SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 31 de maio de 2015

UMA BICICLETA POR UMA VIDA


Em post, filha de ciclista morto no Rio desabafa: "Uma bicicleta por uma vida"., O cardiologista Jaime Gold, de 55 anos, foi esfaqueado enquanto pedalava na Lagoa. Morreu no hospital

REDAÇÃO ÉPOCA
20/05/2015 - 13h42




Protesto nesta quarta-feira contra morte do ciclista Jaime Gold, esfaqueado na Lagoa (Foto: Marcia Foletto / Ag. O Globo)

O cardiologista Jaime Gold, de 55 anos, morreu nesta quarta-feira (20), um dia depois de ser esfaqueado por dois adolescentes enquanto andava de bicicleta na Lagoa, Zona Sul do Rio. O cliclista foi esfaqueado na barriga e no braço mesmo sem reagir. Os criminosos, que ainda não foram localizados, fugiram com a bicicleta da vítima.

O médico deixa um casal de filhos, de 21 e 20 anos. Nesta terça-feira, a caçula da vítima desabafou em tom de despedida na redes sociais. "Mesmo estudando psicologia, não consigo compreender o que leva um ser humano a tirar uma vida, ainda mais em uma circunstância como esta. Uma bicicleta e uma carteira por uma vida", escreveu Clara, de acordo com o Extra. “Parece que a ficha não caiu ainda, mas nós vamos sobreviver”.

Ao jornal O Globo, a ex-mulher falou rapidamente sobre o caso e reclamou do aumento da violência: "Jaime foi brutalmente atacado por dois jovens. Parece que ele é só mais um número em estatísticas de violência, mas foi um assassinato em plena Lagoa Rodrigo de Freitas".

O crime aconteceu por volta das 19h30 desta terça-feira (19), quando havia bastante movimento na região. O médico chegou a ser socorrido por frequentadores do local, mas morreu no Hospital Miguel Couto, na Gávea, após ser operado.

A morte virou assunto nas redes sociais. De acordo com O Globo, o policiamento foi reforçado na Lagoa a partir desta quarta-feira (20).

MORTE DE CICLISTAS REACENDE A QUESTÃO DA MAIORIDADE PENAL


Morte de ciclista no Rio reacende o debate sobre a redução da maioridade penal. É hora de passar do choque à ação e lidar com o tema

ALINE RIBEIRO, CRISTINA GRILLO, HUDSON CORRÊA E THAIS LAZZERI
REVISTA ÉPOCA 30/05/2015





FACADAS
O local do assassinato do ciclista Jaime Gold (à dir.) no Rio de Janeiro, com placas de protesto colocadas por manifestantes. O principal suspeito é um menor de idade (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

Daniel Gold, de 22 anos, suspeitou que havia algo errado quando, na noite de terça-feira (19), viu a foto que se espalhava pelas redes sociais. O ciclista ensanguentado, estirado na ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas, parecia com seu pai, o cardiologista Jaime Gold, de 56 anos. O médico havia saído horas antes do apartamento em Ipanema, onde morava com os filhos – Daniel e Clara, de 21 anos –, para dar uma volta com sua bicicleta. Daniel mostrou a foto para Clara, que ligou para o celular do pai. Sem resposta, telefonaram para a mãe, a designer de interiores Márcia Amil, que acabara de ver a mesma foto na internet e, como Daniel, tivera um mau pressentimento. “Quando atendi o telefone, Clara disse: ‘Acho que aconteceu alguma coisa muito ruim com o papai’”, contou Márcia, com voz embargada, a ÉPOCA. No hospital, os filhos reconheceram as roupas do pai, que, naquele momento, já estava havia três horas em uma cirurgia. Cinco horas mais tarde, depois de ter recebido 2 litros de sangue em transfusão e sofrido duas paradas cardiorrespiratórias, Jaime Gold estava morto.


O cardiologista foi vítima de um crime bárbaro, que assustou os cariocas e que, nas últimas semanas, vem se tornando frequente. Atacado de surpresa por dois jovens também em uma bicicleta, foi esfaqueado com violência. Não teve tempo nem de decidir se reagiria ao assalto. Uma testemunha do crime contou aos policiais ter visto os algozes de Gold emparelhar com o médico e se atirar sobre ele, de uma forma que, à testemunha, pareceu ser uma saraivada de socos. Eram facadas. Uma delas cortou de forma tão profunda o abdômen do médico que deixou vísceras à mostra. “A bicicleta não era importada. Era só uma bicicleta. Por causa dessa bicicleta, ele foi estraçalhado”, diz Márcia.

Trinta e seis horas após a morte de Gold, a Divisão de Homicídios capturou um adolescente de 16 anos, suspeito do assassinato. Perto de sua casa, na favela de Manguinhos, Zona Norte da cidade, a polícia encontrou nove bicicletas, uma delas avaliada em R$ 30 mil, e facas e tesouras escondidas em um corredor. Reconhecido por uma testemunha, o adolescente negou ter cometido o crime. Em sua ficha, há 15 anotações por roubos e furtos, a primeira delas aos 12 anos, quando roubou um celular perto de onde Gold foi atacado. Cinco das anotações registram o uso de facas ou tesouras para intimidar as vítimas. Desde sua primeira infração, o adolescente passou três meses em instituições corretivas. Ele está na faixa etária dos 15 aos 17 anos, como 48% dos menores infratores detidos, segundo um levantamento da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (Sinase). O mesmo estudo conclui que 40% desses adolescentes têm envolvimento com roubos e 9% com homicídios. Dos 23.066 adolescentes em unidades socioeducativas no país, 43% foram criados só pela mãe, como o jovem carioca, e 43% são reincidentes. Nesta semana, a polícia apreendeu o segundo adolescente suspeito de participação no crime.


A morte de Gold e outro crime hediondo ocorrido em São Paulo na mesma semana – o estupro de uma menina de 12 anos por três adolescentes pouco mais velhos – trouxeram de volta a discussão sobre a redução da maioridade penal. Não é, como muitos supõem, um debate binário, um dilema entre reduzir ou não reduzir. Existem várias propostas em discussão no Brasil – ÉPOCA lista algumas delas aqui. Em comum, as propostas (com a exceção da que quer manter tudo como está) atentam para uma distorção da situação atual. O procedimento-padrão, baseado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), não diferencia crimes graves de crimes leves. Isso dificulta a punição às infrações como o latrocínio. E também coloca em contato, nas instituições de internação, menores ligados ao crime organizado com outros que cometeram pequenos furtos.


Em São Paulo, um levantamento do Ministério Público mostrou que, de um total de 1.359 menores internados de agosto de 2014 a abril deste ano, 105 cometeram estupro, latrocínio e homicídio – crimes graves, passíveis do tempo máximo de reclusão. Só sete deles, porém, deverão ficar internados por mais de dois anos, e apenas um por três anos. “O prazo de internação é subutilizado porque as unidades estão superlotadas”, afirma Tiago Rodrigues, promotor da infância em São Paulo. A Fundação Casa afirma que o tempo médio de internação é de nove meses e, em caso de crimes graves, de um período mais longo. “A lei determina a brevidade da pena”, diz Berenice Giannella, presidente da Fundação Casa.

Além de colocar em contato menores que cometeram crimes leves com os que cometeram crimes graves, o sistema atual padece de outro problema: a superlotação das instituições de internação. Os Estados com piores índices são Ceará (221%), Pernambuco (178%) e Bahia (160%). Em 20% delas não há refeitório. Pelo ECA, os adolescentes deveriam ser separados por porte físico, idade e tipo de crime. “No Rio de Janeiro, a separação é por facção”, diz Carlos Nicodemos, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Entre os jovens infratores, 71% dizem ter sido agredidos por funcionários e 88% por policiais, na própria unidade de internação. Mais de 10% das unidades registram situações de abuso sexual contra o adolescente. “Com que cabeça um adolescente preocupado com sua integridade sexual numa cela lotada vai prestar atenção na aula no dia seguinte?”, afirma o promotor Rodrigues.

SUPERLOTAÇÃO
Rebelião numa unidade da Fundação Casa em São Paulo, em 2011. A instituição vem falhando na reintegração dos adolescentes (Foto: Marcelo Justo/Folhapress)

Algumas propostas preveem a criação de outro tipo de instituição, que ajude na socialização do menor. É o caso da PEC 33, do senador Aloysio Nunes (PSDB), apresentada em 2012. Ela também prevê a alteração da Constituição para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, mas somente em casos de crimes hediondos, como tráfico de drogas, tortura, homicídio e terrorismo. Mesmo assim, um juiz decidiria situação a situação. “Esses casos não chegam a 2% do total de crimes cometidos por adolescentes, mas são graves e merecem uma resposta”, afirma Aloysio Nunes. Pela PEC 33, esses adolescentes seriam julgados pela Vara da Infância e do Adolescente e, se comprovada sua capacidade de compreender a gravidade de seus crimes, cumpririam penas em centros especiais – nem na Fundação Casa, nem no sistema prisional para adultos. Essas instalações não existem hoje. A proposta de Aloysio Nunes ainda não foi colocada em pauta.


Para melhor compreender o crime que chocou o país há duas semanas, é necessário colocá-lo em perspectiva. Os homicídios diminuíram 7,5% na cidade do Rio no primeiro quadrimestre de 2015, em relação ao mesmo período de 2014, mas os roubos de rua aumentaram 7,5%. Uma comissão de segurança criada pelos ciclistas recebe por dia de dois a três comunicados de assaltos. Nos últimos dois meses, o uso de facas tornou-se constante. Os assaltos ocorrem com maior intensidade na Lagoa e no Aterro do Flamengo, na Zona Sul carioca, e nas imediações do Estádio Maracanã, na Zona Norte. Os criminosos nem sempre prestam atenção na marca da bicicleta. Roubam e depois decidem o que fazer. As menos valiosas serão usadas em outros assaltos. As mais caras, que custam até R$ 50 mil, terão suas peças revendidas em um mercado ilegal em franco crescimento. Presidente da comissão de segurança de ciclistas, o atleta de triatlo Raphael Pazos faz um alerta: “Sem nota fiscal e em site suspeito na internet, você pode estar comprando a bicicleta de alguém que foi esfaqueado”.

Entre os bandidos, popularizou-se o uso de armas brancas – facas, tesouras, estiletes. Em fevereiro, o turista alemão Fred Nicfind, de 51 anos, morreu esfaqueado em um assalto. Recentemente, uma turista vietnamita foi atingida nas costas e uma chilena foi esfaqueada no pescoço. No dia seguinte ao ataque a Gold, uma mulher de 31 anos ficou ferida nas pernas em São Conrado, Zona Sul. Nas imediações da Lagoa, outros três ciclistas foram feridos a golpes de faca em abril. A lei federal de 2003, que regulamenta o porte de armas, nada fala sobre facas ou instrumentos cortantes usados em crimes. Qualquer pessoa pode carregar uma lâmina afiada na mochila sem grandes problemas com a polícia.


É natural que as autoridades tenham dificuldades de explicar e propor solução para a onda de esfaqueamentos, mas isso não justifica declarações infelizes do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Um dia depois do ataque a Gold, Pezão disse que “quando (um bandido) usa a faca, não é um crime de grande monta que faça a pessoa ficar presa”. Corrigiu-se depois, afirmando que a legislação brasileira tem falhas e o Judiciário acaba soltando os agressores. No dia 12 de maio, Beltrame afirmara que a polícia não pode virar “babá de menores de idade, de moradores de rua, e ficar 24 por horas olhando a pessoa para ver o que ela vai fazer com uma faca”. Após o crime da Lagoa, gravou um vídeo no qual afirma que, “mais do que lamentável, é inadmissível” o assassinato ocorrido na Lagoa. Em vez de dar declarações impensadas, as autoridades fariam bem em avaliar as várias propostas em debate para lidar com o problema. Beltrame tem razão. Lamentar não adianta. Por isso, é hora de conversar seriamente sobre o assunto.


