiano Cabral, agiram em legítima defesa. A intenção é indiciar os criminosos que venham a ser identificados como ocupantes do Civic, que escaparam do local do último confronto.

Segundo os investigadores, o tiroteio diante do hospital foi ao acaso. É que, depois da troca de tiros na área entre a Vila Jardim e a Vila Ipiranga, havia feridos tanto entre os policiais quanto entre os bandidos. Percorrendo caminhos diferentes, todos seguiram para o Cristo Redentor. Acabaram encontrando-se na Avenida Assis Brasil, onde os ocupantes do i30 teriam atirado novamente contra os policiais, que revidaram.

BONDES DO TERROR EM PORTO ALEGRE


Presos em confronto com a BM revelam os bondes do terror em Porto Alegre. Vídeo feito por policial militar após a prisão de integrantes da facção criminosa revela o perfil dos jovens que alimentam a guerra nas ruas da Capital

Por: Eduardo Torres

ZERO HORA 16/11/2016 - 11h03min |


Depois de presos em confronto com a BM, e de terem um companheiro morto, eles continuaram ameaçando rivais Foto: Reprodução / Diário Gaúcho

O primeiro chamado veio de boca em boca, nas ruas da Vila dos Sargentos, no bairro Serraria, zona sul de Porto Alegre. Um bonde partiria em alguns minutos para um ataque aos pontos de tráfico do Beco do Adelar, no Bairro Aberta dos Morros, controlados por uma facção rival. O jovem de 21 anos, que estava escalado para fazer parte do grupo, ficou contrariado. Era sábado à tarde e ele estava com a namorada. Comentou que não iria. Mas aí uma mensagem via WhatsApp reforçou a convocação.

— Quando chega essa mensagem, é proibido dizer não para a facção — avisa um amigo que prefere não ser identificado.

Um carro parou diante do jovem e um fuzil lhe foi entregue. O humor dele mudou imediatamente. Passou à euforia de quem está acostumado a partir para matar ou morrer. E foi com o bonde para a missão.


Era sábado, 22 de outubro. Cerca de três horas depois, uma pequena multidão aplaudia a saída de um ônibus da Brigada Militar do Beco do Adelar. O local havia sido cenário de uma batalha digna de guerra. Policiais e criminosos tiveram intensa troca de tiros. Um dos suspeitos, Régis Maurício Lima Alves, o Reginho, 27 anos, tombou no confronto com os PMs. Sete outros jovens foram presos e três adolescentes apreendidos. Todos foram colocados dentro daquele ônibus.

Alheios aos aplausos da rua, eles foram filmados por um policial militar em um vídeo de 17 segundos. Um recorte do principal alicerce das facções criminosas na Capital.

— O que realmente alimenta as facções é este conceito do "vida loka", que eles vivenciam no dia a dia. São jovens sem perspectivas e com uma missão. Não há preocupação com o futuro, nem com quem esteja mais próximo. Do tipo "se tiver que assaltar, eu assalto. Se tiver que matar, eu mato". A morte realmente faz parte. É rotina — acredita o delegado Rodrigo Pohlmann, do serviço de inteligência da Secretaria da Segurança Pública, que mapeia as facções criminosas da Capital.

O riso

Na imagem, eles pouco se importam que atrás da câmera esteja um policial. Seguem cumprindo a missão de atacar os rivais. Um garante que vai esquartejar, outro que matará, um terceiro, que usará o fuzil que carregava no ataque. O riso sarcástico — ou nervoso — é uma constante durante os 17 segundos.

— É a quebra de todo limite moral, eles não têm medo de sofrerem a punição da lei ou da autoridade. São vaidosos ao extremo. Não basta pertencer ao grupo, ser bandido. É preciso ser bandidão. Há uma outra escala de valores, então o arrependimento ou o sentimento da perda de um companheiro, por exemplo, ficam para segundo plano — diz o psiquiatra Luiz Carlos Illafont Coronel, que faz parte do Gabinete de Gestão Integrada da Secretaria da Segurança Pública.


Bonde foi preso com fuzil e pistolas no Beco do Adelar Foto: Divulgação / Brigada Militar/Divulgação

O crime e as drogas

Reginho, morto no confronto com a BM, era morador da Vila dos Sargentos, como a metade dos ocupantes do ônibus. Tinha trajetória semelhante a todos eles. Jovem, envolvido em outros crimes que o levaram cedo à prisão e usuário de drogas.

— Para uma pessoa tida como clinicamente normal, o uso de drogas liberatórias (álcool, maconha, crack ou cocaína) tem o potencial de multiplicar até três vezes o seu comportamento violento. Em alguém com transtornos mentais, esse potencial sobe para dez vezes — afirma Luiz Coronel.

Segundo ele, 84% da população carcerária sofre de algum tipo de transtorno mental. Desde a dependência química, que aflige metade dos detentos, até esquizofrenia, bipolaridade ou depressão. A maior parte, não diagnosticada, muito menos tratada. No mundo do crime, eles se tornam úteis.

— Se atacássemos seriamente a questão da dependência química e do acesso às drogas, diminuiríamos drasticamente bondes como esse. É preciso criar presídios mas, principalmente, é preciso tratar os detentos.

Uma tropa espalhada pela cidade


O bonde, no jargão do crime, é como um grupo de assalto em uma guerrilha. É formado para uma missão ordenada pelo comando da facção. Não há tempo para questionar a ordem.

— É como uma "grenalização", eles agem apaixonadamente por uma causa que não explicam. É fé cega. Aí entra em cena o efeito manada — acredita o juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais da Capital.

Aquela missão de 22 de outubro foi iniciada dois dias antes, em um ataque errado no estacionamento do supermercado Zaffari, do bairro Cavalhada, vitimando o empresário Marcelo Oliveira Dias, 44 anos. Dois dos presos no ônibus foram denunciados pelo Ministério Público pela participação na execução do empresário.

Na tarde do sábado, o ataque não seria mais a um alvo do grupo inimigo, mas à base dele. Não são mais criminosos de uma comunidade que se reúnem para um ataque, mas os chamados para o bonde funcionam como uma tropa convocada.

— Eles vêm de diversos lugares geralmente controlados pela facção. Recebem mensagem pelo celular para estarem em tal lugar, tal hora, onde um carro tal vai apanhá-lo. Recebe uma arma e cumpre a missão. Depois, mensagens são enviadas ao comando para comprovar o cumprimento da missão. Muitas vezes os envolvidos nem se conhecem, mas negar a participação no bonde pode significar a morte deles. São como funcionários — aponta o delegado Rodrigo Pohlmann.


Empresário foi morto por engano por criminosos da facção criminosa em estacionamento de supermercado Foto: Marcelo Kervalt / Agência RBS

A recompensa

Naquele bonde, a facção usou jovens da Vila dos Sargentos — de onde teria partido o líder do grupo —, na zona sul, vilas Tamanca e Ipe, na zona leste, Viamão e Alvorada.

A recompensa por isso está bem longe de ser o glamour de uma vida lucrativa no crime. De acordo com a polícia, quem vai no bonde, já é funcionário do grupo. Recebe para atuar em assaltos e no tráfico de drogas, mas neste mundo em que matar ou morrer faz pouca diferença, não há espaço para o acúmulo. O dinheiro que ganham geralmente é consumido em uma noite, esbanjando ou na compra de armas.

Mesmo que a guerra entre facções represente muita lucratividade para quem está no topo da pirâmide do tráfico de drogas, para quem integra um bonde, a lógica é outra. A maioria dos integrantes daquele bonde é miserável.

— Contentam-se com o leite do dia, a comida do dia e amanhã veem como vai ser. O importante é a satisfação do momento — avalia o delegado.

A relação de emprego surge geralmente na cadeia. Na galeria controlada pela facção, o detento com menos condições financeiras passa a ser sustentado pelo grupo. E isso geralmente se reverte em dívida a ser paga nas ruas.

