SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

TENSÃO NO INTERIOR


ZERO HORA 10 de fevereiro de 2013 | N° 17339

Rebelião, ataques explosivos e mortes


EDUARDO ROSA E KAMILA ALMEIDA* | ARROIO DOS RATOS
*Colaborou Thiago Tieze

Uma velha e triste história, a das cidades do Interior sitiadas por bandidos, voltou a se repetir neste sábado. Enquanto a penitenciária de Arroio dos Ratos se via às voltas com uma rebelião de detentos, o centro da cidade passava por momentos de tensão devido ao ataque de criminosos, com uso de explosivos, a uma agência bancária. Só que, desta vez, em confronto com policiais militares, os quatro suspeitos foram mortos. No fim das contas, o rescaldo é de medo e incerteza entre os moradores, apesar da reação policial e do fim da rebelião. Em São Vendelino, o clima de insegurança se repete depois da ação criminosa numa das principais agências do município.

O município de Arroio dos Ratos, na Região Carbonífera, viveu cerca de 12 horas de tensão entre a noite de sexta-feira e a manhã de sábado. Enquanto a Brigada Militar e a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) estavam mobilizadas para contornar uma rebelião na penitenciária localizada na cidade de 13,6 mil habitantes, uma quadrilha explodiu uma agência bancária no Centro. Na fuga, quatro suspeitos morreram.

Os homens foram atingidos em um confronto com PMs, logo depois do ataque. Eles estavam em um Cruze cinza quando trocaram tiros na Rua João Pereira da Silva. Natural de São Leopoldo, um dos suspeitos foi identificado como Valdoir da Silva Martins, 48 anos. Os policiais encontraram, com o grupo, armamentos pesados, como fuzis, espingardas e pistolas, além de coletes à prova de balas. Quatro viaturas foram atingidas e três policiais ficaram feridos – no caso mais grave, um PM atingido na coxa foi encaminhado ao HPS, em Porto Alegre, em quadro regular.

A ação despertou medo na cidade. Logo após o confronto, moradores saíam assustados das casas para conferir o que acontecia, e foliões chegavam ao local ainda com fantasias e camisetas de blocos, em busca de informações de familiares e amigos.

– Na festa do clube, surgiram comentários sobre o tiroteio. Quem tem parentes perto saiu para ver se estavam bem – disse o estudante Lucas Vinicius Silveira, 18 anos.

O aposentado Clovis Fernandes, 65 anos, foi ao local, distante uma quadra da residência dele.

– Acordei com o tiroteio, acho que foram mais de cem tiros. Até pensei que fosse foguete – disse.

Reféns contam como foi a ação

A ZH, dois dos três reféns contaram como a quadrilha teria agido. Após estacionarem o carro em frente à agência, os criminosos teriam ordenado que um adolescente de 16 anos e um jovem de 18 anos ficassem do outro lado da rua, enquanto um garoto de 15 anos carregava barras de ferro para quebrar os vidros da agência.

– Depois da explosão, a gente viu eles colocando dinheiro dentro de uma bolsa. Quando deu a sirene da Brigada, fugiram – disse um refém.

O novo comandante da BM, coronel Fábio Duarte Fernandes, destacou o cerco ágil aos assaltantes:

– A política da instituição é evitar a morte. Os assaltantes estavam bem armados e buscaram o confronto, não nos restou muita alternativa.

Poucos quilômetros distante do Centro, onde houve o roubo e o confronto, um gabinete de gerenciamento de crise operava na Penitenciária de Arroio dos Ratos. Desde as 19h30min de sexta-feira, 83 detentos estavam rebelados e reivindicavam troca de cadeia e limites menos rígidos.

A Susepe tentou negociar com o grupo até as 4h. Sem êxito, deu carta branca para que o Batalhão de Operações Especiais (BOE), da Brigada Militar, entrasse no local por volta das 7h30min. Após conversa com o juiz da Vara de Execuções Criminais Sidinei Brzuska e o promotor Luciano Preto, os presos baixaram a guarda. Uma equipe do BOE retirou os amotinados em grupos de seis e os levou ao pátio para revista.

