SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

GUERRA PELO PODER NA CONCEIÇÃO

Moradores de vilas de Porto Alegre aguardam na fila da legalização Mateus Bruxel/Agencia RBS
ZERO HORA 25 de novembro de 2013 | N° 17625


EDUARDO TORRES

TRÁFICO NA CONCEIÇÃO. Sobrinho de Paulão é executado


A guerra pelo poder no tráfico da Vila Maria da Conceição, no bairro Partenon, zona leste da Capital, derrubou mais um integrante da família do traficante Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão da Conceição. Desta vez, o sobrinho dele, Leandro da Silva Couto, 29 anos, foi executado com pelo menos 10 tiros de pistola e, provavelmente, um golpe de machadinha na cabeça.

A execução ocorreu na Rua Paulino Azurenha. As circunstâncias do crime, porém, ainda eram nebulosas para a polícia até ontem à noite. Depois do alerta à Brigada Militar sobre um tiroteio na vila, por volta das 22h30min de sábado, Couto teria sido socorrido por familiares, mas não resistiu aos ferimentos.

De acordo com investigadores da 1ª Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa, não está claro qual era o atual papel da vítima desde o racha entre os traficantes nas disputas pelo controle dos pontos da vila, ocorrido no começo do ano. Couto tinha antecedentes por tráfico e porte ilegal de arma.

Há alguns meses, ele foi alvo de uma tentativa de homicídio. Uma das hipóteses da polícia é de que tenha sido uma queima de arquivo porque ele seria testemunha de uma morte ocorrida este ano. Outra linha de investigação relaciona o homicídio com os atuais rivais de Paulão.



DIÁRIO GÁUCHO, 29/08/2013

Guerra da Conceição

A história do tiro que derrubou um império em Porto Alegre. Morte de traficante, no ano passado, provocou uma crise familiar e um racha no comando do tráfico na Vila Maria da Conceição. Guerra já custou dez vidas


Brigada faz constantes batidas na vila para tentar coibir a violênciaFoto: Marcelo Oliveira / Agencia RBS


Eduardo Torres


Foram entregues à Justiça nesta semana os inquéritos que investigaram as mortes de Juvenil Marques de Souza Júnior, conhecido como Juvenal, então com 44 anos, em junho do ano passado, e do filho dele, Anderson Willian Silva de Souza, o Sansão, então com 25 anos, em setembro.

As duas mortes deixaram claro à polícia que a violência pelo comando do tráfico na Vila Maria da Conceição, Bairro Partenon, Zona Leste da Capital, começou bem antes dos últimos meses. E teve como estopim um desentendimento no núcleo familiar de Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão da Conceição, chefão das bocas mais lucrativas da Capital.

● Morte causou crise no comando

Por trás das duas execuções está Carlos Alberto Silveira Drey, o Beto Drey. Ele foi indiciado como mandante dos crimes. Nos dois assassinatos, Samuel Dutra Machado Botelho, o Mensalão, 25 anos, foi apontado como o executor. A dupla, já na cadeia, teve prisão preventiva solicitada pela 6ª DHPP. Beto é enteado de Paulão.

- A morte do Juvenal decretou o descontrole na quadrilha. A partir dali, houve uma crise de comando que abriu espaço para outros nomes surgirem e se criar uma guerra - afirma o diretor de investigações do Departamento de Homicídios, delegado
Cristiano Reschke.

● Padrasto contra enteado

A execução do cadeirante Juvenal na Rua Mário de Artagão, na madrugada de 24 de junho, abalou o império da droga, criado a partir dos anos 1990. Escolhido por Paulão como o gerente das bocas na parte alta da Conceição, cabia a Juvenal também ser
interlocutor do traficante preso e apaziguador dos pequenos conflitos entre os mais jovens.

Ele era um dos "homens de confiança". Isso deixava Beto Drey afastado das decisões do comando. O desentendimento entre Beto - conhecido pelo temperamento explosivo - e o padrasto já era conhecido das autoridades há pelo menos cinco anos.

Mas, contrariando o seu estilo, Paulão nunca tentou eliminá-lo. Agora, com a ameaça de que a família seja destronada, Beto e Paulão estariam se reaproximando. Os dois estão na Pasc, em Charqueadas.

O comando calado a bala

O "efeito dominó" no comando do tráfico da Conceição foi imediato a partir de junho de 2012. Enquanto era julgado em setembro do ano passado, por um homicídio cometido dentro da cadeia, Paulão da Conceição foi curto e grosso:

- Corro risco de vida.

Fazia apenas três dias que o segundo homem designado por ele para substituir a gerência do tráfico havia tombado. Anderson Willian Silva de Souza, o Sansão, então com 25 anos, que era filho do Juvenal, havia sido trazido da Vila Nova para organizar
os negócios. No dia 11 de setembro, o carro em que estava com outros dois jovens foi emboscado na Rua Guilherme Alves. Foi morto com mais de 20 tiros.

- O Sansão não era um "especialista" no tráfico. Teria sido uma espécie de plano de contingência. Com a morte dele, os rivais entenderam que o espaço estava vago - aponta o delegado Cristiano Reschke.

● Líder ficou sem opções

Naquele momento, o leque de opções para sucessão entre os homens de confiança do líder encerrava. No começo de agosto de 2012, Richard Alex da Silva Martins, o Gigi, apontado como outro soldado de Paulão, havia sido morto na Vila Nova. Seu corpo foi queimado e teve as pontas dos dedos cortadas para evitar a identificação pelas digitais.

