SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

TAXA DE HOMICÍDIOS DISPARA EM PORTO ALEGRE


ZERO HORA 30 de setembro de 2015 | N° 18310


MARCELO GONZATTO E MARCELO KERVALT


SEGURANÇA AVANÇO INDESEJADO. TAXA DE HOMICÍDIOS DISPARA NA CAPITAL

LEVANTAMENTO MOSTRA que número de assassinatos por 100 mil habitantes em Porto Alegre cresceu 23,2% entre 2013 e 2014, a terceira maior alta entre as 27 cidades avaliadas, cuja média ficou estagnada no período

Números preliminares do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública atestam que Porto Alegre vive uma escalada de violência muito superior à média das capitais brasileiras. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que a taxa de homicídios disparou 23,2% entre 2013 e o ano passado. O índice saltou de 33 para 40,6 assassinatos por 100 mil habitantes. No mesmo período, a média entre as 27 cidades ficou estagnada.

Porto Alegre registrou o terceiro maior crescimento entre esses municípios (veja quadro ao lado) com base em dados obtidos com as secretarias estaduais de Segurança. Ficaram à frente da capital gaúcha Campo Grande (MS), com acréscimo de 36,5%, e Teresina (PI), com 33,7%. Como resultado da disparada na taxa de assassinatos, Porto Alegre saltou da 17ª para a 13ª posição entre as capitais mais violentas do Brasil em um ranking liderado por Fortaleza (CE), com 77,3 óbitos por 100 mil habitantes. Também contribuiu para esse salto o fato de a violência ter permanecido estável no Brasil: a média de todas as capitais teve oscilação negativa de 0,1%.

– O crescimento verificado em Porto Alegre nos surpreendeu e demonstra que o homicídio é um problema de todo o país, não de algumas regiões. Exige esforços articulados – afirma o vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança e professor de administração pública da Fundação Getulio Vargas, Renato Sérgio de Lima.

Para o professor da Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUCRS Rodrigo de Azevedo, também integrante do fórum, o aumento do crime em Porto Alegre pode ser explicado, em parte, pelo fortalecimento de grupos criminais dentro das prisões e nas ruas:

– Como melhorou o esclarecimento de homicídios no governo passado, esperava-se uma queda na violência, que não se confirmou. Por um lado, isso pode ser explicado pela consolidação de facções que têm disputado territórios de forma extremamente violenta.

Para Azevedo, outra lição a ser tirada do relatório é de que não adianta melhorar a repressão por meio da elucidação de crimes sem maior atenção a programas de prevenção e à estrutura prisional.

– A falta de investimento no sistema penitenciário reforça as facções. Por mais que a polícia trabalhe e a Justiça condene, a situação continua a piorar – diz o professor da PUCRS.




SECRETÁRIOS NÃO COMENTAM DADOS

Na contramão de Porto Alegre, outras 13 cidades, como Maceió (AL), conseguiram reduzir suas taxas de assassinato. Segundo Lima, os bons resultados costumam envolver diversos eixos: participação comunitária (por meio de ações como policiamento comunitário), transparência (divulgação de dados e ocorrências), investigação e inteligência, e integração operacional entre polícias, Ministério Público e Judiciário.

A Secretaria Estadual da Segurança não se pronunciou sobre o assunto ontem. Titular da pasta no ano passado, durante o governo Tarso Genro, Airton Michels disse que não poderia fazer uma análise mais detalhada por desconhecer o relatório:

– Achei o crescimento apresentado muito elevado, precisaria avaliar melhor esse estudo.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública é uma organização não-governamental que reúne especialistas na área de várias regiões do país. O anuário completo deverá ser lançado dia 7 de outubro.


Investimentos do Estado na área foram reduzidos


Enquanto a violência cresce em Porto Alegre, o investimento do Estado em policiamento e inteligência segue na direção oposta. Conforme dados preliminares do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, caiu 11,4% a destinação de verbas para o policiamento entre 2013 e 2014, passando de R$ 357 milhões para R$ 316,4 milhões. A queda dos recursos para inteligência foi de 4,8% de um ano para o outro. Em 2014, o Estado investiu R$ 40,2 milhões, R$ 2,1 milhões a menos do que em 2013. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública considera policiamento e inteligência as áreas mais relevantes dentro da segurança pública.

Para o professor da PUCRS Rodrigo de Azevedo, a queda no investimento em áreas estratégicas é um dos fatores que explicam a tendência de aumento da criminalidade:

– A ideia é ter a Brigada Militar mais presente em certas áreas de maior violência, em um modelo comunitário, mas, para isso, precisa de investimento. Para combater as facções criminosas, são fundamentais o trabalho de inteligência e a presença mais permanente da polícia em determinadas áreas, não somente em momentos de crise.

Quando se incluem os gastos com setores como Defesa Civil e áreas administrativas, a aplicação do Estado teve incremento de 17,6% de 2013 para 2014, passando de R$ 2,6 bilhões para R$ 3 bilhões. Esse montante coloca o RS na quinta colocação no ranking de Estados que mais investiram em 2014, mesma posição do ano anterior. Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Fórum, ressalta que aplicar nesses setores não causa impacto direto no combate a crimes.

Se comparados os gastos na segurança pública com todas as despesas dos Estados de 2014, o Rio Grande do Sul é o quinto com menor percentual destinado a esse setor: apenas 5,8%. Em 2013, o índice foi de 6,8%. O governo federal gastou 0,5% em 2014, diante de 0,4% de 2013.

O Fórum também analisa a despesa por habitante com a segurança pública. Nesse cálculo, está todo o investimento no setor, incluindo despesas administrativas, aposentadorias e Defesa Civil. De 2011 a 2014, o Rio Grande do Sul aumentou o valor aplicado, chegando, no ano passado, a R$ 268,04 por cidadão – é o 16º no ranking.

Os números da União também mostram queda na aplicação de verbas. O investimento total em segurança pública foi de R$ 8,06 bilhões em 2014, abaixo dos R$ 8,7 bilhões de 2013, dos R$ 8,8 bilhões de 2012 e dos R$ 8,2 bilhões de 2011 – valores atualizados pelo IPCA de dezembro de 2014.



NOVO HAMBURGO. Tiro fere mãe e filho na frente de casa

LEANDRO RODRIGUES



BALA ACERTOU COLUNA vertebral de menino de 12 anos depois de atravessar o abdômen da mãe quando eles chegavam de carro. Criança corre risco de ficar paraplégica. Motivação do criminoso que dirigia um Corolla prata ainda é misteriosa


A Polícia Civil garante que deve prender a qualquer momento o homem que perseguiu e atirou contra o veículo em que estavam uma mulher e seus dois filhos, de nove e de 12 anos, em Novo Hamburgo. O crime ocorreu no início da noite de domingo, na porta do edifício onde a família mora.

O único disparo feriu gravemente a mãe e o filho mais velho. Ambos seguem internados no Hospital Regina – Ana Cristina Nalovaiko, 34 anos, está em observação pós-cirúrgica, e Gustavo Nalovaiko Neves corre o risco de perder o movimento das pernas.

– Hoje (ontem), nos abraçamos, conversamos muito. Ele (Gustavo) me disse: “Pai, quero voltar a caminhar” – contou o cirurgião Rogério Neves, pai do menino.

A mãe retornava para casa com os dois filhos no início da noite de domingo. Ela e as crianças saíam de um shopping junto à BR-116, em Novo Hamburgo. Pouco depois de deixar o local, já na rodovia, ela percebeu o carro que vinha atrás fazendo sinal com os faróis.

