SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

sábado, 20 de dezembro de 2014

SEQUESTROS, CRIME EM ALTA NO RS


ZERO HORA 20 de dezembro de 2014 | N° 18019


DÉBORA ELY


ALÍVIO APÓS TRÊS HORAS DE TENSÃO



PREFEITO DE MOSTARDAS é resgatado pela Polícia Civil depois de ser levado por criminosos a cativeiro em Gravataí. Em alerta com o aumento dos casos de sequestro no Rio Grande do Sul em 2014, os investigadores já monitoravam a quadrilha

Passava da 1h30min de ontem quando o prefeito de Mostardas ouviu estampidos. Os sons ficaram mais intensos, e o prenúncio de tiroteio se confirmou. Fazia quase três horas que Alexandre Galdino Dorneles Lopes, 34 anos, estava sob controle de uma quadrilha que exigia R$ 300 mil de resgate. Tempo demais para a vítima, mas de menos para o bando que pretendia entrar a sexta-feira em negociações.

A rápida descoberta do cativeiro deu-se pela investigação já em curso havia meses. A Polícia Civil monitorava a quadrilha suspeita de cometer pelo menos outros dois sequestros – uma modalidade de crime que registra surto de casos no Estado em 2014 (leia na página ao lado) – nas últimas semanas, de empresários de São Leopoldo e Gravataí. Assim, o esconderijo – uma casa de classe média em Gravataí, com piscina, vista para a área rural e próxima à ERS-020 – se tornou o cenário de confronto, de prisões e do resgate de Lopes. Um local para não levantar suspeitas, conforme avaliação do titular da Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), delegado Joel Wagner.

– Surpreendeu a maneira como agiam e monitoravam as vítimas. Eram muito bem organizados – afirmou Wagner. – Eles monitoraram (o prefeito) por menos de um mês, um período até bastante longo para eles, que sempre contavam com informações privilegiadas.

Fechado por uma caminhonete na estrada enquanto voltava da casa da mãe, o prefeito de Mostardas – cidade de 12 mil habitantes no Litoral – foi algemado por homens que se apresentaram como policiais por volta das 23h de quinta-feira. Colocado no banco de trás do veículo equipado com sirenes, foi vendado, agredido com um tapa no rosto e transportado por cerca de duas horas até o cativeiro. Durante o caminho, os criminosos anunciaram o sequestro à mãe de Lopes e exigiram o pagamento de resgate.

BANDO CONHECIA A ROTINA DA VÍTIMA

Na manhã de ontem, após prestar depoimento na delegacia, o político afirmou ter se mantido calmo durante o sequestro. Contou que, ao chegar à residência que funcionava como cativeiro, os bandidos lhe ofereceram água, colocaram um ventilador e ligaram a TV no quarto onde a vítima foi trancada – e Lopes chegou a tentar adormecer.

O aposento azul era mobiliado com uma cama, cômoda e armários brancos. Pareceria um dormitório comum de uma criança – sobre prateleiras suspensas, estavam mais de 50 carrinhos de brinquedo. Havia apenas um pano para impedir que a vítima avistasse o exterior da casa.

Com 30 agentes participando da operação, a polícia só agiu quando uma caminhonete deixou a casa e foi abordada quase na ERS-020. Os dois ocupantes do veículo revidaram com tiros – um foi preso, outro conseguiu fugir. A partir da reação dos criminosos, foi dado o comando para entrar no cativeiro, onde ocorreu mais um tiroteio. Um sequestrador acabou morto, uma mulher foi presa e dois adolescentes de 15 e 16 anos, apreendidos. Outro bandido conseguiu escapar pelos fundos.

Sete carros, uma moto aquática, cinco coletes à prova de balas, armas, munição e miguelitos foram apreendidos no local, indicando, segundo a polícia, se tratar de uma quadrilha bem equipada que, possivelmente, vinha cometendo outros crimes. O delegado Wagner ainda afirmou que, pelo acompanhamento dos bandidos nos últimos meses, conseguiu evitar outros dois sequestros.

