SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

quinta-feira, 13 de março de 2014

ROUBOS CRESCEM 77% NA BARRA DA TIJUCA NO RIO

Roubos crescem 77% na Barra da Tijuca em um ano. Notificações de furtos também cresceram: 75,9%. Delegacias e batalhão da área passaram por troca recente de comando. Moradores revelam preocupação com áreas críticas

LUCAS ALTINO
STÉFANO SALLES
O GLOBO
Publicado:16/03/14 - 5h00


Perigo na curva. Frequentadores da ciclovia do Canal de Marapendi se mostram inseguros com o aumento do número de assaltos e com a má iluminação da pistaAgência O Globo / Bárbara Lopes


RIO - Uma sensação de insegurança tem tomado conta dos moradores da Barra e do Recreio. Nas últimas semanas, O GLOBO-Barra recebeu uma série de mensagens de leitores preocupados com o recrudescimento da violência na área. As queixas encontram amparo no último relatório trimestral divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). O documento mostra que, de agosto a outubro de 2013, o número de roubos aumentou 77,1%, com 377 novos casos em relação ao mesmo período do ano anterior. O de furtos saltou 75,9%, com mais 1.411 crimes. Considerando-se cada modalidade de roubo isoladamente, houve reduções apenas em crimes menos praticados, como roubo a residências e roubo de cargas, que caíram 60%.

Os índices englobam números de duas delegacias, 16ª (Barra) e 42ª (Recreio), mas se referem principalmente à segunda, explica o tenente-coronel Rubens Peixoto, comandante do 31º BPM desde dezembro.

- Agimos mais no Recreio, devido aos índices, mas, por causa das nossas ações, os criminosos se deslocam dentro da região - diz Peixoto, cujo efetivo é de 369homens.

O novo titular da 42ª DP, Marcos Cipriano, empossado há um mês, confirma que a chamada mancha criminal, até há pouco concentrada no Recreio, vem se diluindo. Já o delegado da 16ª, Mario Luiz da Silva, também novo no cargo, reconhece a migração de criminosos em direção à Barra e promete trabalhar em parceria com o 31º BPM e a 42ª para mudar o cenário até o segundo semestre. A seguir, conheça histórias de moradores que ilustram a situação.

O perigo ronda o Canal de Marapendi dia e noite

Apesar de ser uma área de lazer, a ciclovia do Canal do Marapendi tem tirado o sossego dos moradores da região, que não conseguem mais relaxar enquanto praticam exercícios. Preocupados com o aumento dos assaltos na área, os frequentadores têm dado preferência aos horários diurnos e fogem do trecho durante a noite, quando a iluminação precária estimula a ação de criminosos. É o caso da produtora de shows Letícia Moreira, de 72 anos.

- Isto aqui (a ciclovia) está cada vez mais perigoso. Há muitos assaltos, principalmente perto da Ponte Lucio Costa. Por isso, eu venho sempre pela manhã e só trago uma bolsinha com documentos e chave. Nem celular eu tenho trazido mais, e nada de vir à noite - revela.

A empresária Fernanda Almeida concorda, e só leva sua fêmea de dobermann para passear no local pela manhã:

- Dá para vir de dia, mas é preciso estar atento. Aqui perto há uma universidade, e são frequentes os roubos de carros parados junto à calçada do canal, porque os criminosos sabem que os alunos só voltarão três, quatro horas depois.

A dentista Anitta Torres foi assaltada na pista enquanto caminhava, há seis meses.

- Foi pela manhã, quando um garoto chegou por trás de mim, me deu uma gravata e levou meu celular - lembra Anitta, que, assustada, reduziu o número de passeios pela ciclovia.

Comandante do 31º BPM, o tenente-coronel Rubens Peixoto afirma que a área tem uma cabine da Polícia Militar, com homens 24 horas, mas reconhece a dificuldade de realizar patrulhamento noturno no local por causa da má iluminação.

- Em áreas escuras, o patrulhamento acaba não sendo tão efetivo quanto poderia. Quando um local recebe iluminação, isso traz muitos ganhos indiretos, e a segurança pública está entre eles - diz.

A Rioluz informa que fará uma vistoria nos pontos de luz dos arredores do Canal do Marapendi, e acrescenta que, ali, são frequentes os furtos de cabos de energia e equipamentos de iluminação pública.

Jardim Oceânico: segure a sua bolsa

Reduto da boemia barrense, a Avenida Olegário Maciel não apresenta mais o clima tranquilo de outrora. Segundo quem passa por ali, garotos seguem pessoas que fizeram compras nas lojas da via até ruas menos movimentadas para roubá-las. À noite, o movimento nos bares e restaurantes atrai bandidos que cometem pequenos furtos.

Um comerciante que não quis ser identificado diz que ouviu falar de roubos a turistas na Olegário perto da virada do ano. E que há muitos seguranças particulares na região porque o efetivo policial é insuficiente para garantir paz aos residentes.

A alguns metros da Olegário, a região da Praça do Pomar vem sendo apontada como cenário de ações criminosas recorrentemente. Beatriz Leal, que vive próximo à praça, diz que ela está abandonada, com portões quebrados e ausência de policiamento fixo.

Paula Werneck é uma das moradoras do Jardim Oceânico assaltadas recentemente. Em fevereiro, dois rapazes numa moto roubaram sua bolsa, na Rua Manuel Brasiliense:

- O Jardim Oceânico piorou muito de um tempo para cá. O que a gente ouve é que a tomada do Morro do Banco (no Itanhangá) por traficantes resultou nestes problemas.