Segundo Rogério, Ana trocou de pista para permitir a ultrapassagem. Mas o automóvel, um Corolla prata, seguiu no encalço. Ainda na BR-116, a mulher conseguiu ganhar distância do perseguidor. Mas, dentro da cidade, as paradas nos semáforos novamente aproximaram os veículos. Diante do prédio onde mora, Ana parou para permitir a saída do carro de um vizinho pela garagem, e o Corolla emparelhou. Pela janela do passageiro, o motorista atirou uma vez, acertando a porta do lado de Ana, abaixo do vidro. Quando o criminoso puxou a arma, a mãe se jogou por cima do filho para protegê-lo. O projetil atravessou o abdômen de Ana e atingiu a coluna da criança. O irmão mais novo, Fernando, não foi ferido.

Uma câmera do prédio registrou o ataque, e as três primeiras letras da placa do Corolla prata – IPX – foram identificadas pela polícia. O delegado Enizaldo Plentz, responsável pelo caso, afirma que a motivação do crime ainda é apurada:

– Não me parece que tenha sido tentativa de assalto ou sequestro. Parece algum tipo de desavença. Algo que ocorreu no trânsito ou até antes, ainda no shopping. Acho que esse tiro fez mais dano do que se queria. Tenho a impressão de que era para dar um susto.



Empresário é executado com pelo menos 10 tiros


MAURICIO TONETTO


HOMEM DE 50 ANOS chegava ao trabalho ontem, em Novo Hamburgo, quando foi atacado por criminoso em uma moto que rondava o local

O empresário José Maciel Vargas, 50 anos, foi executado em uma emboscada no começo da manhã de ontem, de acordo com a Polícia Civil de Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. Imagens de câmeras de vigilância localizadas próximas à Panitz Extintores, empresa da qual Vargas era um dos donos, no bairro Primavera, às margens da BR-116, mostram um motociclista rondando o local onde aconteceu o assassinato minutos antes da execução de Vargas, por volta das 8h15min.

Em uma Honda Titan preta, o suspeito passou pela frente da Panitz mais de uma vez e, ao identificar o empresário, deu uma volta na rua, parou ao lado dele e efetuou pelo menos 10 tiros à queima-roupa, conforme o delegado Enizaldo Plentz, da DP de Homicídios da cidade. Três pessoas tentaram ajudar a vítima, que morreu no local.

– Sem dúvida nenhuma, não é assalto ou coisa do gênero. Temos relatos de que a motocicleta rondava desde segunda-feira a sede da empresa para observar a movimentação. Foi uma emboscada. As balas atingiram o rosto, o tórax e as costas. Ainda não sabemos os motivos. O crime foi encomendado, estamos atrás do mandante e iremos identificar o executor (motociclista) – afirma o delegado.

Vargas chegou ao trabalho em uma caminhonete Amarok branca, que não foi levada pelo assassino. Seus documentos e outros pertences também não foram roubados, o que reforça a tese da Polícia Civil de crime premeditado. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou minutos depois dos disparos, mas não houve tempo de socorrer o empresário. Amigo próximo de um dos filhos dele, o comerciante Joel Ortiz se diz chocado com a morte:

– Foi muito surpreendente. Não se tem fonte ou pista de nada que possa ter motivado esse assassinato brutal. Ele era gente boa, do bem, e muito conceituado em todo o Vale do Sinos. Quando se fala em extintores aqui, se fala no “Zé da Panitez”, como era conhecido – relata Ortiz.

VÍTIMA PRETENDIA AMPLIAR NEGÓCIOS

A companhia, fundada em 1978, elabora Planos de Prevenção Contra Incêndio (PPCI) e comercializa extintores, alarmes, luzes de emergência e sistemas hidráulicos. Em luto, permanecerá fechada até o dia 1º de outubro. O corpo de José Maciel Vargas começaria a ser velado ontem, às 22h, na capela da Funerária Krause, em Novo Hamburgo, e será enterrado durante a tarde de hoje no Cemitério Católico de Hamburgo Velho. A vítima deixa um filho, que é um dos administradores da empresa, uma filha e a mulher.

– Era uma pessoa muito tranquila. Recentemente, tinha comprado um imóvel ao lado de onde tem hoje. Seu objetivo era ampliar os serviços – lamenta Juliane Lopes, presidente da Associação de Moradores do Bairro Primavera.





terça-feira, 29 de setembro de 2015

PELA PACIFICAÇÃO NA SEGURANÇA



ZERO HORA 29 de setembro de 2015 | N° 18309


EDITORIAIS



O pior que poderia acontecer para a sociedade, já atemorizada pelo recrudescimento acelerado da insegurança pública, é a falta de um consenso mínimo entre autoridades sobre o que pode ser feito, de imediato e a médio e longo prazos, para atenuar o problema. Por isso, resta aos cidadãos, pelo menos, cobrar que tanto representantes do Estado, aos quais compete garantir segurança pública, quanto da Capital aprofundem o diálogo em busca de saídas. E, principalmente, que nenhuma ação ao alcance da lei, incluindo as não convencionais, seja simplesmente descartada.

A população não pode continuar refém de criminosos, como vem ocorrendo numa intensidade a cada dia mais inquietante. Os mais recentes atos criminosos registrados na Vila Cruzeiro, na Capital, dos quais resultaram um morto e sete feridos, deixaram evidente o quanto, na falta de Estado, uma comunidade inteira pode ser subjugada pela força de uma minoria. O poder público não pode permitir que cidadãos sejam privados, um único dia que seja, de serviços essenciais como transporte urbano e atendimento médico, entre outros.

É oportuno, por isso, que o secretário de Estado da Segurança, Wantuir Jacini, e o prefeito da Capital, José Fortunati, estejam agora empenhados em discutir ações, entre as quais não pode ser descartado nem mesmo o uso da Força Nacional de Segurança. A população não pode esperar mais por soluções para o mais grave dos problemas da Capital, que também se reflete na maioria das cidades gaúchas.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Não se "pacifica" um direito pela força das armas, se garante este direito pela força das leis e da justiça. No Estado democrático de Direito, a "pacificação" só pode ser realizada se a segurança pública for entendida como um direito a ser garantido por leis claras e por um sistema de justiça criminal, envolvendo poderes e órgãos públicos responsáveis pela prevenção e contenção dos delitos, pela investigação, pela denúncia, pelo devido processo legal, pelo julgamento e sentença e pela execução penal responsável e objetiva e capaz punir e ressocializar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TENSÃO NA VILA CRUZEIRO

ZERO HORA 28 de setembro de 2015 | N° 18308


RENATO DORNELLES




PREFEITURA PLANEJA RETOMAR O FUNCIONAMENTO do Pronto-Atendimento Cruzeiro do Sul a partir das 7h, atendendo a pedido de moradores. Médicos e funcionários, no entanto, não garantem que a estrutura voltará a operar normalmente


Após três horas de manifestações e debates, o secretário municipal de Saúde, Fernando Ritter, servidores do Pronto-Atendimento Cruzeiro do Sul (Pacs) e moradores da região fizeram ontem uma espécie de pacto para que a unidade de saúde seja reaberta hoje, a partir das 7h. Médicos e funcionários, porém, não querem retomar o atendimento na estrutura. O Pacs está fechado desde a sexta-feira, quando dois episódios de violência foram registrados nas proximidades do local.

No início da tarde de sexta, um grupo de pessoas sofreu um ataque de submetralhadora – uma morreu e sete ficaram feridas – em uma rua atrás do Postão. Carregando os feridos, moradores invadiram o Pronto-Atendimento e teriam agredido funcionários, enquanto exigiam atendimento prioritário a seus familiares ou amigos. Por ordem do grupo, até mesmo Ademir Rodrigo Carpes, que já estaria morto quando deu entrada no local, chegou a ser atendido, antes de ser removido ao Hospital de Pronto Socorro (HPS). Conhecido na região como Biquinha, ele seria, segundo a polícia, o líder do tráfico de drogas na região.

Por volta das 20h também de sexta, em uma das entradas laterais do Pacs, três homens com toucas ninjas atearam fogo em um ônibus da linha Santa Tereza. Pelo menos quatro passageiros foram intoxicados com a fumaça.

