SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 7 de abril de 2013

DOIS CANOS, DUAS MARCAS DA MORTE


ZERO HORA 07 de abril de 2013 | N° 17395

CRIMES EM SÉRIE

Dois canos, duas marcas da morte. Arma usada para cometer os seis assassinatos de taxistas registrados em dois dias pode ser a mesma.


HUMBERTO TREZZI

Uma garrucha, tipo de revólver diminuto e que não é de repetição, pode ser a arma usada para matar seis taxistas no espaço de dois dias, no Rio Grande do Sul. Três das mortes ocorreram no dia 28 entre Santana do Livramento e Rivera (Uruguai) e três no dia 30, em Porto Alegre. Todas na madrugada. E todas as vítimas foram executadas com tiros na cabeça. A arma usada em todos os crimes era calibre .22.

Até este fim de semana, a suspeita de que o assassino seja o mesmo esbarrava num detalhe técnico: as balas usadas em Livramento-Rivera não saíram do mesmo cano dos projéteis usados em Porto Alegre. Quem assegura isso é o Instituto-Geral de Perícias, com base em material colhido no local dos crimes.

Na fronteira, os peritos encontraram dentro do carro de uma das vítimas uma cápsula deflagrada e uma intacta, ambas calibre .22. Em Porto Alegre foram retirados fragmentos de projéteis desse calibre de dentro do corpo de duas vítimas e de um carro. Os testes demonstraram que a munição teria saído de canos diferentes, porque diferem as marcas deixadas no chumbo dos projéteis pelas ranhuras (sulcos da parte interna do cano, que servem para fazer a bala girar e formam uma espécie de “impressão digital” da arma).

Essa era a informação que se tinha até sexta-feira. Policiais de Porto Alegre, no entanto, acreditam ter encontrado uma ligação entre o armamento usado na Fronteira e na Capital. Se foi uma garrucha, ela é uma arma de dois canos, paralelos.

– O projetil coletado em Livramento pode ter saído de um dos canos. E os fragmentos de bala usados em Porto Alegre, do outro cano da arma – sintetiza um policial.

Ou seja, nada impede que a arma usada nas duas séries de crimes seja a mesma, desde que ela tenha dois canos. Garruchas eram armas comuns, muito usadas em duelos, até o invento do revólver de repetição, no século XIX. E continuam a ser fabricadas. Ainda é possível encontrá-las nas lojas da Fronteira, quase sempre de calibre .22. As perícias indicam que a munição usada nas mortes em Livramento é argentina e pode ter sido adquirida na própria cidade. Uma indústria que ainda fabrica garruchas é a argentina Bersa. Embora armas desse tipo não estejam mais à venda em lojas no Brasil, são comum em países fronteiriços. Na sexta-feira a Polícia Federal apreendeu 4.650 cartuchos calibre .22 numa blitz realizada em Chuí, fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. E Rivera, a cidade onde foi morto um dos taxistas, é no Uruguai.

A favor da teoria de que o matador de taxistas teria usado uma garrucha existe o fato de que os policiais encontraram apenas um cartucho solto num carro, além de outro intacto. Se fosse uma pistola automática, provavelmente seriam encontrados vários cartuchos, que saltam da arma a cada disparo. Já as garruchas são armas que precisam ser recarregadas a cada tiro (disparo simples), com exceção das de dois canos – que devem ser recarregadas, óbvio, a cada dois tiros.

– O matador teria disparado os dois tiros e retirado os cartuchos vazios manualmente, para recarregar a garrucha antes de matar novamente. É uma arma simples, para quem não tem dinheiro – resume um investigador.

Resta agora aos policiais o mais difícil: se certificar da identidade e capturar o autor da série de mortes.



Trabuquinho fronteiriço

MOISÉS MENDES

Tentavam matar e nem sempre conseguiam , por qualquer motivo, com um revólver 22, na Fronteira Oeste dos anos 70. O 22 era quase uma arma descartável. Não era o Fusca dos revólveres, porque o Fusca é forte e eficiente. Era um Lada. Pequeno, de cano curto duplo, cabia no bolso, na meia ou no cano da bota. Barato, de fácil manuseio, mas feito muito mais para assustar do que para matar. Se fosse de fabricação argentina, não merecia a menor confiança. O tiro poderia falhar.

O repórter Roberto Arrieta, de A Plateia, de Livramento, sobreviveu a um tiro, só um, da garruchinha.

O agressor ergueu a arma, o jornalista correu e levou o tiro nas costas:

– Senti a queimação no quadril, a bala subindo pelas costas, ziguezagueando pelo matambre e indo parar no pescoço.

Arrieta não caiu. Antes de ser socorrido, atirou-se sobre o agressor e aplicou-lhe uma surra. O revólver 22 era, quatro décadas atrás, a arma das arruaças e dos acertos passionais de bebedeiras. Comprava-se um 22 em Libres como quem compra hoje um Prestobarba.

No primeiro crime que cobri, como repórter iniciante, a vítima era uma mulher morta pelo ex-marido com um tiro de 22 no coração, na calçada da Rua Vasco Alves, em Alegrete. O 22 era, pela facilidade de compra do outro lado da fronteira, um típico revólver fronteiriço. Ninguém se exibia com um 22. Mas o trabuquinho assustava e matava por hemorragia. Pelo que se vê nos assassinatos dos taxistas, continua matando e assustando.

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