SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

GENTE DO BEM

ZERO HORA 09 de abril de 2014 | N° 17758


LETÍCIA COSTA E VANESSA KANNENBERG


MUNDO MELHOR. O mundo ainda tem salvação


Sim, o ser humano tem solução! É o que provam as histórias relatadas nestas duas páginas. Em algumas pessoas, a “voz da consciência” ainda fala alto, empurrando para a concretização de boas ações. A surpresa da sociedade, que faz com que casos como o do segurança Marco Antonio da Silva – que achou um boleto e a quantia de R$ 600 e quitou a cobrança, devolvendo o troco de R$ 0,50 à dona, até então desconhecida – virem notícia, mescla-se a um problema ético atual:

– Essas histórias nos surpreendem porque vivemos uma crise ética, de demasiado individualismo, em que a pessoa busca só a sua vantagem sem preocupações – diz o professor emérito de Psicologia da UFRGS Luiz Osvaldo Leite.

Haveria, então, duas causas que levam as pessoas a realizarem atitudes do bem: a interior, da consciência crítica de cada um, e a social, adquirida com os exemplos familiares e os extraídos em ambientes escolares ou religiosos.

– A forma eficaz do ensino ético é a imitação. No caso da criança, é necessário que ela veja atitudes positivas. Em situações como a de achar uma carteira, fica clara a diferença ética. Se a pessoa nem pensa duas vezes é porque teve paradigmas de comportamento. Ensinaram-lhe que é errado e vergonhoso, que é feio roubar, ser covarde – diz o professor de ética da Unicamp, Roberto Romano.


DEPOIS DO SUSTO, UMA ÓTIMA SURPRESA

Foi em algum dia quente e agitado de fevereiro, quando a greve dos rodoviários virava de cabeça para baixo a vida dos porto-alegrenses. Depois de pagar algumas contas e sacar dinheiro para os próximos dias, no caixa eletrônico do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, a técnica de laboratório Luciana Pinto Alves, 24 anos, seguiu para o plantão de domingo na clínica que fica junto ao hospital.

No fim do expediente, quando voltou ao caixa para pagar outra conta, notou que o cartão de crédito, a carteira e os documentos pessoais não estavam na bolsa.

– Foi horrível. Não fazia ideia de onde tinha deixado. Só pensava como ia fazer, porque estava sem dinheiro, sem documentos, sem cartões e ia demorar um século para refazer tudo. Além disso, ainda tinha a greve. Nem sei como ia fazer tudo – lembra Luciana.

Quando chegou em casa, ela teve a segunda surpresa: uma recepcionista do hospital havia deixado recado de que tinha encontrado e guardado a carteira. Gabriela Magri da Silva, 28 anos, achou o objeto quando acompanhava uma colega que iria sacar dinheiro.

– Minha primeira reação foi procurar alguém por perto que poderia ter perdido. Como não tinha ninguém, abri a carteira e procurei pelo nome. Resolvi checar no sistema, pois poderia ser paciente, médico ou funcionário – conta a recepcionista.

Como na semana seguinte a técnica de laboratório não foi trabalhar em razão da greve dos rodoviários, uma colega pegou a carteira e a devolveu. Com isso, Luciana e Gabriela, embora trabalhem há 10 minutos de distância, no mesmo hospital, em prédios diferentes, conheceram-se apenas ontem.

– Agradeci muito. Tinha perdido as esperanças. Podia estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Mas ela me devolveu em um envelope com meu nome, sem faltar um documento ou um real – diz Luciana.

Para Gabriela, a atitude tomada no intervalo de um almoço foi “tão normal” que ela até demorou para lembrar do fato quando foi contatada pela reportagem.

– Não foi nada demais. Nunca pensaria em tomar outra atitude. E, se fosse comigo, gostaria que fizessem o mesmo – conclui a recepcionista.


TABLET ESQUECIDO CAI EM BOAS MÃOS


A ideia de que bloquear com senha o teclado de um celular ou um tablet ajuda a proteger o equipamento não se confirmou com a neurologista Patrícia dos Santos. Graças ao livre acesso do seu iPad, a médica de 37 anos conseguiu recuperá-lo após um momento de descuido. Em uma manhã de janeiro, quando saía de casa, em Caxias do Sul, na Serra, rumo à Capital, onde trabalha no Hospital Moinhos de Vento, uma vez por semana, ela colocou vários objetos em cima do carro, enquanto ajeitava outras coisas. Depois, guardou-os e partiu em viagem, sem reparar que o tablet havia ficado sobre o capô.

