SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

CAÇA AOS SEQUESTRADORES


ZH 05 de setembro de 2014 | N° 17913


JOSÉ LUÍS COSTA 

NOCAUTE NO CRIME QUE MAIS CRESCE NO ESTADO

OPERAÇÃO POLICIAL PRENDE 16 PESSOAS suspeitas de integrarem quadrilhas responsáveis por sequestros e extorsões a bancários e pequenos empresários na Capital e Região Metropolitana. Escutas telefônicas mostram como grupos agiam



Com a prisão de 16 pes- soas ontem pela manhã em Porto Alegre e em outras cinco cidades da Região Metropolitana e do Vale do Sinos, a Polícia Civil avança na tentativa de sufocar uma onda de extorsões mediante sequestro de gerentes de bancos e pequenos empresários.

Esse é o crime que mais cresceu no Rio Grande do Sul em 2014. De janeiro a junho, já são 19 casos, dois a mais do que todos os registros de 2013, segundo estatística policial. Na comparação com o primeiro semestre de 2013, o aumento chega a 111%.

– Embora o percentual chame atenção, os números não são altos como no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Essa operação é uma prova de que estamos trabalhando para identificar e prender os autores – afirma o chefe da Polícia Civil, Guilherme Wondracek.

O aumento desse tipo de crime estaria relacionado a uma mudança de perfil. Conforme o delegado Joel Wagner, da Delegacia de Repressão a Roubos e Extorsões, além de funcionários de bancos, as vítimas mais visadas têm sido lojistas, prestadores de serviços e donos de pequenos estabelecimentos. E os autores são bandidos que se aventuram por esse tipo de crime, muitas vezes, para financiar outros delitos, como o tráfico de drogas.

O delegado acredita que o número real de casos pode ser ainda maior do que os registros oficiais, pois há situações em que familiares das vítimas não procuram a polícia, pois também estariam envolvidos em práticas ilícitas como agiotagem, jogo de bicho e caça-níquel.

POLÍCIA DEVE SER AVISADA DO CRIME

Segundo Wagner, os sequestros de bancários costumam se encerrar em horas, com parentes mantidos reféns na própria casa. Mas a extorsão a comerciantes se estende por dias, com a vítima trancafiada em cativeiro. Os pedidos de resgates, em primeiro momento, variam de R$ 500 mil a R$ 1 milhão, mas, em geral, os valores são mais baixos. Por vezes, por interferência da polícia, nem ocorrem pagamentos. O delegado salienta a importância de a polícia ser avisada.

– Este ano, com a nossa orientação e acompanhamento, em pelo menos cinco casos, os reféns foram libertados sem pagamento de resgate. Além de preservar a integridade física das pessoas, não estamos capitalizando os criminosos – afirma Wagner.

Em sete meses, a polícia contabilizou 23 prisões de suspeitos de participação em 11 sequestros – outros dois homens morreram em confronto com policiais.

Participaram da operação, cerca de 70 agentes que, além das 16 prisões, cumpriram 20 mandados de busca e apreensão.


Quatro criminosos já estavam na cadeia


Entre as 16 ordens de prisões cumpridas ontem, quatro foram contra apenados – dois cumprem pena no semiaberto, no Instituto Penal de São Leopoldo, e dois já estão em cadeias de Charqueadas. Um deles é Claudinete Jorge Marques da Rocha, 32 anos, condenado até 2.043 por furto, assaltos e homicídio. Ele teria praticado um sequestro com ajuda da mulher e do sogro, também presos ontem.

Outro apenado é Lauri Savio Cunha, 32 anos, acusado de tráfico e homicídio, condenado por assalto e receptação. Segundo a polícia, mandou sequestrar um ex-cunhado, mecânico de automóveis em Canoas. A vítima permaneceu 50 horas em cativeiro. Após a vítima ser libertada, a polícia prendeu três pessoas e recuperou R$ 20 mil, pagos pelo resgate. O crime aconteceu em fevereiro e deflagrou a Operação Sinos – que leva esse nome porque a maior parte das prisões ocorreu no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, considerado a base dos criminosos.

