SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

TARSO FALA DA SEGURANÇA

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ZERO HORA 21 de setembro de 2016 | N° 18640



SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi






Sem mandato, mas sempre atento à política, o ex-governador Tarso Genro (PT) tem se dedicado ao estudo de um flagelo nacional, a criminalidade. Integra o Comitê Nacional de Segurança Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), que reúne estudiosos de várias formações políticas e técnicas. Foi na condição de frequentador do grupo que falou à coluna sobre as crises no país, no Estado e no Rio.

Tarso admite existência de novo ciclo do crime. E acredita que qualquer política de segurança tem de ser feita em acordo com os operadores do assunto (policiais e outros agentes), inclusive quanto aos gastos em salários, equipamentos e qualificação:

– Caso contrário, haverá precariedade nas ações operacionais, o que é pior do que não ter política de segurança.

O ex-governador diz que um pacto desse nível foi acordado após a 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública, quando era ministro da Justiça, mas seus resultados foram abandonados. Inclusive pelo governo federal, que cortou drasticamente recursos à segurança, de forma linear. O que também se verifica no Estado.

Em relação ao Rio, que visita com frequência, Tarso lamenta o que considera desvio das finalidades originais das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Ressalta que os programas sociais, culturais, esportivos e de inclusão profissional e educacional que deveriam ser o sustentáculo da “pacificação” estão degradados ou foram desvirtuados para finalidades eleitorais. Isso faz com que as UPPs sejam vistas como “forças de ocupação” estranhas às comunidades pobres e não como “garantidoras” da estabilidade.

Tarso critica “medidas espetaculosas” , sem planejamento, que exacerbam a violência de marginais e as tentativas frustradas de autodefesa da população. Diz que não existe mágica: planos sérios só dão certo a médio e longo prazos. Condena com veemência o corte de gastos, “como fazem programas neoliberais em aplicação no país”.

Ou seja, Tarso se orgulha dos reajustes seguidos que deu aos servidores da segurança. Isso é muito criticado pelo governo de José Ivo Sartori, que acusa o petista de ter comprometido as finanças estaduais. Mas a visão de Sartori é tema para outra coluna.




terça-feira, 20 de setembro de 2016

COTIDIANO DE CRIMES




ZERO HORA 20 de setembro de 2016 | N° 18639


EDITORIAIS





Não passa dia sem que os habitantes de PortoAlegre e das grandes cidades gaúchas, especialmente da Região Metropolitana, sejam chocados por algum crime brutal, muitas vezes praticado à luz do dia e em locais de grande frequência de público. No domingo, outra mãe foi assassinada em Canoas, em circunstâncias que ainda estão sendo investigadas. Na madrugada do mesmo dia, uma jovem foi morta e quatro pessoas ficaram feridas quando dois delinquentes dispararam contra o grupo na frente de uma boate, em Caxias do Sul. E ontem esse cotidiano de horrores teve um momento ainda mais estarrecedor, com a execução a tiros de um jovem de 18 anos no terminal 2 do aeroporto Salgado Filho, lotado de passageiros.

O mais assustador dessa sequência interminável de crimes é a constatação de que não existe lugar seguro para os cidadãos apavorados com a violência. Bancos são assaltados todos os dias, escolas são invadidas por criminosos, veículos continuam sendo roubados e furtados, comerciantes de rua e mesmo aqueles que atuam no interior de shoppings veem-se obrigados a contratar vigilantes particulares para dar alguma tranquilidade a seus clientes. A polícia, por circunstâncias bem conhecidas, raramente está no lugar certo ou chega a tempo de evitar o crime. Um caso exemplar desta ausência ocorreu na zona sul da Capital, na manhã de domingo, quando populares detiveram um ladrão que recém assaltara uma padaria, mas tiveram que soltá-lo depois de quase uma hora de espera pela Brigada Militar, que alegou não haver viatura naquele momento para atender à ocorrência.

Ao que tudo indica, os gaúchos terão mesmo que recorrer ao Batman, como uma vez sugeriu um oficial da BM. Nem a presença da Força Nacional de Segurança em Porto Alegre, nem a troca de comando na Secretaria da Segurança parecem ter surtido algum efeito no sentido de prevenir, inibir ou conter a criminalidade que assombra o cotidiano da população.