Infográfico sobre menor infrator (Foto: época )

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O TRAIDOR DA PÁTRIA



ZERO HORA 28 de maio de 2015 | N° 18176


DAVID COIMBRA



A professora avisou que iríamos discutir uma reportagem do New York Times em aula. Tive medo. Entenda: assino o Times “de papel”. Sou daqueles que gostam de apoiar o tornozelo direito no joelho esquerdo e abrir o jornal em cima da canela, enquanto bebo café. Ocorre que quase nunca há nada sobre o Brasil no NYT.

O correspondente, que, se não me engano, mora no Rio, deve viver na praia.

Dias atrás, porém, saiu uma matéria alentada, de capa, a respeito da violência da polícia brasileira. Compreensível: violência policial é o assunto do ano nos Estados Unidos.

Meu medo era de que a professora tivesse trazido justamente essa matéria. Não que queira esconder a realidade, mas não gosto de falar mal do Brasil para estrangeiros. Nós que tratemos de nossas mazelas internamente.

Bem. Era a maldita matéria.

O texto começa com a morte daquele menino no Complexo do Alemão, no mês passado, e segue descrevendo o “massacre de crianças e adolescentes pela polícia”. A folhas tantas, um diretor do Instituto Sou da Paz declara que a classe média brasileira “aceita assassinatos feitos pela polícia como uma prática legítima”.

A classe média. Sempre aprontando...

Os outros alunos me olharam, e havia certa censura no olhar deles. Preferi calar. Mas, por deboche do destino, esse gozador, havia um brasileiro novo na aula. Era a primeira vez que aquele cara aparecia, um economista de algum lugar como, sei lá, Goiânia. Esse brasileiro era desinibido e ficou excitadíssimo porque estavam falando do Brasil. A todo instante, fazia intervenções:

– Recomendo que vocês nunca visitem o Rio! Nunca! Lá, as pessoas são assassinadas a facadas em pontos turísticos!

Todos me olharam de novo.

– Não é bem assim... – tentei argumentar. – Existe violência em algumas regiões, como em qualquer lugar, mas o Rio é a cidade mais linda do mundo. Vale a pena ver.

– Na Lagoa! – gritou o brasileiro. – Estão matando na Lagoa!

– Mas as pessoas não são presas no Brasil? – perguntou a chinesa.

– São, claro. Há 500 mil presos no Brasil e...

– Mas eles são soltos! – atalhou o economista. – Presos de manhã e soltos à tarde!

– É verdade? – quis saber o russo neoliberal.

– É verdade, mas existem 500 mil presos. Quer dizer: muita gente está presa, mesmo que muita gente seja solta quando é presa...

Vi que eles ficaram confusos. E eu também. Como explicar aquilo? E em inglês?

– Os presídios lá são desumanos! – interrompeu o espanhol comunista.

– E a polícia mata crianças! – acrescentou a ucraniana, já levemente emocionada.

– Não é bem assim – protestei, temendo que a ucraniana chorasse. – No meu Estado, por exemplo, é diferente. Eu sou do sul do Brasil, e lá...

Mas ninguém me deixava concluir. A italiana havia se virado para o espanhol comunista e comentava, para que todos ouvissem:

– Eu li que os presídios do Brasil são horríveis, pior que pena de morte.

– Você deve ter lido sobre o Pizzolato – observei. – Esse caso é complicado. Esse homem é um ex-diretor do Banco do Brasil que foi condenado por corrupção. Ele alegou a má condição dos presídios brasileiros para não ser deportado, mas, na verdade...

– Ah, o Pizzolato! A corrupção no Brasil! – exaltou-se o economista. – Vocês tinham que ver o que é a corrupção no Brasil!

Suspirei. As chamas da revolta consumiam a aula inteira. A ucraniana estava prestes a chorar. Olhei para o brasileiro traidor da pátria.

– Não basta a Alemanha? – rosnei, em português.

Ninguém entendeu. Ele, sim.



quarta-feira, 27 de maio de 2015

SEGURANÇA É UM ARTIGO DE LUXO


Editoria de Arte/O Sul
O SUL 25 de maio de 2015 19:41



Wanderley Soares



Segurança, hoje, é um dos itens que fecha uma vida luxuosa. Para disfarçar esta realidade, os governos e seus prepostos, diante de um maior clamor da sociedade, têm, entre outras, uma resposta simplista ao declarar que cada cidadão quer um guarda em sua porta. Dizem também que, por mais bem contempladas que estejam as organizações policiais com efetivos e equipamentos, nunca poderão estar em todos os lugares. São discursos que visam a embaçar a realidade, que é a de efetivos e equipamentos com defasagens crônicas, enquanto há bandidos espreitando todas as portas e em todos os lugares. Por isso, a segurança se tornou artigo de luxo destinado apenas a uma parcela de escolhidos. Sobre este fausto, sigam-me.

Festejos

A falência do sistema penitenciário, cujo abarrotamento tem parte de suas usinas nos sempre inacabados institutos que acolhem menores infratores, aliada a uma legislação frágil, são fatores que tornam a vida do cidadão comum, a cada dia, mais ameaçada, mesmo nos menores centros urbanos. Criminosos e contraventores têm sobradas facilidades de driblar a lei e até decisões judiciais. Um facínora que tenha 17 anos e 11 meses de idade, não é um facínora perante a lei e nunca é preso, é “apreendido”. Os regimes semiaberto e aberto, as tais tornozeleiras eletrônicas são benesses distribuídas a rodo e festejadas pela bandidagem. Agora, embora a questão tenha sido pouco ventilada, o próprio Ministério Público tem, em parte, suas mãos atadas por uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), pois ao reconhecer que o órgão pode usar da prerrogativa de investigação, só admite isso em casos pontuais, situação que é festejada no mundo do crime organizado e também pela máfia que lava dinheiro arrecadado nas grandes bancas do jogo do bicho e em cassinos clandestinos. Quando para o cidadão comum a segurança é luxo, para bandidos e contraventores ela chega naturalmente, como o ar que respiramos.

Destaque

Assaltos, alguns com explosões de caixas eletrônicos, voltaram a marcar o fim de semana no RS. Nesta moldura, destaco o assalto ao supermercado Zaffari, localizado na avenida Protásio Alves com a Carlos Gomes, praticado na manhã dessa segunda-feira. Participaram pelo menos seis bandidos que usavam luvas cirúrgicas. Eles imobilizaram 30 funcionários. A raiz de ações como esta não é outra a não ser a facilidade que os profissionais do crime têm de apurar em quais áreas e os horários não serão perturbados pela polícia. No caso dos bancos, já são 126 ataques no RS neste ano.

Prisões


Três catarinenses de Joinville que arrombaram a agência do Banco do Brasil em Teutônia, no Vale do Taquari, foram presos. Eles estavam em uma casa do bairro Passo das Pedras, Zona Norte da Capital. A polícia ainda procura dois gaúchos que também participaram do assalto. O grupo é apontado pela polícia como autores de arrombamento em bancos também de Guaíba e Ivoti. Na área do tráfico de drogas, foi preso um jovem de 28 anos que fornecia drogas sintéticas para festas e academias de Porto Alegre. No carro dele havia três mil comprimidos de anabolizantes, anfetaminas e esteróides vindos do Paraguai, Uruguai e Argentina.

terça-feira, 26 de maio de 2015

PUNIÇÃO DURA E CERTA

ZERO HORA 26 de maio de 2015 | N° 18174


DAVID COIMBRA


A casa número 59



Esta foto não é do Kadão. É minha, um canhestro que nunca teve máquina fotográfica. Precária foto, portanto. Mas a imagem ilustra o que pretendo dizer.

Essa casa número 59 fica na periferia de Boston. Apesar da fachada pretensiosa, com pilares e tudo mais, trata-se de uma residência de classe média. Não classe média alta; média média. O jardim não tem cerca – fiz a foto pisando na grama. Note à direita, ao pé da escadaria, uma bola de basquete cor de laranja. Acima, uma caixa retangular de papelão – alguma mercadoria comprada pela internet. No outro lado, encostados na cadeira, estão um patinete e uma muleta.

É uma cena comum por aqui. As casas não são cercadas, e os moradores deixam suas coisas no alpendre ou no jardim: rádios, carrinhos de bebê, ferramentas, brinquedos, pequenos armários e todo tipo de encomendas, inclusive TVs.

Como pode isso? Por que ninguém rouba? Será a educação americana? Sempre ouvi que segurança pública se resolve com educação. Mas não pode. Aqui, vive gente do mundo inteiro. Já contei que só nas escolas de nível básico de um único distrito são faladas, oficialmente, 50 línguas. Brasileiros, por exemplo, há às dezenas de milhares.

Então, não é educação.

Policiamento ostensivo, talvez? Também não. É verdade que há bastante polícia, mas não em todo lugar. Quando tirei essa foto, a rua estava deserta. E não há câmeras de vigilância por lá.

O que poderá ser?

Direi: é a compreensão que existe nos Estados Unidos do que é a democracia.

A democracia é o cumprimento do que Rousseau chamava de “contrato social”. Todos os que vivem no país têm de cumprir esse contrato, que é definido pela lei.

Quem faz a lei? O povo, através de seus representantes no Legislativo.

Essa noção é fundamental: é o povo quem faz as leis. Quando alguém infringe a lei, agride o povo. Donde, nos julgamentos, se diz: “O povo versus fulano”. E, se você descumprir a lei, deve ser punido sem ponderações de qualquer ordem. A punição é dura e certa.

Aí está. Existe desigualdade nos Estados Unidos. Existe injustiça social nos Estados Unidos. Muita coisa errada ocorre todos os dias nos Estados Unidos. Mas os Estados Unidos, desde a sua fundação, são uma democracia sólida, aceita e compreendida.

Por isso aquela bola laranja fica intocada no jardim. Porque democracia é mais do que voto. Democracia é saber que você tem de cumprir a regra que você mesmo escreveu.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -  SEGURANÇA PÚBLICA É LEIS DURAS E JUSTIÇA COATIVA. Educação é complemento e policiamento ostensivo é parte essencial de um sistema de justiça. Os regimes totalitários garantem a segurança pela força das armas e de uma polícia política contra o cidadão. O Estado Democrático de Direito, que sustenta a democracia, garante a segurança através de leis e justiça, claras, objetivas, céleres e coativas. Esta relação é muito bem mostrada pelo Coimbra. E foi conquistada pelo povo americano a duras penas.

 ATÉ ONDE VAI O LIMITE DA TOLERÂNCIA DO POVO BRASILEIRO PARA COM O CRIME. Os brasileiros estão vivendo a banalização da violência, alta reincidência de crimes e impunidade generalizada, diante de leis permissivas, justiça leniente, polícias enfraquecidas e educação precária. Resta saber quando a sociedade organizada brasileira vai reagir e se mobilizar para seguir o exemplo dos povos desenvolvidos que viveram este mesmo cenário e deram um basta à leniência da justiça e à permissividade das leis que favorecem a impunidade e deixam a população a mercê do crime.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

MAIS DE DUAS MIL PESSOAS ATACADAS A FACA NO RIO EM 2014

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 24/05/2015


Mecânico da bicicleta de médico morto lembra que levou 4 facadas. Jovem foi uma das 2.183 pessoas que, segundo a OAB do Rio de Janeiro, foram atacadas a faca no estado, em 2014.





Um tipo de crime que está assustando o Brasil provocou mais uma morte esta semana. Um médico foi assassinado a facadas enquanto andava de bicicleta, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Acontece sempre da mesma forma: assaltantes empunhando facas e vítimas atacadas covardemente.

Do céu...

“Você anda de bicicleta, você consegue escutar só sua respiração. E você se sente livre”, diz Jorge Felipe Leão, mecânico de bicicleta.

Ao inferno...

Fantástico: O que é andar de bicicleta hoje?

“Medo, medo da liberdade que eu não posso ter”, afirma Jorge.

Quatro facadas, a morte de perto, e sequelas para a vida inteira.