Uma reunião entre o prefeito José Fortunati e o governador José Ivo Sartori foi agendada para as 10h de hoje, no Palácio Piratini, tendo como tema a questão da segurança pública na Capital.

Durante a reunião de ontem, realizada no próprio Pacs, além das autoridades, tiveram direito a fala 10 representantes da comunidade e igual número de servidores. Os moradores, de modo geral, salientaram a necessidade de reabertura do Pacs para o atendimento à população local. Os funcionários, por sua vez, destacaram os problemas causados pela falta de segurança:

– Trabalho aqui há muitos anos, mas nunca havia visto funcionários serem agredidos como na sexta-feira – afirmou uma das servidoras do Pacs.

A Brigada Militar (BM), que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), recebeu convite oficial para participar da reunião, não enviou representantes. A corporação emitiu nota garantindo que realiza policiamento permanente na região da Cruzeiro do Sul. Sem a garantia de vigilância da BM, os participantes acabaram optando por reabrir o posto hoje com proteção da Guarda Municipal.

TRANSFERÊNCIA AO PRESIDENTE VARGAS

Apesar da mobilização, não há garantia de pleno funcionamento do posto. Simultaneamente à reunião da SMS com a comunidade, outro encontro foi realizado no Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), incluindo médicos e enfermeiros lotados no Pacs e a direção da entidade. Ao final, os participantes decidiram enviar uma proposta conjunta à prefeitura para que a estrutura e os funcionários do Pacs sejam transferidos ao Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas (HMIPV), no bairro Independência, região central da cidade.

No pedido, o Simers lembra que, além dos fatos ocorridos na sexta-feira, um homem havia sido executado dentro do Pacs em novembro do ano passado. O sindicato anunciou que ingressou na Justiça, ainda ontem, com pedido de liminar para que não ocorra a reabertura do Pacs.

No sábado, a entidade havia registrado na 2ª Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento (DPPA) uma ocorrência relatando “a absoluta impossibilidade de atendimento” no local.



Ônibus são desviados

O fechamento do Pacs durante a noite de sexta-feira e todo o fim de semana não foi o único transtorno causado pela violência na região da Vila Cruzeiro. Já na sexta-feira, após o incêndio do ônibus, os veículos das linhas que atendem à região (Santa Tereza, Cruzeiro, Pereira Passos, Mariano de Matos, TV e Orfanotrófio) foram retirados de circulação.

Pessoas que retornavam da jornada de trabalho ou de turno escolar tiveram dificuldades para chegar em casa. Na UniRitter, localizada na Rua Orfanotrófio, bairro Alto Teresópolis, estudantes tiveram de recorrer a caronas.

Ontem, os ônibus voltaram a circular, mas cinco linhas – Santa Teresa, Cruzeiro, Pereira Passos, Mariano de Matos (do consórcio STS) e T3 (da Carris) – tiveram seus trajetos desviados para evitar a área de conflito.



Prisão de suspeito

A polícia prendeu no sábado um suspeito de participação na tentativa de chacina que resultou em uma morte e deixou sete feridos na sexta-feira. Rodrigo de Lima Pinheiro, 31 anos, seria um dos atiradores que chegou à Rua Nossa Senhora do Brasil, bairro Santa Tereza, em um carro branco, do qual partiram os disparos.

Rodrigo foi encontrado por policiais no Hospital de Alvorada, onde buscou atendimento depois de levar um tiro em uma das pernas. Ele teria sido baleado por um dos feridos, que reagiu ao ataque.

Ontem, seis dos sete feridos a tiros ainda permaneciam hospitalizados. Pelo menos um deles, de acordo com a delegada Elisa Souza, titular da 6ª DHPP, não teria qualquer ligação com a criminalidade. Segundo ela, a vítima estaria “no lugar e na hora errados”.




Prefeito e secretário de Segurança trocam farpas

NO TWITTER, FORTUNATI volta a defender uso da Força Nacional de Segurança para conter a onda de violência na Capital. Jacini retruca: Comigo nunca falouUma possível convocação da Força Nacional de Segurança para conter a onda de violência em Porto Alegre é motivo de polêmica entre o prefeito da Capital, José Fortunati, e o secretário de Segurança do Estado, Wantuir Jacini. No fim de semana, a postura do chefe do Executivo municipal – que usou o Twitter para defender um “choque de segurança” – foi criticada por Jacini, que, depois, também foi rebatido por Fortunati pelo microblog.

Na sexta-feira à noite, após um tiroteio no bairro Santa Tereza deixar um morto e sete feridos e um ônibus ser incendiado, o prefeito voltou a sugerir, pelo Twitter, que o Piratini peça ajuda ao governo federal, para que o Exército e a Força Nacional de Segurança sejam colocados nas ruas: “A violência ultrapassou todos os limites suportáveis em POA. Respeito a BM, mas está na hora de reforçarmos a segurança com a Força Nacional. A cidade precisa de um ‘choque de segurança’ com a Força Nacional apoiando a Brigada Militar”, escreveu o prefeito, reiterando pedido feito no início do mês.

No dia seguinte, ao comentar as declarações de Fortunati, o secretário de Segurança disse nunca ter sido procurado para tratar do assunto:

– Ele (Fortunati) só fala na imprensa. Comigo nunca falou.

A fala de Jacini irritou o prefeito, que voltou a comentar o assunto no Twitter: “O secretário de Segurança afirma que eu não o procurei para falar sobre a Força Nacional. Falei com o governador, a quem ele é subordinado. Ou ele faz parte de uma república independente dentro do governo?”.

Fortunati deve aproveitar o lançamento do projeto Simplificar, que agiliza a abertura de empresas na Capital, hoje, no Piratini, para se reunir com o governador José Ivo Sartori e tratar da segurança na Capital. No fim de semana, o governo voltou a descartar o uso da Força Nacional.

Questionado sobre pedir reforço ao governo federal, Jacini disse, no sábado, que a intervenção não teria resultado prático. Segundo ele, a Força Nacional enviaria aproximadamente 150 homens ao Estado, enquanto a Brigada Militar conta com mais de 3 mil.

sábado, 26 de setembro de 2015

O RISCO DE UM GRANDE BANGUE-BANGUE



ZERO HORA 26 de setembro de 2015 | N° 18306



FELIPE DAROIT*



Em períodos de violência fora de controle no RS, é muito comum ouvir frases do tipo: “Por que não liberam armas para o povo?”.

Amigos, se isso acontecesse, viveríamos um grande bangue-bangue, semelhante aos filmes de faroeste do Clint Eastwood.

Estamos em um mundo dinâmico e objetivo. Pressa. Trabalho. Casa. Remédios. Sono. Contas. Em meio a isso, somos vítimas da violência urbana. Hoje morre meu amigo. Amanhã seu pai. Todos alvos de assaltantes. E qual a solução para se defender? Andar com uma arma? Não.

Poucas pessoas estão preparadas para utilizar armas. Na lista, entram também muitos agentes de segurança que possuem porte, mas não necessariamente têm preparo.

O fato é que, se liberassem as armas para o povo, a briga de trânsito viraria morte. O vizinho mataria o outro, que abusa do som alto, como ocorreu no mês passado em Esteio. O marido traído, de “cabeça quente”, mataria a esposa, pois a arma está ali, em cima da geladeira. O funcionário iria discutir com o chefe e, quem sabe, atiraria nele. O chefe, armado, poderia revidar. A bala perdida poderia matar a Maria que estava passando do outro lado para tomar um café. Você vai estar caminhando na rua escura, indo para casa e vai avistar dois “suspeitos” caminhando em sua direção. Vai colocar a mão na cintura para sacar a arma, caso algo aconteça. Vai estar assustado. Essas pessoas te abordam para falar algo e... pum! Você vai atirar. Na verdade, elas queriam saber onde havia uma farmácia.

