SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

sábado, 5 de abril de 2014

A DOR DA MALDADE

ZERO HORA 05/04/2014 | 06h03

Família de menino morto em Alvorada luta para se reconstruir após crime. Um dos investigados pelo assassinato de Kelvin, 11 anos, foi morto na quinta-feira à noite



Priscila Monteiro, 28 anos, lamenta a morte do filho mais velho, em meio a fotografias deleFoto: Félix Zucco / Agencia RBS

Priscila Nunes Monteiro aguardava o retorno do filho quando uma conhecida chegou ao portão da casa, em Alvorada, com a notícia:

— O Kelvin levou um tiro.

Atingido no peito por um disparo de espingarda calibre 12, o garoto de 11 anos morreu no último domingo, quando vendia pastéis, enroladinhos e pizzas preparados pela mãe no bairro Umbu. Justiça decretou a prisão preventiva de dois traficantes e acredita que o estudante, sem ligação com drogas, foi assassinado por desagradar a um dos suspeitos com algum comentário.

Kelvin cursava a 4ª série do Ensino Fundamental no turno da manhã e, à tarde e nos finais de semana, ajudava no negócio informal. A cada R$ 10 comercializados, embolsava R$ 2, geralmente investidos em salgadinhos e biscoitos. No domingo, saiu por volta das 10h com os quitutes acomodados em um pote de plástico que costumava reabastecer mais de uma vez no mesmo dia.

— Não vai para aqueles lados — advertiu Priscila ao se despedir do primogênito.

A dona de casa se referia à região onde Kelvin seria executado pouco depois. Atraído a um casebre da Rua Beira-Mar, o garoto foi baleado e jogado à margem de um arroio. Alertada, Priscila correu ao Hospital de Alvorada, onde lhe comunicaram o óbito. Recebeu ajuda do pastor da igreja que frequenta quatro vezes por semana para o funeral que ela e o marido, pintor, não puderam custear.


Kelvin, 11 anos

Depois de apenas três meses como quituteira, não pensa em retomar a atividade sem o parceiro.

— Deus nos prepara para receber um filho durante nove meses, mas não nos prepara para levá-lo embora — afirma a mãe do menino.

Kelvin queria ser biólogo. Divertia-se pescando, montando a cavalo, catando grilos e minhocas no pátio. No dia seguinte ao crime, a direção da Escola Municipal Professora Guilhermina do Amaral, onde ele repetia o ano, suspendeu as atividades. Ao deparar com a notícia, estudantes levados pelos pais deram meia-volta, e o serviço de transporte coletivo foi antecipado. Jurema Silva, vice-diretora, mostrava-se incrédula diante das perguntas das crianças.

— Profe, é verdade que mataram o Kelvin? — questionava um aluno.

Considerado um aluno inteligente, Kelvin perdeu muitas aulas no final de 2013 e não venceu as últimas provas. A mãe, com fortes crises de asma, alega ter precisado de auxílio para tomar conta dos três filhos menores.

Outro empecilho aos estudos estava na aparência: o garoto se incomodava por ser um dos mais baixos da turma. Quem o acompanhava de perto notava um esforço para compensar, com as atitudes, a altura de 1m34cm.

— Ele não gostava de demonstrar fragilidade, tirava as caras com os outros. Um menino bom, ouvia a gente, mas era invocadinho — recorda a orientadora educacional Ana Arlete dos Santos.

Pedagoga lamenta violência na cidade

Rute Leonor Sena, coordenadora pedagógica da escola que Kelvin estudava, lamenta a influência nociva da vizinhança violenta, onde é intenso o tráfico de drogas, na formação dos jovens.

— Nas quatro horas em que ficava aqui, ele estava protegido, mas, nas outras 20, as vivências eram muitas. Ele mostrava isso na fala, na postura, nos trejeitos, mas ainda sorria. A cidade tem esse estigma da violência, e na periferia é pior. O que a gente faz aqui é muito pouco — atesta Rute.

Segura de que o filho não andava em más companhias, Priscila tentou se resguardar, durante a semana, do vaivém de hipóteses para o crime aventadas entre os moradores. Procura se conformar desejando justiça para que outras mães sejam poupadas da mesma dor:

— Não sei no que acredito. Tenho até medo de escutar. Prefiro não saber. Só sei que levaram o meu filho.