CRIME ROMPE SEUS PRÓPRIOS CODIGOS

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ZERO HORA 20 de setembro de 2016 | N° 18639


SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi





Quando você pensa que não falta mais nada para que padrões mafiosos se instalem de vez em Porto Alegre, a realidade teima contradizê-lo. Um sujeito é morto no saguão do aeroporto, em plena luz do dia, enquanto conversa com familiares. O que mais falta?

Já vivemos na seguinte situação: mostre-me com quem andas e serás morto igual. As quadrilhas não respeitam inocentes. Na ânsia de abater os inimigos, matam também seus amigos e familiares. Pode ter ocorrido no caso do aeroporto.

A Capital experimenta sequência de rupturas de códigos que outrora eram praticados e seguidos pelos próprios criminosos. Acompanhe.

– O perigo que rondava as escolas, tempos atrás, era do traficante que vendia droga batizada aos alunos. Agora, o risco é ser morto. Que o diga a família da mãe assassinada por ladrões ao buscar o filho.

– No início deste ano, um homem foi morto por desafetos dentro de um ônibus, em um dos principais cruzamentos da Capital.

– Na Rua André Puente, perto de um dos mais elegantes bairros da Capital, o Moinhos de Vento, o cadáver de um rapaz foi jogado na rua, de manhã. Tudo filmado.

Os críticos do governo Sartori dirão que ele deixou a sociedade no fundo do poço. Mas a verdade é que a escalada de rupturas nos padrões é crescente e perpassa vários governantes. Crimes sangrentos sempre ocorreram nas periferias, mas famílias eram respeitadas. Não mais. As quadrilhas perderam a própria ética não escrita que juravam praticar. E a carência de efetivo policial também transformou áreas nobres em campo de batalha.

Há também histórico sentimento em relação a mortes de criminosos. Muita gente pensa que “enquanto for entre bandidos, as mortes são boas para a sociedade”. O problema é que o acerto de contas continua a ocorrer e, cada vez mais, diante das pessoas que nada têm a ver com isso. Não adianta alguém pensar que o policial deve lavar as mãos.

É preciso prender e condenar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

OUTRA MÃE MORTA, OUTRA FILHA QUE SAI E NÃO VOLTA




ZERO HORA 19 de setembro de 2016 | N° 18638



POLÍTICA + | Rosane de Oliveira



Primeiro Cristine, agora Andressa. Duas mães assassinadas na frente dos filhos por ladrões de carros. A mais nova órfã da barbárie no Rio Grande do Sul nem completou dois anos. Terá para recordar a foto de uma mulher sorridente, mas o amor de mãe será uma abstração.

Andressa Reinaldo Ellwanger Friedrich morreu aos 25 anos, depois de levar um tiro diante da filhinha e do marido, ao estacionar o carro no pátio de casa em Canoas. A família agora desfeita estava retornando do Acampamento Farroupilha. Andressa apelou aos ladrões para que a deixassem tirar a criança do carro. Os bandidos atiraram nela e fugiram no Cobalt do casal, encontrado mais tarde em Sapucaia do Sul.

A violência também inverteu a ordem natural das coisas em Caxias do Sul. Na terra do governador José Ivo Sartori, a mãe de Érica da Silva dos Santos, 20 anos, cumprirá hoje, às 9h, o pior dos castigos impostos a uma mulher: enterrar a filha. Érica foi morta em um tiroteio na madrugada de domingo, em frente a uma casa noturna. Era uma trabalhadora que, como tantos jovens, saiu de casa para se divertir na noite de sábado e não voltou mais. As investigações preliminares indicam que foi vítima de bala perdida. Outras quatro pessoas que também estava em frente à casa noturna ficaram feridas.

Esses não foram os únicos crimes do fim de semana. São os que mais chamam atenção pelas circunstâncias e pelo perfil das vítimas, jovens e sem envolvimento com o crime. Da Secretaria da Segurança Pública e do Palácio Piratini, apenas o silêncio ensurdecedor. Nem uma nota de solidariedade às famílias, nem uma palavra das autoridades.

O secretário da Segurança, Cezar Schirmer, passou o fim de semana em Santa Maria e hoje deve se encontrar com o colega José Mariano Beltrame, no Rio, em busca de conselhos e de inspiração.

Na volta, Schirmer terá de administrar as carências da Brigada Militar, que não dá conta do telefone 190. Um fato ocorrido na manhã de domingo atesta a falência da segurança em Porto Alegre. Um ladrão foi detido por populares, depois de assaltar uma padaria, e liberado 40 minutos depois porque os policiais militares não apareceram para formalizar a prisão. O comandante do 1° Batalhão de Polícia Militar, Alexandre Brite, alegou que não havia recursos disponíveis naquele momento. Todas as viaturas estavam ocupadas em outras ocorrências na região.


