SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

REDE DE PROTEÇÃO FINANCIAVA LUXO

TV GLOBO, FANTÁSTICO, Edição do dia 24/08/2014

Rede de proteção financiou vida de luxo de Abdelmassih no Paraguai. Investigações da polícia e do MP apontam que existia no Brasil rede de proteção e de envio de dinheiro à disposição do ex-médico no Paraguai.




Por três anos, a polícia tentou adivinhar como estaria o rosto de um dos criminosos mais procurados do Brasil. Durante esse tempo, ele levava uma vida de luxos no Paraguai, enquanto deveria estar cumprindo os 278 anos de prisão aos quais foi condenado, em 2010.

O crime: estupro de pacientes que o procuravam em busca de tratamento para engravidar. Mas na terça-feira (19), esse passou a ser o retrato do ex-médico Roger Abdelmassih, um preso.

O Fantástico mostra os detalhes da investigação que levou à prisão de Abdelmassih, quem o protegia, quem financiava a vida luxuosa dele no Paraguai. E surgem novos depoimentos dramáticos de mulheres abusadas por ele.

Imagens feitas pelo Fantástico mostram a casa do ex-médico Roger Abdelmassih, no Paraguai. Ela tem três andares. No quintal, espaço para as crianças e uma piscina. Valor do aluguel: o equivalente a R$ 11 mil por mês. O endereço é nobre: Rua Guido Spano, 1976, bairro San Cristóbal, Assunção, Paraguai. Muito luxo e conforto.

Era assim a vida de Roger; da mulher dele, Larissa; e dos filhos gêmeos do casal: um menino e uma menina de 3 anos. Nesta semana, ao ser preso, ele próprio confirmou que vivia bem.

“Uma bela casa. Tinha jardim, tinha tudo. Assunção é uma cidade boa, barata. Gente simples. Gostam de brasileiros”, afirmou.

Na terça-feira (19): “Meus filhos”, disse Abdelmassih. Assim que aconteceu a prisão do ex-médico, condenado por estuprar clientes na clínica de fertilização dele, em São Paulo, uma equipe do Fantástico foi para a capital do Paraguai.

Roger Abdelmassih frequentava os melhores e mais caros restaurantes de Assunção. Um deles fica bem próximo de onde morava. Ele era conhecido pelos funcionários porque sempre escolhia os vinhos mais caros, de R$ 500, R$ 600.

No Paraguai, Roger, 70 anos, usava outro nome: Ricardo Galeano. E fazia de tudo para não ser reconhecido. "Geralmente, andava de boné, olhando para o chão, e trocava de empregada a cada dois, três meses", contou uma vizinha.

“Sempre tive medo de ser pego. Eu não saía de casa sem a peruca, um óculos. Então, eu ficava diferente do que eu era”, disse o ex-médico.

Novembro de 2010. O mais famoso especialista em reprodução humana do Brasil é condenado a 278 anos de cadeia por 48 crimes sexuais contra 37 pacientes. Ele ganhou o direito de recorrer em liberdade. Dois meses depois da condenação, sumiu com a mulher, Larissa, uma ex-procuradora da República, 34 anos mais nova que ele.

“Minha mulher falou: ‘Não, vamos embora’. Ela, procuradora da República. Ela falou: ‘Eu acho melhor ir embora’”, contou Abdelmassih.

Três anos e sete meses se passaram até o esconderijo luxuoso do casal ser encontrado. Segundo o Ministério Público, a principal pista que levou Roger Abdelmassih para cadeia foi encontrada três meses atrás, num sítio em Avaré, interior de São Paulo.

De acordo com uma denúncia, o ex-médico tinha se escondido na propriedade, que já foi dele e hoje aparece registrada em outro nome.

“Ele não se encontrava no local, mas foi possível a apreensão de algumas informações. Basicamente, anotações contendo nomes, números de telefone, alguns destinos. Até chegarmos ao país, Paraguai. Especificamente na cidade de Assunção”, disse o promotor de Justiça Luiz Henrique Dal Poz.

