
FIM DA CAÇADA. Preso suposto mentor de triplo assassinato. Homem de 31 anos é suspeito de ter planejado crime que chocou o Estado - ADRIANO DUARTE | CAXIAS DO SUL
A fuga do homem que teria planejado e executado o triplo assassinato que chocou o Estado terminou às 18h de ontem, em um apartamento de Santa Maria, no centro do Estado. Sem demonstrar resistência, Luciano Dickel Boles, 31 anos, foi preso por homens do serviço de inteligência da Brigada Militar.
Desde a tarde de sexta-feira, ao ser apontado por um comparsa pelas mortes do empresário Gilson Fernandes, 44 anos, do filho dele, Vinicius, 14 anos, e do amigo do garoto, Germano Ioris de Oliveira, 13 anos, em Caxias do Sul, na Serra, Boles se tornou um dos homens mais procurados no Rio Grande do Sul. Detido na casa de uma namorada, no bairro Passo da Areia, ele entrou algemado em uma viatura da BM. Seria levado durante a madrugada a Caxias por agentes da Polícia Civil para responder por que teria matado cruelmente o homem que mais o apoiou profissionalmente e dois adolescentes que nunca lhe fizeram nada.
Há quase um ano, o suspeito saiu da pequena Dezesseis de Novembro, perto de São Luiz Gonzaga, nas Missões. A convite do empresário, deixou para trás a casa dos pais, moradores de um lote cedido pela família da viúva de Fernandes, e se instalou em Caxias. Ganhou a confiança da família, uma cama numa peça ao lado da casa e comida durante seis meses. Aprendeu com Fernandes a instalar sistemas de refrigeração, brincou com os filhos do casal e teria se deslumbrado.
Boles fazia questão de frisar em sua página no Facebook o sonho de enriquecer. Se imaginava, no futuro, habitando uma cobertura. Também acalentava uma paixão secreta por uma mulher. Cinco meses antes dos crimes, se mudou para o apartamento do comparsa Lucas Eduardo Macedo dos Reis, 22 anos, no bairro De Zorzi.
No início de dezembro, Reis conheceu Boles na empresa de Fernandes. Colegas lembram de ter visto a dupla comentar que alguém devia dar uma surra no chefe. Aparentemente, Boles considerava Fernandes exigente e se sentia humilhado. Via no patrão alguém a ser superado. “Você pode até me tratar como se eu fosse uma galinha, mas eu sei que sou uma águia”, desabafou na internet. Para familiares das vítimas, matar o empresário talvez significasse a vitória, o fim do estorvo.
Demissão teria sido estopim para o crime
Luciano Boles se expressa com palavras eruditas. Leitor de poesia e apreciador de MPB, mantinha um blog que não recebe atualizações desde 2008. Aos amigos e namoradas e, em sua página no Facebook, se dizia estudante de Psicologia e estimulava conversas a respeito do tema. Frequentou uma universidade de Ijuí, mas trancou o curso. Seu plano era continuar a faculdade em Caxias, o que teria ficado na intenção, segundo amigos.
No condomínio que dividia com Lucas Eduardo Macedo dos Reis, conheceu uma jovem e a teria pedido em namoro. Nos dias de folga, porém, viajava para Santa Maria para ficar com uma acadêmica de Farmácia.
– É um galanteador, fala palavras difíceis. Eu me sentia intimidada, ele não transmitia boa coisa – diz uma familiar do empresário morto.
Como auxiliar na empresa de Fernandes, Boles recebia R$ 1,2 mil. No ano passado, trabalhou durante um período como garçom em uma pizzaria, aos finais de semana. Viu a meta de vencer profissionalmente se distanciar quando a relação com Fernandes desmoronou: o empresário descobriu que Boles e Reis pretendiam competir no ramo da refrigeração e os demitiu.
Fernandes teria irritado ainda mais o ex-empregado ao adiar por duas ou três vezes o acerto da rescisão de trabalho.