AÇÃO DA GUARDA MUNICIPAL SEGUNDO OS CANDIDATOS A PREFEITO DE POA

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - A TENDÊNCIA DIANTE DE GOVERNOS QUE SUCATEIAM AS FORÇAS POLICIAIS ESTADUAIS, GERANDO INCAPACIDADE DO ESTADO DE PROVER O POLICIAMENTO OSTENSIVO PREVENTIVO NAS CIDADES, É A TRANSFORMAÇÃO DAS GUARDAS EM POLÍCIAS MUNICIPAIS. A necessidade do direito à segurança pública vai fazer com que as autoridades municipais se obriguem a ocupar este espaço abandonado pelo Estado.



ZERO HORA 19/09/2016 - 03h01min


Por: Cleidi Pereira

Candidatos a prefeito de Porto Alegre divergem sobre ação da Guarda Municipal. Maioria dos concorrentes avalia que povo deve ser consultado a respeito da polícia municipal



Em Porto Alegre, o efetivo soma 484 pessoas, com idade média de 51 anosFoto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS


Na série de reportagens Vida Real, ZH provoca os candidatos à prefeitura da Capital a se posicionarem de forma clara sobre assuntos controversos.


Em meio a uma escalada da criminalidade, os candidatos a prefeito da capital gaúcha têm propostas divergentes para a Guarda Municipal, mas quase todos concordam: é preciso ampliar o efetivo. Quatro dos nove concorrentes afirmam ser a favor da atuação desses servidores no policiamento ostensivo.

Os demais aspirantes pretendem reformular a corporação ou defendem que a função primordial dela é a proteção patrimonial de bens do município.


Embora seja atribuição constitucional do Estado, a segurança pública é uma das principais preocupações dos eleitores porto-alegrenses, que cobram medidas que contribuam para o combate à violência. Pesquisa Ibope divulgada no mês passado apontou a saúde e a segurança como as áreas em que a população enfrenta os maiores problemas (37% e 36%, respectivamente).


Em 2014, a lei federal 13.022, que instituiu o Estatuto Geral das Guardas Municipais, deu a essas corporações status similar aos das polícias estaduais. A norma acrescentou aos deveres das guardas a missão de proteger vidas, com direito a porte de arma, e não apenas patrimônios, como antes.

Desde então, alguns municípios resistem à ideia e outros vêm se esforçando para atuar nesse sentido, apesar das dificuldades financeiras e da carência de efetivo. Porto Alegre, por exemplo, tem 484 guardas com média de idade de 51 anos, os quais são responsáveis por fazer a proteção de cerca de 600 prédios municipais, além de parques e praças.

Existem 148 postos vagos. Um concurso foi realizado no ano passado, com previsão de contratação mínima de 10 servidores, mas os candidatos ainda não foram chamados. Do total do efetivo, 220 estão habilitados ao porte de arma e atuam em guarnições motorizadas em parques, praças, escolas e postos de saúde e, em flagrante delito, prendem e conduzem suspeitos.

No início do ano, o governo do Estado propôs a utilização das guardas para reforçar o combate à criminalidade. Na época, o então prefeito em exercício, Sebastião Melo (PMDB), disse que não concordava com a atuação da corporação no policiamento ostensivo, de rua. Hoje, na condição de candidato a prefeito, Melo tem interpretação diferente. Questionado sobre o tema, disse que a Guarda Municipal já atua nessa área, mas defendeu a necessidade de reforçar o treinamento e, além disso, ampliar o efetivo.

Qual é a opinião

A Guarda Municipal deve atuar no policiamento de rua?

Fábio Ostermann (PSL)
Sim. A estrutura tem que ser ampliada e revitalizada. Hoje, a Guarda tem um efetivo insuficiente sequer para fazer policiamento de parques e praças, quanto mais para cumprir a função estabelecida no Estatuto das Guardas Municipais, em 2014, que é fazer também o trabalho de patrulhamento em complementariedade à Brigada. Vamos ampliar e renovar o efetivo, que hoje tem idade média de 51 anos.