As imagens do vídeo acima são inéditas. São do mesmo sítio, gravadas em março de 2011. Na época, a polícia também tinha recebido denúncias de que este era o esconderijo de Roger Abdelmassih.

Policial: Eu quero saber. Ele está aí?
Funcionário: Quem?
Policial: O Roger.
Funcionário: Não está. Nem notícia dele eu tenho.

Ele realmente não estava nesse sitio, que tinha uma sede confortável e chique. Com o dinheiro da clínica de fertilização, Roger se tornou um grande produtor de laranjas e construiu um patrimônio estimado em R$ 18 milhões só em Avaré.

Segundo a polícia, nas buscas de 2011, nenhuma informação relevante surgiu, mas deu para conhecer detalhes do gosto refinado de Roger. Na mesa, por exemplo, não podia faltar vinho francês.

Avaré fez parte do plano de fuga do ex-médico? Ele passou pela cidade? E pela Europa? Será que Roger chegou a se esconder no Líbano, onde tem parentes e onde nasceram os pais dele? Ao ser preso, ele disse que não.

Alegou que a rota de fuga foi São Paulo-Presidente Prudente, no interior; e que depois seguiu direto para o Paraguai, com a mulher.

Segundo a polícia, o casal entrou por Pedro Juan Caballero, fronteira com Mato Grosso do Sul. A esposa, Larissa, estava grávida.

“As crianças nasceram lá. As crianças são paraguaias”, diz Abdelmassih.

Ao Fantástico, vizinhos falaram que Roger morava na casa do bairro San Cristóbal havia cerca de três anos. “O Paraguai seria uma solução imediata, que seria um temporário até que ele conseguisse fugir, no primeiro momento, para o Líbano. Cogitou-se, então, a Itália, mas também em razão das dificuldades - ter que ficar afastado muito tempo da família - ele desistiu e acabou ficando no Paraguai mesmo”, disse o delegado da Polícia Federal Marcos Paulo Pimentel.

O Fantástico apurou que Roger levava uma vida de luxo, com direito a motorista particular, babá e muitas outras mordomias.

Segundo os vizinhos, ele gostava de ostentar que tinha dinheiro. No Paraguai, ele se apresentava como investidor de projetos sociais e tinha amizades com policiais, políticos e pessoas importantes ligadas ao mundo do futebol.

As investigações revelam ainda que Roger chegou a pensar em abrir clínicas de fertilização no Paraguai e no Brasil, que estava preocupado com a segurança dele e da família. E que teria feito um seguro de vida de mais de R$ 2 milhões.

Uma vizinha diz que achava que Roger era um embaixador. E que ele sempre tomava os melhores vinhos em restaurantes frequentados por artistas.

A última vez que Roger Abdelmassih esteve no restaurante foi domingo passado (17). Sempre sentava no mesmo local. Discreto, escondido. E do local, tinha visão da rua. Olhava todo mundo que chegava no restaurante. Funcionários contam também que, sempre que ele ouvia alguém falando português, levantava e ia embora.

Foi frequentando esses lugares que o ex-médico mostrou interesse em abrir um restaurante e investir pelo menos R$ 1 milhão no negócio.

Os filhos dele estudavam na escola mostrada no vídeo acima. Um lugar discreto, sem placa de identificação. Fica a 500 metros da casa da família.

O ex-médico pagava cerca de R$ 1.100 de mensalidade, um valor considerado alto em Assunção. Ele foi preso quando saía da escola, depois de deixar os filhos.

“Ele saiu do carro para ir para escola porque ele foi conversar com a diretora. Ele foi se consultar sobre escolinha de futebol para o filho”, contou o delegado. A filha de Roger já fazia aulas de balé.

O Fantástico foi por dois dias até a casa e ninguém atendeu. Parece que só tem uma funcionária trabalhando, mas a mulher e os filhos foram embora.

Agora, polícia e Ministério Público tentam descobrir como Roger e Larissa conseguiam levar uma vida de milionário no Paraguai.

As investigações apontam que existia no Brasil uma grande rede de proteção e de envio de dinheiro à disposição do casal.

