SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O MÉDICO MONSTRO NA PRISÃO

REVISTA ISTO É N° Edição: 2335 Atualizado em 25.Ago.14 - 15:44


Como foi a captura de Roger Abdelmassih, o estuprador em série acusado de manipulação genética, que vivia luxuosamente com a mulher e os filhos no Paraguai após fugir do Brasil. Agora, as vítimas querem levar suas atrocidades ao conhecimento da ONU

Raul Montenegro


Aos 65 anos, Ricardo Galeano era um bem apessoado paraguaio nascido na cidade de Dr. Francia. Amistoso, costumava cumprimentar os vizinhos que moravam nos arredores de sua imponente residência – na rua Guido Spano, 1.976, no bairro de San Cristóbal, em Assunção – sempre que saía para caminhar ou passear com os filhos gêmeos, um menino e uma menina de 3 anos. Ele e a esposa, que contavam com os serviços de babá, empregada e chofer, frequentavam, nos finais de semana, o UvaTerra, um intimista e bem avaliado wine bar e restaurante na esquina da moradia do casal. Ricardo pagava R$ 11,3 mil pelo aluguel da mansão de dois andares no bairro de classe média alta, contribuía com R$ 500 mensais para o pagamento do salário do vigia, cuja guarita ficava em seu amplo jardim, e ostentava na garagem dois carros ano 2012: uma Mercedes E350, avaliada em R$ 135 mil, e um Kia Carnival, preço médio de R$ 110 mil. Costumava usá-los para levar os filhos à escola, a quatro quadras da casa onde morava.


COVARDIA
Preso na capital paraguaia, o estuprador condenado a 278 anos de prisão
disse ter fugido do Brasil por indicação da esposa, mãe de seus dois filhos gêmeos

Foi atrás dessa pacata rotina que o suposto paraguaio escondeu o seu passado macabro no Brasil. Ricardo Galeano era o disfarce do ex-médico Roger Abdelmassih, estuprador em série condenado a 278 anos de prisão em 2010 por violentar sexualmente 37 mulheres em sua badalada clínica de reprodução humana, em São Paulo. Foragido desde 2011, Abdelmassih escolheu o Paraguai para fugir da Justiça, exatamente como fez nos anos 60 outro médico notório pela crueldade, o nazista Josef Mengele (1911-1979), o Anjo da Morte, que manipulou geneticamente cerca de 1.500 gêmeos nos campos de concentrações alemães para criar a raça “pura”, ariana, pretendida por Adolf Hitler (leia na pág. 61). Mengele morreu no Brasil escapando de um julgamento pelos experimentos praticados por ele em seres humanos. Capturado na terça-feira 19 por policiais da Secretaria Nacional Anti Drogas do Paraguai, em conjunto com a Polícia Federal brasileira, quando buscava os filhos na escola, a versão brasileira do monstro de Auschwitz – Abdelmassih se autodenominava Deus na terra às pacientes que o procuravam para realizar o sonho de ser mãe e não tinha escrúpulos ao manipular material genetico – não deverá ter a mesma sorte.



A Justiça não se esgotou assim que o médico-monstro, cuja idade real é 70 anos, foi trancafiado, no dia seguinte à captura, no presídio paulista de Tremembé, onde ele já havia ficado detido quatro meses antes de conseguir um habeas corpus e ser solto em 2010. Sua prisão é apenas o começo de novas investigações que podem apontar para outros crimes e atrocidades. Na quarta-feira 20, cinco vítimas do estuprador do jaleco branco foram até o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde ele desembarcou vindo do Paraguai, para comemorar o seu retorno ao cumprimento da pena. As mulheres, que fazem parte de um grupo que contribuiu com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e a Polícia Federal com a captura de seu algoz, estão prestes a formalizar juridicamente a criação da Associação de Vítimas de Roger Abdelmassih. Elas pretendem, concluída essa etapa, condenar o ex-médico por crimes contra a humanidade na Organização das Nações Unidas (ONU). “O Roger provavelmente colocava em outras mulheres os embriões que nós produzimos e não eram utilizados na nossa fertilização. Comercializava esse material genético”, diz a artista plástica Silvia Franco, 43 anos, estuprada enquanto sedada por Abdelmassih em 1997. “Eu produzi 12 óvulos. Quatro foram fertilizados. E os outros onde foram parar? Ele usava a inteligência que tinha para o mal”, afirma a farmacêutica Nelma Luz, 50 anos. Ela deu à luz Guilherme, que nasceu com síndrome de Edward e faleceu com 86 dias de vida. O ex-médico, de acordo com ela, se recusou a realizar o PGD, exame feito em uma célula retirada do embrião que aponta a existência de doenças genéticas.