João Carlos Rodrigues (PMN)

Primeiro, tem que aumentar o efetivo e investir no aparelhamento para que eles possam prestar um bom serviço. E utilizar a Guarda nas escolas municipais, gerando segurança para professores, pais e alunos, e naqueles pontos onde for realmente necessário apoiar a Brigada Militar.

Julio Flores (PSTU)
Queremos unificar as polícias, uma polícia desmilitarizada, com seus chefes eleitos pela comunidade e controlada pelos conselhos populares que nós propomos que governem a cidade. É uma luta que envolve outros poderes.

Luciana Genro (PSOL)

Pretendo transformar a Guarda Municipal em uma guarda comunitária, que faça o policiamento de rua voltado à comunidade, com uma ligação com os bairros, para criar um vínculo e, assim, criar uma rede de comunicação que envolva o cidadão, o guarda, a EPTC – também quero incluir os agentes de fiscalização de trânsito nessa rede de comunicação, porque grande parte das ocorrências está no trânsito – e, dessa maneira, incrementar a rede de vigilância na cidade.

Marcello Chiodo (PV)

Sim, tem que ajudar também. Tem de ser armada e tem de qualificar.

Maurício Dziedricki (PTB)
Não é dever constitucional da Guarda, mas, com o fundo municipal de segurança pública que criaremos, podemos fazer o convênio que já existiu – e que, por ausência do Estado, não foi mantido – no policiamento, onde possa haver atuação conjunta entre Guarda e BM. A Guarda pode e deve andar armada no nosso governo e vai ocupar espaços de grande circulação, como praças, zonas boêmias, gastronômicas e de espetáculos, porque uma viatura e um fardamento muitas vezes inibe a ação criminosa.

Nelson Marchezan Júnior (PSDB)
Sim, em alguns casos, porque a segurança pública é o problema mais urgente de Porto Alegre hoje. Ressalto apenas que a Guarda Municipal atuará em conjunto com policiais militares, para os quais a prefeitura vai pagar horas extras, a partir de uma parceria com a Brigada Militar.

Raul Pont (PT)
Estamos assumindo o compromisso de suprir rapidamente as 260 vagas que a Guarda tem hoje e que não estão cobertas. Tem vaga, tem concurso e as pessoas não são chamadas. A segurança não é só guarda. Temos que ampliar esse serviço nas escolas, nos parques, nas áreas patrimoniais do município. O policiamento de rua que a Guarda pode fazer é esse policiamento de espaços públicos. Nessas áreas, acho que precisamos fazer com que uma presença maior da Guarda ajude nessa competência primeira e principal do Estado.

Sebastião Melo (PMDB)
Ela já atua. Temos 500 guardas e metade já está armada. Esses guardas prestaram concurso 20 ou 30 anos atrás e era para cuidar de prédios, praças, postos e escolas. Houve uma mudança numa lei federal, permitindo o armamento das guardas. Então, a prefeitura foi capacitando, mas não é uma coisa que é obrigatória e não significa o mesmo treinamento de um soldado. Os próximos guardas, sim, vão receber treinamento como se fossem brigadianos. Se eleito, pretendo chamar uma leva agora, mas não me arrisco a dizer quantos.

sábado, 17 de setembro de 2016

GRANDE MAIORIA DAS VÍTIMAS DE HOMICÍDIOS TEM ANTECEDENTES POLICIAIS


DIÁRIO DE SANTA MARIA - 16/09/2016 | 08h06


Oito em cada 10 vítimas de homicídio em Santa Maria tinham antecedentes policiais. Ligação com o mundo do crime, passagem pelo sistema prisional, rixas a acerto de contas são os principais motivos das mortes



Éderson Xavier da Silva, assassinado na quarta-feira, o 45º homicídio do ano, também tinha antecedentesFoto: Jean Pimentel / Agência RBS




Naiôn Curcino



Vítimas com dois, quatro, cinco e até oito homicídios ou tentativas de homicídio em suas fichas de antecedentes policiais, inclusive, com indiciamento pelos crimes. Dentre as 45 vítimas de assassinatos neste ano em Santa Maria, apenas seis delas não tinham registro policial na Brigada Militar, e oito nunca foram indiciadas. Pelo menos quatro vítimas se enquadram nos exemplos citados acima, sendo suspeitas de pelo menos dois homicídios.