”Nem ele nem ela exerciam qualquer atividade remunerada. Dependiam, então, dessa estrutura que envolviam pessoas do Brasil para poder financiar, bancar a fuga dele”, destacou o promotor de Justiça.

De acordo com as investigações, um dos suspeitos de mandar dinheiro para Roger é um amigo dele: o médico Ruy Marco Antônio, ex-dono de um dos principais hospitais de São Paulo, o São Luiz.

A suspeita é que Ruy Marco Antônio entregava dinheiro vivo para Sergio Molina Júnior, o administrador da Agropecuária Colamar.

Uma das donas dessa empresa é Larissa Sacco, a mulher de Roger Abdelmassih. A investigação mostra que Sérgio depositava dinheiro na conta da Agropecuária Colamar. E que Dimas Campelo Maria, um homem de confiança de Roger Abdelmassih, era o responsável por sacar o dinheiro e levar até Foz do Iguaçu.

De acordo com o Ministério Público, entre março do ano passado e maio agora, ele foi nove vezes até Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai.

O Fantástico conseguiu, com exclusividade, fotos que mostram o carro que Dimas usava na região.

No dia 1º de maio, o veículo cruzou a Ponte da Amizade às 10h41; e voltou 37 minutos depois do Paraguai para o Brasil.

A suspeita é que Dimas Campelo Maria tenha se encontrado com Abdelmassih e entregue dinheiro vivo para o ex-patrão.

Por telefone, Dimas negou: “Eu só posso dizer que não é verdade. Nunca atravessei a Ponte da Amizade.”

Fantástico: Mas foi até Foz de Iguaçu várias vezes?
Dimas: Não, não.
Fantástico: Contamos a Dimas Campelo Maria que existem fotos do carro que ele usa na região da fronteira.
Dimas: Só se ele foi sozinho. Eu estou numa palestra agora. Não estou podendo falar. Se quiser me ligar mais tarde.
Fantástico: Voltamos a ligar, deixamos recados, mas não conseguimos mais falar com ele.

O Fantástico também procurou Sergio Molina Júnior, o administrador da Agropecuária Colamar. Fomos aos endereços da empresa em Avaré e Jaboticabal, mas não encontramos nem ele nem essa agropecuária. Também ligamos várias vezes, e nada.

Durante o fim de semana, o Fantástico também tentou ouvir Ruy Marco Antônio, suspeito de mandar dinheiro para Roger Abdelmassih. Ligamos para o celular e para casa dele. Deixamos recado com um funcionário, mas não obtivemos resposta. Depois, fomos à residência de Ruy Marco Antônio. Pelo interfone, deu para ouvir que tinha gente conversando lá dentro, mas ninguém nos atendeu: “Mais cedo me ligaram, falando que o senhor, que o seu nome seria citado no Fantástico.”

E quanto a Larissa, a mulher de Roger? Pelo menos, por enquanto, ela não é acusada de nada. Pela lei, mulher - ou marido - não comete crime por facilitar a fuga do cônjuge. Já o ex-médico está na cadeia de Tremembé, no interior de São Paulo.

Na gravação de áudio divulgada pela rádio Estadão - feita quarta-feira passada (20), quando Roger estava no Aeroporto de Congonhas - ele deixa claro que queria ir para esse presídio.

“Vê se me deixa lá em Tremembé. A chefe lá, ela já me conhece”, disse.

A Secretaria de Administração Penitenciária disse que usa critérios técnicos, não cabendo aos condenados pela Justiça escolher onde querem cumprir a pena.

Roger já ficou quatro meses preso em Tremembé: entre agosto e dezembro de 2009. A cadeia é considerada tranquila. A maioria dos detentos são ex-policiais e presos que correriam riscos, se estivessem em outra cadeia - como Alexandre Nardoni, condenado por matar a filha Isabella.

Roger disse que chegou a pensar em se matar, caso fosse preso.