“Eu perdi a capacidade de ar, eu não posso correr como antes, eu não posso mais pedalar como antes”, revela Jorge.

Jorge está entre as 2.183 pessoas que, segundo a OAB do Rio de Janeiro, foram atacadas a faca no estado, em 2014. Desse número, 225 morreram, o que dá 1,23 mortes a cada dois dias. Este ano, do fim de abril para agora, foram ao menos dez ataques.

Relembre alguns deles:
30 de abril: um homem de 52 anos leva quatro facadas em um ponto de ônibus, no centro da cidade.

8 de maio: uma mulher é esfaqueada em Laranjeiras.

17 de maio: uma turista vietnamita é atacada em frente ao Museu do Paço Imperial, no Centro.

19 de maio: o médico Jaime Gold é assassinado a facadas na Lagoa Rodrigo de Freitas.

20 de maio: uma mulher é esfaqueada em uma passagem subterrânea, em São Conrado.

Sexta-feira (22): uma chilena leva uma facada no pescoço enquanto tomava banho de sol na Praça Paris, na Glória.

O mais violento dos crimes foi o da Lagoa.

“Foi ação criminosa bárbara, cruel, em que o médico, o Jaime Gold, não teve sequer a oportunidade de se defender”, diz o delegado Rivaldo Barbosa.

O médico de 57 anos foi morto a facadas por um grupo de adolescentes.

“Eles se atracaram, esse que desceu da garupa para tomar a bicicleta e fizeram movimentos de golpe, de soco. Foi muito rápido. Durou mais ou menos de 20, 30 segundos”, conta uma testemunha.

Um rapaz de 16 anos, que já tinha 15 passagens pela polícia, foi apreendido e apresentado como suspeito do assassinato. Ele nega, mas confessou que rouba bicicletas. Perto da casa dele, os policiais encontraram várias. Nenhuma delas era a do médico.

Jaime Gold era cardiologista. Trabalhava na mesma universidade onde estudou e fez residência, a Federal do Rio de Janeiro. Ele se dedicava a tratar da população pobre atendida pelo hospital universitário.

“Várias vezes ele chegava em casa dizendo que paciente não tinha dinheiro para comprar medicamento, não tinha na farmácia, e ele dava o dinheiro, o medicamento para o paciente”, lembra a ex-mulher de Jaime, Márcia Amil.

“Jaime era uma pessoa que todo dia brincava com as pessoas, estimulava a todos a fazerem atividade física, era capaz de levar um colega pra comprar uma bicicleta”, conta o médico João Manoel Pedroso.

Uma dessas colegas é a doutora Vânia. Ela comprou uma bicicleta por insistência de Jaime. Mas com uma recomendação expressa.

“Ele disse pra que eu não andasse sozinha e ele então foi assassinado”, comenta a médica Vânia Silva.

A própria Vânia já havia sido atacada na Lagoa Rodrigo de Freitas.

“No primeiro mês eu já fui abordada, caí próximo aos carros e isso assustou a pessoa que estava me abordando e a bicicleta não foi roubada, mas me fez aposentar a minha bicicleta muito precocemente. Parece que essa crise chegou agora na Zona Sul, mas ela já é vivenciada pela gente aqui há 20 anos”, lembra Vânia.

Filho de um pedreiro e de uma dona de casa, Jorge sabe bem o que é isso. Por coincidência, ele é funcionário da loja onde o doutor Jaime consertava a bicicleta.

“Eu estava dormindo e o meu gerente mandou uma mensagem falando: 'o Jaime, o ciclista que foi esfaqueado na Lagoa é o Jaiminho, o nosso cliente'. Eu já não consegui mais dormir porque eu fiquei pensando: ‘mais um? Até quando?’”, conta Jorge Felipe Leão, mecânico de bicicleta.

Imediatamente lembrou do ataque que ele havia sofrido em outubro de 2014. Estava voltando para casa, na bicicleta recém-comprada a prestação, quando foi abordado por um grupo de adolescentes no Aterro do Flamengo. Um deles saltou sobre o rapaz.

“Ele pulou já cravando uma faca nas minhas costas. Aonde eu caí no chão, tomei a segunda facada e, quando eu vi, pude contar cinco menores. Todos estavam armados. Não adianta você reagir, 'perdeu, me dá tudo, me dá o celular, me dá tudo que tá no seu bolso’. E eu tava entregando tudo. E tomei a terceira facada aqui na costela. Eles pegaram as minhas coisas e foram. Quando eu levantei para pedir ajuda, para ver quem estava do meu lado, o que estava na garupa da minha bicicleta, ele olhou pra trás, aí ele gritou: ‘eu não acredito que você levantou, você não aprende né?’ Ele saltou da bicicleta que eu comprei, com a faca na mão e correu na minha direção. Eu só fiquei olhando para minha morte. Ele me agarrou por trás e foi ele que deu a quarta facada, que perfurou meu pulmão. Ele cravou e ficou: ‘você vai aprender, você vai aprender’. E ficou tentando rasgar. Eu sobrevivi, mas e aqueles que não sobreviveram? Aqueles que deixaram filho, deixaram esposa? Aqueles que deixaram toda uma vida pela frente?”, lembra Jorge.

Um médico de classe média, com uma longa carreira dedicada à saúde pública. Um jovem pobre que dá duro para vencer na vida. Que duas pessoas tão diferentes tenham sido vítimas da mesma brutalidade mostra um ataque indistinto ao que a cidade pode oferecer de mais democrático a moradores e visitantes. A possibilidade do encontro, da convivência nos espaços públicos está agora ameaçada pelo medo.

Fantástico: A senhora sairia de bicicleta na Lagoa?
Kátia Mecler, psiquiatra forense: De jeito nenhum, de jeito nenhum, eu me sinto com medo também.

A psiquiatra forense Kátia Mecler vê uma clara mudança, ainda sem explicação, do comportamento dos assaltantes que usam a faca como arma.

“O que está me surpreendendo muito agora é a questão da intenção de ferir também, é uma total desvalorização da vida”, afirma Kátia.

Portar uma faca não é crime. Mas a OAB do Rio de Janeiro defende que o porte de arma branca seja incluído no Código Penal e proibido nos casos em que se constatar a intenção de agredir.

Um projeto de lei proibindo o porte de faca, e depois revisto para incluir exceções, chegou a ser apresentado em 2004. Mas até hoje não foi votado.

“Nós temos hoje uma epidemia de crimes com armas brancas, essa epidemia deve ser enfrentada dentro da lei, nós devemos dar instrumentos a autoridade pra que ela possa retirar das ruas aqueles que portando armas brancas cometem crimes contra o patrimônio e contra a vida”, diz Felipe Santa Cruz, presidente da OAB/RJ.

Para o movimento Viva Rio, é uma medida que não resolve.

“Eu só acho que não vai resolver nada. Se mais lei resolvesse, o Brasil era um país tranquilo, seguro. Falta nesse país um programa sério para essa questão da rua, da população de rua e da garotada que vai crescendo em condições onde a opção pela violência pelo crime na rua é uma opção interessante”, diz o antropólogo Rubem César Fernandes.

No meio de tantas tragédias, um agradecimento. Jorge foi ao quartel dos Bombeiros que o socorreram no dia do ataque.

“São os meus anjos, são os meus anjos”, agradece Jorge.

Aconteceu o inacreditável: o jovem desenganado, internado em estado grave, sobreviveu. Ao escapar da morte, o mecânico de bicicletas decidiu mudar de profissão. "Eu vou fazer um curso técnico de enfermagem e vou fazer prova para o Corpo de Bombeiro, porque eu quero salvar pessoas que estiveram no mesmo lugar que eu", revela Jorge.

sábado, 23 de maio de 2015

A MORTE SELVAGEM DO JORNALISTA QUE OUSOU DENUNCIAR TRAFICANTES E PEDÓFILOS

REVISTA ÉPOCA 22/05/2015


A morte selvagem do jornalista Evany José Metzker. A vida de Evany José Metzker, torturado e decapitado enquanto investigava traficantes e pedófilos na região mais pobre de Minas Gerais

FLÁVIA TAVARES| DE PADRE PARAÍSO, MINAS GERAIS


CENA DO CRIME
A carteira de identidade do jornalista Evany José Metzker. Ela foi lançada numa área rural do município de Padre Paraíso, onde seu corpo foi achado (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)

Na manhã do dia 13, uma quarta-feira, o jornalista Evany José Metzker, também conhecido como Coruja, levantou-se, tomou café com um pedaço de bolo, que não dispensava, e avisou Cristiane, a filha da dona da pousada Elis, que precisava ir a uma cidade próxima. Metzker havia se comprometido a dar uma palestra naquela tarde no colégio da garota. Prometeu dar notícias se não conseguisse voltar a tempo. A viagem de Padre Paraíso a Teófilo Otoni, a 100 quilômetros dali, tomou-lhe quase o dia todo. A palestra que ele daria, sobre exploração do trabalho infantil, ficaria para a próxima semana. Metzker retornou à pousada, se desculpou com a pupila, saiu para jantar com o amigo Valseque e, no fim do Jornal Nacional, voltou ao hotelzinho de beira de estrada. Pediu que sua conta de três meses fosse encerrada. Disse que iria a Brasília no dia seguinte e, na volta, pagaria os R$ 2.700 que devia. Saiu novamente, deixando o ventilador e a luz do quarto ligados. “Eu vou ali e volto”, avisou. Metzker não voltou.

Na segunda-feira passada, dia 18, a Polícia Militar de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, recebeu um telefonema. Moradores da roça haviam visto o que parecia ser um corpo na margem de uma estrada de chão batido, a 20 quilômetros do centro. Uma viatura foi ao local. Dois policiais encontraram um corpo sem a cabeça, que fora decepada já quase na altura dos ombros. As mãos da vítima estavam amarradas sobre a barriga, numa corda alaranjada – a direita sobre a esquerda. O homem estava seminu. Vestia apenas jaqueta, camiseta e meias pretas. Mais adiante, avistavam-se um pé do sapato social e uma calça preta. A armação dos óculos e uma lente estavam em outro ponto. O cadáver se decompunha rapidamente. Estava muito inchado – sobretudo os testículos. O perito apontou, mais tarde, que havia indícios de sangramento anal e hematomas na genitália. O crânio foi encontrado a 100 metros do corpo. Possivelmente fora arrastado por cachorros, que devoraram a pele e os olhos do homem. O maxilar estava quebrado, descolado da cabeça. A cena de horror não continha uma gota de sangue. O corpo fora arrastado até ali e o rastro ainda estava lá. O autor da monstruosidade não se preocupou em ocultar o crime ou a identidade de sua vítima. Deixou o cadáver na lateral da pista, a poucos metros de um barranco profundo. A seu redor, os documentos espalhados: um título de eleitor, um RG, um CPF, três folhas de cheque, dois cartões da Caixa Econômica e uma carteira funcional do jornal Atuação. Todos em nome de Evany José Metzker, de 67 anos. A camiseta preta ainda trazia do lado direito do peito uma coruja amarela, marca do blog de Metzker, Coruja do Vale. Nas costas, em letras maiúsculas, estava escrito: IMPRENSA.