Considerado um crime difícil de ser combatido, já que pode ocorrer dentro de casa ou em uma emboscada, para autoridades policiais é quase impossível impedir um homicídio. Se alguém quiser matar uma pessoa, provavelmente fará isso no momento mais oportuno. No entanto, para um especialista ouvido pelo Diário, o envolvimento com o crime aumenta o risco de um fim trágico. Foi o que aconteceu com Éderson Xavier da Silva, 24 anos, morto na noite de quarta-feira, no 45º assassinato de 2016 em Santa Maria.

– Uma grande maioria já tinha envolvimento com o mundo do crime. Desses, grande maioria tinha relação com o tráfico de drogas. Eram vítimas em potencial, que a polícia não tem como evitar. O crime vai acontecer em algum momento – afirma o tenente-coronel Erivelto Hernandes, comandante do 1º Regimento de Polícia Montada (1º RPMon) da Brigada Militar, responsável pelo policiamento ostensivo na cidade.

– Se a polícia estiver onde eles (criminosos) estão, é capaz de saírem desse local e se matarem em outro lugar. Eles se esforçam muito nesse sentido. Quase a totalidade dos crimes envolve pessoas com antecedentes criminais graves, numerosos e com passagem pelo sistema prisional – reforça o delegado Gabriel Zanella, titular da Delegacia Especializada em Homicídios e Desaparecidos (DHD), que investiga os assassinatos em Santa Maria.

Além do envolvimento no mundo do crime, que aumenta o risco de acabar assassinado, outros fatores que propiciam os assassinatos já são outros velhos conhecidos: tráfico de drogas, disputa por espaços e rixas. Com o envolvimento em crimes, a maioria já passou pelo sistema prisional. Os presídios também são considerados propulsores de desafetos. E, após a saída das cadeias, começam os acertos de contas.

– A questão criminal está diretamente ligada. Eles não morreram por acaso, foram mortos por fatores como tentativa de assumir uma boca de fumo, dívida por tráfico. São ações inevitáveis. O latrocínio é diferente. Para isso, estamos abordando e desarmando, que é uma ação preventiva que podemos fazer – acrescenta Hernandes.

– É importante traçar esse perfil, que mostra que quem está matando e morrendo é por desacertos do mundo do crime. A vinda de facções também está presente. Os Balas na Cara já mataram gente em Santa Maria. Mas eles não mataram pessoas do bem, e sim quem tem algum tipo de relação com eles – contribui o delegado regional Sandro Meinerz, idealizador da DHD.

Risco é maior para envolvidos com o crime

Para sociólogos, é fato: quem está ligado ao "mundo do crime" tem muito mais chances de ser assassinado. Os especialistas também reforçam que, além das disputas relacionadas ao tráfico de drogas, presos que acabam criando rixas dentro dos presídios viram vítimas potenciais de homicídio.

– Essas pessoas que acabaram pesas estão mais próximas de se associarem efetivamente na vida do crime. E se associam também a um comportamento que as colocam em um risco muito maior, isso é muito claro. Dentro do sistema prisional, muitas vezes, o sujeito acaba constituindo elos para sobrevivência, e isso tem consequências no lado de fora – explica Guilherme Howes, professor de Teoria Social da Unipampa.

O também professor de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Francis Moraes de Almeida diz que as organizações criminosas do Brasil têm esse maneira de "acertar as contas", diferentemente de máfias de outros países.



– É evidente que as taxas de homicídio estão correlacionadas aos antecedentes criminais. Há pesquisas há mais de 20 anos que dizem que aquela pessoa já havia sido jurada de morte. É um sujeito "matável". Mas isso é algo peculiar da nossa criminalidade, não é universal. Principalmente em organizações hegemônicas – acrescente Francis.

VÍTIMAS DE ASSALTO, COMO ENFRENTAR O MEDO



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA
- A INSEGURANÇA GERA MEDO E SER VÍTIMA DE ASSALTO INTENSIFICA ESTE MEDO ATINGINDO A SAÚDE MENTAL E FÍSICA DA PESSOA CAUSANDO UM TRAUMA IRREVERSÍVEL. O pior é que os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário não estão nem aí para a vida humana, ordem pública, segurança pública, saúde, bem estar e qualidade de vida dos gaúchos, pois continuam na zona de conforto, longe dos anseios do povo, focados em reajustes dos supersalários, auxílios imorais e vantagens do poder, aumentando ainda mais os impostos e protagonizando um status quo de descaso, permissividade, leniência e irresponsabilidade na consolidação do Estado Democrático de Direito pela força da lei e da justiça. As pessoas têm medo de saírem às ruas e mudam de cidade, o comércio perde clientes e fecha as portas, a economia vai ladeira a baixo, o policiamento encolhe e se volta para o enfrentamento, a justiça lava as mãos para não se incomodar, os legisladores só pensam em cargos e votos, os governantes só fazem política partidária ao invés de governar para o povo e pelo povo, e o crime livre, impune e sem limites, assume de fato as leis, a justiça, as ruas, as comunidades, os presídios e o Estado pelo terror, dinheiro e poder de fogo e aliciamento. 