De espectador a desafiante


Até o começo deste ano, Vladimir Cardoso Soares, o Xu, era um espectador da guerra que se criava. No império da droga, cabia a ele gerenciar as bocas de fumo na parte baixa da vila. Juvenal (e Beto Drey) mandavam na parte alta. Conforme a polícia, Xu não está relacionado às mortes na sequência da execução de Juvenal.

- Ele estava mais preocupado em conservar as bocas que controlava - afirma o delegado.

Isso até alguns meses atrás, quando ele provavelmente viu a oportunidade de fortalecer alianças e desafiar o poder de Paulão da Conceição.

- A crise familiar gerava desconfiança na quadrilha, mas não chegava a interferir no comando do tráfico daquela região - explica o delegado.

Desde o assassinato de Juvenal, a polícia contabiliza pelo menos dez mortes - metade delas neste ano - diretamente ligados às disputas pelo comando do tráfico na Conceição.

Xu também está preso

Com a morte de Sansão, Anderson da Silva, o Tetão - apontado pela polícia como um antigo soldado de Juvenal -, e João Carlos da Silva Trindade, o Colete - um ex-soldado do Paulão -, teriam assumido o comando na parte alta na Vila Maria da Conceição.

O suporte, suspeita a polícia, vinha do líder do tráfico na parte de baixo. Em junho, os dois foram presos pela Brigada Militar sob suspeita de serem os principais articuladores de Xu no atual conflito. O traficante, que teria passado os últimos dias escondido em Santa Catarina, foi preso semana passada, apontado como mandante de pelo menos um dos assassinatos deste ano na guerra da Conceição. É suspeito também de outros quatro.

Comando em crise

Em 2008, o Ministério Público apontou os líderes do tráfico na vila:

● Paulão da Conceição - Da Pasc, tenta rearticular alianças para retomar o controle do maior império da droga na Capital. Crise de comando teria estourado a guerra na vila.

● Beto Drey - Enteado de Paulão, está preso. Teria sido o causador dos conflitos pelo poder do tráfico na vila. Ameaçado, voltou a se aliar com o padrasto e estaria articulando vingança contra Xu.

● Xu - Era o gerente das bocas na parte baixa da vila sob comando de Paulão. Viu na crise interna a oportunidade de crescer, provavelmente recebendo suporte de fora da Conceição. Foi preso na semana passada.

● Mané - Cunhado do Paulão, estaria vivendo no Litoral e, aparentemente, sem envolvimento direto com o tráfico da vila. Era o número dois no comando da quadrilha.

● Juvenal - Era o gerente de maior confiança do Paulão. Foi executado a mando de Beto Drey e abriu a crise no comando da quadrilha.

● Niel - Era investigado como o sucessor natural de Juvenal no comando dos pontos de tráfico mas, quando a guerra estourou, teria desaparecido da vila.

● Gigi - Seria um substituto para Juvenal, mas foi executado de forma cruel em agosto do ano passado na Zona Sul.

As mortes

Conflito começou no ano passado:

● Juvenil Marques de Souza Junior, o Juvenal - Foi executado a tiros na madrugada de 24 de junho do ano passado e deu início à crise de poder no tráfico da Conceição.

● Richard Alex da Silva Martins, o Gigi - Foi encontrado carbonizado e com as pontas dos dedos cortadas na Vila Nova, Zona Sul da Capital. Ele teria recebido ordens para herdar a gerência na vila.

● Anderson Willian Silva de Souza, o Sansão - Foi morto em uma emboscada na Rua Guilherme Alves, em 11 de setembro do ano passado. Filho do Juvenal, teria assumido seus pontos.

● Luiz Henrique Silveira da Silva e Pedro Henrique Matos - Dois jovens foram mortos em sequência na noite de 18 de novembro do ano passado. Seriam soldados eliminados na disputa da vila.

● Bruno Bicca - Foi morto com tiros na cabeça na frente de casa, no dia 5 de maio deste ano. Era um dos protegidos de Paulão dentro da vila.

● Carlos Maurício da Silva Rabelini, o Boquinha - Foi executado a tiros dentro de uma das casas da família do Paulão, na Rua João do Rio. A esposa do líder foi agredida nessa ocasião. A morte foi encarada como o "esculacho" ao antigo comandante.

● Rafael Pereira Santiago - Foi encontrado morto no Bairro Nonoai no dia 10 de maio. Teria sido arrancado de casa, dentro da vila. Ele era um dos "soldados" mais antigos do Paulão.

● Sandro Drey de Souza, o Galinha - Foi executado no dia 30 de maio em uma emboscada na Zona Sul. Era um dos comandantes que havia restado na família. A morte determinou a saída dos últimos parentes na Conceição. Boa parte segue refugiada na Região Metropolitana.

● Alessandro Matos Pituva - Era "soldado" do Paulão e foi executado no dia 20 de julho dentro do Patronato Lima Drummond, onde cumpria pena em regime semiaberto.

As alianças da guerra:

● A polícia investiga um possível consórcio do Paulão da Conceição com a facção Os Manos, dentro da Pasc. O traficante forneceria armamentos e os soldados que lhe restaram para que a facção, com mais integrantes, elimine seus rivais.

● Xu, ao adotar a estratégia de eliminar os soldados do rival, estaria envolvido em uma aliança entre os Abertos e os Bala na Cara para ter poder de fogo e controle sobre as bocas da Conceição.


DIÁRIO GAÚCHO

Postar um comentário