Metzker tinha profundo orgulho de ostentar o título de repórter. Dizia para o colega Valseque Bomfim, também blogueiro de Padre Paraíso: “Nós somos jornalistas. Investigativos. Temos de investigar”. Valseque resistia em firmar com Metzker uma parceria entre os blogs, como propunha o forasteiro com insistência. Metzker chegara à cidade havia pouco tempo. Valseque passou, então, a frequentar o quarto dele na pousada. “O Metzker não me contava sobre as apurações que estava fazendo. Só falava que queria ajuda, que queria trabalhar junto”, conta Valseque. Metzker havia montado uma pequena redação em seu quarto. Pediu a Elizete, dona do hotel, um roteador exclusivo, para ter acesso estável à internet. Dispôs três mesas no pequeno cômodo, onde instalou uma impressora, seu notebook e por onde espalhava muitos papéis. Fumava incessantemente seus Hiltons e Hollywoods. O cheiro de tabaco impregnou paredes, colchão e travesseiro, talvez de forma irreversível. Elizete teme nunca mais conseguir alugar o quarto. “Eu chamava ele de Paulo Coelho”, diz Elizete. “Ele tinha cavanhaque, era caladão. Só escrevia, trabalhava e fumava. Nunca chegava depois das 10 da noite e jamais trouxe mulher para cá.” Nos poucos momentos em que se descontraía, Metzker dava conselhos às filhas de Elizete. Inclusive a Cristiane, que queria ser jornalista e para quem ele fez uma carteirinha de repórter aprendiz. Repetia que elas precisavam estudar e levar uma vida regrada, como a dele. Metzker não falava muito do passado, nem com a própria mulher, Ilma. Mas contou às meninas que fora desenhista da polícia. Fazia retratos falados. De fato, desenhava muito bem. Também dizia que fora militar, sem entrar em detalhes. Só vestia roupas sociais e gostava de tingir o cavanhaque, que alternava com um espesso bigode.



Metzker iniciou a carreira de repórter em 2004 e tinha orgulho
de se apresentar como jornalista

A profissão de jornalista foi construída a partir de 2004. No ano anterior, Metzker conhecera Ilma. Ele era de Belo Horizonte, mas trabalhava em Montes Claros, dando suporte de informática em um hospital. Ilma estava ali acompanhando o primeiro marido, que tinha câncer. Meses depois da morte do marido, Ilma retomou contato com Metzker. Numa tarde de dezembro de 2003, Metzker foi visitá-la em Medina, uma cidade pequena e charmosa do interior de Minas. Ficou. Lá, montou o jornal Atuação, que imprimia numa gráfica de Montes Claros. Fazia denúncias sobre a administração da cidade, sobre ruas esburacadas e sobre a falta de atendimento nos postos de saúde. Queria mais. Dez anos depois de dar início a sua carreira de repórter, sentia que não era reconhecido por seu trabalho. Em 2014, então, passou a viajar pela região, buscando notícias mais quentes. Mantinha bom relacionamento com policiais, militares e civis, de todas as cidades por onde passava. Seu blog, que lhe rendeu o apelido de Coruja, noticiava muitas ocorrências policiais. Percorreu quase todo o nordeste de Minas, passando por Almenara, Divisa Alegre, Itinga, Araçuaí, Itaobim… Hospedava-se em uma dessas cidadezinhas e, nos finais de semana, voltava a Medina, para ficar com Ilma e com os três filhos dela, que criou como seus. Quando os pequenos anúncios no blog escasseavam, fazia bico bolando logotipos para empresinhas das cidades. Vivia com pouco. Queria construir uma reputação, ser referência. “Aos poucos, as pessoas começaram a procurar ele para contar o descaso das autoridades”, diz Ilma, que nunca viu um diploma de jornalista do companheiro. Metzker lhe garantia que havia estudado. “Ele era muito responsável, só publicava se tivesse certeza, documento.”

Seguindo sua turnê investigativa, no dia 13 de fevereiro deste ano Metzker encontrou morada em Padre Paraíso. Na entrada da cidade, um letreiro enuncia que este é o “Portal do Vale do Jequitinhonha”. É a chegada à região com os piores índices de desenvolvimento de Minas Gerais – a área representa menos de 2% do PIB do Estado. Não há político em campanha que não prometa uma salvação para o infame “vale da miséria”. Padre Paraíso se espalha por dois morros, rasgada ao meio pela BR-116, a estrada que liga o Ceará ao Rio Grande do Sul. São quase 5.000 quilômetros, trafegados pesadamente por caminhões. Padre Paraíso, com seus pouco menos de 20 mil habitantes, é aquele tipo de cidade que nasceu em torno de um posto de gasolina. Casebres ladeados de borracharias e botecos margeiam a estrada. Há um pequeno centro comercial, movimentado e bem popular. A tradicional igreja na pracinha está oprimida pelas dezenas de templos evangélicos que a cercam. A casa mais bonita da cidade é a da prefeita Dulcineia Duarte, do PT. Cabeleireira, ela assumiu a candidatura do marido, Saulo Pinto, impugnada pela Justiça Eleitoral.

A VIÚVA
Ilma Chaves Silva Borges, mulher de Metzker. Os dois se conheceram num hospital de Montes Claros, onde ele trabalhara na área de suporte de informática (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)

É uma cidade de passagem. Caminhoneiros estacionam nos postos para descansar, beber, farrear. Numa rua paralela à rodovia, um pequeno bar de madeira abriga as negociações entre os motoristas e os aliciadores de menores para prostituição. “Este é um dos problemas mais graves que temos aqui”, diz o tenente Sandro da Costa, da Polícia Militar. “Já flagramos uma criança de 10 anos fazendo sexo oral em um mendigo por R$ 5.” Não há descrição mais bem acabada da miséria. “Muitos pais vendem os filhos para a prostituição, é a fonte de renda da família”, completa o tenente. À noite, algumas garotas se exibem na margem da BR-116, e, numa nova modalidade de crime, quando o caminhoneiro desce para negociar o programa, garotos o abordam, assaltam e agridem. Metzker se interessava pelo assunto. Começou a investigar a rede de prostituição infantil nas cidades da região. Seria o tema de sua palestra na escola da aprendiz de repórter. Não se sabe quanto ele avançou na apuração.

Padre Paraíso tem um pequeno destacamento da Polícia Militar, com 13 homens e duas viaturas. Uma está com os pneus carecas; a outra, sem freio. A caminhonete, que alcançava as áreas rurais mais longínquas, ficou destruída num acidente em 2013. Não foi reposta. A propósito, o acidente aconteceu porque o soldado que a dirigia adormeceu. Como a delegacia de Padre Paraíso fecha às 18 horas e nos finais de semana, qualquer ocorrência nos intervalos tem de ser registrada em Pedra Azul, a mais de 150 quilômetros dali. Os PMs levam o criminoso na viatura, frequentemente sentado ao lado da vítima, que vai depor. Dirigem por horas, prestam esclarecimentos e voltam sonolentos pela BR. É em Pedra Azul também que a delegada de Padre Paraíso, Fabrícia Nunes Noronha, dá seus plantões semanais – ela manteve a rotina mesmo depois de o corpo de Metzker ter sido encontrado. Padre Paraíso não tem comarca, juiz. A lei está longe.

Com tão pouca vigilância, o crime prospera. Em 2014, foram seis vítimas de assassinato. Neste ano, já foram cinco. Dois dos crimes mais recentes são bárbaros, como o que matou Metzker. Um deles foi uma chacina, que vitimou três idosos e uma criança de 7 anos. No outro, um casal de caseiros foi morto a marteladas. “O ranço de violência da cidade vem dos tempos dos garimpos”, diz o tenente Costa. “A cultura é de resolver tudo na bala, na morte.” O tráfico de drogas foi substituindo, aos poucos, o lucro com as pedras águas-marinhas que rendiam fortunas. O crack se espalhou. Metzker tentava mapear as estradas vicinais, de terra, que serviam de rota de fuga de traficantes – e seu corpo foi encontrado justamente numa delas. Ele passou a se interessar também por outros dois esquemas criminosos na área: a compra e venda de motos roubadas, que são depois usadas como mototáxi, e o aterro de terrenos protegidos pelas leis ambientais. Se já estão livres das investigações policiais, os bandidos certamente não querem um jornalista fuçando em seus negócios. Fazer jornalismo em regiões como o Vale do Jequitinhonha é mais do que profissão, do que um diploma que autorize alguém. É um ato de coragem, de enfrentamento da falta de estrutura mínima de segurança, da miséria humana explorada por criminosos.

Não está claro se Metzker estava no faro de algo certeiro. Em seu blog, ele publicou apenas histórias menos ameaçadoras, como a do uso de carros públicos para fins particulares ou a de um garoto que tinha sérios problemas bucais e estava sem atendimento. Elizete, a dona da pousada, provocava Metzker: “Tô achando o senhor muito fraquinho. Essas historinhas aí não estão com nada”. O jornalista replicava, pacientemente. “Calma, menina. Muita coisa ainda vai mudar nesta cidade.” A polícia recolheu o notebook e as anotações de Metzker para tentar identificar alguma pista. A delegada Fabrícia, primeira a comandar a investigação, insiste que há a possibilidade de um crime passional. Ilma, a mulher de Metzker, nega com firmeza. “Ele me dava notícia de cada passo que dava. A gente trocava recado sem parar. Ele nunca tinha ido a Brasília antes, a história não fecha.” Na noite em que desapareceu, Metzker enviou a última mensagem pelo WhatsApp para a mulher, dizendo que ia jantar e que eles se falariam mais tarde. “Nunca vou esquecer o que aparece no celular: ‘Metzker, visto pela última vez às 19h03’”, Ilma chora.

A morte brutal de Metzker não mobilizou as forças policiais do Estado de Minas Gerais imediatamente. Depois que o corpo foi liberado do IML e seguiu para Medina, três investigadores de Padre Paraíso começaram lentamente as diligências. A delegada Fabrícia viajou na noite de terça-feira para seu plantão rotineiro em Pedra Azul. Um dos investigadores avisou logo que só atenderia a reportagem na quarta-feira se fosse até as 16h30, quando ele iria para a faculdade. Apesar da barbárie, o silêncio foi absoluto. O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, do PT, não disse palavra sobre o caso. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, também não. Nem mesmo o secretário de Direitos Humanos da Presidência da República, Pepe Vargas, pronunciou-se. Todas essas autoridades, mesmo provocadas por ÉPOCA, permaneceram caladas. (Na tarde da sexta-feira, Pepe finalmente falou. Disse que o caso é grave e vai acompanhá-lo.)

Após ÉPOCA noticiar em seu site a falta de empenho nas investigações, o governo de Minas se mexeu. Uma equipe de Belo Horizonte chegou a Pedro Paraíso na noite de quarta-feira: um delegado, quatro investigadores e uma escrivã. Na quinta-feira pela manhã, eles estavam no local onde o corpo foi encontrado. De lá, seguiram para a delegacia, onde pediram o material apurado até ali pelos policiais da cidade. Antes do meio-dia, o acesso ao inquérito já estava bloqueado para os investigadores locais. Não havia nenhuma pista de quem decapitou o jornalista Metzker.

TESTEMUNHA
O blogueiro Valseque Bomfim, que publica notícias policiais. Ele ouviu dizer que “pegaram o homem errado” (Foto: Leo Drumond/Nitro/Época)

Emerson Morais, o delegado de Belo Horizonte que assumiu o caso, comandou as investigações, em 2013, do assassinato de Rodrigo Neto, jornalista de Ipatinga, no Vale do Aço de Minas. Rodrigo denunciava a atuação de policiais corruptos e homicidas da região. Um mês depois, o fotógrafo Walgney Carvalho também foi morto, depois de ter dito pela cidade que sabia quem havia assassinado Rodrigo. Um policial civil foi condenado pela morte de Rodrigo. Um outro rapaz, conhecido como Pitote, ainda será julgado por envolvimento nos dois crimes. O delegado Morais foi procurado pelo blogueiro Valseque, o amigo de Metzker. Valseque contou que fora ameaçado. Um amigo disse a ele que um homem havia perguntado por Valseque num bar. Quando soube que Valseque estava na cidade, comentou que “pegaram o homem errado”. Seu blog, Lente do Vale, publica o mesmo tipo de matérias que o de Coruja.