Lopes, prefeito de Mostardas pelo PMDB desde 2013, se surpreendeu com o conhecimento da quadrilha sobre a sua rotina e da família. Os criminosos sabiam, por exemplo, o dia que a filha do político havia chegado de viagem e o horário que o irmão saía para a lavoura. Para ele, não há indicação de motivação política – mas, sim, de um crime audacioso incentivado pela exposição que tem na cidade. A tese é corroborada pela polícia.

– Tem de procurar manter a tranquilidade, tocar a vida, porque senão a gente vai pirar – disse, agora aliviado, Lopes.





Casos crescem 100% no Estado



JOSÉ LUÍS COSTA


O Rio Grande do Sul vive uma inédita e assustadora onda de extorsões mediante sequestro. É, disparado, o crime que mais cresce no Estado em 2014. Entre janeiro setembro, foram 24 casos, o dobro do mesmo período do ano passado. E os números tendem a subir ainda mais. Somente nesta semana, dois novos casos, o último na madrugada de ontem, cuja vítima é o prefeito de Mostardas, Alexandre Galdino Dorneles Lopes.

– A situação é alarmante. É um crime que não existia no Estado e passa a exigir atenção máxima das autoridades – adverte Gustavo Caleffi, especialista em segurança privada.

A Polícia Civil admite a gravidade do momento e diz estar atenta.

– É preocupante, mas, felizmente, estamos conseguindo prender os sequestradores e libertar reféns com a integridade física preservada – diz o delegado Guilherme Wondracek, chefe da corporação.

O incremento dos sequestros se deve a uma série de fatores. Um deles é o número cada vez maior de quadrilhas que migraram para esta prática em busca de dinheiro mais rápido.

– Um carro e uma casa são suficientes para se aventurarem. Acham mais fácil sequestrar do que assaltar um banco – observa Wondracek.

Esses novos sequestradores têm como alvo preferencial gerentes de banco, empresários e comerciantes de pequeno porte. Conforme Caleffi, a escolha de vítimas de classe média se deve ao fato de que elas, embora desprovidas de fortunas, possuem meios para obter recursos rapidamente.

– Para o bandido, é muito melhor sequestrar quem pode pagar o resgate imediatamente. Para sacar grandes somas de dinheiro, é preciso fazer pedido com antecedência aos bancos e dar uma série de explicações, justamente como prevenção a sequestros – acrescenta Caleffi.

O sequestro do prefeito de Mostardas é um exemplo da mudança no perfil dos criminosos. Gladimir Josué Sabini, 39 anos, morto em confronto com a polícia, tinha apenas uma condenação por assalto, extinta em 2010, quando foi beneficiado com indulto. O comparsa dele, preso em flagrante, Marcos Vinícius Oliveira de Lima, 37 anos, tinha uma passagem pela polícia por porte ilegal de arma, em 2008.

CRIMES ORDENADOS A PARTIR DA CADEIA

Conforme Wondracek, o principal motivo para o crescimento dos casos em 2014 se deve a ações dessa quadrilha – já tinha feito vítimas dois empresários recentemente, em Gravataí e São Leopoldo e tentado outros dois – e ao bando liderado por Lauri Savio Cunha, 32 anos, apontando como mandante do sequestro da filha adolescente de um vereador de São Leopoldo, libertada na segunda-feira.

Antes de ser preso, em 2009, Lauri tinha condenação por assalto e receptação e suspeita de envolvimento com tráfico e homicídios. Com um celular, de dentro da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), Lauri passou a ordenar sequestros de gerentes de bancos, de joalherias, e até de um mecânico de automóveis.

Ambas as quadrilhas eram monitoradas havia meses pela Polícia Civil, por meio de celulares grampeados, e por isso os casos foram resolvidos sem pagamento de resgates, com a libertação das vítimas. Apesar de facilitar as escutas, o celular entre presos é um dos grandes problemas enfrentados pela polícia.

– Enquanto se monitora um preso, outros 200 seguem falando sem que possa vigiar – lamenta Wondracek.


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