Nas prisões, como soldados

Mesmo que a estrutura de comando de uma facção criminosa tenha nas cadeias o seu escritório, a construção de um soldado disposto a matar ou morrer por essa causa começa muito antes. O aplauso da comunidade do Beco do Adelar depois da prisão do bonde, para o juiz Sidinei Brzuska, é inútil.


— As prisões hoje são como campos de treinamento do Estado Islâmico. Um preso já chega ao sistema como uma bomba prestes a explodir, e ela não é desarmada em uma galeria que vive e fala do crime o dia inteiro ociosamente e sob controle de facções criminosas. É o efeito contrário ao da ressocialização — define.

O psiquiatra Luiz Carlos Illafont Coronel vai além.

— Estamos depositando diariamente um exército de jovens, de mão beijada, para essa estrutura transtornada dos presídios. É resultado direto da desestruturação das famílias e da sociedade. As relações se liquefazem rapidamente — diz.

Pai ausente

É papel do pai, ou da figura paterna, por exemplo, na formação da personalidade, mostrar os limites. E este, de acordo com o psiquiatra, é o ponto principal de ruptura que se vê nas periferias.

— A sociedade precisa oferecer a essas famílias o suporte para contrapor ausência paterna, ou o enfraquecimento paterno. Seja com mais creches, escolas de tempo integral ou atividades comunitárias. Se o Estado não investir nessas questões básicas, o jovem busca um pai com valores errados — explica.

Não é à toa, lembra o psiquiatra, que os líderes de facções são chamados de "patrões". A maior parte deles, segundo ele, tem transtorno antissocial de personalidade. São frios, cometem as maiores atrocidades e não demonstram arrependimento, mas principalmente, são líderes e manipuladores. É a este perfil que um integrante de bonde tenta agradar e se identificar.

— As nossas comunidades precisam ter motivos para se orgulhar e dar destaque a esse jovem que hoje tem o crime como referência sem nenhuma concorrência. Ele precisa de uma razão para não matar ou morrer pelo crime — avalia o juiz Sidinei Brzuska.

Sem referências positivas, o comportamento violento tende a se multiplicar. Em 70% dos casos de criminosos com transtorno antissocial de personalidade, por exemplo, houve, sobretudo na infância, algum episódio violento — físico, psicológico, mental, abandono ou negligência — que o marcou para sempre.


QUEM É QUEM  


O raio-x dos integrantes do bonde mostra o caminho, desde os seus históricos familiares, que os levaram a matar ou morrer pelo crime.



1. Geovani Bueno, o Choupana, 22 anos - O bonde caiu

Morador da Vila dos Sargentos, Geovani fica em silêncio no vídeo, com olhar preocupado. Para a polícia há um motivo para isso. Ele teria sido alçado ao comando da quadrilha depois da prisão de um dos gerentes do bando dias atrás. Seria responsabilidade de Choupana organizar o bonde que atacou o Beco do Adelar, assim como a emboscada que acabou na morte, por engano, do empresário Marcelo Oliveira Dias. Na lógica da facção criminosa, ele deixou um prejuízo para trás. Tanto pelas prisões quanto pela perda de armas no confronto com a Brigada Militar. Até chegar ao bonde que atacou o Beco do Adelar, Geovani colecionou passagens pela polícia e os benefícios da impunidade. Em 2013, aos 16 anos, ele conseguiu a proeza de ser relacionado em quatro atos infracionais diferentes no intervalo de apenas quatro meses. Só foi internado na Fase depois do último caso, em agosto daquele ano. Na instituição, teve um histórico problemático. Envolveu-se em pelo menos quatro episódios de brigas e agressões. Em junho de 2012, com a participação de outro interno, teria tentado estrangular um adolescente dentro da Fase.

E se...

— Ele tivesse sido enquadrado em alguma medida socioeducativa logo depois do primeiro ato infracional que cometeu? Por ter cometido um delito de menor potencial ofensivo, um furto, ou ainda, o seu segundo delito, o tráfico de drogas, Geovani poderia ter cumprido a medida em uma unidade não tão restritiva, com praticas diárias de reeducação mais amplas. Em Pernambuco, essa experiência é feita em uma unidade de Jaboatão. Lá, os adolescentes são mantidos em um ambiente caseiro e saem da unidade com uma formação. O índice de reincidência é quatro vezes menor do que no sistema tradicional.

— Ele tivesse sido acompanhado após o cumprimento da primeira medida? Assim como no restante do Brasil, no Rio Grande do Sul o índice de retorno de adolescentes à Fase ultrapassa os 45%. Na Fase, há o programa POD Socioeducativo, que acompanha os egressos por um período, possibilitando a qualificação educacional e profissional, além de acompanhar a família deste adolescente. A participação, no entanto, é voluntária. O índice de reincidência reduz para 9% entre os que participam do programa.





2. Carlos Henrique, o Nego Beiço, 18 anos - "Aquele não era o meu filho"

Quando o vídeo inicia, Carlos Henrique é um dos mais agressivos. Fala alto, olhando para a câmera e, sem se importar que um policial militar é quem filma, dispara: "Vai ver, ET, nós vamos te esquartejar". A vigilante Mara Regina Silva dos Santos, 38 anos, mãe dele, ainda não acredita no que viu.

— Aquele não era o meu filho. Aquele ódio não é dele. Porque ele sempre foi um guri alegre e brincalhão, que faz amizades com facilidade. Nunca foi agressivo — diz.

Horas depois da prisão, ainda no Palácio da Polícia, lembra a mãe, o filho desabou.

— Ele chorou muito, me pediu que eu ajudasse ele. No fundo, acho que pela ausência do pai, eu protegi ele demais. Talvez eu não tenha dado limites. Se ele fez mesmo tudo o que estão dizendo que fez, terá que pagar. Vai ter que aprender do pior jeito. Mas o meu filho não é um monstro — desabafa.

Morador do Bairro Viamópolis, em Viamão, Carlos Henrique completou 18 anos quatro meses atrás. O rapaz é apontado pelo Departamento de Homicídios como um dos atiradores que vitimou, por engano, o empresário Marcelo Oliveira Dias no estacionamento do Zaffari, no Bairro Cavalhada, dias antes de cair no bonde que invadiu o Beco do Adelar. Aos 15 anos, ele abandonou a escola tendo cursado até o 4º ano do ensino fundamental. Foi quando, lembra a mãe, ele resolveu procurar o pai. Chegou a conviver por um tempo com ele na Zona Norte de Porto Alegre, mas não deu certo. Aí o rumo do Carlos Henrique mudou. Em 2013, esteve envolvido em um caso de ameaça, com faca, na frente de uma escola de Viamão. Para a mãe, tudo não passou de um mal entendido. No ano seguinte, ele foi flagrado dirigindo um carro roubado na cidade. Outra vez, segundo Mara Regina, a culpa não era dele. Foi liberado na delegacia.

Ela atribui o envolvimento do filho às más companhias — e a uma certa dose de azar.

— Quando ele passou pela Fase um monitor me falou que ele é muito inteligente, é um guri bom, mas que acabaria entortando por causa das companhias — lembra a mãe.

Carlos Henrique ficou três meses na Fase depois de ser flagrado com uma pistola 9mm na Zona Sul da Capital. Deveria cumprir outros três meses de medida socioeducativa em semiliberdade. Acabou fugindo sob a alegação de que "os contras" dominavam a casa onde deveria cumprir a medida. Foi recapturado em agosto deste ano em uma ação do Deca nos inferninhos do Centro de Porto Alegre, mas voltou a fugir uma semana antes dos crimes na Zona Sul. Mara Regina reluta em acreditar que o filho tenha participação em tantos crimes como alega a polícia. Desde o ano passado, porém, quando foi interno na Fase, o filho se declara integrante de uma facção criminosa. E reforça ações do grupo onde é requisitado. Desde o ano passado, segundo a polícia, Carlos Henrique estava na Vila Tamanca, Bairro Agronomia, na Zona Leste da Capital. De lá ele teria partido para a ação no Beco do Adelar. Foi lá que, em dezembro do ano passado, foi baleado em um dos braços. A mãe acredita que o disparo foi uma bala perdida.