Metzker não pôde ser velado – o cheiro do corpo decomposto extravasava mesmo com a urna lacrada. Não houve flores. A filha mais velha, Sara, não teve tempo de chegar de Belo Horizonte para se despedir do pai. À meia-noite de segunda-feira, dez parentes e amigos acompanharam o corpo até o cemitério de Medina. O caixão de Metzker ainda não foi coberto com terra ou cimento. Aguarda a documentação para o sepultamento completo. O caso segue aberto, assim como a sepultura de Metzker.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

ESTOU FICANDO ASSUSTADO



SUL 21, 21/mai/2015, 8h30min



Por Antônio Escosteguy Castro



A situação da Segurança Pública no Rio Grande do Sul está ficando crítica. Desde o início de seu governo, Sartori vem acumulando erros e trapalhadas. Primeiro cortou as diárias e as horas extras; depois reduziu a gasolina das viaturas; depois anunciou que iria suspender ou mesmo eliminar os reajustes negociados no Governo Tarso a serem pagos aos poucos, durante anos, de modo a melhorar um pouco a penúria salarial das polícias. Frustrados, centenas de brigadianos estão abandonando os quadros da PM e como os novos concursados não são chamados, o déficit de policiais aumenta rapidamente. Por mais honrada e competente que seja a nova cúpula das polícias, é muito difícil reverter a queda no moral da tropa com todos estes ataques.

Os resultados destas políticas míopes já se fazem sentir. As gangues do tráfico de drogas se agigantaram, impuseram toque de recolher em algumas vilas e vimos nos últimos tempos uma sucessão de execuções por acertos de contas que faria inveja à Máfia siciliana. Um especialista da área disse ao Sul21 que “no tempo do Tarso, o anúncio de um toque de recolher faria a Brigada ocupar a comunidade e revertê-lo. Como nada disso houve, o tráfico ganhou confiança”.

Há poucos dias vimos um arrastão cinematográfico num edifício de luxo do bairro Rio Branco , em Porto Alegre. Outro analista disse ao Sul21 que “ no Rio Grande do Sul não há ninguém com tal capacidade logística. É gente de fora, que veio atraída pela atual inoperância da polícia”.

Não bastasse isto, agora os jornais trazem a notícia de que uma operação policial secreta foi previamente vazada na internet, possibilitando a fuga de seus alvos. Sem comentários.

A blindagem midiática segura o Governo. Se o Grupo RBS tratasse o Governo do Estado, durante um mês, com a mesma rigidez com que trata o PT e Dilma , Sartori derreteria mais rápida e intensamente que Beto Richa no Paraná. No caso acima citado do vazamento prévio da Operação Arquipélago, o tom da matéria de Zero Hora poderia ser resumido na seguinte frase : “ Gente, que interessante. A operação vazou antes. Isto pode acontecer com qualquer um, né?” E depois tenta culpar a Justiça. Se algo parecido tivesse acontecido num governo do PT não haveria menos que uma sucessão de colunistas esbravejando no Jornal do Almoço e pedindo a renúncia do governador.

Mas o que me assusta tanto ou mais que a crise na segurança é o tamanho da fatura política que virá desta blindagem total. No Rio Grande do Sul, os Grupos RBS e Gerdau comandam, política e organicamente, o empresariado local. Premidos, agora, pela sombra bilionária da Operação Zelotes, que tem potencial para abalar profundamente mesmo estes gigantes, devem acelerar sua voracidade sobre o estado. A extinção da Uergs ( com a liberação de milhares de matrículas para as universidades privadas); o pedagiamento das estradas federais e estaduais (que criam mega-empresas que faturam à vista e gastam a prazo); a concessão do tratamento do esgoto à iniciativa privada (retirando da CORSAN algo bem mais lucrativo que o tratamento da água) e ainda o fatiamento da CEEE (aproveitando o processo de renovação da concessão que está em curso este ano) bem como outras medidas desta natureza podem trazer bilhões ao meio empresarial gaúcho, alcançando todos que tenham porte , crédito e relações para integrar os grupos de beneficiados.

O desmonte do estado do Rio Grande do Sul pode ser a salvação da lavoura para um empresariado tacanho e normalmente avesso à inovação.Com a RBS e a Globo a justificar e propagandear, este desmonte pode ser apresentado à opinião pública como a salvação…. do estado.

Sartori deve apresentar nesta semana sua “agenda positiva” e adiou para junho o anúncio das “medidas de ajuste”. O lobby continua, bem como a blindagem. Meu medo é que o Rio Grande , além de falido, seja estraçalhado.

Antônio Escosteguy Castro é advogado.

UM MAIORES MATADORES DE POA ESTAVA LIVRE

DIÁRIO GAÚCHO 22/05/2015 | 10h07

Eduardo Torres

Matador preso na noite de quinta coleciona pelo menos duas chacinas. Fernando Lopes Antunes, o Troia, 30 anos, considerado um dos maiores matadores da Capital, foi preso quando visitava o filho recém-nascido, armado, em pleno Hospital Militar.



Troia é investigado por mais de dez homicídios desde 2013 Foto: divulgação / Polícia Civil




Há pelo menos três meses os investigadores da 4ª DHPP tentavam mapear os passos de Fernando Lopes Antunes, o Troia, 30 anos, e, no começo da noite de quinta, o surpreenderam enquanto visitava a companheira e o filho recém-nascido, no Hospital Militar de Área de Porto Alegre, no Bairro Auxiliadora.

Na mesma semana em que criminosos atacaram soldados em pleno Quartel-General do Exército, Troia deu mais uma demonstração da ousadia dos bandidos. Em plena zona considerada militar, ele, que era procurado pela Justiça, estava armado com uma pistola 9mm e dois carregadores.

Considerado o braço direito de Luís Fernando Barbosa de Lima, o Ninho, de acordo com a polícia, Troia era considerado um dos maiores homicidas de Porto Alegre que ainda circulava pelas ruas. Tinha contra si três mandados de prisão preventiva e é investigado por mais de dez homicídios e tentativas de homicídios desde 2013.

- Ele é extremamente violento. Desde a prisão do Ninho, passou a se esconder e provavelmente vinha sendo protegido por um grupo criminoso - afirma o delegado Adriano Melgaço, responsável pela prisão.


Entre os crimes em que ele é apontado como autor estão duas chacinas no ano passado. Ambas relacionadas à guerra aberta entre ele e Ninho contra traficantes que os teriam expulsado da região da Rua Orfanotrófio, na Vila Cruzeiro.

Em março, Troia estaria entre os atiradores que executaram os jovens Cassiano Gomes Ferraz, 28 anos, Lucas de Deus da Silva, 17 anos, e Henrique Schultz da Silva, 14 anos, no Bairro Teresópolis. Oito meses depois, o ataque foi contra a família de Paulo Roberto Bueno Mor, 33 anos, considerado um dos gerentes do tráfico na Orfanatrófio, em sua casa em Tramandaí. Três foram mortos.

Desde então, Troia e Ninho, que ainda se envolveram na tentativa de homicídio contra um policial militar na Zona Leste de Porto Alegre, deixando o agente paraplégico, estavam jurados de morte pelos rivais.

Como é considerado o braço direito do Ninho, Troia também está entre os investigados pelo ataque ao Hospital Vila Nova, em março deste ano, quando criminosos trocaram tiros com agentes da Susepe que guarneciam o Ninho, ferido.


* DIÁRIO GAÚCHO

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CONTROLE DE PEÇAS USADAS POR FERRO-VELHO

ZERO HORA 21/05/2015 | 07h08min


Comércio de peças usadas por ferro-velho terá maior controle. Para reduzir roubos e furtos de veículos e combater a informalidade, empresas serão credenciadas

por Carlos Ismael Moreira



Único credenciado em Porto Alegre, Silva espera que com a lei federal a fiscalização seja efetiva Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS


Oito anos e duas leis depois — uma estadual e outra federal —, o controle do comércio de peças usadas pelos ferros-velhos se encaminha, finalmente, para funcionar na prática. Com objetivo de reduzir os ataques a veículos, uma lei estadual foi criada em 2007. De lá para cá, enquanto o credenciamento dos desmanches não avançou, a ação dos ladrões manteve ritmo acelerado — o primeiro semestre deste ano registrou aumento de 23,7% nos roubos de veículos no RS em relação ao mesmo período do ano passado.

Nesta quarta-feira, a Lei Nacional dos Desmanches entrou em vigor com prazos para ações dos Estados e adequações das empresas. A expectativa de autoridades e comerciantes é de que agora a regra não vá ficar apenas no papel — tudo vai depender de que os órgãos governamentais envolvidos façam a sua parte.


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De autoria do ex-deputado Adroaldo Loureiro, atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, a norma estadual ficou engavetada até a regulamentação, em 2011. A partir daí, a Companhia de Processamento de Dados do Estado iniciou a elaboração do sistema informatizado para registro dos estoques (GDI Desmanches), mas a ferramenta só começou a ser testada em agosto de 2013.

Empresários também enfrentavam burocracia para obter licenças, alvarás e cadastro para emissão de nota fiscal eletrônica. Resultado: dos 317 ferros-velhos que pediram credenciamento no Departamento Estadual de Trânsito (Detran), apenas 12 se transformaram em Centro de Desmanche Veicular (CDV), com inclusão no Portal dos Desmanches, lançado no final de 2014. Conforme a diretora técnica do Detran, Carla Badaraco, a sanção da lei nacional, no ano passado, exigiu novas adequações.

— Assumi em janeiro deste ano com a determinação de colocar em prática (a norma) e tomamos todas as providências para que isso aconteça — diz Carla.

Na semana passada, foram publicadas duas portarias reabrindo credenciamento para os ferros-velhos. A partir disso, o desmanche recebe status de "registrado operacional", e tem um ano para cumprir as exigências e se transformar em CDV.

— Fizemos e seguiremos fazendo nossa parte. Precisamos que as autoridades façam a delas, cerceando as empresas ilegais — avalia Dagoberto Generoso Pereira, presidente do Sindicato dos CDVs do RS.

No Departamento Estadual de Investigações Criminais, o delegado Luciano Peringer, titular da Delegacia de Roubos de Veículos, calcula que entre 20% e 30% dos veículos roubados e furtados têm os desmanches como destino. O controle rigoroso da origem das peças deve reduzir as ocorrências:

— Hoje, só podemos checar a procedência nas peças com numeração de fábrica. Com o novo sistema, tudo será etiquetado e vamos saber de onde veio e para onde foi. Isso dificulta o repasse de material pelos criminosos — diz Peringer.

Em São Paulo, onde lei semelhante já está em vigor, os roubos de veículo na Capital baixaram 25,6% e os furtos caíram 7,2% no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período de 2014.

O acompanhamento dos credenciados será realizado pelo Detran. A fiscalização dos desmanches irregulares fica a cargo das prefeituras. Segundo Roberson Cardoso, assessor técnico da área de trânsito da Federação das Associações de Municípios do RS, os Executivos municipais têm condições e interesse em manter fiscalização efetiva tão logo os prazos para regularização se encerrem:

— O registro legal se reverte tanto na redução da criminalidade quanto em arrecadação.

Porto Alegre tem só um credenciado

Na Capital, Luiz Paulo Coelho da Silva, proprietário do CDV Oficina da Moto, foi o único a finalizar o processo e ter a empresa incluída no Portal dos Desmanches do Detran. O comerciante acompanhou desde o início a criação de regras e teve de lutar contra a burocracia para obter o credenciamento.

— Levei três anos para conseguir toda a documentação. Perdi as contas de quantas vezes fui aos bombeiros e à Secretaria do Meio Ambiente — conta.

Silva também precisou abrir mão da retificadora, do comércio de peças novas e da oficina que mantinha junto do ferro-velho, com perda de 40% no faturamento, conforme seus cálculos — os CDVs são proibidos de manter atividades paralelas. O comerciante acredita que, a longo prazo, a legalização vai recuperar a perda e aumentar a receita de seu negócio.

— Sabes a imagem que tem ferro-velho, o pessoal coloca tudo no mesmo balaio da marginalidade. O meu sonho era ter a firma legalizada, correta e poder ganhar com isso — diz Silva.

Com mais de 1 milhão de peças na loja, o comerciante deve contratar pelo menos mais quatro funcionários para dar conta do serviço: um para realizar a descontaminação e desmontagem dos veículos, outro para operar o sistema de cadastro de peças e mais dois estoquistas. Na avaliação de Silva, a entrada em vigor da legislação nacional renova o ânimo e tem tudo para fazer o sistema avançar:

— Traz segurança para o empresário e para o consumidor por não se envolver com peça roubada. Mas para isso, precisa fechar as empresas ilegais. Se não, a concorrência é desleal.