ZERO HORA 17/09/2016 - 03h15min
Por: Marcelo Kervalt


Violência urbana. Como enfrentar o medo após ser vítima de assalto. Ataques de assaltantes em casa, no carro, nas ruas e em praças se tornaram rotina. Seguir em frente depois de ser vítima é uma luta diária


Ter medo de sair de casa, mudar de carro ou receio de retornar para o lar após um dia de trabalho viraram sintomas a serem superadas por um trauma. A violência que não cessa e atinge boa parte da população – só nos primeiros seis meses de 2016 foram mais de 50 mil assaltos no Estado – deixa cicatrizes nas vítimas.

Karollini Leite Toledo, empresária de 29 anos, é uma delas.

Ela precisou implorar para que criminosos não tomassem seu filho de oito meses em um assalto em Porto Alegre. Em pé, de costas para a rua e com metade do corpo dentro do carro, a mãe ajeitava a cadeirinha da criança quando sentiu o cano do revólver encostado em suas costelas. Imediatamente, começou a esbravejar com os bandidos que queriam levar o veículo estacionado em frente à casa da família. Ao volante, o marido, rendido, não pôde esboçar qualquer reação. Karollini, enquanto tentava convencer os assaltantes a deixarem retirar o bebê, mexia rapidamente nas amarras da cadeirinha até que conseguiu desprender o cinto e pegar a bebê no colo.

– Larguei o Davi no chão, pois se me dessem um tiro, ele não seria atingido – conta, ao relembrar o crime que mudou a sua vida três anos atrás.


Karollini Leite Toledo, empresária de 29 anos Foto: Felipe Nogs / Agencia RBS


Traumatizada, ela passou incontáveis noites em claro. Na memória, o medo de que os bandidos voltassem por vingança, já que a prisão aconteceu minutos depois. Os dias passaram, mas o assalto se mantinha presente na memória. Naquele carro, a empresária nunca mais entrou. O Celta acabou vendido, uma equipe de segurança privada foi contratada e mudanças de hábito foram adotadas rapidamente. O trauma demorou para ser superado.

– Fiquei em pânico. Não dormia, só pensava que iriam entrar na minha casa. Agora, não deixo mais o carro na rua. Faço o que tenho de fazer no pátio e só saio quando tudo está arrumado – explica.

Antes de chegar em casa, Karollini circunda a quadra para ter certeza que não há criminosos à espreita.

Diferentes formas de lidar com o temor após ter sido alvo


Essa violência tem obrigado pessoas a mudarem seus hábitos diários, seja para evitar novas abordagens de ladrões, seja para superar os traumas ou conviver com eles, como fez Karollini. Prever quais sinais serão refletidos na vida após um assalto é tarefa ingrata, dizem especialistas consultados por ZH, pois as pessoas lidam com o estresse de diferentes maneiras.

– Dependendo da estrutura psíquica, o assalto pode gerar comportamentos mais graves. A vítima pode ficar retraída em casa, adquirir fobia, como não conseguir frequentar locais públicos, pegar ônibus e assim por diante. Isso tudo vai depender da associação que ela irá fazer do momento com o fato – analisa a psicóloga Ana Beatriz Guerra Mello.

A vida pregressa tem influência direta no comportamento de pessoas vítimas de violência, explica o psiquiatra Nelio Tombini.

– Os traumas repercutem na nossa vida emocional de várias maneiras. E como a vítima será afetada depende muito das condições prévias de personalidade. Nos casos mais graves, pode levar à depressão – complementa Tombini.

O psiquiatra alerta que, ao incorporar essa situação de sofrimento por muito tempo, as pessoas podem adquirir ansiedade permanente. As consequências são insônia, como aconteceu com Karollini, e irritação, entre outros males.

– A pessoa pode ficar dentro desse estresse

pós-traumático, imaginando que qualquer um irá lhe assaltar e que a situação se repetirá – afirma Tombini.