— Ele só estava assistindo um jogo de futebol com uns amigos e tentou se proteger — lembra.



E se...

— Ele não tivesse abandonado a escola? A relação entre o nível de escolaridade e o envolvimento com a criminalidade é direta. Entre os internos da Fase, 60% não passaram do 6º ano do ensino fundametal. No sistema prisional, 62% não completaram o ensino fundamental. Estatisticamente, a cada ano de estudo completado após o sexto ano, reduz em 10% a probabilidade de envolvimento na criminalidade.




3. Carlos Heitor, 26 anos - O recado

Morador da Vila dos Sargentos, Bairro Serraria, Carlos Heitor, algemado no último banco do ônibus, se sobressai no vídeo com um recado para o rival: "A gente caiu para a Brigada, não para ti, otário". Mesmo com a valentia demonstrada, entre os integrantes do bonde, ele é o que tem menor histórico criminal. Um dos únicos que não teve passagens pela Fase quando adolescente.



4. Vágner, 22 anos - Herdou o crime

Em uma das mãos, a tatuagem denuncia: BNC. É a abreviatura da facção dos Bala na Cara que Vágner carrega consigo como um carimbo. Para o pai, é uma sentença.

— Quando entra nesse negócio de facção é horrível. Só tem dois caminhos: a morte ou Jesus — diz.

Vágner Reis, 41 anos, sabe do que fala. E tem noção da sua participação na chegada do filho até o bonde que invadiu o Beco do Adelar. Quando o filho tinha apenas 10 anos, ele se envolveu com as drogas, em pouco tempo estava no tráfico e acabou preso no Litoral Norte quando Vágner Júnior ainda estava com 14 anos. Na cadeia, ele reverteu o seu rumo. Converteu-se à religião.

— Tudo na vida é um aprendizado. Assim como eu aprendi, ele também vai ter que tomar essa atitude por ele mesmo. Porque o que fez foi muito errado e ele tem que ter consciência disso. Por enquanto, vou orar muito pelo meu filho — afirma.

No vídeo, Vágner Júnior, algemado, conserva um sorriso irônico e, entre os gritos dos companheiros de bonde, também solta os seus, em tom de ameaça aos rivais da facção.

A vida dele começou acidentada desde cedo. Aos quatro anos, a separação dos pais foi traumática. O menino viu-se envolvido em uma disputa pela sua guarda e acabou ficando com o pai. Na prática, foi criado pela avó. Ele repete o traço comum aos companheiros de bonde. Abandonou os estudos no 5º ano do ensino fundamental.

— Eu disse para ele não largar a escola, mas no final, só ia para lá fazer outras coisas que não estudar. Então eu consegui um bico aqui, outro ali para ele em obras. Mas o meu filho nunca parou em emprego nenhum — conta o pai.

O envolvimento de Vágner Júnior aconteceu na Vila Castelinho, área dominada pela facção em Viamão, aos 16 anos. Já no ano seguinte, quando se viu envolvido com crimes, ele voltou ao pai e pediu ajuda. A namorada estava grávida. O pai, já recuperado, deu uma casa mobiliada para que o menino iniciasse a sua vida em família. Em vão.

— Ele botou tudo fora. Eu dei um ultimato: ou agia como um homem, ou era melhor que fosse embora. Ele foi embora — lamenta Vágner.

Na última vez que tentou conversar com o filho por telefone, meses atrás, pressentiu que a prisão seria questão de tempo. Vágner Júnior só falava em armas, facção, "cheio de gírias". Antes de ser preso, ainda entregou o filho aos cuidados do pai. Com uma frase que ficou na memória do avô: "eu prefiro ele nas mãos do senhor do que como eu, com uma arma na mão".



E se...

— Ele tivesse referências positivas? Estudos clínicos mostram que a ausência paterna, ou de uma referência paterna positiva, pode trazer prejuízos ao desenvolvimento afetivo e social do adolescente. É papel da figura paterna estabelecer os limites, os conceitos do que é certo e o que é errado no mundo fora do ambiente familiar. Levantamento feito no país demonstra que um terço dos adolescentes infratores e jovens criminosos tiveram pais ausentes e 40% dos internos da Fase tinham, há dez anos, os pais presos. Conforme a ONG Brasil Sem Grades, em torno de 60% dos adolescentes internos da Fase, que usam drogas, não tiveram a presença positiva do pai nas suas formações. A referência não precisa ser necessariamente familiar. Ao abandonar a escola, mais uma possibilidade de busca de referências se esgotou. Na Vila Castelinho, em Viamão, onde Vágner Júnior teria iniciado sua trajetória no crime, a estrutura é precária. Não há praças ou espaços adequados para o convívio de crianças.



5. Jonatan, o Loucão, 23 anos - Profissão, soldado do crime


— Emprego para cadeieiro, nem pensar.

A frase calou fundo para o jovem, então com 20 anos, que acabara de passar nove meses no Presídio Central. Ainda não foi condenado pelo homicídio que o colocou preventivamente na cadeia. Mas foi como uma sentença, ou melhor, o recurso negado depois de pelo menos outras duas sentenças que a vida já havia lhe imposto. Primeiro, a perda do pai, morto a tiros, quando tinha seis anos. Depois, aos 16, teve outra porta fechada. Abandonou a escola no 6º ano do ensino fundamental para cuidar da primeira filha que estava para nascer — hoje são três. Mas foi depois daquela resposta que Jonatan tomou a decisão que o levou a estar no bonde que atacou o Beco do Adelar.

— Um dia ele voltou para casa muito revoltado mesmo e disse que não tinha mais jeito. Iria se virar e fazer tudo o que a facção mandasse. Seria o emprego dele — conta a companheira dele, Greice de Oliveira Correia, 22 anos.


Oficialmente ele é morador da Vila Castelinho, em Viamão, em um lugar que deveria ser uma casa de alvenaria. Mas ela está desabada, restou só uma peça, onde as meninas sobrevivem do jeito que dá. O pai, na verdade, não tem parada fixa. Vai para onde lhe mandam.

Quando foi preso, Jonatan já vivia em condições precárias. Na galeria dominada por uma facção, ocupou o lugar mais baixo na escala social do lugar. Era um "caído". A facção custeou a sua estadia e ele saiu devendo. Sem emprego formal, virou soldado do crime.

Por isso, Greice não se surpreendeu com o que viu no vídeo do bonde dentro do ônibus da Brigada Militar. O ódio de Jonatan, nas imagens, é quase automático: "Vai morrer!", ele grita.

Depois de conseguir passar a infância e a adolescência sem se envolver com a criminalidade, ao parar de estudar, ele mudou. Cursava o 6º ano do ensino fundamental aos 16 anos. Mesmo com o atraso nos estudos, nunca foi um "aluno problema". Foi trabalhar na construção civil mas, como não tinha nenhuma qualificação, quando os empregos ficaram raros, ele sobrou. E aí entrou para o tráfico em Viamão.

— Ele nunca me conta onde vai, às vezes some por uns três, quatro dias — diz a companheira.

Foi assim no ano passado, quando ele saiu cedo de casa dizendo que iria "ali em cima" e já voltava. Já era começo da noite quando Greice recebeu uma ligação. Era uma delegada de Santa Maria comunicando que o companheiro estava preso lá. Havia sido flagrado traficando em uma área onde a facção criminosa estava impondo seu domínio.


se...


— Ele recebesse qualificação profissional na prisão? Nas cadeias gaúchas, apenas 14% dos detentos trabalham, índice abaixo da média de 16% no país. Para agravar essa situação, em locais como o Presídio Central as galerias são controladas por facções criminosas. Agem como uma concorrência desleal diante da ausência de alternativa profissional a quem já cometeu um crime. Desde 1964 a Lei de Execução Penal prevê que o Estado crie meios de reinserção ao mercado de trabalho de ex-detentos, mas a resistência no mercado de trabalho — agravada pela baixa escolaridade e qualificação — é uma constante. Uma alternativa a essa realidade são as Apacs, que ainda não viraram realidade no Rio Grande do Sul. Neste modelo de prisão, todos os detentos trabalham e estudam, além de receberem cursos profissionalizantes. A reincidência criminal no modelo prisional tradicional é de 70% no Rio Grande do Sul. Nas Apacs não passa de 20%.




