SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

ROTINA DO MEDO EM POSTOS DE COMBUSTÍVEIS EM POA

ZERO HORA, 13/06/2014 | 05h03

por Carlos Wagner

Rotina de medo. Como atuam os ladrões de postos de combustíveis em Porto Alegre. ZH percorreu 40 postos de combustíveis em uma semana e identificou, a partir de imagens e relatos, como agem os grupos




Há dois anos, consolidou-se a média de 26 ataques mensais a postosFoto: Reprodução / ZH TV



A regularidade e a violência com que gangues atacam os postos de combustíveis em Porto Alegre estão tornando a profissão de frentista umtrabalho de alto risco. A sensação de ser a próxima vítima causa estragos reais entre os profissionais, como doenças e abandono do emprego.

Há dois anos, consolidou-se a média de 26 ataques mensais a postos. Policiais, donos de estabelecimentos e frentistas concordam que a violência tem a ver com a popularização do uso do crack. Jovens dependentes usam os postos como uma espécie de caixa rápido para conseguir o dinheiro para a droga.

Os números oficiais demonstram uma carência de informações sobre assaltos no setor. Na Secretaria da Segurança Pública do Estado, as ocorrências de ataques aos postos caem na vala comum dos roubos.

Como a maioria dos 275 postos de Porto Alegre - 2,8 mil no Rio Grande do Sul - são empresas pequenas e familiares, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustível e Lubrificantes (Sulpetro) tem dificuldades em coletar informações entre os seus associados. Os obstáculos são semelhantes para oSindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados (Sitramico), que abrange os 3 mil frentistas da Capital (são 30 mil no Estado).

Durante uma semana, Zero Hora percorreu 40 postos de combustíveis (escolhidos ao acaso, em todas as regiões de Porto Alegre), conversou com frentistas, proprietários e dirigentes de sindicatos das categorias e assistiu às imagens gravadas pelas câmeras de segurança dos roubos.

Os assaltos com arma de fogo são os mais frequentes. Veja nas imagens como agem os ladrões:

Outra tática dos assaltantes é a prática de arrastões. Eles chegam em bando nos postos, sem que exista a possibilidade de reação por parte dos funcionários:


Jogo de gato e rato entre a polícia e os ladrões

Usando informações fornecidas pelos serviços de inteligência, a Brigada Militar (BM) e a Polícia Civil tentam se antecipar à ação dos assaltantes de postos de combustíveis.

Contra os ladrões de postos, a BM lançou a Operação Pré-Sal, informa o coronel João Diniz Godoy, comandante do Policiamento da Capital. Ele diz que veículos com P2 - policiais militares de inteligência da BM - circulam nas imediações dos postos de combustível.

— Sempre que é detectado um grupo suspeito, os P2 acionam as viaturas da região — diz o coronel.

A BM e os ladrões estão envolvidos em um jogo de gato e rato. Sempre que os carros patrulhas da corporação intensificam a presença ao redor de postos em uma região da cidade, os bandidos se afastam e atacam em outro lugar. O coronel diz que a principal característica dos assaltantes é formarem grupos ao acaso.

_ Eles têm em comum a necessidade de conseguir dinheiro para comprar droga, então atacam o próximo posto _ explica Godoy.


A vez do caçador

Atraídos pelo baixo risco de serem presos e pela lucratividade do roubo, nos últimos anos dois bandos de criminosos se especializaram em assaltar postos. Ao se organizarem, no entanto, tornam-se alvo da polícia, que conseguiu localizá-los graças ao serviço de informações.

— Os dois bandos foram desmantelados por agentes da 8ª e da 2ª delegacias — informa o delegado regional de Porto Alegre, Cleber Ferreira, responsável pelas 22 delegacias da Capital.

Ferreira tem a mesma linha de raciocínio do coronel Godoy sobre os assaltantes de postos. Ele acrescenta:

— Para facilitar o nosso trabalho seria fundamental que o posicionamento das câmeras de segurança fosse mudado. Hoje a maioria filma de cima para baixo, o que dificulta a identificação do rosto do assaltante.

Embora o ataque a postos de combustíveis tenha se intensificado há uma década, ele sempre existiu, recorda o frentista Neri Lopes, 70 anos, há 48 anos no ramo. Ele lembra que, nos anos 70, pelo menos uma vez por ano algum posto da cidade era assaltado e virava notícia no jornal.

— Hoje é coisa comum, eu mesmo já fui assaltando duas vezes. Eles não respeitam nem os velhos — reclama.

Lopes costuma dizer que é do tempo em que a gasolina era barata e os bandidos respeitavam os policiais.