Sei que criminosos estão cada vez mais violentos. Só que se armar não é solução. Quem tem que usar arma é a polícia. Quem tem que desarmar bandido é polícia. Bandido tem que ter medo de polícia. Quem tem que investir muito mais na polícia é o Estado. Quem tem que punir é a Justiça. Judiciário que atue para o povo. Que não solte criminoso no dia seguinte. Quem tem que construir presídios é governo. Que tal começar a acabar com as facções nas cadeias? Por que nem sinal de celular conseguem cortar nos presídios?

Armas nas mãos do povo não são solução.

Estou pronto para ser fuzilado (nos comentários).

Repórter da Rádio Gaúcha*

1,3 MIL DESMANCHES CLANDESTINOS NO RS




ZERO HORA 26 de setembro de 2015 | N° 18306


JOSÉ LUÍS COSTA


ATAQUE AO ROUBO DE VEÍCULOS

ESTABELECIMENTOS QUE ATUAM NO comércio de autopeças se tornaram irregulares com a entrada em vigor de nova legislação exigindo registro no Detran são apenas 217 empresas na listagem. Na próxima semana, prefeituras serão notificadas para cassar alvarás e fechar ferros-velhos


Acelerador do furto e do roubo de veículo, o comércio clandestino de autopeças soma 1,3 mil pontos de venda no Estado, segundo estimativas de autoridades. Esses estabelecimentos “caíram na ilegalidade” em 20 de agosto, data-limite estipulada pela lei federal 12.977/2014 para ser iniciado o processo de regularização no Departamento Estadual de Trânsito (Detran) – nesta semana, dois deles foram fechados em Porto Alegre por ação da Polícia Civil.

O número é seis vezes maior do que o dos 217 Centros de Desmanche Veicular (CDV) que se registraram no Detran. A partir da próxima semana, o órgão encaminha ofício às 497 prefeituras do Rio Grande do Sul comunicando as novas regras e solicitando a cassação de alvarás (se existirem) e o fechamento de ferros-velhos e de desmanches que operam fora da lei – fora da lista do Detran.

– Somente os CDVs registrados pelo Detran podem vender autopeças usadas – alerta Carla Badaraco, diretora técnica do Detran.

Ela afirma que as prefeituras deverão mapear empresas que atuam no ramo e suspender as atividades daquelas ilegais, como ocorre normalmente ao se constatar irregularidade. A medida tende a tirar do mercado pela via administrativa comércios que vendem peças furtadas e roubadas. Mas o tema precisa ser discutido com as prefeituras, diz Roberson Cardoso, assessor técnico da área de trânsito da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs):

– Se esses desmanches reabrirem as portas, desrespeitando nossa ordem, vamos precisar da ajuda do Estado, das forças policiais. Debatemos o assunto com o Detran antes da troca do governo, e teremos de voltar a conversar.

A iniciativa, ainda que pendente de ajustes, pode representar a primeira ação mais enérgica para um problema que se arrasta há décadas e só piora. Em 2006, por exemplo, quando os furtos e roubos superaram todos os índices até hoje no Estado, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) reconheceu que não tinha plano para reprimir os crimes.

Em 2007, foi sancionada a lei estadual 12.745 para tentar colocar ordem no mercado de autopeças usadas. Durante esse tempo, a SSP trabalhou para viabilizar a lei, em especial a partir de 2011, com a criação de mecanismo de controle de autopeças informatizado conectado à Secretaria Estadual da Fazenda e sob supervisão do Detran. Mas o sistema se mostrou complexo, e a lei, incompleta, porque não previa destinação para peças apreendidas.

Passados oito anos da aprovação da lei estadual, os crimes envolvendo veículos seguem em alta velocidade, sobretudo o roubo (quando há violência ou ameaça ao motorista). E, principalmente, na Capital, que concentra 52% dos casos (veja quadro).

COMBATE AO CRIME PERDEU FORÇA

A partir de 2010, as investidas dos ladrões mais do que dobraram em relação à evolução da frota, destacando a Porto Alegre o deprimente título de “capital dos roubos de carros”, com índices superiores a grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

Nos últimos tempos, o combate ao crime parece ter pisado no freio. Conforme indicadores de eficiência divulgados pela SSP, inspeções da Brigada Militar em desmanches caíram 60% no ano passado. Em 2010, foram 16,5 mil (mais alto número desde 2007), contra 5,6 mil em 2014. Neste ano, o site não apresenta dados. Em Porto Alegre, a estatística da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (Smic) confirma a tendência de queda. Em 2013, foram 14 interdições, contra seis em 2014 – todas após aviso de policiais.

– O agente municipal não tem competência legal nem condições técnicas para verificar se as peças são produto de roubo. Isso é papel da polícia. Ela nos comunica e interditamos o estabelecimento com base no Código de Postura – afirma Rogério Stockey, diretor da Divisão de Fiscalização da Smic.

A repressão policial só deve ganhar fôlego em 2016. No mês passado, a SSP editou uma minuta de projeto de lei que substitui a lei estadual de 2007 e a enviou para a Assembleia. Baseada na nova lei federal, a proposta prevê a apreensão imediata de peças sem comprovação de procedência lícita e possibilita a venda para reciclagem. É a principal aposta da secretaria de repressão ao furto e ao roubo de veículos e aos crimes conexos, à medida que falta dinheiro para investir em novas tecnologias.

– Nossa expectativa é de que o projeto seja votado até o final deste ano. Com a nova lei, pretendemos reduzir significativamente os crimes – afirma o tenente-coronel Luiz Dulinski Porto, diretor do Departamento de Gestão da Estratégia Operacional da SSP.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

ARRASTÕES E ASSALTOS ASSUSTAM MORADORES E TURISTAS NO RIO

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 21/09/2015

Cenas de violência foram flagradas em vários pontos nas praias e nas ruas. Fim de semana estava cheio de turistas por conta do Rock in Rio.

Edimilson Ávila Rio de Janeiro, RJ




O fim de semana foi violento no Rio de Janeiro. Arrastões e assaltos assustaram os moradores e os turistas. No domingo (20), cenas de violência foram flagradas em vários pontos, nas praias e nas ruas da Zona Sul da cidade.


As cenas são de um domingo de praia. Os arrastões e correria acontecem em pontos diferentes. Um adolescente rouba o celular de um casal na praia de Ipanema e foge. Começa uma grande confusão na areia. A polícia chega e prende o ladrão. Outro sai imobilizado. Mas nem sempre a PM chega a tempo.

Um homem foi agredido no rosto pelos assaltantes. Uma turista inglesa, desesperada, chora e conta que perdeu a bolsa, o celular e dinheiro.

Só na região do Arpoador, na Zona Sul do Rio, o comando da PM diz que colocou mais 40 policiais e, mesmo assim, não conseguiu evitar os arrastões. Até um PM foi agredido. Nossa equipe flagrou jovens correndo, jogando areia em um policial, que saca a arma no meio da multidão. O grupo foge.

Em Copacabana, no fim da tarde, houve confusão nos pontos de ônibus. Rapazes retiram um adolescente do ônibus e começam a espancá-lo. O vídeo foi gravado por uma moradora em uma das principais avenidas do bairro. O adolescente consegue escapar. Na mesma rua, um grupo de menores derruba uma janela do ônibus e foge por ali.

Houve flagrantes de arrastões em cinco pontos da cidade.

Na praia de Ipanema, dois adolescentes se aproximaram de um rapaz e arrancaram a mochila. Depois, saíram correndo. Em menos de cinco minutos, registramos a fuga de outro jovem, que tinha acabado de roubar a bolsa de uma turista.

Em Copacabana, o flagrante foi em uma rua perto da praia: um grupo de menores roubou uma bicicleta. Na sequência, eles tentaram levar outra. O dono resistiu e até conseguiu escapar. Mas o morador que gravou tudo contou que os menores continuaram a perseguição e roubaram a bicicleta.