6. Josimar Bandeira Corrêa, 21 anos - O ódio de uma mente transtornada


Ele tinha os olhos vidrados, ainda estampando a tensão do momento. E falou assim, atropelando as palavras para o o policial militar que filmava os presos no ônibus da BM: "o fuzil que tava na minha mão, ia cravar ele no teu c..., seu f...".

Quando soube do que acontecia, o aposentado Línio Corrêa, 73 anos, não conteve o choro. Chorou, segundo ele, um dia inteiro. Era de tristeza, preocupação e, sobretudo de impotência.

— O ódio é normal na situação em que ele está. Tenho muito medo pelo meu filho e pelos outros que estão próximos dele — desabafa.

É que, mais uma vez, Josimar foi tratado pelas autoridades como um preso comum. Foi enviado à Pasc junto dos outros integrantes do bonde. Na casinha simples do fundo de um terreno no Bairro Guarujá, Zona Sul da Capital, o pai guarda uma mochila com um calhamaço de documentos, laudos e todo o tipo de registro possível demonstrando que Josimar sofre de transtornos mentais graves. Uma sacola plástica, igualmente cheia, expõe o risco. São os medicamentos que o jovem se negou a tomar.

Junte neste cenário crítico o uso de drogas e ao convívio do rapaz com o tráfico de drogas na Vila dos Sargentos, um dos núcleos de uma facção criminosa. E adicione uma arma em suas mãos. Sim, na tarde do sábado, dia 22, Josimar era uma bomba nas mãos de uma facção criminosa.

O transtorno cognitivo grave, que se mostrou um dos sinais da esquizofrenia, foi diagnosticado aos 12 anos. Antes disso, o pai já o havia retirado de uma escola do bairro. É que Josimar era um menino agitado demais, vivia envolvido em brigas. Línio então conseguiu um lugar para o filho no Pão dos Pobres. Lá veio o alerta.

— Um dia a psicóloga me chamou e contou que o Josimar era um guri muito inteligente, mas do nada, ele virava. Eu precisava de uma consulta para ver o que era isso — lembra.

Iniciou o tratamento, mas à medida em que a adolescência avançava, a revolta também crescia.

— Ele dizia "não sou louco, pai". E não tomava os remédios. Aí na rua sempre se prevaleceram dele — conta Línio.

Quando foi internado na Fase, nos primeiros meses, foi medicado. Depois, ao ser transferido de unidade, uma falha de comunicação por pouco não foi fatal. Deixaram de medicar o Josimar. Descontrolado, envolveu-se em uma rebelião, em pelo menos duas brigas e ainda foi flagrado com maconha lá dentro.

— Quando me chamaram, eu só tinha uma pergunta a fazer: Por que não medicaram o meu filho? Eles disseram que eu não tinha avisado — lembra o aposentado.

Quando as confusões passaram e novamente Josimar ficou sob controle, ele evoluiu. Completou o ensino fundamental, fez um curso de técnico administrativo e viveu até um reencontro que lhe encheu de esperança. A irmã, por parte de mãe, que ele nem sabia existir, é hoje engenheira sanitária na Itália. Ela foi adotada por um casal de italianos quando tinha quatro anos. Um projeto da Justiça promoveu um encontro virtual entre os dois. Na época com 17 anos, Josimar disse à Zero Hora:

— Quero mudar de vida. Ela é engenheira, eu queria ser engenheiro mecânico. Tudo é possível.

Assim como ele, a irmã também herdou os transtornos mentais da mãe, que era moradora de rua e sofre de esquizofrenia. A diferença é que ela, na Itália, recebeu oportunidades.

Já o Josimar, quando saiu da Fase, deparou-se novamente com a sua realidade. Até procurou um emprego. E foi chamado de maluco.

— Eu tentei uma aposentadoria para ele. Mas ele nunca aceitou. Eu não canso de pensar nele quando menino, tão alegre, vivia junto comigo quando eu trabalhava de zelador, mas isso ficou no passado. Hoje só penso em tratar o meu filho — desabafa.


E se...
— Ele recebesse tratamento e oportunidades? Ser portador de doença mental na adolescência em Porto Alegre pode representar uma barreira intransponível. O tempo de espera por uma consulta no CAPsi da Zona Sul para esta faixa etária, por exemplo, chega a um ano. Quando se trata de uma doença como a esquizofrenia, a demora no início do tratamento só agrava o problema. Que vai bem além das dificuldades clínicas. Mesmo que o Plano Nacional de Saúde Mental preveja a inclusão social e no mercado de trabalho, a realidade do mercado é oposta. A esquizofrenia acomete 1% da população mundial. Sob controle de medicação, o portador pode, e deve, exercer funções no mercado de trabalho. Josimar fez um curso de auxiliar administrativo na Fase, mas nunca foi empregado. No crime, foi aceito.



7. Dênis, 29 anos - Morador do Bairro Serraria, não tinha antecedentes criminais.

8. Adolescente, 17 anos -Morador do Bairro Jardim Carvalho, tem dois registros policiais anteriores neste ano por tráfico de drogas e receptação.



9. Adolescente, 16 anos - Morador do Bairro Guarujá, passou pela Fase por envolvimento em roubo a taxista. Na instituição, tem histórico em brigas.

10. Adolescente, 17 anos - Morador de Alvorada, desde os 14 anos tem envolvimento com a criminalidade. Tem registros policiais por tráfico de drogas, porte ilegal de arma e receptação. Uma semana antes de cair com o bonde, foi flagrado com uma pistola 9mm no Bairro Restinga, Zona Sul de Porto Alegre.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

ESTAMOS NUMA GUERRA, RECONHECE A AUTORIDADE POLÍTICA

SIM HÁ UMA GUERRA. De bom é o reconhecimento público de uma autoridade política do Estado. O ruim é que a experiência de pacificação no Rio de Janeiro não foi aprendida e nem entendida pelas autoridades. No Rio, foram empregadas as forças policiais e as forças armadas para ocupar os complexos de favelas e implementar o policiamento comunitário para prevenir delitos e interagir com as comunidades. Com o passar do tempo, a estratégia de "pacificação" afundou por que as polícias e as forças armadas ficaram sem o apoio das políticas sociais, sem suporte de leis duras contra o crime e sem as ações da justiça para coibir, processar com celeridade, punir os crimes, recuperar os presos e manter isolados os bandidos perigosos. 

O Estado Democrático de Direito exige a Força da Lei e da Justiça para coibir e punir o crime, não a força das armas. São leis duras e um sistema de justiça criminal ágil nos processos, coativo nas ações e decisões, comprometido com a finalidade pública, observando a supremacia do interesse público e exigindo responsabilidade de TODOS é que vão garantir direitos e preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patrimônio.


"Estamos em uma guerra", diz Schirmer ao detalhar reforço no combate a homicídios. O novo efetivo deve chegar ao Estado a partir de 1º de dezembro, segundo o secretário

Por: Adriana Irion
ZERO HORA 14/11/2016 - 16h21min



Força Nacional já atua no policiamento ostensivo de Porto Alegre há mais de dois meses Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS


A inclusão de Porto Alegre no projeto-piloto de apoio da Força Nacional de Segurança (FNS) na investigação de homicídios é reflexo da preocupação da Secretaria da Segurança Pública (SSP) com os crescentes índices de homicídios.

A notícia da chegada do novo efetivo, de policiais e de peritos, prevista para dezembro, já é comemorada entre especialistas e policiais. Para o secretário da segurança pública, Cezar Schirmer, o momento é de somar esforços.