Os prazos


Desde 2007, 317 ferros-velhos se cadastraram para realizar o credenciamento no Detran como Centro de Desmanches de Veículos (CDV). Até agora, 12 haviam finalizado o processo, mas precisarão fazer adequações.

20/8/2015 - Data-limite para que os ferros-velhos façam o cadastro no Detran após a entrada em vigor da lei federal. Aqueles que não encaminharem cadastro no prazo, ficam sujeitos a interdição por parte da fiscalização municipal.

20/8/2016 - Término do prazo para que os desmanches cadastrados estejam adequados às novas exigências da lei e concluam o credenciamento.

Como vai funcionar
O sistema
O Detran controlará o comércio de autopeças, gerenciando o credenciamento de empresas habilitadas para o serviço. Os desmanches irão alimentar um banco de dados com a movimentação de compra e venda das peças de veículos usadas. O credenciamento dos ferros-velhos terá validade de um ano, na primeira vez, e cinco anos, a partir da primeira renovação.

O cadastro
Para cada veículo comprado para desmanche, o estabelecimento deverá emitir nota fiscal de entrada no ato de ingresso. A empresa terá cinco dias úteis para solicitar ao Detran a baixa do registro do veículo. Somente depois dessa etapa poderá desmontá-lo totalmente, com prazo máximo de 10 dias úteis.

A etiquetagem
Após a desmontagem do veículo, as peças devem ser registradas no banco de dados do Detran em até cinco dias úteis, recebendo etiquetas com código de barras. Os consumidores poderão consultar as peças no Portal dos Desmanches: detran.rs.gov.br/portal-desmanches.

O arquivo
A empresa deverá manter em arquivo, pelo prazo de 10 anos, os documentos e certidões dos veículos desmontados no local.

A nota fiscal
A cada venda de peça deve ser emitida nota fiscal eletrônica da transação para registro no Detran.

A reciclagem
Peças sem aproveitamento terão de ir para sucata em até 20 dias, respeitando todos os cuidados e regras previstos na legislação ambiental.

terça-feira, 19 de maio de 2015

FRENTE CONTRA O CRIME



ZERO HORA 19 de maio de 2015 | N° 18167


EDITORIAIS



Causou forte impacto nos gaúchos ontem o audacioso assalto a um condomínio residencial no bairro Rio Branco, na Capital, numa área que concentra moradores de alto poder aquisitivo, protegidos por segurança privada, câmeras e grades. O roubo cinematográfico, feito sob minucioso planejamento e protagonizado por bandidos fortemente armados, destoa um pouco da rotina de crimes a que está exposta diariamente a população rio-grandense, mas evidencia igualmente o caos da segurança pública no Estado.

A cada fim de semana, uma média de duas dezenas de pessoas perde a vida por conta de homicídios e latrocínios, desmentindo, na prática, algumas estatísticas otimistas da Secretaria de Segurança, que apontam para a redução desse tipo de crime. Mas isso não é o mais preocupante. A metodologia utilizada e as falhas nas pesquisas talvez expliquem as controvérsias numéricas. O pior é a sensação de insegurança crescente, que faz de cada cidadão deste Estado, nas áreas nobres e pobres, uma vítima potencial da violência, dos tiroteios diários, das balas perdidas, dos assaltos e dos roubos. Essa sensação cresce ainda mais quando as autoridades não assumem as suas responsabilidades: a polícia diz que tem poucos efetivos e que não adianta prender porque a Justiça solta; os juízes dizem que os presídios estão superlotados e que não há mais para onde mandar os criminosos; os governantes dizem que não têm recursos para construir novas prisões. E, ao cidadão, só resta se trancar em casa e rezar para que não seja a próxima vítima, pois sabe que, mesmo atrás das próprias grades, não está seguro. Será que não chegou a hora de as autoridades de todas as áreas se unirem numa frente contra o crime, com ações conjuntas e visíveis, que façam a população sentir-se mais protegida?


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O Editorial faz um alerta que exige imediato tratamento. A questão é "o caos da segurança pública no Estado" e que "chegou a hora de as autoridades de todas as áreas se unirem numa frente contra o crime, com ações conjuntas e visíveis, que façam a população sentir-se mais protegida". Não dá mais para se omitir, nem as autoridades, nem o povo.

NÃO HÁ NADA MAIS IMPORTANTE DO QUE SEGURANÇA



ZERO HORA 19 de maio de 2015 | N° 18167



DAVID COIMBRA




Tenho convicção de que o maior problema do Brasil, hoje, é a segurança pública. O conjunto formado por leis lenientes, polícia desvalorizada e presídios desumanos produz males tão profundos e tão corrosivos, que prejudicam quase todos os outros estamentos da sociedade.

Um exemplo comezinho: como os brasileiros sentem medo de caminhar nas ruas, veem-se obrigados a usar mais os carros particulares do que o transporte público. Como usam mais os carros particulares, o trânsito fica pior e as cidades ficam mais poluídas. Com o trânsito pior e as cidades mais poluídas, as pessoas ficam mais nervosas e agressivas. Com pessoas mais nervosas e agressivas, a violência urbana aumenta.

É um mal que se retroalimenta.

Assim em várias outras instâncias.

A violência também obriga o cidadão a gastar mais. Antes, havia um carro por família. Hoje, há famílias que têm quatro, cinco carros, não por luxo: porque precisam. Porque sair à rua a pé é um risco.

Essas pessoas, quando se deslocam de um lado para outro, não podem deixar o carro no meio-fio, é preciso pagar um estacionamento, ou aceitar o achaque de um flanelinha. Mais gastos.

Os edifícios necessitam de portaria e sistema de segurança. Os estabelecimentos comerciais necessitam de vigilância particular.

Qual é o custo disso?

Feche tudo, Sartori, corte tudo, mas não tire um único policial da rua, não racione a gasolina das viaturas, não diminua o horário das delegacias.

Segurança pública é item de primeira necessidade. É caso de sobrevivência. Não se economiza em sobrevivência.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Maslow coloca a SEGURANÇA como a segunda maior necessidade do ser humano, logo após as necessidades fisiológicas. Não é a toa que os países apontam a SEGURANÇA como um direito básico, social e fundamental de todos os seres humanos, e a Constituição Brasileira não esqueceu disto. Porém, esta mesma constituição, na hora de determinar quem iria exercer o dever de garantir o direito do povo brasileiro à segurança público, esqueceu que o Brasil saiu de um regime de exceção para um regime de pleno Estado Democrático de Direito que exige o envolvimento dos instrumentos de justiça na execução e aplicação das leis. É este equívoco que vem permitindo a continuação da gestão e ingerência partidária das forças policiais e prisionais, a segregação destas forças pela justiça e o caos na execução penal, com divergências, morosidade, discriminações, desarmonia e ineficiência na justiça criminal.



PATRULHA CIVIL PARA AFASTAR LADRÕES DE GADO

ZERO HORA 19/05/2015 | 05h01min


Insegurança faz produtores criarem patrulha para afastar ladrões de gado em Bagé. No ano passado, foram mais de 7 mil ocorrências no Estado, especialmente no Sul e na Fronteira, onde polícia promete reforço até o fim de junho


por Joana Colussi




Produtores monitoram a região à noite e avisam os policiais caso percebam movimentação suspeita Foto: Francisco Bosco / Especial


A névoa típica do outono gaúcho ainda não se dissipou no amanhecer de Bagé, na Campanha, e produtores já estão no campo fazendo a vigia do gado. Usando binóculos e comunicando-se via rádio, os pecuaristas alertam os vizinhos em caso de movimentação suspeita.


A organização é uma tentativa coordenada e desesperada de proteger o patrimônio constantemente ameaçado por abigeato — furto de animais nas propriedades.

Em 2014, Bagé liderou o número de registros do crime no Rio Grande do Sul, com 228 casos, conforme estatísticas da Secretaria da Segurança Pública. O número foi 30,3% maior do que no ano anterior.



Produtores relatam que a redução do patrulhamento militar no meio rural por conta do corte de despesas promovido pelo governo estadual, somada ao maior interesse dos criminosos em um produto mais valorizado, fez aumentar a insegurança nas fazendas.

O sentimento de desproteção os motivou a agir por conta própria. Organizados em grupos, os produtores fazem vigílias noturnas e comunicam a polícia quando desconfiam de alguma movimentação. Dias atrás, em uma das patrulhas, produtores estranharam a circulação de um carro nas imediações das fazendas e avisaram a Brigada Militar. Ao abordarem o veículo mais tarde, os policiais encontraram objetos que costumam ser usados pelos criminosos, como facas, lonas pretas e lampiões.

— Essa situação toda fez os produtores se mobilizarem. Não é para agir como polícia, mas para tentar defender seu patrimônio. Diante de tamanha apreensão, nos cabe buscar formas de proteção — destaca Paulo Ricardo de Souza Dias, diretor da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

Segurança particular no radar


Chefe da Polícia Civil esteve em Bagé no dia 5, ouviu reivindicações e prometeu resposta à série de ataques (Foto Francisco Bosco, Especial)

Há duas semanas, os produtores fizeram uma manifestação contra o abigeato na estrada Corredor dos Collares, onde bandidos têm agido livremente. Em Bagé no mesmo dia para participar de posse da chefia regional, o chefe de Polícia Civil do Estado, Guilherme Wondracek, foi convidado a ir até o local, onde ouviu reivindicações de mais segurança no campo.

Menos de 12 horas depois do apelo, a Cabanha Capanegra foi vítima de abigeatários a poucos quilômetros dali.

— Mataram seis reprodutoras da raça angus, todas elas prenhes. As vacas foram carneadas na fazenda mesmo. Ficaram apenas as cabeças e o espinhaço dos animais — lamenta Fernando Dornelles Pons, proprietário da cabanha.

Vítima de abigeato pela primeira vez, Pons é praticamente um caso isolado. Na Campanha, é difícil encontrar algum pecuarista que não tenha tido animais mortos ou roubados para abastecer a cadeia criminosa — que começa com o furto, passa pelo transporte ilegal e abate clandestino e termina na venda ilegal da carne aos consumidores.

— Estamos falando de quadrilhas organizadas, que comentem crime não apenas contra os produtores, mas contra a saúde pública — critica o presidente do Sindicato Rural de Bagé, Rodrigo Móglia.

A pouco mais de cem quilômetros de Bagé, produtores de Pedras Altas, no Sul, também passam por problemas parecidos. Mas em vez de formarem grupos para garantir a vigilância dos rebanhos, a organização é para contratar segurança particular. Diante do aumento nos crimes, a ideia é juntar recursos de pecuaristas para bancar a vigília noturna de um profissional em fazendas que fiquem em um determinado raio de distância.

Mercado clandestino e perigoso


Foto: Francisco Bosco, Especial

Após serem furtados ou carneados nas fazendas, os animais abastecem um mercado clandestino que envolve cerca de 400 mil cabeças de gado por ano, estima o Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado (Sicadergs). Essa carne é consumida sem qualquer inspeção sanitária, representando perigo para a saúde pública.

— Esse produto chega ao mercado sem cumprir nenhuma regra de sanidade — alerta Ronei Lauxen, presidente do Sicadergs.

Na semana passada, denúncia anônima resultou na apreensão de quase 7 toneladas de carne sem procedência em Torres.

Hoje, a indústria gaúcha de carne bovina abate cerca de 1,9 milhão de animais por ano. Embora não seja o único fornecedor do abate clandestino, o abigeato responde por boa parte do que chega ao mercado sem inspeção.

Quase 50% dos furtos de gado ocorrem nas regiões da Campanha, Missões, Fronteira Oeste e Sul, informa a Secretaria da Segurança Pública. Animais de raça prontos para o abate são o alvo preferencial dos ladrões.