Na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, um arrastão provocou correria no fim da tarde, perto de um terminal de ônibus. Pelo menos dez jovens, entre homens e mulheres, assaltaram pessoas que iam para o Rock in Rio.

Em Botafogo, também teve violência. Um arrastão de jovens provocou correria pelas ruas do bairro. Um vendedor de frutas foi baleado na perna.

Há dez dias, depois de uma ação movida pela Defensoria Pública, a justiça do Rio proibiu que policiais apreendessem menores sem flagrante. Antes, em uma blitz, os PMs retiravam de ônibus que iam para as praias os jovens considerados suspeitos.

“Essa decisão só reforça o que está na legislação, dizendo que não pode haver apreensão de adolescente, salvo em flagrante de ato infracional ou por ordem judicial da autoridade competente. Essa decisão não cria, de forma alguma, impedimento para atuação policial. Ela reforça o que está na lei”, declara a defensora pública Eufrásia Souza das Virgens.

“A gente vem fazendo nosso trabalho, abordando os ônibus, revistando. A gente tem que cumprir a decisão judicial. No caso de flagrante, estamos agindo”, diz Luiz Henrique Pires, do
Comando de Policiamento / PM-RJ.

O secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, declarou que ordens judiciais têm que ser cumpridas, mas que a PM perdeu a prerrogativa de prevenção e que agora só pode agir depois do ocorrido.

domingo, 20 de setembro de 2015

CRIME E MEDO NO MORRO




ZERO HORA 20 de setembro de 2015 | N° 18300


JOSÉ LUÍS COSTA


CRIME E MEDO NO MORRO



NOS IDOS DE 1850, A MATA FECHADA ERA TÃO ASSUSTADORA PARA QUEM SE ARRISCAVA A ESCALAR O MORRO SANTA TEREZA QUE A REGIÃO ERA CONHECIDA COMO EMBOSCADAS. PASSADOS QUASE DOIS SÉCULOS, SUBIR ÀQUELA ÁREA É TÃO PERIGOSO QUANTO NAQUELES TEMPOS. SÓ QUE POR MOTIVO BEM DIFERENTE. Fulminada pela explosão demográfica desordenada que espalhou a criminalidade, uma das mais belas paisagens de Porto Alegre, onde o sol ilumina o Guaíba beijando as curvas da cidade, perdeu o encantamento.

Diante da complacência do poder público e do pavor de moradores, o tráfico de drogas se apropriou do morro nas últimas três décadas. Enraizado como erva daninha, semeou quadrilhas em meio a comunidades pobres na mesma velocidade com que elas ocuparam a região – significativa parcela do local é formada por áreas invadidas.

A proliferação das bocas de fumo conflagrou o Santa Tereza com intensidade que lembra favelas do Rio de Janeiro. No lado sul do morro, no vértice menos glamouroso, conhecido como complexo de vilas da Cruzeiro, a população é refém da bandidagem e sofre em silêncio. Há relatos de pequenos comerciantes extorquidos por criminosos em troca de proteção contra assaltos. Além disso, a região abriga uma das maiores concentrações de usuários de droga a céu aberto na Capital.

Soldados do tráfico exibem pistola à luz do dia e negociam até fuzil. Tiroteios acontecem a qualquer hora, em uma sangrenta disputa de gangues pelo controle dos pontos de venda de entorpecentes entre becos. Temerosos de virarem alvo de confrontos de quadrilheiros armados, moradores do entorno se protegem como podem.

– Aqui, ninguém sai de casa a pé – diz uma mulher no portão de um confortável residencial na Rua Gilberto Laste, na face mais elegante do Santa Tereza.

Na mesma via, outro condomínio protege as casas com segurança privada, chapas de aço, grades no muro, cerca elétrica e câmeras de vigilância.

CASEBRES AMONTOADOS EM ÁREA QUE PERTENCE AO ESTADO

A barreira fica de costas para a Rua Correia Lima, que, assim como a Rua Silveiro, está transformada em “passarela de zumbis” – viciados em crack se esgueirando como baratas tontas em busca da droga.

– Tive escritório na Silveiro durante oito anos. Neste período, vi sempre as mesmas pessoas subindo e descendo a rua – recorda o advogado criminalista Jader Marques, que recentemente se mudou do bairro.

Bem perto dali, uma casa vazia e um terreno baldio são usados para consumo de crack e prostituição.

– Assistimos à proliferação da droga e o que fazem para comprá-la. Já me ofereceram celular por R$ 5. Além da cracolândia, à noite, tem a “sexolândia”. Tiram a roupa na rua e defecam. Cansamos – conta um morador.

No final da Rua Correia Lima, aos pés do mirante Belvedere, a Vila Gaúcha é um amontoado de 600 casebres pendurados no morro de uma área que pertence à Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), ainda com trechos de mata não devastada. O lugar ganhou apelido de Buraco Quente por ter as bocas de fumo mais cobiçadas da região. Privilegiada pela geografia, vielas estreitas, onde entra um só carro por vez, a área tem barracos e mocós que servem de esconderijo para criminosos, armas e drogas.

– Posso garantir que 99% são trabalhadores, mas 1% esculhamba tudo – relata um morador.

As condições de vida são precárias. Não há rede de esgoto e, no verão, torneiras secam. Mesmo assim, há moradia com piscina. No começo do mês, dois ônibus e um lotação foram incendiados por criminosos após PMs matarem com um tiro nas costas um morador do Buraco Quente, suspeito de estar armado. O serviço de transporte foi interrompido, a BM montou uma base no alto do morro e, nos dias seguintes, não houve incidentes.



Insegurança e imóveis desvalorizados


De maneira visível, a partir da esquina das ruas Correia Lima com a Mutualidade, na altura da torre de uma operadora de celular, bandidos e “zumbis’’ agem com intensidade maior. Um aposentado que vive de favor em uma antiga casa de madeira teve o local invadido duas vezes no mesmo dia.

– Eles pegam qualquer coisa valendo cinco pila. Levaram até a ração do meu cachorro – resmungou o homem. Morador das proximidades, outro aposentado reclama que a insegurança está prejudicando relações familiares e de amizade.

– Não recebo visita, ninguém quer vir aqui de carro nem de ônibus – lastima.

Ele mora em um prédio onde quatro imobiliárias estampam placas de venda de um apartamento, cena comum em ruas do morro.

– Essa cracolândia desvaloriza os imóveis. As pessoas olham e desistem. Uma vizinha não resistiu e se desfez do apartamento por quase a metade do preço. Vou ficar aqui – diz outro morador que não quer ser identificado.

Os tiroteios e os “desfiles” de dependentes do crack tiram o sono de famílias que escolheram a região para morar em décadas passadas, quando principal característica era a tranquilidade de um ambiente interiorano, rodeado de árvores e pássaros.

– De três anos para cá, a situação piorou muito. Trabalho, preciso descansar, mas não consigo – lamenta um professor universitário de 79 anos, que vive na Correia Lima há 31 anos.

Quatro anos para vender casa

Fabiano Almeida, gerente da unidade da Guarida Imóveis no bairro Menino Deus, explica que existem boas casas à venda no Santa Tereza, mas faltam interessados por causa da criminalidade.

– Isso acontece em todo lugar com essa característica. Uma casa está à venda há mais de quatro anos no morro. O dono já baixou o preço e não aparece comprador – descreve.

– As placas se perpetuam porque a oferta é maior do que a procura – acrescenta Gilberto Cabeda, vice-presidente de comercialização de imóveis do Sindicato de Habitação (Secovi-RS).

A insegurança prejudica também a prestação de serviços para toda a comunidade.