Foi no Vale do Sinos que ocorreram os casos mais emblemáticos. Um deles, em junho, em Dois Irmãos, quando a filha de 14 anos de um comerciante de carros foi sequestrada a mando de um conhecido da família que jantou na casa da vítima na noite anterior ao sequestro. Cinco pessoas foram presas em flagrante e outras duas ontem. Em outro caso, em março, um empresário de Novo Hamburgo foi sequestrado por um amigo de infância (leia relato nesta página). O homem e um comparsa foram presos em flagrante.


O desabafo de um refém


Relato de empresário de 32 anos, de Novo Hamburgo, sequestrado por um amigo de infância, em março.

“Fui fazer um orçamento em Campo Bom. Era 9h30min. Quando desci do carro, dois caras encapuzados me apontaram armas. Estavam em um Gol preto. Pensei que era roubo do carro, mas colocaram um saco preto na minha cabeça e me levaram para o Gol. Pegaram meu celular e ligaram para meu irmão, pedindo R$ 500 mil. Reconheci a voz de um deles. Era um amigo de infância, a quem eu tinha dado emprego fazia uns cinco anos. Fiquei quieto. Sumiram com meus documentos, dinheiro, chaves – acho que colocaram fora –, e me levaram para uma casa. Cortaram minha roupa com estilete. Fiquei só de cueca. Colocaram algemas de aço nos meus pulsos e algemas plásticas nas pernas. Fui deixado em um banheiro. Ofereceram sanduíche e água, mas não comi. Podia ter veneno ou sonífero. Deixei marcas de dedos no vaso e nos azulejos para as digitais ficarem como prova de que estive ali.

Acho que era 17h – escutei apito de fábrica quando encerra o turno – quando me tiraram da casa. O carro andou uns 10 minutos por uma estrada de chão batido. Depois, tive de descer um barranco no meio do mato, mesmo com pernas e punhos algemados. Mandaram eu me ajoelhar. Tive certeza que seria morto. Mas fui amarrado com uma cinta plástica em uma árvore. Depois de uns 50 minutos, percebi que estava sozinho. Apertei as mãos contra a árvore e quebrei um dedão (polegar). Na hora, não senti nada. Se tivesse um facão, cortaria a mão para fugir. Sou magro, cuspi para lubrificar os pulsos e me livrei das algemas das mãos, depois das pernas, e também da cinta plástica. Corri para dentro do mato durante uns 40 minutos. Escutei latidos e entrei em uma chácara. Tinha uns 10 cachorros enfurecidos. Pulei uma cerca e me tranquei no galinheiro. O chacareiro apareceu e disse que chamaria a polícia. Era tudo que eu queria. Acho que eram 18h30min. Aí vieram policiais e o meu irmão. Falei que reconheci a voz de um sequestrador, e a Delegacia de Roubos foi atrás dele, que acabou preso com um cunhado. Voltei ao cativeiro, mostrei o banheiro, colocaram um pozinho e encontraram minhas digitais. É um trauma para o resto da vida. Sentia meu sangue em outra temperatura, o coração batia diferente, a boca seca. Nunca imaginaram que eu reconheceria a voz de um deles e que fugiria.”


SEQUESTROS EM NÚMEROS

No primeiro semestre de 2014 , foram registrados mais casos do que em todo o ano de 2013

-A extorsão mediante sequestro é o crime com maior índice de aumento em 2014, na comparação com os 14 tipos de delitos cujos números são divulgados pela Secretaria de Segurança Pública .

-No primeiro semestre de 2013 foram 9 registros de extorsão mediante sequestro no Estado. No mesmo período de 2014, são 19 casos, crescimento de 111%.

-As 19 extorsões entre janeiro e junho deste ano já superam todos os registros de 2013, quando foram contabilizados 17 casos.

-Desde fevereiro, o Deic prendeu 23 pessoas (16 ontem) suspeitas de estarem envolvidas em 11 dos 19 casos registrados neste ano.


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