O delegado da 16ªDP, Marco Cipriano, reconhece que os números são "alarmantes" e afirma estar trabalhando com o 31º BPM e a 42ªDP para debelar o crime na região.

Bandidos em motos assustam moradores da ABM

As ruas do entorno do condomínio Associação Bosque Marapendi (ABM) tornaram-se, recentemente, local de atuação de criminosos, principalmente nas proximidades de pontos de ônibus. Inclusive no dia em que a equipe do GLOBO-Barra esteve no local, 24 de fevereiro, moradores contaram que, poucas horas antes, havia ocorrido um assalto a transeuntes. Às 6h40m, dois rapazes numa moto abordaram cerca de 20 pessoas que aguardavam a chegada do ônibus da ABM na Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso.

Segundo o funcionário de um prédio em frente ao ponto, os mesmos homens já realizaram outros assaltos na região e são facilmente identificáveis. A faxineira Vera, que trabalha num prédio da área, confirma a recorrência de casos envolvendo motociclistas.

"Morador do condomínio, o estudante Gabriel Fontes diz que a região não costumava sofrer com assaltos. Porém, no último ano, o quadro mudou:

— Hoje, quem mora aqui ou foi assaltado ou conhece alguém que já foi. Os crimes são tanto na Avenida das Américas como nas ruas de dentro, perto do canal. E, em 90% dos relatos, os bandidos estão em motos. Agora tomo cuidados que antes não precisava: não uso o celular na rua, por exemplo.

O 31º BPM diz que patrulha a região com soldados motorizados e que a cabine próxima à ABM tem PMs 24 horas.

Sequestros relâmpago e PM "tatu-bola" no Recreio

Assustados com os casos de violência no Recreio, incluindo assaltos à mão armada e sequestros-relâmpago, moradores do condomínio Life Residencial decidiram criar uma comissão de segurança interna.

- Esta violência não acontecia antes. Nós montamos este grupo para tomar providências rápidas, como a instalação de cerca em todo o perímetro do condomínio. A intenção é nos reunirmos com lideranças de outros edifícios que também sofrem com o problema e, assim, conseguirmos mudanças mais significativas - diz o síndico, Sullivan Rodrigues.

Uma moradora do Life Residencial foi levada no dia 9 de fevereiro, quando passava de carro pela Avenida Miguel Antônio Fernandes. Ao reduzir a velocidade para ultrapassar um quebra-mola, teve seu carro interceptado por outro, do qual saíram dois homens, que a renderam. A moradora ficou uma hora e meia em poder dos bandidos, até ser deixada em Pedra de Guaratiba, e perdeu joias e o carro.

- Eles mantinham uma arma apontada e não deixavam que eu virasse o rosto. Quando perceberam que eu não tinha cartão de crédito, disseram ao celular que teriam de sequestrar outra pessoa. Moro há um ano no Recreio e estou detestando; nunca havia sofrido nada assim antes - reclama a empresária, que cobra a presença de patrulha no local.

Também há relatos de violência longe das vias principais do bairro. Outra moradora, que vive no Recreio há 32 anos, conta que num só dia presenciou dois assaltos e um sequestro-relâmpago.

- Eu andava sempre de bicicleta de madrugada e não via violência. Depois que o Túnel da Grota Funda foi aberto, acho que ficou mais fácil para os bandidos fugirem, e a violência aumentou. Tenho evitado até ir à praia de dia, por medo.

Um porteiro que trabalha na região há mais de dez anos confirma que o aumento da criminalidade é recente:

- Temos muito comércio e pouca segurança. Procurar um policial por aqui é como tentar achar um tatu-bola. Devia haver pelo menos uma cabine da PM entre a Rua Antônio Baptista Bittencourt e a Avenida das Américas, onde existem muitos bancos e os assaltos são frequentes.

Segundo Marcos Cipriano, titular da 16ª DP (Barra), a inteligência da polícia já comprovou que muitos crimes na região têm sido praticados por bandidos de Campo Grande, que atravessam o Túnel da Grota Funda para roubar no Recreio e na Barra. Por isso, a saída do túnel tem sido alvo de patrulhamento constante, o que, segundo ele, tem reduzido os índices de criminalidade nos dois bairros.

Riscos no caminho para casa

Para José Britz, engenheiro aposentado que preside a Asssociação de Moradores de São Conrado (Amasco) há 11 anos, os conflitos recentes na Rocinha, que viveu no ano passado o seu período mais tenso desde a implantação da UPP, em 2010, acabaram se refletindo também no asfalto. Ele diz que a relação do bairro com a comunidade é como a de irmãos siameses, com completa integração.

- Nós dependemos da Rocinha, assim como eles dependem de nós, em todos os aspectos, tanto social, como de segurança e econômico. O equilíbrio na região só ocorre quando os dois lados vão bem. Mas, infelizmente, no ano passado nós assistimos à degradação das forças policiais; o comando da UPP degringolou de vez. Cheguei a ouvir de residentes de São Conrado que a época do Nem (traficante que chefiava a favela) era melhor para nós - conta Britz, lamentando opiniões radicais como esta.

O presidente cita a falta de investimentos na esfera social como um entrave no projeto de segurança da Rocinha. Outro obstáculo, segundo ele, é a ausência de diálogo entre o comando da UPP e a Amasco.

- Para o governo, nós somos bairros distintos - diz.

Apesar do cenário atual, as perspectivas são otimistas para Britz, devido, em grande parte, à inauguração da 11ªDP, específica para a Rocinha, uma iniciativa que ele considera brilhante:

- Diferentemente do que muitos acreditavam no início, as pessoas não estão sendo acuadas por registrarem queixas; elas estão procurando a delegacia.


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