– Qual o lugar que tem uma vista assim da cidade? Quem vem na minha casa se apaixona. Mas sofremos quando precisamos de táxi, de remédio. Tem motorista que não sobe o morro nem motoboy. Aqui é o paraíso e o inferno ao mesmo tempo – desabafa uma moradora.

A tensão é maior nas proximidades da Rua Dona Maria, um dos caminhos até o ponto turístico do morro, o Belvedere Ruy Ramos, na porta da Vila Gaúcha, destino de boa parte dos drogados que peregrinam pelo Santa Tereza. Na entrada da via se percebe o ambiente belicoso. A placa indicando o nome está cravejada de tiros.

Sentados nas calçadas, jovens olheiros do tráfico observam o trânsito e gritam palavras em códigos para alertar os vendedores de drogas. Sereno significa automóvel de morador ou de cliente. Chuva é sinônimo de veículo estranho, de desafeto ou da polícia.

– À noite, carros fazem fila para comprar droga. Quando a Brigada está aqui, somem todos. É uma tranquilidade – assegura um comerciante das imediações.

Para ocultar a venda de cocaína, maconha e crack, traficantes estouram a tiros lâmpadas de iluminação da rua e a câmera de vigilância da Secretaria da Segurança Pública, que já flagrou gente armada com fuzis e submetralhadoras.

Do alto do morro, habitantes caminham com vista privilegiada da Capital. Em outro ponto, placa com nome de rua é marcada por tiros


Detalhe ZH

Em 2011, a Secretaria da Segurança Pública instituiu no Morro Santa Tereza um dos quatro Territórios da Paz em Porto Alegre, em uma acanhada tentativa de estancar a violência. O projeto naufragou logo na saída por falta de apoio federal – escassez de repasses do programa nacional (Pronasci), minguadas verbas estaduais e, por fim, corte de horas extras a PMs no começo deste ano. Desde que foi criado, o Território nunca conseguiu cumprir seu objetivo na plenitude. Os assassinatos seguem em alta. Desde janeiro, 21 pessoas já foram executadas no bairro, conforme levantamento do Diário Gaúcho.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ASSALTANTE É LEVADA À DP EM PORTA MALA DO CARRO DA VÍTIMA




ZERO HORA 17 de setembro de 2015 | N° 18297


EDUARDO TORRES


POLÍCIA FALTOU VIATURA. Assaltante é levada a DP em porta-malas



BM ORIENTOU VÍTIMAS a conduzirem para a delegacia suspeita de ataque a ônibus na Capital

Não tinha viatura. A suspeita de assaltar um ônibus na zona norte da Capital, na terça-feira, depois de controlada por populares, precisou ser levada até a delegacia no porta-malas do carro de um morador da região. Além de evitar possível linchamento – a mulher havia apanhado de alguns passageiros –, um mecânico de 31 anos, que não quis se identificar, acabou cobrindo a ausência da Brigada Militar (BM).

– Chamamos a BM e se passaram 15 minutos. Ligamos de novo, aí o brigadiano disse que não tinha viatura. Me aconselhou a levá-la no porta-malas – conta o homem.

O crime ocorreu por volta das 6h30min, no ônibus da linha Educandário. Um casal pegou dinheiro do cobrador e pertences dos passageiros na Avenida Alberto Pasqualini, bairro Jardim Itu Sabará. Quando o coletivo parou, diversos passageiros foram atrás dos suspeitos. O homem conseguiu fugir, mas a mulher, de 44 anos, foi alcançada e agredida.

Colocada no porta-malas, foi levada à 14ª Delegacia de Polícia (DP). Lá, o mecânico foi aconselhado a seguir até a 3ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), no bairro Navegantes. No caminho, abordou uma viatura da Polícia Civil. Agentes algemaram a mulher e a levaram até a 3ª DPPA.

– Perdi a manhã inteira de trabalho, mas isso não é o pior. O que me angustia é ver que estamos cada vez mais abandonados na segurança – desabafa o mecânico.

OAB-RS CRITICA FALTA DE ESTRUTURA DA SEGURANÇA

A mulher foi autuada em flagrante por roubo e, até ontem à noite, seguia presa na Penitenciária Feminina Madre Pelletier.

Subcomandante do 20º Batalhão de Polícia Militar (BPM), o major Eduardo Luís Ramos confirma que quando o 190 foi acionado, às 6h25min, não havia viatura disponível. Só surgiu uma às 6h57min.

– Encaramos situação crítica. Há muita demanda e temos que trabalhar como é possível. Eventualmente faltam viaturas – afirma.

O major não reconhece que o conselho para levar a presa no porta-malas partiu do 20º BPM:

– A Constituição prevê que um popular pode fazer prisão. Não há nada errado nisso. Talvez tenham se precipitado nesse transporte.

A orientação dada na 14ª DP para que o mecânico seguisse levando a presa, que, segundo o diretor do Departamento de Polícia Regional da Capital, Cléber Ferreira, não é o ideal, também será analisada.

A OAB-RS criticou o ocorrido:

– Vai além de crise econômica, não há estrutura mínima nas polícias. A sociedade não pode se contentar e fazer papel de polícia. Sorte que nada de mais grave aconteceu – aponta o secretário-geral da entidade, Ricardo Breier.





sexta-feira, 11 de setembro de 2015

MEDIDAS EXTREMAS



ZERO HORA 11 de setembro de 2015 | N° 18291


 LÍCIA PERES*



O aumento da criminalidade, na primeira semana de setembro, tem produzido um efeito devastador na qualidade de vida da população, que clama por mais segurança e pelo direito de transitar. Os homicídios cresceram 100% na Capital e não existe mais lugar seguro onde seja possível estar a salvo da violência.

A ameaça de linchamento a um ladrão apanhado em flagrante quando tentava roubar um carro, no bairro Menino Deus, revela o sentimento de revolta, vingança e descrença em relação à justiça, atribuição exclusiva do Estado. Esse sentimento de insegurança e medo acaba por levar pessoas comuns a tentarem fazer justiça com as próprias mãos, o que precisa ser contido, sob risco de anomia social.

O mais surpreendente é a hesitação do governo do Estado em recorrer à Força Nacional para reforçar a segurança no Rio Grande do Sul em uma situação dramática como a que vivemos. Tudo está a indicar que sem medidas emergenciais tudo tende a se agravar. O descontentamento das forças policiais, privadas dos seus salários, com despesas integrais mas recebendo aos pedaços, é compreensível e não se pode esperar milagres.

Em algumas situações, a exemplo da Conferência das Nações Unidas, a Eco 92, também conhecida como a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, quando Brizola era governador e a Capital Federal mudou-se para lá, as Forças Armadas foram convocadas para proteger a cidade e fazer a segurança de todo o evento. Compareceu mais de uma centena de chefes de Estado para debater formas de desenvolvimento sustentável e era possível transitar por toda a cidade, a qualquer hora.

A integração do sistema de segurança durante a Copa do Mundo em Porto Alegre garantiu tranquilidade e paz e encantou os visitantes. Mas a situação era diferente: os salários eram pagos pontualmente e tudo funcionou bem, para alívio geral.

Agora, o primeiro dever dos governantes é proteger a população da crescente escalada criminosa. Não é hora para vacilações, mas de efetivas providências. As medidas podem parecer extremas, mas são, de fato, indispensáveis.

*Socióloga

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

FAZ DE CONTA QUE ESTÁ TUDO BEM


ZERO HORA 10 de setembro de 2015 | N° 18290


POLÍTICA + | Rosane de Oliveira




Você está amedrontado com a sequência de crimes neste setembro sombrio no Rio Grande do Sul? Relaxe: as autoridades responsáveis pela segurança dizem que está tudo bem e que a culpa, claro, é da mídia, que dá ênfase a assaltos, roubos, homicídios, arrombamentos e até a esses crimes de menor potencial ofensivo, como o furto de um celular.