– Uso ele mais para o lazer e, como vivo entre Caxias e Porto Alegre, achei que tinha ficado em um desses lugares. Só me dei conta de que tinha perdido quando uma amiga ligou avisando que tinham encontrado ele na rua – lembra a neurologista, sorridente.

Juarez Antônio da Rocha, 54 anos, o desconhecido benfeitor, viu tudo acontecer a caminho do trabalho: o C3 de Patrícia vinha pela rua com algo sobre ele e, quando virou a esquina, o objeto caiu no chão. Ao se aproximar, o empresário identificou que se tratava de um iPad:

– Esperei uns 10 minutos. Como ninguém retornou, fui para a imobiliária, onde trabalho com meus dois filhos, e pedi ajuda a eles.

Pedro, 19 anos, e Lucas, 25 anos, ligaram o tablet e acessaram o Facebook. Na rede social, contataram uma amiga em comum, que fez a ponte para a entrega do equipamento à verdadeira dona.


CELULAR VOA DA BOLSA NO ÔNIBUS


A juventude do benfeitor surpreendeu a mãe da estudante Ana Caroline Wingert, 18 anos. A técnica de enfermagem Vanderlaina Silveira Martins, 39 anos, considera a recuperação do celular, do cartão do banco e das chaves de casa da filha um fato inusitado.

Thales Wander da Silva, 17 anos, cruzou com os pertences de Ana Caroline em um ônibus fretado para levar o time de futebol em que joga como volante a um campeonato na manhã de domingo, na zona sul de Porto Alegre. Oito horas antes, a estudante havia usado o mesmo veículo para ir à unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), na Avenida Padre Cacique.

Ela fora ao local para participar de um culto promovido pelo grupo da Igreja Evangélica Bola de Neve, do qual faz parte. No retorno, perto da meia-noite de sábado, uma pessoa derrubou a bolsa de Ana, sentada em outro banco do ônibus. Ao recolhê-los, elas não notaram que itens importantes da estudante – e ainda não quitados –, como o celular, haviam caído.

Após um domingo depressivo e uma segunda-feira de conformidade pela perda, Ana fez, por telefone, o cancelamento do cartão do banco. Minutos depois, veio a surpresa: também por telefone, Thales avisara o namorado de Ana de que tinha achado os objetos.

– Sentei no banco (do ônibus), olhei para o lado e vi as coisas no chão. Quando peguei, já pensei em devolver – garante o volante.



A REPENTINA FAMA DO BOM SAMARITANO

MICHELI AGUIAR | SÃO LEOPOLDO

Entrevistas, entrevistas e mais entrevistas. Essa tem sido a rotina de Marco Antonio da Silva depois que encontrou R$ 600 na rua e pagou a conta da corretora de seguros Karine Peyrot, que havia perdido o dinheiro. A notícia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, e não demorou para a história de honestidade ganhar as páginas de jornais, programas de rádio e televisão e portais de notícia.

– Amanhã (hoje), estarei em São Paulo para gravar com um programa de TV, e tem outros me ligando para eu gravar com eles também. Não dá para acreditar! – revela, surpreso com tanta repercussão.

Só ontem, Dudu – como é conhecido pelos amigos – concedeu entrevistas a três emissoras locais de televisão, além de pelo menos outras quatro entrevistas a rádios e jornais. Para conseguir organizar a rotina de gravações, o leopoldense conta com o auxílio da prima Amanda de Oliveira. A estudante, de 18 anos, virou praticamente a secretária do bom samaritano.

– Faço isso com muito carinho. Meu primo merece. Ele sempre foi gente boa e, agora, todo mundo ficou sabendo. Estou muito orgulhosa – derrete-se a jovem.

De origem humilde, Dudu divide a casa de um cômodo com a mãe, na periferia de São Leopoldo, no Vale do Sinos. A história protagonizada pelo segurança, que ganha R$ 1,5 mil por mês, não ganhou destaque somente no Brasil. Ganhou o mundo. Por meio das redes sociais, brasileiros que moram na Espanha, na Suíça, nos Estados Unidos e na Itália estão parabenizando o segurança de São Leopoldo pela atitude de honestidade.

Os convites de amizade no Facebook também surpreenderam o jovem. Nos últimos quatro dias, ele recebeu quase mil solicitações de novos amigos virtuais. Dudu conta que recebe pedidos a todo instante. Teve internauta que foi além, e até ofereceu estadia caso ele fosse para a cidade dele no Paraná.

– Ontem (segunda-feira), eu estava na lan house do meu primo. Estávamos em quatro computadores, e não dávamos conta de falar com tanta gente – revela.


NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
Algumas atitudes inspiradoras contadas por leitores de Zero Hora

UM ANJO CHAMADO LETÍCIA 
- Luisa Karine perdeu uma festa na sexta-feira, 21 de março, após se dar conta de que tinha deixado o celular no banheiro. Chorou em plena balada, em Novo Hamburgo. No dia seguinte, avisou no Facebook que estava sem celular. Amigos leram a mensagem e alertaram que, no evento da festa criado na rede social, uma pessoa estava à procura da dona de um celular Samsung. As duas se encontraram, e a atitude de Leticia ganhou curtidas no Facebook. Um anjo chamado Leticia achou ele na festa e postou a foto do celular – contou.

FÉRIAS QUASE FRUSTRADAS - Michel Kozenieski perdeu a carteira com todos documentos, cartões de banco e R$140 quando passava férias em Arraial do Cabo (RJ). Faltando dois dias para embarcar no avião e voltar a Porto Alegre, ele e providenciou um boletim de ocorrência sobre a perda dos documentos. Já sem esperança e na capital gaúcha, Michel foi encontrado por Luciene Félix pelo Facebook. – Ela me enviou a carteira com tudo dentro por Sedex e, inclusive, pagou o envio com seu próprio dinheiro, porque não queria mexer no dinheiro alheio – relata Michel.

O MELHOR EXEMPLO POSSÍVEL - Denise Bastos encontrou um celular em um ônibus urbano de Porto Alegre. Ao chegar em casa, ela não teve dúvidas: ligou para um número da agenda, passou o próprio endereço e teve a melhor recompensa possível: – Ouvi “Deus te abençoe, pessoas como você não existem mais” – Denise. Como era época de Páscoa, Denise ganhou do proprietário uma caixa de bombom. Para ela, este foi o melhor exemplo que poderia dar aos seus filhos.


A técnica de laboratório Luciana (esquerda), que deixou a carteira no caixa eletrônico de um shopping, agradeceu a atitude de Gabriela: “tinha perdido as esperanças”


ZERO HORA 08 de abril de 2014 | N° 17757

MICHELI AGUIAR | SÃO LEOPOLDO

EXEMPLO DO BEM. Homem paga conta após achar fatura e dinheiro. Além de quitar boleto perdido, segurança procurou a dona dos R$ 600


O desespero por ter perdido R$ 600 que seriam usados para pagar uma conta durou poucas horas: foi só o tempo de Karine Peyrot, 41 anos, descobrir que a fatura fora paga por quem encontrou o dinheiro. O documento acabou devolvido à moradora de São Leopoldo, no Vale do Sinos, com 50 centavos de troco.

– Foi Deus que colocou o Dudu (apelido de Marco Antonio da Silva) na minha vida. Se eu não pagasse aquela conta naquele dia, eu teria uma série de transtornos – relata Karine.

Aos 32 anos, Silva, que é segurança, diz não considerar ter feito grande coisa. Para ele, devolver um dinheiro que não era dele deveria ser visto como algo normal:

– Eu já perdi R$ 50 uma vez e tive de pedir emprestado para pagar a minha conta. Quando vi que aquele dinheiro era a quantia para pagar o boleto, fiz o que tinha de fazer, paguei.

A história envolvendo os dois, que não se conheciam apesar de terem amigos em comum, aconteceu na quarta-feira passada. Silva encontrou o dinheiro enquanto esperava por um ônibus para ir ao centro da cidade comprar um celular. De moto, Karine passou pela mesma parada e deixou cair do bolso a quantia. A corretora de seguros só percebeu que havia perdido o valor e a conta quando chegou à casa lotérica onde efetuaria o pagamento. Desesperada, chorou muito e refez o caminho a pé diversas vezes.

Karine não imaginava que, enquanto chorava, Silva tentava localizá-la. Assim que pagou o boleto e comprou o telefone que pretendia, ele fotografou o documento e postou em uma rede social. Poucas horas depois, ele conseguiu encontrar Karine.

– Achei que aquela conta era importante para ela, por isso, quis encontrá-la. Me sinto muito orgulhoso de ter feito a coisa certa – relata.

Karine lembra que a hipótese de alguém encontrar e pagar a conta tinha sido cogitada pela filha dela. Mas a corretora não esperava que isso de fato pudesse acontecer:

– É para eu ver que devo acreditar nas pessoas e ter mais atenção.

O ato de honestidade repercutiu nas redes sociais e teve milhares de compartilhamentos e comentários positivos. Ele e Karine devem participar do programa Mais Você, da Rede Globo.

– Eu não esperava que uma atitude tão simples teria uma dimensão dessas. É uma loucura isso. Espero que a nossa história sirva de exemplo para outras pessoas – comenta Silva.



Para achar Karine, a dona do dinheiro e do boleto, Silva postou fotografia da fatura com informações sobre o local da perda...

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