SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 2 de agosto de 2015

FEDERICO MORREU PORQUE LEANDRO FUGIU DA CADEIA


ZERO HORA 2 de agosto de 2015 | N° 18245


ELES PODERIAM ESTAR VIVOS




Para o argentino Federico Guillermo von Furth, o Rio Grande do Sul era a terra prometida. Nascido em Santa Fé, engenheiro eletrônico formado pela Universidade Nacional de Rosário, Federico buscava um novo rumo para a vida afetiva e profissional, em Passo Fundo, no norte gaúcho.

Tinha terminado um casamento na Argentina e começava a expandir pelo Brasil os negócios de uma empresa de software da qual era sócio. Em 2002, abriu a Capebras, na Vila Rodrigues, área central da cidade, e em 2006, conheceu a contadora Cláudia Karczeski.

Da união, nasceu Francisco, em 2009. Radicado em Passo Fundo, em paz com a família e com o trabalho, Federico era otimista nato. Bem-humorado, jamais reclamava de infortúnios e acreditava que tudo ia dar certo sempre.

Durante os jogos da Copa do Mundo de 2014, vestiu a camiseta da seleção argentina para reverenciar a pátria, mas sem deixar de torcer pela terra que o acolheu. Diante do espanto de vizinhos, estendeu uma bandeira com as cores do Brasil na sacada só para ver a alegria no rosto do filho, devidamente fardado de verde e amarelo.

A família morava em um apartamento, andava em um Golf escuro com uma década de uso, e o engenheiro se preparava para satisfazer um desejo de Francisco.

– O menino insistia para o pai se casar com a mãe – conta o advogado Tadeu Karczeski, 64 anos, cunhado de Federico, diretor da Companhia de Desenvolvimento de Passo Fundo, órgão da prefeitura municipal.

Enquanto não chegasse ao fim o processo de separação judicial do primeiro casamento na Argentina, o engenheiro se sentia impedido de trocar alianças com a contadora. Em 24 de abril deste ano, Cláudia fez 45 anos. No dia seguinte, Federico completou 46. Tudo sem comemorações. Os parentes mandaram parabéns e cobraram comes e bebes, mas o engenheiro desconversou. Estava organizando uma celebração mais importante, e com doces e salgados.

– Quando perguntei pela festa de aniversário, ele respondeu: “Vou pedir a mão da tua irmã em casamento” – lembra Karczeski.

Federico, enfim, recebera a notícia de que estava oficialmente livre para atender aos apelos do caçula. Só esperava a chegada da filha mais velha, que vive na Argentina, para organizar a cerimônia.

GRADES SERRADAS PARA ESCAPAR DA PRESÍDIO


Infrator na adolescência, Leandro Xavier de Ramos, o Tuiuiú, hoje com 19 anos, passou um período na unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), em Passo Fundo, mas não se corrigiu. Em abril de 2014, roubou com outro jovem R$ 800 e cigarros de um mercado, de “cara limpa”, distante cinco quadras da própria casa. Segundo o comparsa, o crime visava a obter dinheiro para comprar drogas.

Preso três meses depois, Leandro serrou grades da janela da cela número 15 da galeria C, pulou para o pátio, escalou um muro e fugiu do Presídio Regional de Passo Fundo. Em 48 horas, estava de volta à cadeia, recapturado.

Em janeiro de 2015, foi condenado pela 1ª Vara Criminal de Passo Fundo a seis anos e oito meses de prisão pelo assalto ao mercado em regime semiaberto e transferido para o Instituto Penal, anexo ao presídio, para cumprimento da pena. Como ele tinha fugido antes, o caso gerou um processo disciplinar.

Em 30 de março, a Vara de Execuções Criminais determinou a suspensão de todos os benefícios externos de Leandro – saídas para trabalho ou passeio. E ele deveria regredir para o regime fechado. Mas nem deu tempo de a ordem judicial ser cumprida. Na madrugada de 5 de abril, possivelmente já sabendo da decisão, Leandro, outra vez, serrou barras de ferro de uma janela e fugiu. Apenas dois agentes cuidavam de mais de 200 apenados.

De volta às ruas, Leandro se juntou a Alessandro Menitriel Canto, 27 anos de vida e 26 anos de condenações por quatro assaltos. Ele também tinha fugido da mesma cadeia 19 dias antes.



ASSASSINADO AOS OLHOS DO FILHO DE SEIS ANOS

No final de tarde do último 29 de abril, uma quarta-feira, o engenheiro Federico, como de hábito, saiu do trabalho para buscar na escola o filho Francisco, de seis anos. Passou em um supermercado e retornou para a empresa. A intenção era fechar o estabelecimento e depois seguir para casa. O relógio marcava 19h10min. Federico estacionou, desceu com o menino e apertou o botão do alarme do Golf. Em uma fração de segundos, foi abordado por um homem armado – era Leandro.

