SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 2 de agosto de 2015

GERALDO MORREU PORQUE WAGNER ROMPEU A TORNOZELEIRA



ZERO HORA 02 de agosto de 2015 | N° 18245


ELES PODERIAM ESTAR VIVOS




Adolescente infrator, Wagner Fagundes Stuczynski entrou para a vida adulta cometendo crimes, aos 19 anos. Atacava motoristas na zona norte de Porto Alegre. Foram três investidas, sempre fracassadas.

No primeiro roubo, em junho de 2010, Wagner e um comparsa, bêbados, saídos de um aniversário, fizeram refém o condutor de um Civic no bairro Cristo Redentor. Sem habilidade para carro automático, Wagner assumiu o volante, andando alucinado pela região até ser avistado por PMs.

No banco traseiro, a vítima, sob a mira de uma arma, rezava para não morrer. Em alta velocidade e pela contramão, Wagner raspou o automóvel em árvores, amassou veículos que cruzaram seu caminho até demolir o Civic contra um poste, no Porto Seco, na Capital.

Preso em flagrante e condenado a sete anos e meio de cadeia, em maio de 2013 voltou para as ruas. Não havia espaço em albergues da Região Metropolitana, e a Justiça mandou que ele próprio procurasse vaga na Susepe.

Arrumaram um lugar para ele na Casa do Albergado Pio Buck, na Capital, e um emprego em caminhão de coleta de lixo. Mas ele suportou o serviço só por 11 dias. O trabalho era pesado demais para Wagner. Não aguentou correr atrás de dinheiro honesto e fugiu.

Solto nas ruas, Wagner permaneceu seis dias como foragido. Na tarde de 26 de maio de 2013, invadiu armado o carro de um representante comercial que estava parado nas imediações da Avenida Baltazar de Oliveira Garcia. Aproveitando-se de uma distração, o motorista pegou o revólver e amassou a cara de Wagner a socos e cabeçadas. Wagner tonteou, correu, mas foi pego pela vítima e entregue a PMs.

O caso ainda não foi julgado. Em dezembro de 2014, depois de um ano e meio atrás das grades, Wagner podia de voltar ao semiaberto. Graças à desorganização nos presídios, a Justiça o autorizou pela segunda vez a sair às ruas e procurar vaga em albergue. Caso contrário, seria vigiado via monitoramento eletrônico. Naquele momento, não havia nem uma coisa nem outra.

Depois de 40 dias “em férias da cadeia”, Wagner calçou uma tornozeleira e foi para casa no bairro Rubem Berta. O equipamento durou apenas nove dias na perna dele. Sumiu do radar da Susepe em 25 de janeiro de 2015. A Susepe se deu o trabalho de registrar a fuga nos sistemas da Secretaria da Segurança e da Justiça e lavou as mãos. Nem Polícia Civil, nem Brigada Militar, ninguém fez buscas por Wagner.



ORGULHO DE VESTIR A FARDA DA BRIGADA

Filho de família humilde de Ijuí, no norte gaúcho, Geraldo Koloski Peixoto foi criado sem mãe desde os cinco anos. Passou fome quando criança e, aos 25 anos, viu na Brigada Militar a oportunidade, talvez a única, de ser alguém na vida. Estudou, formou-se em Direito, na Ulbra, e era idolatrado pelos irmãos.

Orgulhoso, fazia questão de vestir o uniforme de trabalho para os momentos mais importantes em família. Casou-se com o traje de gala de sargento, em 1996, e, em maio do ano passado, dançou a valsa dos 15 anos na festa de aniversário da filha Stephanie, com a farda de tenente do 19º Batalhão da Polícia Militar.




MORTO EM UMA TARDE DE FOLGA, À PAISANA


No último dia 10 de abril, uma sexta-feira, Geraldo estacionava uma Captiva branca na Rua Rubens Rosa Guedes, no bairro Jardim Itu-Sabará, quando foi avistado por Wagner, que caminhava por ali. Geraldo, 50 anos, estava à paisana, de folga naquela tarde, dirigindo a caminhonete de um amigo. Wagner, armado com um revólver, pretendia, de novo, roubar outro carro.

– Perdeu, perdeu – gritou o ladrão.

O tenente esticou a mão e entregou a chave do veículo. O braço erguido fez aparecer um volume na cintura de Geraldo, e o assaltante atirou duas vezes no policial.

O oficial ainda tentou colocar em prática o que não fazia havia muito tempo. Servidor de setores de informática de quartéis, do Departamento Administrativo e do Hospital da BM, Geraldo ameaçou puxar seu revólver calibre 38. Mas a arma ficou presa sob uma cinta e a camisa que vestia.

É provável que, mesmo pegando a arma, ela não funcionasse. Ao examinar o revólver, peritos constataram munição oxidada no tambor. Peixoto ainda lutou com o ladrão, mas tombou sem vida. O bandido fugiu sem nada levar.