Um suspeito está morto e o outro é procurado

Um dos investigados pelo assassinato do menino Kelvin, 11 anos, em Alvorada, ocorrido no domingo, foi morto na quinta-feira à noite, na mesma cidade. Handerson Eduardo Piasson da Silva, o Feio, 21 anos, foi encontrado caído na Rua 12 de Julho, no bairro Umbu, alvejado por disparos de arma de fogo.

Conforme a Polícia Civil, ele estava com o capacete na mão e foi atingido por pelo menos sete tiros de pistola 9mm. Com mandado de prisão preventiva, policiais estavam à caça de Handerson, que foi achado morto carregando um capacete e uma sacola com mudas de roupas.

– Tudo indica que ele estava se preparando para fugir da vila e foi atraído para a morte – acredita o delegado Maurício Barcelos, de Alvorada.

Agora, segue a busca a Eduardo Silveira de Freitas, 18 anos, também suspeito de envolvimento na morte de Kelvin Gabriel Nunes. Além do assassinato do menino, a dupla é investigada por participação em outros dois assassinatos.


01/04/2014 | 08h53

Mãe desabafa após filho de 11 anos ser executado em Alvorada: "Só pode ter sido maldade". Polícia já identificou os dois assassinos e acredita que o crime tem relação com a disputa do tráfico, apesar de a morte do menino não se incluir nesse grupo


Eduardo Torres


Aos 11 anos, Kelvin Gabriel Nunes tinha um objetivo: comprar seu primeiro par de tênis Nike. Com esse pensamento, o mais velho dos quatro filhos de Priscila Nunes Monteiro, 28 anos, virou o braço direito da mãe nos últimos três meses.

De manhã, ia à escola. À tarde e nos finais de semana, vendia os doces e os salgados preparados por Priscila na casa da família, no Bairro Umbu, em Alvorada.

Mas a atitude de homem feito, com as feições alegres de criança, agora viverão só na lembrança da mãe. Na manhã de domingo, enquanto vendia pasteis e pizzas pelo bairro, o guri foi executado com um tiro de espingarda no peito.

O motivo ainda é uma incógnita para Priscila e para a polícia.

- Só pode ter sido maldade, porque o meu filho era querido por todos. O meu menino nunca se envolveu em nada errado, estudava e trabalhava para juntar o dinheirinho dele e ajudar na casa - conta a mãe.


Kelvin estudava e vendia os quitutes feitos pela mãe
Foto: Reprodução, Arquivo pessoal

Assassinos atraíram o menino

Conforme testemunhas, por volta das 10h30min de domingo, na Rua Beira-Mar, Kelvin foi atraído para um casebre por dois homens, traficantes do bairro. Ele não teria estranhado, uma vez que praticamente todos os moradores eram seus clientes. E, dentro da casa, ele foi morto.

O corpo foi jogado às margens do arroio que corta a vila. Um vizinho ainda socorreu o menino, mas não adiantou.

Na segunda-feira, a Escola Municipal Professora Guilhermina do Amaral, onde Kelvin cursava o quarto ano do ensino fundamental, ficou fechada.

- O sonho dele era um dia se tornar biólogo. Mas não deixaram - lamenta a mãe.

Traficantes foram os executores

O delegado Maurício Barcellos, da 1ª DP de Alvorada, solicitou à Justiça as prisões dos dois assassinos, já identificados. Um deles saiu do Presídio Central há oito dias e já é suspeito de dois homicídios e duas tentativas.

Os crimes têm relação com a disputa pelo tráfico no Bairro Umbu. A morte do menino não se inclui neste grupo. A suspeita inicial, de que ele teria dado informações a rivais dos suspeitos, está descartada.

Uma das hipóteses é de que Kelvin pode ter sido morto por ser uma criança inocente em meio a criminosos.

- Ele pode ter comentado com a vizinhança alguma coisa que desagradou aos traficantes - acredita Maurício.

A polícia não descarta, no entanto, que o crime tenha sido por pura maldade.


DIÁRIO GAÚCHO

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