— Tudo que é desviado agrava a escassez de matéria-prima, um dos limitadores dos frigoríficos gaúchos hoje — destaca Lauxen.




Polícia promete criar até fim de junho equipes-volante para combater abigeato. Ideia é que unidades atuem em 197 municípios da Fronteira Oeste, Sul, Campanha, Noroeste e Missões



Meta é deslocar de 50 a 60 policiais militares e civis deslocados para apoiar o combate a crimes no meio rural Foto: Diego Vara / Agencia RBS


Desmontar esquemas criminosos envolvendo abigeato tem se tornado tarefa cada vez mais difícil para a polícia. Organizados em cadeias criminosas, os bandidos conseguem burlar a fiscalização para transportar animais e entregá-los em abatedouros.

Uma das táticas usadas é arrendar áreas de terra para conseguir bloco de produtor rural e, assim, guia de trânsito animal. Com isso, garantem passagem livre quando são parados em fiscalizações. Em 2015, já foram descobertas fraudes deste tipo em Bom Jesus, Cacequi, São Gabriel e Santiago.

— As quadrilhas estão cada vez mais especializadas. O combate requer ações conjuntas de diversos órgãos, não só da polícia — reconhece o coronel Rogério Martins Xavier, coordenador do Comitê de Prevenção ao Abigeato e à Carne Clandestina do governo estadual.

A partir de diagnóstico feito pelo governo, diz Xavier, constatou-se a necessidade de reforçar o policiamento nas áreas rurais próximas à Fronteira, onde áreas mais extensas facilitam a ação de bandidos.

Ainda no primeiro semestre deste ano, adianta o coronel, três unidades-volante sob comando integrado de Brigada Militar, Polícia Civil e Instituto Geral de Perícias (IGP) atuarão em 197 municípios da Fronteira Oeste, Sul, Campanha, Noroeste e Missões.

Serão de 50 a 60 policiais militares e civis deslocados para apoiar o combate a crimes no meio rural — não só envolvendo roubo de gado, mas outros delitos como furto de insumos agrícolas e tráfico de drogas.

— Queremos devolver à comunidade rural, que detém toda a produção agropecuária do Rio Grande do Sul, a percepção de segurança — promete Xavier.

Projeto de lei visa punições mais severas


Considerado furto simples pelo Código Penal, o abigeato poderá ter punição mais rigorosa a partir de projeto de lei em tramitação na Câmara, em Brasília. Pela proposta, a pena será ampliada para dois até oito anos de prisão (sem direito à fiança) a quem furtar, receptar e abater animais ilegalmente — além de responsabilizar quem vende o produto clandestino.

— A prática evoluiu para um crime organizado que precisa ter punição prevista a todos os envolvidos — diz o autor do projeto, deputado Afonso Hamm (PP-RS).

Atualmente, a pena para ladrões de gado é de um a quatro anos. Além de dobrar a punição, incluindo no crime receptores e transportadores dos animais, a proposta prevê reclusão de dois a cinco anos e multa para quem comercializar a carne.

— Trata-se de um crime contra a saúde pública. A carne abatida clandestinamente é inapropriada para o consumo — completa.

Aprovado em abril na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara, o projeto seguirá agora para análise em plenário. Com pedido de urgência protocolado na semana passada, a matéria poderá ser votada assim que a pauta for destrancada. Após, deverá ainda seguir para o Senado.



Ataque a vacas premiadas na Expointer causou prejuízo de R$ 200 mil. Bandidos não fazem distinção e matam animais que dariam origem a valiosos embriões no Sul


Em Santa Vitória do Palmar, proprietárivacas da raça hereford foram carneadas por ladrões Foto: Alexandre Teixeira / Divulgação


Desde 2010, a Estância Tamanca não passou sequer um ano ilesa da ação de ladrões em Santa Vitória do Palmar, no sul do Estado. O último caso, no mês passado, foi o mais emblemático para o pecuarista: as vítimas eram grandes campeãs da raça hereford na Expointer.


Premiadas em Esteio, as vacas dariam origem a embriões que seriam vendidos no remate comemorativo aos 40 anos da Estância Tamanca, previsto para outubro. Uma delas era mãe de um touro campeão na Expointer do ano passado.

— Os animais eram o principal destaque do remate, pelo alto valor genético — lamenta Ricardo Sperotto Terra, um dos proprietários da cabanha.

Carneadas na própria fazenda durante a madrugada, as vacas foram mortas com outros cinco animais, todos doadores de embriões. O prejuízo calculado pelo produtor passa de R$ 200 mil. Localizada às margens da BR-471, a 30 quilômetros de Santa Vitória do Palmar, a Estância Tamanca acaba se tornando um alvo fácil de ladrões de gado que passam pela rodovia.

— Frequentemente, também somem ovelhas. No fim do dia, a contagem não fecha — relata Terra, acrescentando que, na cidade, chega a ouvir comentários de onde a carne roubada de sua propriedade é vendida, mas não pode fazer nada.

No Sul, temor pela própria vida

O sentimento de impotência diante da ação de criminosos e insegurança no campo é compartilhado por produtores de Pedras Altas, também no sul do Estado.

Dias antes do final do ano passado, o veterinário e produtor Alfredo da Silva Tavares, proprietário da Cabanha Timbaúva, teve cinco vacas da raça devon mortas e carneadas dentro da propriedade.

— Eram mães de touros levados na Expointer no ano passado — desabafa o produtor, que há um mês teve cinco novilhas e uma vaca furtadas vivas.

Morando na propriedade, que fica localizada a 10 quilômetros do centro do município, Tavares teme pela segurança da mulher e dos funcionários da cabana:

— Os bandidos sabem que não temos armas. Por isso, eles não têm medo de entrar aqui.

Dicas de prevenção

— O produtor deve buscar ter o máximo de controle sobre o rebanho, com contagens periódicas que permitam identificar o possível sumiço de animais para comunicação à polícia.

— É importante conhecer bem os funcionários que trabalham na propriedade. Muitos casos de abigeatos ocorrem com a ajuda de trabalhadores que se aproveitam da confiança dos proprietários.

— Todos os crimes devem ser registrados na Polícia Civil, pois a análise criminal e tomada de ações é feita com base nas ocorrências.





CRIMINALIDADE COM TENTÁCULOS MUITO MAIS FORTES



ZERO HORA 19 de maio de 2015 | N° 18167


ENTREVISTA. “A criminalidade está com tentáculos muito mais fortes”


LÚCIA HELENA CALLEGARI. Promotora da Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Porto Alegre


Para a promotora Lúcia Helena Callegari, da Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Porto Alegre, a impunidade e a redução do custeio da Brigada Militar são alguns dos fatores que contribuem para o aumento da “audácia de quem comete crimes”. A afirmação foi feita aos apresentadores do programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, na manhã de ontem. Enquanto a entrevista era realizada, ocorreu o assalto ao prédio do bairro Rio Branco, em Porto Alegre.

Que avaliação a senhora faz da segurança pública na Capital?

Algum tempo atrás eu dizia que tínhamos duas Porto Alegre: a que estava acontecendo nos bairros de menor renda e a outra que estava acontecendo na realidade que nós vivemos. Agora, a mesma realidade dos bairros tomou conta de todas as regiões da Capital. Há uma série de ocorrências que tem me deixado extremamente preocupada, porque é traficante caçando traficante em plena luz do dia e em ruas de alto movimento. A ousadia chega a tal ponto que se tenta invadir o Exército atrás de armas. Não acho que só a falta de policiamento ostensivo leva a isso. É a falta de punição, a liberalidade das leis. Não existe mais preocupação com a efetiva punição.

Onde estamos falhando?

Entendo que tivemos uma grande melhora com as delegacias especializadas. É óbvio que há uma certa desmotivação no momento em que se tiram horas extras, quando se tem combustível reduzido. De qualquer modo, a investigação tem melhorado. Existe um medo muito forte de quem tem de prestar depoimento, e isso se reflete na prova. Muitos crimes não são apurados porque as pessoas não querem depor. E aqueles que são punidos chegam na execução criminal e a nossa lei é uma piada. A forma como se interpreta é pior ainda. Tenho denunciado pessoas que estão com tornozeleira com prisão domiciliar. Quer dizer, tinham de estar dentro do sistema e foram mal avaliadas.

Estatísticas da Secretaria de Segurança apontam redução da criminalidade. O que explica isso? Há um problema com as estatísticas?

Quando se tem chacinas, se coloca como um fato quando, na verdade, são três ou quatro. Começa por aí o erro. Falar em redução da criminalidade quando a gente tem visto o armamento muito mais pesado? Tem de pensar de onde está vindo. Há quatro ou cinco anos, a gente não ouvia falar nesse tipo de apreensão com essa frequência que tem acontecido. A apreensão desses armamentos mostra que a criminalidade está com poderes e tentáculos muito mais fortes do que tinha. As tentativas de homicídio são registradas, mas as pessoas morrem no hospital. Esses dados têm de ser verificados até que ponto são fidedignos com a realidade que se apresenta.

O aumento da ousadia está relacionado com a redução do custeio da polícia no Estado?

A partir do instante que se tem conhecimento de que os policiais vão estar com combustível reduzido, que o policiamento vai diminuir, porque horas extras não estão sendo pagas, há maior audácia de quem comete crimes porque acredita que não vai ser pego. Óbvio que isso não pode ser o único fator. É desestimulante para a população andar na rua e não encontrar policiamento, o que passa a sensação para quem comete crimes de que pode continuar. Não tenho dúvidas disso.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Oportuna a entrevista. A promotora LÚCIA HELENA CALLEGARI coloca muito bem que   "a impunidade e a redução do custeio da Brigada Militar são alguns dos fatores que contribuem para o aumento da audácia de quem comete crimes", mas os fatores mais preponderantes ela esqueceu de apontar que é o modelo de justiça criminal que temos no Brasil, fracionado, corporativo, cartorário, inoperante, segregador, desfocado da finalidade pública e sem observar a supremacia do interesse público, que enfraquece a autoridade e que se submete ao poder político e às leis obscuras e permissivas.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

CONDOMÍNIO É ASSALTADO EM POA

ZERO HORA 18/05/2015 | 14h08min

Condomínio é assaltado no bairro Rio Branco, em Porto Alegre. Nove criminosos teriam rendido porteiro e roubado pelo menos três apartamentos nesta manhã


por Bruna Scirea e Débora Ely



Edifício residencial no bairro Rio Branco foi alvo de criminosos na manhã desta segunda-feira Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Um condomínio residencial no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, foi assaltado na manhã desta segunda-feira. Conforme informações da polícia, um grupo de nove criminosos fortemente armados, com pelo menos um fuzil, pistolas e submetralhadoras, teria invadido o prédio, localizado na Rua Joaquim Pedro Salgado, número 145 — em frente ao Centro Universitário Metodista (IPA), — e roubado dinheiro e joias de pelo menos três apartamentos.


O bando teria entrado pela garagem do prédio, na Rua Liberdade, e rendido o porteiro do edifício — o Vivendas Bela Vista, de nove andares. Encapuzados, os bandidos ficaram cerca de duas horas dentro do prédio: ingressaram com o controle da garagem por volta das 7h e saíram do local somente por volta das 9h.

Os assaltantes teriam usado dois carros para efetuar o assalto — a suspeita é que sejam os veículos destacados no vídeo abaixo:


Com o porteiro rendido, os criminosos deram início a uma incursão pelo prédio. Moradores foram colocados, com as mãos amarradas, em um mesmo apartamento enquanto o assalto acontecia nas demais residências. Um HB20 branco, que ainda não teve as placas identificadas, teria sido usado no crime.

O comandante do 9º Batalhão da Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Francisco Vieira, acredita que se tratava de um grupo organizado. Os criminosos usaram luvas cirúrgicas para dificultarem a identificação e levaram a CPU com os registros das câmeras de segurança do condomínio.