— Estamos em uma guerra. Não dá para achar que vamos resolver sozinhos. Essa ação mostra que o governo está trabalhando, enfrentando. Vamos ter criatividade e somar todos os esforços sem disputa de beleza. É uma guerra que tem de ser combatida no longo, no médio, no curto prazo e, aqui no Rio Grande Sul, no ontem. É o que estamos fazendo – disse Schirmer nesta segunda-feira.

A ideia é agregar policiais experientes ao efetivo das Delegacias de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Pelo menos quatro das seis DHPPs devem ter o reforço. O novo efetivo deve chegar ao Estado a partir de 1º de dezembro, segundo o secretário.

Na sexta-feira, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, anunciou o reforço, que deve ser estendido para todas as capitais até março de 2017 dentro do Plano Nacional de Segurança, que está sendo finalizado.

Os números da violência justificam a prioridade. Conforme o levantamento do Diário Gaúcho, pelo menos 640 pessoas já foram assassinadas na Capital desde o começo do ano. Um número 19,4% superior aos 536 até esta altura do ano passado. O volume, na verdade, já é 5% superior a todos os assassinatos em Porto Alegre durante o ano passado inteiro, quando pelo menos 609 pessoas foram mortas. O número inclui os latrocínios (roubos com morte), que registraram a maior alta. Já foram 30 vítimas em 2016, 76% a mais do que no mesmo período do ano passado.


Schirmer explicou que os detalhes do reforço – como quantas pessoas serão enviadas ao Estado e como funcionará o trabalho – ainda estão sendo construídos com o Ministério da Justiça. Disse também que valores a serem destinados ao Rio Grande do sul devem contemplar, inicialmente, melhorias no sistema prisional, em equipamentos, armamento e viaturas.

– O foco nos homicídios demonstra que há uma prioridade, que é a vida humana. A Secretaria de Segurança Pública tem que focar nisso. Qualquer contribuição que venha a ser dada para este objetivo, de redução dos homicídios, que se pode obter por meio do esclarecimento de casos, é útil. Isso demonstra que a secretaria vai assumindo esse foco diante do descalabro do aumento dos casos de homicídios em Porto Alegre – avalia Rodrigo de Azevedo, pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUCRS.

Exército tem feito patrulhamento nas ruas da zona sul da Capital Foto: Luiz Armando Vaz / Agencia RBS

Promotora da 1ª Vara do Júri de Porto Alegre, Lúcia Helena Callegari vê com entusiasmo o reforço para solucionar casos de assassinatos:

– Investimento em investigação é essencial. Vejo com muito entusiasmo. Isso ajuda para cumprir mandados de busca, identificar locais e no sentido de ouvir mais pessoas. Tudo isso contribui. Temos tido aumento significativo de homicídios e tudo que conseguir agregar de solução é uma resposta para a sociedade, que pode ter resultado positivo no sentido de tirar pessoas de circulação.

O chefe da Polícia Civil, delegado Emerson Wendt, entende que o fato de os policiais não conhecerem a cidade não será obstáculo para o trabalho:

– Eles vão se somar a equipes já existentes. Vão atuar em investigações, em atividades de cartório, diligências de rua e podem agregar técnicas de investigação, contribuir.

Wendt destacou que um trabalho integrado entre Polícia Civil e Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), que teve início em agosto, está mapeando e analisando, dentro e fora do sistema prisional, grupos rivais que disputam espaços na cidade.

Para o diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, delegado Paulo Rogério Grillo, o reforço de policiais da Força Nacional para atuar em investigações é válido.

– São policiais experiente e treinados, que, certamente, poderão contribuir para esse trabalho – diz Grillo.

Porto Alegre já contabiliza mais de 600 homicídios no ano. No sábado, homem foi morto próximo ao Ginásio Tesourinha Foto: Bruno Alencastro / Agência RBS

Schirmer disse que gosta de trabalhar com metas, mas que ainda não as tem para o trabalho que vai começar em dezembro:

– Quero a redução (dos homicídios). O homicídio tem grande repercussão pública, é o maior indicador de sensação de insegurança e com reflexo em outros crimes. É a ponta de um iceberg, é a parte mais visível de um problema. Conversei com o ministro (da Justiça e Cidadania, durante encontro de secretário de segurança pública, em Gramado) quando ele esteve aqui, o governador também esteve em Brasília. O governo está agindo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A BARBÁRIE COMO PUNIÇÃO



ZERO HORA 11 de novembro de 2016 | N° 18684


EDITORIAIS




Cinco pessoas foram executadas em Alvorada na noite da última quarta-feira com sinais de tortura e crueldade. Quatro corpos foram encontrados decapitados no interior de um veículo e um quinto foi achado com algemas nos pulsos e suspeita de castração. As execuções se inserem no contexto de barbáries frequentes que vêm ocorrendo na Região Metropolitana de Porto Alegre, a maioria resultantes da guerra entre traficantes de drogas. Em meio ao morticínio de delinquentes, não é incomum que pessoas inocentes também sejam atingidas, como no caso do empresário morto por engano no estacionamento de um supermercado e da mulher ferida por bala perdida numa execução ocorrida nesta semana, nas proximidades da estação rodoviária da Capital.

Por mais que os justiceiros de redes sociais vibrem com a morte de delinquentes, a estratégia do extermínio não serve a ninguém – até mesmo porque multiplica o ódio e o desejo de vingança, que acabam gerando novos episódios violentos. Nem todos os mortos têm extensa ficha criminal, como as que foram divulgadas pela polícia sobre os quatro decapitados. Além disso, os decapitadores saem livres e fortalecidos pela própria crueldade, que invariavelmente os torna mais respeitados no universo da delinquência.

Qualquer pessoa sensata concorda que crime se combate com Justiça, e não com outros crimes. Porém, numa sociedade em que a impunidade prevalece, as leis são brandas e condescendentes com os criminosos, as penas são leves e frequentemente interrompidas pelas benesses da progressão continuada, a falta de vagas no sistema prisional facilita a soltura dos facínoras, não há como estranhar que uma quantidade cada vez maior de cidadãos aplauda a barbárie como forma de punição.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Os antigos chineses diziam que num Estado sem justiça, as portas estão abertas para rebeldes, bandidos e justiceiros. O fato é que estamos submetidos a um Estado de justiça corporativa, tardia, leniente, assistemática, fraca, distante dos delitos, que lava as mãos para as questões de ordem, de justiça e de segurança pública, justificando-se nas leis permissivas, na irresponsabilidade do Executivo e na omissão do Legislativo. É como se não houvesse lei e nem justiça no Brasil. Portanto, a barbárie do crime é resultada da falta de lei e da justiça para coibir e punir com rigor.

sábado, 5 de novembro de 2016

POLÍCIA PARTE DO PROBLEMA


"A polícia é só parte da solução do problema", diz José Mariano Beltrame

Santa-mariense e ex-secretário de Segurança do Rio fala sobre seu futuro e sobre como o poder público e a sociedade podem ajudar a reduzir a criminalidade

ZERO HORA. Por: Deni Zolin e Naiôn Curcino
05/11/2016 - 10h59min 


José Mariano Beltrame esteve em Santa Maria para visitar um filho e falou por uma hora com o DiárioFoto: Germano Rorato / Agencia RBS


José Mariano Beltrame, 59 anos, aquele que morava em frente ao Colégio Centenário quando era criança, em Santa Maria, visitou a cidade no final de outubro. Filho de bancário e de uma professora, ele agora tem um filho que mora aqui e trabalha na área agrícola – outra filha, advogada, vive em São Paulo. Aqui, vivem também uma tia e um primo de Beltrame – seu irmão mais velho é médico e mora perto de Santa Maria.

Agora que deixou a Secretaria de Segurança Pública do Rio, Beltrame quer vir com mais frequência a Santa Maria para rever o filho e visitar vários amigos que deixou por aqui. Mas o trabalho de quase 10 anos à frente da Segurança do Rio, um dos Estados mais importantes e violentos do país, permitiu a Beltrame acumular muitas experiências.