Abdelmassih terá, agora, de responder a outros 26 casos de estupro que constam em um inquérito na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher paulista. Com o processo à sua frente, a delegada responsável pelo caso, Celi Paulino Carlota, comemorou a captura. “Quero ouvi-lo, agora, antes de devolver o inquérito para o Fórum”, afirma. As histórias coletadas por ela, além de relatos de violência sexual, apontam para crimes supostamente praticados pelo ex-médico contra a Lei de Biossegurança, como a comercialização indevida de óvulos e a manipulação genética de embriões. A farmacêutica Nelma e outras três depoentes relataram ter sofrido problemas durante a gestação. “Por telefone, dois casais me disseram que, ao fazer o DNA, descobriram não ser pais dos filhos gerados com o auxílio da clínica”, diz a delegada, que vai mais longe. “Como o Roger estuprava pacientes, não é improvável que possam existir filhos dele por aí, apesar de não ter tido, até agora, nenhum relato disso.” Além da ação na ONU contra o médico-monstro, o grupo de vítimas pretende criar um banco de dados genético das ex-pacientes. Já estão, inclusive, em busca de um geneticista. “Não queremos tirar filhos de nenhuma família constituída, mas esse banco poderia ser útil caso eles queiram saber a origem deles. E também nosso material genético ajudaria caso alguém precise do nosso sangue”, diz a estilista Vanúzia Leite Lopes, 54 anos.



O grupo de vítimas foi decisivo na captura do ex-médico. Pela internet, as mulheres entraram em contato com moradores de Avaré e Jaboticabal, cidades no interior de São Paulo, onde, respectivamente, o criminoso possui uma fazenda e moram familiares de sua esposa, a ex-procuradora da República Larissa Sacco, 36 anos. Com essas pessoas, as vítimas conseguiram documentos como conversas de e-mail, boletos de transferência bancária e contas de telefone no nome de Abdelmassih, de parentes e empresas supostamente ligadas a ele. “Postamos mensagens em páginas do Facebook de qualquer um de Jaboticabal e Avaré, até salão de beleza e farmácia. Falávamos que ele era foragido e pedíamos que denunciassem. Aí começamos a receber ligações”, afirma a dona de casa Helena Leardini, que também faz parte do grupo. Ela e as amigas gastavam horas de seus dias verificando as informações que chegavam e as repassavam para uma equipe de investigadores da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, com quem conversavam várias vezes por semana.



As informações foram compartilhadas com o Ministério Público em maio deste ano. No mesmo mês, o órgão realizou uma operação na fazenda de Avaré e localizou documentos, fotos e números de telefones que apontaram que o estuprador estaria vivendo na capital paraguaia. O material encontrado indicou que pessoas próximas a Abdelmassih e sua mulher – familiares, amigos e funcionários – atuavam numa suposta rede de lavagem de dinheiro construída para financiar a família no Exterior. Monitorando os envolvidos por meio de grampos telefônicos e investigações in loco, as autoridades descobriram que o foragido estava em Assunção. A partir dessa fase, entrou em cena a Polícia Federal, que no país vizinho agiu em conjunto com a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) do Paraguai para cravar a localização exata do foragido.



A polícia sabia que o criminoso colocaria seus filhos numa escola bilíngue e provavelmente escolheria uma das instituições mais caras da cidade, de acordo com o padrão de vida elevado com o qual estava acostumado em São Paulo. Com essa e outras informações em mãos, os investigadores percorreram as creches que se encaixavam no perfil com uma história de cobertura: um policial paraguaio disfarçado de cliente perguntava à direção se ela estava acostumada a cuidar de crianças gêmeas, e se a escola via problemas em educar estrangeiros. No local onde estudaram os filhos do estuprador, um funcionário mordeu a isca e revelou que lá havia alunos com essas características. Daí em diante, foi fácil constatar que o pai dos gêmeos e o médico procurado eram a mesma pessoa. A prisão foi efetuada uma semana depois, após ele deixar as crianças na escola.

Ao desembarcar algemado no Brasil, Abdelmassih revelou, em entrevista a uma rádio, detalhes da sua fuga. De acordo com ele, foi guiando em direção a Avaré que ele soube do pedido de prisão, decretado em 2011. Ela ocorreu porque o condenado tentou renovar o passaporte. “Eles (a Justiça e o Ministério Público) achavam que eu ia fugir. Mas eu não ia. Ia passear”, disse. Antes de ir para o Paraguai, o ex-médico decidiu seguir para Presidente Prudente, também no interior paulista, onde se refugiou no haras da irmã. Passou, ainda, por Jaboticabal antes de se dirigir para Assunção. A polícia acredita que o criminoso atravessou a fronteira entre Foz de Iguaçu e Ciudad del Este para chegar lá.


MARTÍRIO
O filho de Nelma nasceu com síndrome de Edward e morreu 86 dias depois.
Um exame, preterido por Abdelmassih, poderia ter detectado a doença genética

Abdelmassih também afirmou que morava há três anos e meio no país vizinho e que a ideia de fugir foi de Larissa. “Eu achava melhor me entregar. Minha mulher disse: ‘Não, vamos embora’.” A capital paraguaia foi escolhida pela proximidade, mas o destino final, relatou a policiais já depois da captura, era o Líbano ou a Itália. O plano não foi adiante porque faltaram recursos e ele não conseguiu a documentação necessária. A criminóloga e escritora Ilana Casoy explica que a falta de escrúpulos de Abdelmassih não ocorre apenas no âmbito sexual. “Ele não tem a linha divisória moral e sexual de escrúpulo. É um inescrupuloso que não vê problema onde todos veem.” Agora suas dezenas de vítimas terão a chance de assistir à justiça ser feita.

Fotos: AFP/Senad; Claudio Gatti/Ag. Istoé; Reprodução vídeo, Reprodução; Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai
Postar um comentário