— Trata-se de alguma quadrilha que está voltando a agir e se articulando, porque o crime migra. Aquela região concentra grandes apartamentos com pessoas de poder aquisitivo alto. Eles tinham informações privilegiadas, de estudos ou até mesmo de informantes da região — disse Vieira, em entrevista à Rádio Gaúcha. — É um tipo de crime audacioso e, pela sua audácia, também é rapidamente desvendado.


Arte/Zero Hora
Morador do condomínio, o odontólogo Valdemar Schazan atendia em seu consultório quando foi avisado sobre o assalto pelo filho. Ele foi até o local e encontrou o seu apartamento intacto — em reforma, a residência estava mobiliada apenas com eletrodomésticos.

— Isso é um reflexo do que está a cidade. Uma terra de ninguém. Nessa rua em frente, não se pode deixar carro estacionado que eles arrombam ou levam embora — desabafou.

Por volta das 13h, o porteiro que foi rendido ainda estava no prédio, mas não quis falar com a imprensa. O pai de uma vítima esteve no local e afirmou que todos estão "traumatizados". Assim como os moradores, os poucos que entraram e deixaram o condomínio após o ocorrido evitaram comentar o assalto.

— Não me leve a mal, mas foi muito pesado — disse um homem que, a passos apertados, acompanhou a esposa até o carro estacionado na rua e voltou ao condomínio.


Garagem pela qual criminosos teriam entrado no prédio
Foto: Ronaldo Bernardi / Agência RBS

Três agentes da Polícia Civil deixaram o prédio por volta das 12h30min. Peritos do Instituto Geral de Perícias (IGP) também saíram do condomínio no mesmo horário. Segundo o diretor do IGP, Paulo Ricardo Ost Frank, foram periciados apenas dois apartamentos. O órgão mantém contato com a Polícia Civil para verificar se há necessidade de outras perícias no prédio, já que ainda não se sabe, de fato, quantos apartamentos foram invadidos. Ele diz que as residências não estavam reviradas, o que indica que os criminosos "sabiam o que queriam".

As informações divulgadas inicialmente eram de que os criminosos estariam em um bando de 15 homens e teriam entrado em sete apartamentos. Os novos números foram repassados pela Polícia Civil, assim que que agentes deixaram o condomínio.


Três policiais civis deixaram o condomínio por volta das 12h30min
Foto: Débora Ely / Agência RBS

Condomínios da região são alvos de assaltos

Não é a primeira vez que um condomínio é alvo de bandidos na região. Em novembro de 2009, assaltantes disfarçados de vendedores de flores invadiram um prédio no bairro Bela Vista, fizeram uma mulher refém e fugiram levando dinheiro e pertences dos moradores. Em abril de 2011, um grupo de 10 criminosos invadiu um prédio, no bairro Mont'Serrat, e manteve moradores de sete apartamentos reféns por duas horas.

O comandante do 9º BPM suspeita que a mesma quadrilha, especializada em roubos a prédios de luxo, que cometeu os outros dois crimes esteja envolvida no assalto desta segunda-feira. Segundo Vieira, o grupo foi desmembrado e o líder segue preso na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), mas os demais integrantes teriam sido soltos.

— Eles devem estar se rearticulando. Como estamos combatendo assaltos a bancos e roubos de carro, eles estão migrando. E essa quadrilha vai se especializar e começar de novo — aponta Vieira. — A área não é coincidência. Além de ter muitos condomínios de luxo, aquele local sempre foi escolhido pela geografia, já que tem a possibilidade de rotas de fuga rápidas.

domingo, 17 de maio de 2015

TRISTE DIAGNÓSTICO



CORREIO DO POVO 17 de maio de 2015


OSCAR BESSI FILHO
Coluna da Edição Impressa – Página Polícia



Impressionante, e triste, o diagnóstico divulgado esta semana pelo Mapa da Violência 2015 no Brasil. Seguimos numa escalada cruel e descontrolada de mortes brutais. São cinco brasileiros assassinados a cada hora por arma de fogo. Mais de cem por dia, mais de quarenta mil por ano. Repito: estamos falando apenas no que a pesquisa da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) considera como “mortes matadas por arma de fogo”. Isto deixa de lado homicídios praticados com facas, asfixias e outras violências várias. É isto mesmo. Apenas tiros. E o número atinge um patamar inacreditável, inconcebível, que supera países em guerra.

Pasmem: este estudo trabalha com dados defasados. São de 2012. Sim, vivemos numa democracia pacífica. E temos uma lei do desarmamento. Mas quem está desarmado, afinal, nesta guerra fratricida? Ainda que o estudo aponte que outros quase duzentos mil teriam sido mortos se não houvesse a política de controle de armas de fogo no país, o resultado não acalenta. Não pode ser considerado positivo. Os assassinos não estão tendo muitas dificuldades em conseguir armas e sair por aí matando seus semelhantes. Outros assassinos, que apertam o gatilho sem tocá-lo, estão dando de ombros e aprovando a mortandade, com corrupção ou omissão, por alguns interesses seus. Deprimente.

Jovens e negros são os maiores alvos. Chega-se a conclusão de que a igualdade é um discurso pífio e nada lógico. A exclusão vive travestida no cotidiano, estereotipando e fomentando ódios. O óbvio e natural seria vivermos sob um conjunto de políticas públicas de fato, e não apenas em discursos, uníssonas em todo território nacional. Que não privilegiasse castas. Que não tomasse o capital como referência. Que não marginalizasse para, a partir desta marginalização, usar a geografia social como desculpa para proibir a perspectiva, o caminho alternativo à subserviência, ou impotência, contra a máfia do tráfico – ou quaisquer outras máfias – como se fosse o mais natural da vida.

O futuro é vilipendiado quando garotos de 19 e 20 anos ocupam o topo numérico de vítimas das balas brasileiras. Não pode continuar assim. Há que se deixar todas as diferenças de lado e se pensar – e construir! -, urgente, um país unido pela paz.

CRIMINOSOS DE OLHO NA REDE



ZERO HORA 17 de maio de 2015 | N° 18165

por *NELSON MATTOS


Na minha última coluna, eu abordei nossa ingenuidade em postarmos diariamente uma infinidade de informações pessoais a nosso respeito sem nos preocuparmos que tais informações podem ser usadas contra nós mesmos no futuro.

Somos ainda mais ingênuos se pensarmos que não apenas advogados, empresas e governos, mas também criminosos podem ter acesso aos nossos dados e rastros deixados para trás na internet. E, quando criminosos resolvem usá-los, as consequências são ainda mais desastrosas. Um bom exemplo é o caso de K. R. Ramamoorthy durante o atentado ao hotel Taj Mahal Palace em Mumbai na Índia em 2008. Os terroristas entraram no seu quarto e perguntaram quem ele era. Ele afirmou que era um professor de escola e os terroristas desconfiaram que um professor não teria condições de se hospedar num hotel tão luxuoso. Eles acharam seus documentos e, usando buscas na internet, rapidamente identificaram que ele era o presidente de um banco importante. Depois de ser despido e espancado, eles só não o mataram por que houve uma explosão exatamente quando eles iam executá-lo.

Tenho certeza de que você deve estar pensando que não corre o risco de se meter num atentado terrorista e, portanto, suas postagens nas redes sociais não vão criar nenhum problema. Será mesmo? Você já pensou em assaltos? Antigamente, quando um assaltante queria roubar uma casa, ele ficava observando a movimentação dos seus habitantes por vários dias a fim de definir a melhor hora para o assalto. Hoje em dia, em questão de minutos analisando nossas postagens no Facebook, Twitter ou Google+, eles sabem nossa rotina e, com muito mais precisão, quando saímos para jantar, vamos ao teatro, ou viajamos de férias. Tanto é, que 78% dos assaltantes presos no Reino Unido admitiram monitorar Facebook, Twitter e Foursquare antes de assaltar uma casa.

Somos tão ingênuos, que postamos imagens de itens valiosos para vender em sites de vendas online e nos esquecemos de que a maioria dos celulares de hoje embutem automaticamente a geolocalização de tais fotos de forma que qualquer um tem condições de descobrir onde estão esses itens valiosos. Assim, muitos dos sites de venda servem como um catálogo para os ladrões. Um casal em Indiana postou recentemente fotos da TV de plasma e do aparelho de som que queriam vender. Dois dias mais tarde, eles postaram no Facebook que iam num concerto e, quando chegaram em casa, a TV e o aparelho de som tinham desaparecido.

Até mesmo o exército faz tais ingenuidades. Quando as forças americanas receberam uma nova frota de helicópteros apache na sua base no Iraque, alguns soldados postaram no Facebook fotos deles em frente aos helicópteros. Grupos terroristas estavam monitorando e analisando todas as postagens dos soldados para obter mais informações sobre a base militar. A latitude e longitude embutidas nas fotos permitiram que os terroristas lançassem ataques de mísseis tão precisos, que destruíram quatro dos helicópteros recém-chegados.

E logo, logo chegará ao Brasil o novo esquema dos criminosos que monitoram suas postagens em redes sociais. Quando alguém posta que saiu de férias, eles ligam para seus avós como se fossem de um hospital no local de suas férias informando que você sofreu um acidente horrível. Dizem aos avós desesperados que seu seguro-saúde não é aceito no país onde você se encontra, e que você precisa urgentemente de dinheiro para cobrir uma operação de emergência. Uma grande quantidade de avós preocupados com a saúde dos netos remete o dinheiro imediatamente.

E os riscos com pedofilia e sequestros? Pedófilos no mundo todo rastreiam crianças na internet com grande eficiência. Já em 2012, a polícia no sul da Austrália informou ao público que pedófilos estavam usando a geolocalização embutida em fotografias de crianças postadas em redes sociais para identificar possíveis alvos e suas localizações, colocando em risco tais crianças. Da mesma forma, sequestros se tornaram muito mais fáceis com a vasta quantidade de informações disponíveis nas redes sociais. Recentemente, uma criança aqui mesmo na Califórnia foi sequestrada saindo da escola. Felizmente, o sequestrador foi preso. Uma vez na mão da polícia, o sequestrador contou que sabia tudo sobre a criança e a família lendo suas postagens nas redes sociais, o que lhe permitiu planejar (e executar) o sequestro rapidamente.

Infelizmente, a grande quan- tidade de dados sobre jovens e crianças disponível nas redes sociais tem ajudado a transformar a internet num terreno fértil para uma nova geração de criminosos que praticam o cyberbullying (bullying virtual). Esses criminosos podem facilmente obter informações detalhadas sobre as suas vítimas, usando os dados que vazamos todos os dias. Eles se utilizam da internet para assediar, ameaçar, intimidar suas presas enviando e-mails, mensagens de texto, postagens e espalhando boatos sobre a vítima. Temos vários casos de suicídios de jovens causados por cyberbullying. E não pense que isso só acontece com jovens e crianças, pois um número cada vez maior de adultos está sendo vítima de cyberbullying.

Seu risco é ainda maior se você pensar no volume de dados que as empresas que vivem de vender informações sobre pessoas têm a seu respeito. E lembre-se de que uma grande maioria desses dados é captada diretamente do seu perfil e suas postagens nas redes sociais. Em 2002, 1,6 bilhão de registros sobre pessoas foram roubados de tais empresas. Como tais registros chegam a ter 1,5 mil atributos diferentes a seu respeito, você pode imaginar o nível de detalhe que caiu nas mãos dos criminosos. E muitas vezes os criminosos nem precisam roubar tais registros. Eles os compram! Em 2013, a empresa Experian vendeu, por descuido, os registros de quase dois terços de todos os americanos a um grupo de crime organizado do Vietnã.

Espero que tenha ficado óbvio que corremos riscos enormes causados pelo mar de informações a nosso respeito que postamos diariamente. Assim, como já tinha dito na minha última coluna, o melhor mesmo é você pensar duas vezes antes de postar qualquer coisa.

NELSON MATTOS ESCREVE MENSALMENTE NESTE ESPAÇO

*Doutor em Ciências da Computação, gaúcho, residente no Silicon Valley, Califórnia