Assaltos a postos de combustíveis: céu aberto

Assaltos a postos de combustíveis: arma

Assaltos a postos de combustíveis: arrastão



Frentistas desenvolvem técnicas para fugir de assaltos em Porto Alegre. ZH percorreu 40 postos de combustíveis em uma semana e identificou, a partir de imagens e relatos, como agem os ladrões


Frentistas vivem rotina de medo em Porto AlegreFoto: Ricardo Duarte / Agencia RBS


Os frentistas do turno da noite são o principal alvo das gangues que assaltam postos de gasolina em Porto Alegre. Para se proteger dos ataques, há duas regras consideradas de ouro: não reagir e evitar de olhar nos olhos dos criminosos. As medidas não estão em um manual, mas são passadas dos trabalhadores mais velhos para os mais novos.

Durante uma semana, Zero Hora falou com mais de duas dezenas de frentistas. Cerca de 90% deles já tinham sido assaltados, alguns mais de um vez. Marco Antônio Oliveira da Silva, 39 anos, é uma exceção, apesar de trabalhar durante a noite em um dos postos da Avenida Sertório, área muito visada pelos assaltantes.

Há um ano e meio na profissão, Silva era entregador de jornal, tarefa que fazia acompanhado pela cadela Guria de Porto Alegre e o cachorro Guri de Uruguaiana. Ao ser admitido no posto, ele encontrou outros cachorros que viviam lá, o Dany e a Madona Pop Star. Ele colocou um crachá nos animais, que acabaram virando atração para os clientes - e afastando os assaltantes.

— Graças a Deus e aos cachorros, eu não fui assaltando — comenta.

Marco Antonio Oliveira da Silva, 39 anos, frentista e dono dos cachorros
Foto: Carlos Wagner/Agencia RBS

O lugar é conhecido como Posto dos Cachorros. A três quadras dali, o frentista Daniel Agostini da Silva, 26 anos, tem a mania de "correr o olho" em busca de suspeitos enquanto abastece na pista - como chamam o espaço onde ficam as bombas de combustível. No ano passado, ele levou um tiro na perna direita durante um assalto.

— Está quase na hora de ir embora e havia estacionado o meu carro na pista. Foi quando chegaram, em um Uno, três jovens. Eles desceram e anunciaram o assalto — recorda.

Na fuga, os bandidos roubaram o automóvel de Agostini e o levaram junto. O que aconteceu dentro do veículo, ele diz que jamais irá esquecer:

— Os caras ficaram ali discutindo se iriam me matar ou não. No final, pararam o carro e me mandaram correr. Eu corri, e eles me deram um tiro pelas costas na perna direita.

Trauma afasta frentistas do trabalho

Já se passaram cinco anos. Mas Cezar Pereira Alves, 62 anos, ainda é atormentado pela imagem das balas do tambor de um revólver calibre 38 apontando para o seu rosto por um assaltante do posto de combustível, onde trabalhava de frentista. Por algum tempo precisou de auxílio médico e medicações para levar uma vida normal.

Alves hoje é um dos diretores do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo no Rio Grande do Sul (Sitramico). Conta a sua história sempre que um frentista bate à porta da entidade assustado por ter sido vítima de assalto.

— Todas as semanas, dois ou três colegas vêm aqui, apavorados por terem sido vítimas de assalto — relata.

Ele diz que, depois de sofrer a violência, o frentista fica com o pensamento fixo de que tem uma grande chance de sair para trabalhar e não voltar para casa. João dos Santos, 41 anos, frentista de um posto nos arredores da Avenida Sertório, um dos locais preferidos pelos assaltantes, se encaixa na descrição feita pelo diretor do sindicato.

— Em janeiro, fui vítima de quatro assaltos no posto. Precisei fazer tratamento médico para conseguir voltar trabalhar. Hoje venho trabalhar pensando que posso não voltar para casa — descreve Santos.

Apesar da tensão, Santos não cogita deixar o emprego e, muito menos, mudar de profissão. Justifica que gosta de ser frentista. E que acredita que o tempo irá ajudá-lo a superar o trauma.

Desistiram da profissão

Alessandra Rodrigues não pensou duas vezes. No dia seguinte à noite em que teve uma arma apontada no seu rosto desistiu de trabalhar na loja de conveniência de um posto na região da Avenida Manoel Elias, zona norte de Porto Alegre. O salário e os benefícios oferecidos pelo proprietário do estabelecimento eram acima do mercado.

— Lembro bem: um grupo de jovens chegou à loja e pediu cigarros. Eu virei o corpo para pegar a mercadoria na prateleira e, quando voltei, havia uma arma apontada no meu rosto — recorda.

Assustada, avisou o proprietário que não voltaria a trabalhar. Ele deu alguns dias de folga e disse que o susto passaria. Não passou. Ela manteve a decisão de não voltar.
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