Como outras cadeias do Estado, o local recém foi aberto aos presos. O prédio abriga 660 detentos e foi construído há cerca de um ano. Os integrantes da galeria D, que ficou destruída, estariam inconformados com a rigidez da casa e revoltados com o fato de terem de usar uniforme. Uma parte deles, recentemente transferida do Presídio Central, reivindicaria o retorno para o presídio de Porto Alegre.






Sensação de medo e alívio após o confronto

Susto e euforia. Este é o misto de sentimentos que se percebe em uma caminhada pelas ruas de Arroio dos Ratos, município de 13,3 mil habitantes. Por onde se ande na cidade, o assunto é o mesmo: a resposta da Brigada Militar, que matou quatro assaltantes na madrugada de sábado.

Antônio Silveira de Andrades, 37 anos, gesticulava imitando a forma como os PMs empunhavam as armas, repetindo pela milésima vez a história que presenciara horas antes.

– Bah, cara. E eles vieram assim, segurando a metralhadora para baixo e tá, tá, tá, tá. Eles têm a manha. Pode ver que não acertou a vidro da casa de ninguém – relatou o morador da Rua João Pereira.

A um quilômetro de onde ocorreu a explosão dos caixas eletrônicos, perto de onde os bandidos foram mortos, reside Cristiano Trindade, 28 anos. Ele ouviu a explosão e, em seguida, uma espécie de corredor polonês que crivou de balas o carro dos criminosos.

– A comunidade toda está abalada. Em pânico. Estamos lidando com o alívio de ter esses quatro aniquilados e também estamos assustados. A cidade não é como era antes. Nunca vi bala desse tamanho por aqui, nem nada parecido. Parecia coisa de filme – relata, ao tirar do bolso um projétil de fuzil que recolheu do chão e pretende transformar em um chaveiro.

Ele disse que se deu ao trabalho de contar. Somou 119 cápsulas espalhadas pelo chão, enquanto as testemunhas aguardavam a chegada da perícia.

Escorado no portão, Maychel Azeredo Lopes, 35 anos, mantinha o olhar vazio para a poça de sangue em frente de casa.

– Eu estava no baile de Carnaval, no clube. A notícia correu por lá. Saímos apavorados. Ainda mais eu, que havia deixado a minha filha dormindo em casa com a sogra. Quando cheguei aqui, tinha um corpo atirado no chão. Pelo jeito, parecia que ia escalar as minhas grades – afirmou Lopes.

Outro assunto que veio à tona foi a inauguração da penitenciária na cidade no ano passado, que paradoxalmente pôs fim à sensação de impunidade, já que os policiais que faziam a vigilância da galeria que abrigava presos amotinados foram os mesmos que saíram à caça do bando.


Alvo frequente - Por que o Interior concentra os ataques a banco no Estado

AGÊNCIAS INSEGURAS - Bancos registram falhas no funcionamento de câmeras de vigilância e sofrem com a ausência de dispositivos de segurança em cofres e caixas eletrônicos.

EFETIVO INSUFICIENTE - As quadrilhas preferem agir em pequenas cidades, onde as forças policiais têm menor número de agentes que, por vezes, não passa de 10 homens.

SEM ALARME DIRETO NA BM - Há pouco mais de dois anos, o sinal de alerta de roubos a banco deixou de soar nos batalhões da Brigada Militar, passando para centrais de monitoramento privadas, que depois avisam os PMs.

PLANO DE AÇÃO DESARTICULADO - Após as ofensivas noturnas dos criminosos, as barreiras nos acessos às cidades atacadas são raras.

DESCONTROLE DOS EXPLOSIVOS - Apesar de constantes apreensões, o comércio ilegal de explosivo tem facilitado os ataques. Além de furtos em mineradoras, também ocorre o contrabando.






Postar um comentário