Começou pelo governador José Ivo Sartori, dizendo que a situação não é diferente da de outros Estados. Seguiu com o secretário da Segurança, Wantuir Jacini, sustentando que não há motivo para pânico, porque neste ano a polícia já prendeu 70 mil criminosos e que a maioria das vítimas de homicídios tem antecedentes criminais. Se esses presos já estão nas ruas é porque o sistema legal permite o prende e solta, e não porque faltem vagas nos presídios, justifica.

Ontem, no Gaúcha Atualidade, foi a vez de o procurador-geral de Justiça, Marcelo Dornelles, dar sua contribuição para reforçar a percepção de que quem anda de carro oficial vive em outro mundo. Dornelles, assim como Sartori e Jacini, disse que não vê necessidade de pedir ajuda à Força Nacional de Segurança. Que confrontos como o que resultou na morte do empresário Elvino Nunes Adamczuk, 49 anos, mostram que a Brigada Militar está atuante. Dornelles acrescentou que o socorro demoraria uma semana para chegar, embora a secretária nacional de Segurança, Regina Miki, tenha garantido que o reforço viria 48 horas depois de o governador formalizar o pedido. E sem custo para o Estado.

Não dá para fazer de conta que está tudo bem quando se multiplicam as ocorrências e os criminosos tiram o sossego de comunidades como a de Maximiliano de Almeida, palco de dois assaltos simultâneos a bancos, com reféns.

O pagamento, amanhã, de mais R$ 800 do salário atrasado será insuficiente para normalizar o serviço na área da segurança. Há uma crise sem precedentes e o primeiro passo para resolvê-la é reconhecer sua existência, reunir os responsáveis pelas instituições e traçar um plano de ação antes que se abram de vez as portas do inferno.




COMENTÁRIO DO BENGOCHEA
- A Rosane acerta ao criticar a omissão das autoridades no tratamento das questões de segurança pública, mas se equivoca ao defender intervenção da Força Nacional para fazer policiamento nas ruas, humilhando ainda mais os policiais locais oprimidos em seus salários. As soluções para a segurança pública vão além da força das armas, e estão no respeito aos policiais, na capacidade das forças policiais locais, nas leis severas, no sistema de justiça e na execução penal responsável.


(IN)SEGURANÇA PÚBLICA


DIÁRIO GAÚCHO 10/09/2015 | 07h01



Antônio Carlos Macedo



 O levantamento preparado pelo Diário Gaúcho, mostrando que a milésima morte violenta na Região Metropolitana nunca aconteceu tão cedo, é mais um eloquente alerta sobre o avanço da criminalidade na capital e municípios vizinhos. Apesar de todas as evidências, o governador Sartori insiste que a situação está sob controle. E abre mão de pedir a ajuda da Força Nacional de Segurança Pública, tropa federal formada por policiais altamente treinados, cuja presença em Porto Alegre poderia dar um "sacode" na bandidagem.

Governantes são assim: vivem num mundo à parte. Cercados de seguranças, ninguém chega perto deles. O perigo passa longe. Quero ver Sartori como um cidadão comum, obrigado a caminhar da Avenida Salgado Filho ao Camelódromo à noite, para pegar o ônibus. Em poucos dias, estaria clamando por mais polícia na rua também.


Igual aos outros

Nosso governador disse que o quadro da segurança no Rio Grande do Sul é semelhante ao existente em outros estados do Brasil. A comparação é vaga e carece de dados comparativos. Mas, para efeito de raciocínio, vamos admitir que seja isso mesmo. Só que 14 colegas de Sartori já pediram ajuda à Força Nacional, num sinal claro de que já não conseguem enfrentar a criminalidade sem reforço. Se vivemos situação parecida, com diz o governador, por que não seguimos o exemplo deles então? Ou será que só estamos iguais a quem ainda não recorreu ao socorro federal?

Corneta do ex

Ex-secretário da Segurança Pública no governo Yeda, o deputado estadual Ênio Bacci (PDT) alfinetou o atual titular da pasta Wantuir Jacini pelo Twitter. "Governo demora demais para reagir contra a bandidagem. Falta voz de Comando na SSP/RS. O silêncio do secretário é preocupante", escreveu Bacci, sintetizando o pensamento da maioria dos gaúchos.

Quando a crítica é feita pela imprensa, a autoridade tende a dizer que é falta de conhecimento. Bacci, ao contrário, já sentou na cadeira de Jacini e sabe bem do que está falando. Por sinal, embora curta, sua passagem pela Segurança Pública foi marcada pelo "calor" que a polícia deu na bandidagem. É tudo o que o momento exige.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -  Na segurança pública, não seria mais fácil pedir para o Governo pagar os salários dos policiais locais do que pedir intervenção federal? Não seria mais produtivo exigir leis, justiça e execução penal responsável para coibir o crime, do que uma intervenção federal pela força das armas, já que vivemos num Estado Democrático de Direito e não mais num regime totalitário? Está na hora de exigir deveres e responsabilidades dos poderes ao invés de aumentar a opressão nos servidores que defendem o povo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O RS EM CLIMA DE FAROESTE


CORREIO DO POVO. Porto Alegre, 09 de Setembro de 2015

  

JUREMIR MACHADO DA SILVA


Existem muitas maneiras de questionar certas coisas: toda estratégia é legítima? Todas essas maneiras acabam resumidas na velha pergunta: os fins justificam os meios? A simples formulação do questionamento parece dar a resposta. Não.

Há quem, entretanto, considere que, em alguns casos, deve-se responder afirmativamente. Encontrei uma nova forma de fazer essa pergunta: a política é uma atividade moral? Sei que tem algo de exagerado nessa proposição. Mas, diante das artimanhas que integram o arsenal dos políticos, não é tão despropositado assim arriscar. Se um governante tem uma possibilidade de obter recursos emergenciais para pagar o funcionalismo e não o faz a tempo, o que se deve pensar?

Se um governante, num momento de crise profunda, transfere dinheiro disponível para uma conta de pagamento de juros questionáveis ao poder judiciário, o que se deve concluir?

O Rio Grande do Sul vive uma das suas maiores crises. Sente-se isso nas ruas. A violência dispara. O policiamento é escasso. O medo prospera. Sair de casa à noite só depois de tomadas medidas de precaução e de traçado um minucioso plano de ação levando em conta o percurso, o número de pessoas nas ruas e as possíveis rotas de fuga. Relatos de infortúnio se tornaram corriqueiros. Ainda não ter sido assaltado é quase uma provocação às estatísticas. Quem recebeu apenas R$ 600 de salário se desespera. Teve gente pedindo esmola, implorando ajuda aos parentes, deixando de pagar aluguel ou atolando-se em multas e nos juros dos cartões. Em muitas mesas, falta comida. Isso podia ter sido evitado? Os elementos disponíveis indicam que sim.

Se é preciso descumprir uma lei, entre duas possíveis, qual deve ser escolhida?

Não pagar os salários de quem cuida da segurança pública, da saúde e da educação ou atrasar o repasse que permite o pagamento dos auxílios privilegiados da magistratura e do Ministério Público?

É moral apostar numa estratégia política que semeia o caos e leva o pânico à população? É legítimo usar a fragilidade da população como fator de pressão sobre os deputados que recebem seus salários integrais em dia? Se provado que tudo isso é uma estratégia, o governo poderia ser responsabilizado judicialmente pelos prejuízos causados aos indivíduos? Se o governo atrasa o salário, levando João a não pagar o seu aluguel, sendo penalizado com multas, seria o caso de João recorrer à justiça por indenização? A justiça acolheria? Eu me pergunto sinceramente: atrasar salários, havendo qualquer remota possibilidade de evitar tal desatino, não caracteriza um crime de responsabilidade? Diminuir o policiamento nas cidades, deixando as pessoas à mercê dos bandidos, não é outro crime de responsabilidade?