Procurando pelo matador de Geraldo, agentes da 14º DP receberam uma informação anônima cinco dias após o crime: o autor seria um homem conhecido como Mascote, que andava em um Tempra branco cuja primeira letra da placa era L. Policiais iniciaram uma busca por apelidos de criminosos no banco de dados da Secretaria da Segurança. Eram 12. Fotos dos suspeitos foram apresentadas a testemunhas que apontaram sem dúvida para a imagem de Wagner. E só existia um Tempra rodando no Estado com a placa começando com L.

O registro do carro indicava como endereço uma vila na zona norte da Capital. Após nove dias de buscas, em 24 de abril policiais localizaram o Tempra, em uma área invadida perto do Sambódromo, no Porto Seco. Ao volante, Wagner. Armado com um revólver calibre 38 com a numeração raspada, ameaçou reagir, mas desistiu. Negou o crime, mas foi dominado e preso. Com Wagner, um outro homem que estava no Tempra também foi detido. É suspeito de pelo menos 15 roubos de veículos na zona norte da Capital.

Os personagens



“E agora, o que o Estado vai fazer?”


Em dezembro, ele me deu uma caminhonete e disse para nunca reagir a assalto. Ele não reagiu no primeiro momento. Só quando o bandido viu que ele estava armado. Ele fazia aula de tiro, atirava muito bem, mas não tinha o hábito porque sempre trabalhou em área administrativa. Acho que a camisa atrapalhou. Nem servia mais de tão apertada. Sempre foi muito vaidoso, não gostava de mostrar a barriga. Já tinha até separado para doação. Não sei por que vestiu naquele dia.

Nossa filha Brenda muitas vezes acompanhava o pai no quartel. Sempre amou tudo isto e cresceu dizendo que também vai ser militar. Vai completar 12 anos e espera as datas certas para estudar na Escola Tiradentes, como sempre prometeu ao pai. Cresceu ouvindo-o repetir com frequência uma frase:

– Tudo o que eu tenho devo à Brigada.

A Brigada era a vida dele. Ele casou uniformizado, foi à festa de 15 anos da nossa filha e falava que, quando ela casasse, levaria ela ao altar com a farda. Ele sonhou muito com a aposentaria. Faltava um ano. Fazia planos de descansar, curtir a vida. Um dia antes da morte, ele se sentiu mal. Estava infeliz por causa da transferência dele para o 19º BPM. Ele não esperava.

Me ligou chorando, reclamando de pressão alta. Sentiu dores no peito, achou que era um infarto. Sentiu medo de morrer e falou que, se acontecesse o pior, queria me agradecer pela família linda que dei a ele.

Naquela tarde em que morreu, estava em casa, queria descansar porque a gente tinha combinado de ir a um baile da terceira idade.

Deixou quatro filhas com 16, 12, seis e cinco anos. Todas nós sofrendo de depressão, desordem psicológica e financeira, tomando remédios, fazendo terapia. A pequena pensa que o pai virou estrela. Olha para o céu e abana, dizendo “oi, pai”. Não desejo para ninguém o que tenho passado.

É muito triste saber que meu marido dedicou a vida à Brigada para ajudar na segurança pública e foi morto justamente por falta de segurança em nosso Estado.

E, agora, o que o Estado vai fazer? Trazer meu marido de volta ninguém vai. E o assaltante, que deveria estar usando tornozeleira, porque estava solto nas ruas sem a tornozeleira? Eu ainda quero ouvir o que o Estado tem a dizer sobre tudo isto, até porque vou procurar por justiça.

FAVIANE PEIXOTO | Viúva de Geraldo Koloski Peixoto

CONTRAPONTO
O tenente da BM Geraldo Koloski Peixoto (à esquerda) foi assassinado por Wagner Fagundes Stuczynski (D) em 10 de abril de 2015. O criminoso está detido e aguarda julgamento.
O QUE DIZEM A SUSEPE E A BM
O monitoramento por meio de tornozeleira custa ao mês R$ 260 por preso, enquanto um preso convencional chega a R$ 1,8 mil. Quando o preso é monitorado, sabe-se onde ele está. Quando rompe a tornozeleira, soa um alarme. A central de monitoramento telefona para o apenado. Se ele diz que está em casa, uma volante da Susepe vai lá verificar. Se ele não atende, e o sinal é perdido, é lançado no sistema como foragido. A Polícia Civil, a Brigada Militar e a Justiça são informadas. A Susepe não vai atrás do preso. A Susepe não tem obrigação de ir atrás do preso. O major Ronie Coimbra, chefe de comunicação social da BM, diz que a partir do rompimento da tornozeleira, o detento entra na condição de foragido no sistema. Quem investiga o homicídio é a Polícia Civil, afirma. Até a noite de sexta, a comunicação social da Polícia Civil não atendeu às ligações da reportagem.
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