Após sair do cargo, em setembro, o santa-mariense recebeu convites para ser secretário em quatro Estados, inclusive no Rio Grande do Sul. Porém, ele pediu aposentadoria como delegado da Polícia Federal no final de outubro porque quer se dedicar mais aos filhos e trabalhar na iniciativa privada. Assim que sair da ativa, fará uma quarentena antes de assumir algum emprego na iniciativa privada, possivelmente em empresas do setor de segurança no Rio ou São Paulo, ou na área de consultoria e formação de policiais.

Agora, ele vai aos EUA, nos dias 17 e 18, para dar uma palestra sobre as UPPs na renomada Universidade de Harvard.

Da sua experiência no combate à criminalidade, ele destaca dois pontos. Um é a sociedade também ajudar a resolver os problemas das periferias, por meio de projetos sociais, já que o poder público não consegue fazer seu papel. O segundo ponto é a falta de políticas públicas destinadas às comunidades pobres. Para ele, a política de segurança primária sequer é falada, principalmente pelos prefeitos, que têm, sim, um papel importante na prevenção da criminalidade.

– Passei um dia com a ministra Cármen Lúcia, do STF, e desta vez saí muito esperançoso. Ela está preocupadíssima com a questão de segurança. Está indo para a rua, envolvida. Talvez em lugares menores a população não tenha essa percepção, mas, em metrópoles, o cenário é muito ruim. Vi nela essa preocupação, e passarei a contribuir com ela – disse Beltrame, em entrevista de uma hora, feita em Santa Maria, durante visita ao filho.

Beltrame falou das sugestões que fez ao secretário Schirmer e de outros temas, como a ação da gangue Bala na Cara aqui. Ele, que recebeu 51 ameaças de morte em 10 anos no Rio, disse que temeu mais pela própria segurança quando trabalhou perto do Paraguai.

Diário – Qual a avaliação sobre sua atuação na Secretaria de Segurança do Rio em quase 10 anos?

José Mariano Beltrame – Segurança pública é um jogo que a gente não vence, a gente mitiga o problema, mas nunca vence. Foram 10 anos de dedicação exclusiva à pasta, acima de qualquer outro interesse pessoal e familiar. Pedi que entendessem minha saída em busca de outros horizontes, são 36 anos de vida pública, então, espero caminhar por outras trilhas. No dia 28, almocei com o secretário de Segurança, Cezar Schirmer, em Porto Alegre. Se eu puder ajudar o Rio Grande do Sul, me propus a isso na minha administração e até com pessoas da minha equipe, porque é obrigação de todos. A segurança está assim porque todo mundo pensou um pouco em si e faltou o espírito coletivo, o que nos levou a esses problemas de muito difícil solução.

Schirmer foi ao Rio para pedir orientações. Que dicas o senhor deu?

Disse ao secretário que há a necessidade de formular um plano. Você tem de ter um plano, e é preciso se ter custo. Foi mais ou menos o que a gente fez no Rio. Assumi lá em 2007 com uma situação muito difícil, não se pagava salário, a criminalidade era muito alta. A gente disse: ¿Olha, o problema é difícil, mas nós temos este plano¿. E um plano tem coisas que não têm custo, coisas que têm custo pequeno e outras com grande custo. E você tem de ir aplicando esse plano de acordo com a possibilidade financeira. Mas é fundamental que a sociedade saiba e veja no administrador que há, nele, a perspectiva. Não adianta dizer só ¿quebrei, não deu certo¿. Você tem de falar ¿há esse problema, mas nós temos ideia de caminhar neste sentido¿. Isso é fundamental. O senhor deu alguma dica mais pontual a Schirmer, de onde agir primeiro ou do que é mais barato?Eu não me arvorei a isso, porque o Rio Grande do Sul tem uma realidade diferente da carioca. Mas para você fazer um plano, precisa de um diagnóstico, medir índices de produtividade e criminais, saber quais os índices de resolução de crimes, de homicídios, como isso é medido, como a polícia produz esse resultado, se é feito através de instituto, ou da polícia. É um diagnóstico para você ter informação suficiente para montar uma estratégia.

O senhor foi convidado por Sartori para ser secretário?

Antes de o Sartori assumir, ele foi no Rio me convidar. Agora (agosto) também me ligaram. O que me fez recusar o pedido do Rio Grande do Sul, assim como de outros três Estados, que vou reservar ao direito de não dizer quais são, é que eu cumpri uma etapa da minha vida. São 36 anos de serviço público, e eu preciso cuidar de mim. Vou fazer 60 anos, tenho filhos. O serviço público brasileiro precisa hoje ser todo reformulado, assim como o sistema de segurança pública precisa ser revisto, assim como o sistema tributário, o previdenciário. Chegamos num ponto que o Brasil deveria aproveitar os efeitos da própria Lava-Jato, e já que estamos com esses problemas, vamos, a partir daí, aprender e começar a fazer as coisas da forma certa. O serviço público tem uma máquina programada lá atrás. A gestão de processos no serviço público é uma verdadeira maluquice. Para você mexer isso, você precisa investir em tecnologia, e tecnologia, os Estados e os países não têm. Mas muitas coisas, os próprios Estados podem formular, as universidades podem ajudar. A gente avançou lá no Rio, mas o Brasil, eu diria que ainda somos subdesenvolvidos. A gente vê que são países (em desenvolvimento) que têm uma burocracia muito pesada, e isso precisa ser revisto. Cito o exemplo da lei de licitação. Nunca me esqueço que quando cheguei no Rio tive de licitar cavalos para a polícia. Você imagina fazer um termo de especificação para comprar 400 cavalos para cavalaria? Altura de lombo, os dentes, o pelo. As instituições precisam ser controladas, mas...

Qual sua avaliação sobre a Operação Lava-Jato?

A Lava-Jato para mim, hoje, é um exemplo para o Brasil. Acho que não podemos perder essa oportunidade de realmente passar esse país a limpo. Mais uma vez, tenho de parabenizar o juiz que fez isso. O Judiciário, ele querendo, pode apenas se deter aos fatos. Mas me parece, eu posso estar enganado, que este juiz, dentro do poder que ele tem, ele foi buscando outros horizontes, outra perspectiva, foi aprofundando aquilo, e a Polícia Federal e o Ministério Público Federal também. Eu acho que tem coisas que, de uma certa forma, devem estar bem sintonizadas. Ele foi levando e vai levar isso a situações que podem virar uma página nacional. Tenho certeza que não há retrocesso e nem vai haver, exatamente porque há o que a gente chama de transparência, que traz credibilidade, e agora todo brasileiro quer que isso chegue às últimas consequências.

Nunca grandes políticos e grandes empresas haviam sido tocados.

Exatamente. Tem um ditado que diz que o parafuso, a gente aperta pela cabeça, exatamente nesse ponto que se chegou. Demorou, demora muito. Eu mesmo, como policial, trabalhei em várias investigações envolvendo instituições e pessoas relativamente importantes, mas nós também, na época, não conseguimos chegar às últimas consequências, como a Lava-Jato pode agora conseguir.O que o senhor acha de quem critica a Lava-Jato dizendo que ela é seletiva ou que cometeria excessos?Onde há o olhar do Poder Judiciário, entenda-se ali Ministério Público e o Judiciário, são instituições esteios no processo democrático, e não há o que se falar. Pode haver algum comportamento um pouco mais exagerado, alguma dose de um ato externo mais exagerado. O que interessa efetivamente é o processo. Eu acho que isso vem sendo muito bem conduzido, de maneira exemplar, e todos nós estamos com uma esperança muito grande de que isso seja um novo horizonte para esse país.

A Lava-Jato reduzirá a corrupção?