Para o especialista, o trauma é considerado dentro da normalidade nos seis primeiros meses. Depois, passa a ser tratado como doença não resolvida:

– É o que chamamos de luto patológico, um transtorno de estresse pós-traumático que fica reverberando e que precisa de atenção.

Jovem alterou modo de se vestir para ¿enganar¿ ladrões

Calçando tênis surrados e vestindo roupas batidas, um auxiliar administrativo de 30 anos carrega a sua velha mochila rasgada, já maltratada pelo tempo pelas ruas de Porto Alegre. Como se andasse fantasiado, o traje nada narcisista é tentativa de passar despercebido pelos criminosos, que, em incontáveis assaltos, já levaram, além da sua vaidade, os mais diversos objetos pessoais.

Se a estratégia surte algum efeito, o rapaz não sabe, afinal, recentemente, foi assaltado duas vezes em quatro dias. Em uma delas, no dia 8 deste mês, abordado dentro de um ônibus na Capital, teve tempo de retirar o celular do bolso e colocá-lo entre o banco do coletivo e seu corpo, enganando os bandidos que faziam arrastão. Na última abordagem, na segunda-feira, na Avenida Mauá, também na maior cidade gaúcha, usou outra estratégias antiassalto: entregou o telefone velho que sempre carregava.

– Se te levam alguma coisa e não te machucam, é só mais um assalto – diz, sentindo-se impotente.

As mudanças de atitude do morador de Porto Alegre, que prefere ter a identidade preservada, vão além da forma de se vestir, pequenas medidas que posam ser tomadas após ser vítima da criminalidade dentro de coletivos:

– Não sento perto do cobrador e nem no fundo do ônibus. Evito também ficar no banco do corredor, porque parece ser mais exposto, e não carrego muito dinheiro.

Auxiliar administrativo desistiu de comprar telefone

O também auxiliar administrativo Ruan Santos Borges perdeu o apego por celulares depois dos cinco assaltos que sofreu nos seus 27 anos de vida. Ainda pagando as prestações do último aparelho roubado, passou a usar um celular velho que sua mãe tinha em casa. E promete não comprar outro.

– Não vale a pena. Para ser roubado de novo? – questiona.

A violência exigiu atitudes, mas a autoproteção tem um limite, que se torna prejudicial quando ultrapassado, como explica a psicóloga Ana Beatriz Guerra Mello ao citar os perigos do conformismo em relação à violência, hoje banalizada.

– Algumas pessoas deixam de registrar ocorrência policial por estarem acostumadas com assaltos. Assim, se tornam coniventes com a incorporação da violência à sociedade – alerta Ana.

Outra situação citada pela especialista, como abrir mão da vaidade para minimizar o risco de ser assaltado, não é considerada problema, desde que haja equilíbrio.

– Se ele tem a oportunidade de não se expor, não exibir joias e objetos caros, melhor. No entanto, se passar a prejudicar a vida, como deixar de se vestir adequadamente para entrevista de emprego, por exemplo, deixa de ser saudável.

Acolhimento e amparo de familiares são fundamentais

Algumas medidas podem ajudar a vítima de um assalto a superar o trauma da violência. E é neste momento que a presença da família e dos amigos se torna fundamental, acolhendo a pessoa e seu sofrimento.

– Ela precisa sentir-se segura para enfrentar o medo – diz a psicóloga Ana Beatriz Guerra Mello.

Em hipótese alguma, complementa o psiquiatra Nelio Tombini, o sofrimento da vítima pode ser desqualificado.

– Acolher a pessoa do jeito que ela está, sem dizer que é bobagem o que está sentindo, é imprescindível.

Evitar temporariamente o local do assalto, como alternativa para não intensificar o trauma, pode ajudar, desde que isso não se torne bloqueio permanente. Se o receio persistir, a angústia deve ser repartida para

tornar-se menos danosa. Nesse caso, aconselha-se refazer o caminho na companhia de familiares.

– A gente não pode viver limitado, evitando determinado caminho eternamente, por exemplo – salienta Ana Beatriz, dizendo que alguns traumas jamais são superados e cabe à vítima procurar terapia para aprender a conviver com a nova realidade:

– Falar sobre permitirá que a vítima consiga conviver com isso.Na rede pública no Estado, há serviços especializados em saúde mental, oferecidos nos centros de atenção psicossocial (Caps), ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS). O programa é gratuito e pode ser utilizado por toda a população