Não há certeza do que aconteceu nos instantes seguintes, mas tudo indica que o engenheiro fez algum gesto para proteger o filho. Como reação, o bandido desferiu um tiro no rosto de Federico. De mãos dadas com Francisco, o pai desabou, quase caindo sobre a criança.

Leandro e Alessandro correram para dentro de um Brava preto, visto por populares abandonando o local em alta velocidade. PMs foram acionados e começaram buscas. Socorrido por uma ambulância dos bombeiros, Federico morreu a caminho do Hospital São Vicente de Paulo.

Em uma das saídas da cidade, pela ERS-324, o Brava suspeito foi parado. Havia só o motorista no carro, mais três jaquetas. Sem saber explicar de onde vinha e para onde ia, o homem foi levado a uma delegacia da Polícia Civil. Identificado como Alexsandro da Silva Canto, 28 anos, sem antecedentes criminais, revelou que um dos homens que atacaram o engenheiro era seu irmão, Alessandro Menitriel Canto. Dois dias depois, a polícia prendeu Leandro.

A REVOLTA DA VIÚVA

Ainda detido, Leandro aguarda julgamento. Cláudia, a viúva de Federico, aguarda respostas:

– Como podia estar solto um sujeito que vê um pai de mãos dadas com uma criança de seis anos e atira à queima-roupa? De quem é a responsabilidade? Por que perder as pessoas de bem já está sendo visto como uma coisa normal? Até hoje, ninguém me procurou para saber como estamos, como vamos viver daqui para frente. Que país é esse em que o cidadão trabalha, gera empregos, paga impostos e, quando tem a vida tirada por um marginal, apenas vira mais um na estatística dessa violência desenfreada? É muito difícil acreditar na Justiça, mas ainda tenho um pontinho de esperança de que ela seja feita, para que outras famílias não sintam a dor que estamos sentindo.



“Eles vão ficar presos para sempre?”

– Mãe, agora somos uma família de dois – foi uma das frases de nosso filho quando voltamos para casa e ele se deu conta de que não havia mais ninguém lá.

Desde aquele triste 29 de abril, não tenho feito outra coisa a não ser tentar amenizar o sofrimento dele. É doloroso ouvir a pergunta:

– Mãe, os bandidos que mataram meu pai também matam crianças?

Para que ele siga acreditando na vida, na polícia, na Justiça, respondi que não, mesmo sabendo que para esse tipo de gente a vida dos outros não vale nada.

– O meu pai sempre me protegia, e me protegeu dos bandidos – diz Francisco.

Em dias de futebol, quando estouram foguetes, ele fica com muito medo e corre para me abraçar. Vem à mente o barulho que tirou a vida do pai enquanto o segurava pela mão.

– Mãe, os tiros atravessam paredes de tijolos? E se os bandidos entrarem em nosso prédio vão encontrar nosso apartamento? E se o pai que estava no caixão era falso, e o verdadeiro foi viajar e um dia volta?

Diante de tantas perguntas e lágrimas, além da dor da perda é preciso ter forças para pensar e responder a ele que nada mais de ruim vai acontecer, que os bandidos estão presos e que estamos seguros, e lá vem outra pergunta:

– Eles vão ficar presos para sempre?

Respondi que sim, mesmo sabendo que não é verdade, mas para protegê-lo, para que consiga ir à escola, ir à praça, retomar a alegria que sempre foi meu maior orgulho, uma criança feliz que já acordava sorrindo. Assim consegue viver até que cresça e entenda como funcionam as leis de nosso país e a quem realmente protegem.

Uma noite presenciei a cena mais emocionante e dolorosa para uma mãe. Nosso filho saiu na sacada de casa, apontou para o céu e falou:

– Pai, minha mãe colocou o meu pijama virado.

Voltou e disse:

–Pronto, mãe, já contei para meu pai. Agora ele já está sabendo.

Não tem como não chorar diante de tanta pureza de sentimentos. Até quando crianças inocentes vão ter de apontar o céu para falar com os pais que são covardemente arrancados de suas vidas?

CLÁUDIA KARCZESKI | Viúva de Federico Guilermo von Furth


CONTRAPONTO
O engenheiro Federico Guillermo von Furth (à esquerda) foi assassinado por Leandro Xavier de Ramos (D) em 29 de abril. Leandro está preso e aguarda julgamento.
O QUE DIZ A SUSEPE
Por meio de nota, a Susepe afirma que informou o Departamento de Informações da Polícia Civil (Dinp), a juíza da Vara das Execuções Criminais de Passo Fundo e o promotor público do município sobre a fuga do apenado. Foi expedido um mandado de busca, e o detento foi recapturado e recolhido ao Presídio Regional de Passo Fundo. (Como consta na reportagem, Leandro Xavier de Ramos ficou quase um mês foragido, e foi nesse intervalo de tempo que assassinou Federico Guillermo von Furth.)
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