Já reduziu, porque as pessoas viram que elas não estão impunes nem acima da lei. Mas também vejo que há necessidade de rever o processo político brasileiro, porque não podemos acusar outros partidos. Mas se isso aconteceu com o partido A, será que não aconteceu com o B, o C, o D? Enfim, será que esse mecanismo não era o mecanismo que imperava na política brasileira? Este é um questionamento que eu faço, mas se isso aconteceu com quem estava no poder e com um partido, será que, antes, isso não era assim, como os demais? Não é uma acusação, mas isso está mostrando que o processo eleitoral se movimenta ou se movimentava dessa forma.

Especialistas em segurança dizem que as UPPs estão fragilizadas. O senhor concorda?

Eu fico apreensivo quando dizem isso e procuro fazer com que as pessoas tenham memória e vejam o que era. Tinha ruas no Rio que os carros não passavam, o próprio prefeito não passava na Rua São Miguel para ir para casa. Hoje, ele passa. No Rio Comprido, sexta e sábado, era baile e tiro que ninguém conseguia dormir, e funcionários nossos tinham se mudado de lá. Então, o que está frágil no processo não é a polícia. É o Estado que fragilizou o processo, que não foi lá. A prefeitura, a sociedade não foram lá. Faço o alerta. Cuidado em colocar a culpa na UPP, porque, na verdade, a UPP intimou o Estado brasileiro a cumprir seu papel lá dentro, e o Estado não cumpriu. Então, agora volta o discurso da retórica antiga dizendo que a UPP não funcionou. Antes o discurso era esse: ¿Eu não vou lá porque eu não posso ir¿. Agora, volta o discurso que ¿eu não posso ir lá porque tá ruim¿.

A UPP está assim porque não aconteceu o que era para acontecer. As polícias cariocas desafiaram todos a fazer daquilo um lugar digno de se morar, de se viver, e a verdade é que isso não aconteceu. Há lugares que você vai encontrar gente armada, mas você vai ver a polícia lá.

Uso um exemplo bem pedagógico: a UPP foi uma anestesia que se deu num paciente que precisava de uma grande cirurgia. O que aconteceu é que essa cirurgia não foi feita ou malfeita, ou feita aos pedaços. O efeito desta anestesia está diminuindo? Tem de dar outra? Não tem problema. Nós mostramos ao Brasil e para o mundo que a gente entra em qualquer lugar lá, seja no Alemão, ou Rocinha. E daí, vamos dar outra anestesia, fazer todo esse esforço e até esse gasto público para que as coisas não aconteçam? Então, eu entendo, e o secretário que ficou lá de fazer essa missão de avaliar as UPPs e a consolidação desse processo. Mas é aquela história. A polícia não é solução do problema. Ela é parte da solução do problema. E esta é a visão sistêmica que tem de se ter do que é segurança. Segurança não é polícia. Dizer que segurança é polícia é uma miopia, porque se isso for assim vamos precisar de verdadeiros exércitos chineses nas ruas do Brasil.

 A favela de Heliópolis, em São Paulo, uniu-se para fazer projetos sociais para crianças e jovens, e isso reduziu a criminalidade. Não falta envolvimento tanto do Estado quanto da sociedade em fazer a sua parte?

Claro que está faltando. Sem dúvida. Em relação ao morro do Rio ou em lugares da periferia, a sociedade está muito mais preocupada porque quer desses lugares a empregada doméstica, a faxineira, a babá, mas não quer que aquele lugar efetivamente melhore. Mas ela não se dá conta que, aos poucos, o fiel dessa balança vai se inverter. Nós vamos ficar todos abraçados por esses lugares porque passamos a tratar esses locais como guetos. Essa visão é estratégica (de envolvimento social), ela tem de acontecer. Há muito tempo, eu li um artigo da ONU que é uma lógica que todo mundo sabe, se fala, mas ninguém vai para a prática. Nós, no país, vivemos uma crise de fazer. Nós não temos fazedores nesse país. Nós temos muita gente que conversa, que dá a solução, mas não temos as pessoas que vão fazer. Quanto mais cidadania você der para uma população, menos polícia você precisa.

Uma vez fui a Berlim para visitar o projeto de segurança da Copa de 2006. Saímos caminhando à noite. E um secretário que foi junto disse que sentiu deficiência no policiamento, já que não via policiais nem viaturas. Eu cheguei no ouvido dele e disse: ¿E você acha que precisa?¿. Berlim é tranquila porque a polícia é boa ou porque a sociedade é boa? É óbvio que é porque a sociedade é boa, e isso vale para qualquer lugar. Há a necessidade de se desenvolver a sociedade como um todo.

Santa Maria já tem locais onde entregadores não entram. Como a sociedade pode agir para evitar que cidades médias e pequenas tenham agravamento da criminalidade, já que o poder público não vai dar conta?

Isso é outra coisa que as pessoas precisam se convencer. Na minha visão, o poder público brasileiro perdeu a capacidade de atender a população. Essa história de dizer que vai dar saúde de qualidade, vai fazer educação, transporte, assistência social, isso não vai acontecer. No geral, fazendo uma análise nacional, o poder público perdeu essa capacidade. Eu sei que tem essa visão ideológica, de que o Estado é responsável por tudo, mas hoje o Estado não tem mais condições de assumir. 


Beltrame defende mais políticas sociais e de Estado nas áreas pobres, assim como a participação da sociedade nesses locaisFoto: Germano Rorato / Agencia RBS

Todo mundo me pergunta isso e dou exemplo. Conheci uma senhora da Guatemala, chamada Fiorela, que tocava violoncelo no Theatro Municipal. Um sábado, ela subiu o morro para dar aula às crianças, em 2008. Ela ficou uns cinco sábados sem nenhum aluno. Hoje, ela tem mais de 800 crianças que tocam violoncelo, cinco já estão em orquestras internacionais, outros estão fazendo aula de música, e ela atende a 10 comunidades do Rio, de facções diferentes, que antes não podiam se ver, e hoje tocam violino e violoncelo juntos. É um exemplo pequeno, que tem validade imensa. Eu vou nas comunidades até hoje. Tem um jogo de futebol, eu vou. Procuro movimentar e dar luz para isso. A solução é as pessoas fazerem assim: coloca um tênis e vai lá na periferia num final de semana ver que tipo de coisa pode ser feita.

Nas cidades médias, é melhor agir agora antes que a violência se agrave?

Se isso não for feito agora, a tendência é que a violência só se agrave. É mais fácil agir agora, não tenha dúvida. Onde eu vou no Brasil, as pessoas me perguntam o que eu fiz no Rio que poderia dar certo nessa cidade. Eu digo que é preciso não deixar que essa cidade vire o que virou o Rio, e não perguntar os projetos que fizemos lá. Precisamos muito de segurança primária, que é obrigação do município, e tem muito prefeito que não sabe o que é isso. É cuidar da juventude, da assistência social, das famílias que estão nesses locais. Segurança pública é algo que começa nas fronteiras, passa pelo município, pela polícia, pelo poder judiciário e termina no sistema penitenciário. E existe uma negligência nessa etapa, que vai ser muito difícil de se resolver. Há que se investir muito na questão da cidadania.

Com pais trabalhando quase o dia inteiro, falta referência às crianças? Isso contribuiu na alta da violência?

Sem dúvida. Isso é segurança primária. Eu não sabia, mas existe uma lei, que quando uma criança falta três dias de aula, o colégio deve procurar os pais. Eu não sei se isso efetivamente acontece. Entendo que educação, quem educa, é quem cria. A escola também entra em um segundo momento com uma contribuição muito importante. A minha preocupação como pai é passar para o filho senso de responsabilidade.

A polícia reclama do prende e solta. Falta uma reforma do Código Penal?

Se o juiz quiser, ele tem condições, dentro do seu poder jurisdicional, de tomar decisões, sendo elas justificadas, ele pode agir. Se há a questão legal, se quiserem se ater só à lei, então que se mude a lei. Tem propostas minhas no Congresso. Tem que se rever a questão do regime de progressão de pena. Uma pessoa que tem uma metralhadora .30, isso para mim é crime hediondo. O que uma pessoa com metralhadora .30 vai fazer na rua? Conseguimos aprovar uma lei para agravamento de pena para quem dá tiro em policial. As leis hoje perderam o seu caráter exemplar. As pessoas não têm medo do Judiciário. Não do Judiciário em si, da lei. Uma pessoa que comete um crime, tem que acontecer algo com ela para ela raciocinar e pensar que realmente não vale a pena.