“Eu consegui comprar uma arma usada. Ficou lá. (Calibre) 38. Eu nunca peguei numa arma. Eu comprei, falei: ‘Se eu for preso, eu dou um tiro na cabeça’. Eu estava preparado. Eu vou acreditar agora na advocacia brasileira. Eu fui condenado estupidamente, loucamente. Não tem uma prova, uma prova. 278 anos. É brincadeira”, afirmou.

Roger sempre alegou inocência. Chegou a dizer que apenas beijava as pacientes. O Fantástico procurou os advogados dele e de Larissa. Nenhum quis gravar entrevista.

Em nota, a defesa disse que aguarda o julgamento de uma apelação feita no Tribunal de Justiça de São Paulo contra a decisão que condenou o ex-médico. E que espera também julgamento de um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal.

Quanto à prisão de Roger, os advogados não quiseram se manifestar.

No Paraguai, a casa de Roger Abdelmassih virou ponto turístico para alguns brasileiros que moram no país.

“Ficar vivendo uma vida normal, como ele estava conseguindo viver. Isso é chocante mesmo”, destacou a bióloga Marcele Peres.

Fantástico: Você sempre passava por aqui ou não?
Bióloga: Sempre. É um trajeto que a gente faz até para cortar o transito.
Fantástico: Nunca cruzaram com ele?
Bióloga: Nunca. Não.

“Que agora vá e pague pelos seus erros. Pelos erros que ele cometeu com todas essas famílias que acreditaram nele e foram, infelizmente, lesadas”, disse a administradora Isabeli Paiva.


Abdelmassih morava em casa avaliada em US$ 1 milhão no Paraguai. Abdelmassih costumava deixar o aluguel acumular por alguns meses e depois acertava a dívida em dinheiro vivo, diz dono da imobiliária.



Depois que Roger Abdelmassih foi mandado de volta para o Brasil, uma nova investigação começou no Paraguai. O Ministério Público paraguaio quer saber se o documento usado pelo ex-médico, em nome de Ricardo Galeano, era uma falsificação completa ou se ele apenas colou uma foto nova na identificação de outro homem.

O dia de nascimento do falso Ricardo Galeano é 6 de fevereiro de 1949, quase seis anos a menos do que a idade real de Abdelmassih.

Na sexta-feira (22), representantes do Ministério Público do Paraguai fizeram uma busca e apreensão na casa em que o ex-médico vivia com a mulher em Assunção. De lá, eles retiraram um computador, que era usado pelo casal, e também pastas cheias de documentos.

A promotora Lorena Ledesma diz foram encontrados outros papéis com o nome falso e evidências de que Roger Abdelmassih realizava muitas operações financeiras no Paraguai.

Segundo o Ministério Público paraguaio, se Abdelmassih e a esposa, Larissa Sacco, usaram documentos falsos para movimentar contas bancárias, eles podem responder no país por lavagem de dinheiro.

Sobre a residência do casal, a promotora diz que era luxuosa, muito bem equipada e muito confortável.

Miguel Portillo, o dono da imobiliária que alugou a casa para Abdelmassih, mostrou ao Fantástico fotos do anúncio de aluguel. Elas mostram como é a casa por dentro. Construída em 2009, tem 700 m², quatro quartos, sete banheiros e uma piscina com hidromassagem.

A casa, avaliada em US$ 1 milhão, era alugada por US$ 4,8 mil por mês, quase R$ 11 mil. O pagamento estava atrasado cinco meses, o que era comum. Abdelmassih costumava deixar o aluguel acumular por alguns meses e depois acertava a dívida em dinheiro vivo. “Sempre atrasava”, diz Miguel Portillo.

Segundo Portilho, o ex-médico Brasileiro era uma pessoa ótima. “A melhor pessoa que já conheci”. Um homem nobre, que falava muito de Deus e que dava dinheiro para a igreja. “Uma pessoa impressionante”.

A família de Abdelmassih frequentava uma igreja católica, que fica perto da casa em que viviam. Alguns fieis contam que eles vinham à missa no domingo pela manhã.

O homem religioso e afável que vivia no Paraguai mal parece ser o mesmo acusado de crimes sexuais contra dezenas de pacientes no Brasil.
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