Hoje, a lei é semelhante para o criminoso contumaz e para o réu primário. Não deveria haver diferenciação?
Claro, lógico. A lei é muito boa, se você analisá-la, mas ela é totalmente descolada da realidade. Hoje, o mundo dos fatos está desconectado do que diz a lei. Temos uma lei de primeiro mundo para uma sociedade que não é do primeiro mundo. Temos uma lei da Dinamarca para um povo que não é dinamarquês. Viveu-se, lá em 1988, uma ressaca democrática, se abriu, até porque todos os constituintes eram, à época, revolucionários, então o que eles não queriam era polícia e controle. Mas agora, depois de 30 anos, há necessidade de se rever isso, fechar um pouco, para avançarmos.

O senhor diz que a política de descriminalização das drogas não deu certo. Por quê?
Porque não há a continuidade dessas questões. Em Portugal, que fui ver, tem o processo de descriminalização das drogas. Lá, que é bem pequeno, tem 90 clínicas de recuperação, com juízes, psicólogos, assistentes sociais que vão atrás da família. Hoje, com 90 clínicas, acho que não atende Copacabana. A luta contra a droga é irracional. Mas vejo que liberar e descriminalizar, também não está organizado. O que o Brasil precisa é se decidir nisso. Porque se quer se combater, está se combatendo muito mal. As fronteiras brasileiras continuam um queijo suíço. E se quer outra medida, de descriminalizar, de liberar, também precisa se organizar. O meu medo é que as pessoas levantem uma plaquinha na frente do Congresso, dizendo sim ao aborto, sim à maconha, tudo bem, estamos em uma democracia. Mas a pergunta tem de ser ao contrário: se nós fôssemos descriminalizar, como seria? O que a sociedade ganha descriminalizando e o que ganha proibindo?

Você está cheio de leis que um deputado aprova, mas, depois, aquilo não é regulamentado, não acontece. Não é só o liberar. É como fazer. A Califórnia fez isso, mas tem toda uma estrutura. Mas como fazer isso no Brasil, que tem uma dimensão continental?

A gangue dos Bala na Cara chegou a Santa Maria. O que pode ser feito para a situação não se agravar?
Fico triste de ouvir que aqui em Santa Maria já tem facção de uma certa forma semiorganizada. Lá no Rio, procurei fazer o seguinte. Temos de ter grupos de inteligência policial identificando esses responsáveis. Na medida em que prender essas pessoas, tem de mandar para presídio federal. Tem que tirar ele aqui de Santa Maria e mandá-lo lá para Mossoró, no Ceará, para que você recupere a questão exemplar. ¿Não, mas eu sou lá de Santa Maria¿. Você é de lá, mas é de uma facção que tem uma ideologia de banalização à vida, cujo nome é Bala na Cara. Então você vai sair de Santa Maria e vai parar em Mossoró, ou lá em Rondônia, em um presídio federal. Há efeitos colaterais e exemplares que isso traz.

Agora, não significa que não tenha logo um substituto. Mas a pessoa já vai estar sabendo que ela não será tratada aqui em Santa Maria, no presídio A ou B. Lá no Rio, mandei quase 100 pessoas, as lideranças todas que pegamos, para presídios federais. Sou o maior cliente do departamento penitenciário federal. A nossa inteligência nos diz que eles fogem como o diabo da cruz de sair do presídio onde eles estão, porque os nossos presídios, hoje, são um grande congresso de bandido. Eles têm verdadeiro pavor de sair do Central, do Bangu. Peguei aviões da FAB, lá no aeroporto de Galeão, mandava um para Catanduva, outro para Campo Grande, um para Mossoró e outro lá para Rondônia. Estão lá até hoje. ¿Ah, mas não podem ficar lá porque tem a lei¿. Eu sei que tem a lei, mas eu garanto que a sociedade, que faz as leis, não quer esses caras aqui.

Qual sua avaliação sobre a crise financeira atual de União, Estados e municípios?

Hoje, garanto para vocês, que o instituto concurso público, não vai ter mais. O Estado brasileiro não tem mais como contratar. Com a crise financeira, o poder público como um todo não vai conseguir dar saúde, educação, transporte. Não adianta se enganar. O Rio está querendo redução dos salários do funcionalismo em 20%. E o futuro é o seguinte: eu sei que vou me aposentar e daqui a pouco vão bater nas minhas costas e dizer: ¿Ah, você vai perder 20%, 30% da tua aposentadoria.¿ Ah, mas e o direito adquirido? A figura do direito adquirido vai acabar caindo aqui no Brasil como aconteceu na Grécia e em Portugal.

Eu não sei o rombo. Acho que tem de ter teto para gastar naquilo que não atende a população. Aquilo que atende a população não tem de ter teto. O rombo da Previdência do Rio é de R$ 42 bilhões. Então, como vai fazer concurso público? Devendo R$ 42 bilhões, se você fizer concurso público é inclusive uma improbidade. Mas há necessidade de ter médico. Então, se chegou nesse ponto, e daí, acho que tem de ter uma borracha. Se você faz com x pessoas, você vai ter de fazer com x menos 1, x menos 2.¿

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

TIROS, REFÉNS E FUGA...

ZERO HORA 02 de novembro de 2016 | N° 18676



ASSALTANTES COM FUZIS atingiram agente de raspão, não foram presos e sumiram sem levar dinheiro de banco na região metropolitana da Capital


Agentes da Delegacia de Roubos, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil, trocaram cerca de cem tiros com a quadrilha que tentava atacar agência do Banco do Brasil em Arroio dos Ratos, na Região Metropolitana, na madrugada de ontem. Os criminosos levaram um morador como refém em seu próprio carro. Durante o tiroteio, policial foi ferido por tiro de raspão – ele não corre risco de morte.

Conforme o diretor do Deic, delegado Rodrigo Bozzetto, após o departamento cruzar informações que indicavam a intenção do grupo de arrombar a agência na região, policiais da Delegacia de Roubos realizaram campana no local para tentar prender os assaltantes em flagrante. Por volta das 3h, quatro homens em um Onix branco estacionaram perto do banco. A polícia, com 15 homens em quatro viaturas, abordou os indivíduos, que reagiram abrindo fogo contra a guarnição. Segundo o Deic, todos os integrantes do grupo carregavam fuzis e foram encontrados estojos de calibre .556 no local.

– A quadrilha estava bem equipada e trocou muitos tiros. Mais de 80, cem disparos. Graças a Deus e à técnica dos policiais, não houve vítimas – disse Bozzetto, que classificou a operação como exitosa, porque impediu a ação dos bandidos na agência e não houve mortes.

PORTA REFORÇADA SALVOU MORADOR DE BANDIDO

Na fuga, integrantes do bando tentaram arrombar a casa do vendedor Luiz Fernando Pacheco, 54 anos, alegando que eram policiais, mas graças a porta reforçada do morador, desistiram.

– Pelo jeito de falar, pelo estilo, sabia que não era polícia. Fiquei quieto, esperando. Se atirasse na minha janela e entrasse, teria que agarrá-lo à unha – disse.

Após a primeira tentativa frustrada, os assaltantes invadiram a casa do motorista Persio Teixeira da Silva, 50 anos, vizinho de Pacheco. Silva teve o carro, um Tempra, roubado e foi levado como refém. Na escapada, assaltantes procuravam o resto do grupo, que teria atirado contra o Tempra ao não reconhecer os comparsas num primeiro momento. A vítima foi liberada cerca de 15 minutos depois, e o carro, recuperado.

Conforme o delegado Joel Wagner, a quadrilha teria sede no Vale do Sinos e contaria com integrantes da Região Metropolitana.