Não seriam os três poderes e o Ministério Público corresponsáveis pela situação de calamidade a que o Rio Grande do Sul se encontra exposto? Não poderiam ser acusados de cumplicidade em crime premeditado? Não cometerei o excesso de falar em formação de quadrilha. Quando pergunto, não sei mesmo. A estratégia parece evidente.

Quem se responsabilidade por ela?

Quem paga, está claro.

Enquanto pensa na resposta, o governo deixa o Estado em clima de faroeste.

SEGURANÇA É A MAIOR URGÊNCIA




ZERO HORA 09 de setembro de 2015 | N° 18289


EDITORIAL



Sem os vencimentos em dia, não há como exigir que os policiais militares continuem motivados para exercer a sua árdua e perigosa atividade.


De todos os problemas que o Estado está enfrentando neste momento de múltiplas crises, a segurança pública é o mais urgente a ser resolvido. Enquanto o Rio Grande do Sul não encontra saídas estruturais para as suas dificuldades financeiras sejam elas a elevação de tributos, o redimensionamento da administração ou a revisão do sistema previdenciário , a sociedade não pode continuar pagando o preço da insegurança, que se reflete em criminalidade, violência e medo.

O Rio Grande do Sul registrou um aumento excepcional no número de homicídios e de roubos de carros na semana em que as forças de segurança paralisaram ou descontinuaram suas atividades – e os assaltos se multiplicam de tal maneira, que parcelas da população começam a defender a justiça com as próprias mãos. A sensação de insegurança, que já preocupava antes do recrudescimento da crise financeira gaúcha, agravou-se claramente com o parcelamento de salários dos servidores estaduais. Sem os vencimentos em dia, não há como exigir que os policiais militares continuem motivados para exercer a sua árdua e perigosa atividade. Cria-se, assim, um cenário de sonho para os criminosos e de pesadelo para a sociedade, que não pode seguir sob o jugo do medo.

As imagens, veiculadas nos últimos dias, de policiais civis e militares tomados pela emoção não deixam dúvida sobre as dificuldades que vêm enfrentando, ao lado de outros servidores do Executivo, diante do atraso de seus vencimentos. Nessas condições, é ilusão querer que os serviços de segurança se mantenham inalterados. Evidentemente, é difícil imaginar que, diante de tantas demandas simultâneas relacionadas à crise financeira, o governador José Ivo Sartori encontre saídas fáceis para reduzir a sensação de desamparo e atenuar a impressão de descontrole generalizado na segurança. Ainda assim, é preciso que pondere todas as opções disponíveis, sem descartar até mesmo uma eventual presença de homens da Força Nacional de Segurança e do Exército, defendida pelo prefeito da Capital, José Fortunati. Vale lembrar que esse recurso já foi utilizado em determinada ocasião, com sucesso, pelo governo de Santa Catarina.

O inaceitável nesse doloroso processo é a omissão de lideranças como o secretário de Segurança e o próprio governador, num momento em que a população está aterrorizada tanto pela realidade quanto pelos boatos que proliferam em ocasiões como esta.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -  As causas do aumento da violência não estão na ausência ou desmotivação dos efetivos policiais, mas na ausência de leis severas, de justiça coativa de uma execução penal responsável. Ocorre que os efetivos policiais minimizam a ausência das leis, da justiça e da execução penal, mas continuam enxugando gelo diante da impunidade dos crimes e do fortalecimento das facções. A intervenção das forças armadas e da força nacional em nada contribuem para as soluções, pois são de contenção, não de prevenção. Servem mais como propaganda para iludir, não para resolver. No Rio está o maior exemplo desta inoperância com a continuidade de uma guerra sem limites ou controles, corrompendo também os militares.

PROPOSTAS EM XEQUE NA SEGURANÇA



ZERO HORA 09 de setembro de 2015 | N° 18289




ADRIANA IRION JOSÉ LUÍS COSTA


ONDA DE VIOLÊNCIA

ENQUANTO PREFEITO DA CAPITAL exige que Força Nacional ou Exército atuem na cidade, governo do Estado garante que não é necessário e pede auxílio da Guarda Municipal



A onda de criminalidade que assusta os gaúchos fez florescer ontem um embate que gerou mal-estar entre o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, e o secretário da Segurança Pública, Wantuir Jacini. Enquanto o chefe do Executivo da Capital se declarou a favor de o governo do Estado pedir auxílio do Exército ou da Força Nacional de Segurança Pública para melhor proteger a a cidade, Jacini propôs que a Guarda Municipal ajude a Brigada Militar.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, falando sobre a precariedade do policiamento, Fortunati disse que o “grande problema da tropa é a desmotivação por causa do parcelamento dos salários” e que, no final de semana, pediu que fosse marcada uma reunião com o governador para discutir o assunto:

– Vou pedir aumento do efetivo da BM. Como está, não pode continuar – disse.

Fortunati lembrou que, em maio, teve uma reunião com a cúpula da segurança pública porque já considerava o momento delicado. Disse que recebeu respostas positivas, mas, agora, diante da crise financeira do Estado, a situação se agravou muito.

– Servidores em operação-padrão ou paralisados e a população mal-intencionada achando que o território está livre para o crime. Este é o pior cenário – disse o prefeito.

Para Fortunati, a presença do Exército ou da Força Nacional seria “extremamente importante, pois aumentaria a sensação de segurança”. Na semana passada, um eventual apoio federal chegou a ser mencionado em uma reunião em Brasília, no Ministério da Justiça, com a participação de Sartori. Mas o governador descartou ajuda da Força Nacional, afirmando que confia na polícia gaúcha.

SECRETÁRIO PROPÕE INTEGRAR FORÇAS POLICIAIS

Na Secretaria da Segurança Pública (SSP), a proposta de Fortunati não foi bem recebida. O assunto foi discutido em uma reunião com representantes das corporações da área de segurança estadual e da Guarda Municipal. O encontro se encerrou com uma proposta do secretário Jacini de aprimoramento do trabalho integrado entre a BM e a Guarda Municipal, “visando promover ações conjuntas e com efetividade”.

Na prefeitura, Fortunati enfatizou as atribuições legais da Guarda de proteger o patrimônio municipal:

– Não posso simplesmente começar a retirar os guardas de uma hora para outra de seus postos. Com isso, estaria desprotegendo os prédios municipais, ou seja, vestindo um santo, mas desvestindo outro.

Em Brasília, Sartori sinalizou que intervenção federal, no momento, não é cogitada:

– Temos uma Brigada Militar que tem 177 anos. Até o momento em que ela tiver condições de dar conta do recado e fazer o trabalho que vem fazendo, apesar de todas as dificuldades, está cuidando da sociedade.



Assassinatos dobram na Capital


A violência disparou em Porto Alegre. Dados obtidos por Zero Hora apontam que os homicídios cresceram 100% entre a última semana de agosto e a primeira de setembro. Foram 10 casos nos dias finais do mês anterior contra 20 do atual – período que coincide com paralisações e precariedade nos atendimentos, sobretudo na área da Segurança Pública, por causa do parcelamento de salários de servidores estaduais.

Entre os casos mais emblemáticos de setembro está a morte do comerciante Elvino Nunes Adamczuk, 49 anos, que se viu na linha de tiro entre PMs e assaltantes e foi atingido por uma bala perdida (leia ao lado). Outro episódio rumoroso ocorreu na região conhecida como Buraco Quente, no morro Santa Tereza, na Zona Sul, quando Ronaldo de Lima, 18 anos, foi morto com um tiro nas costas durante abordagem realizada por PMs. O caso revoltou a comunidade, e dois ônibus e um lotação foram incendiados.

Os números mostram que, entre 1º e 8 de setembro, concentra-se a mais alta média diária de homicídios em 2015. São 3,5 casos a cada 24 horas, bem acima dos registros em janeiro (média de 2,2 mortes por dia). Naquele mês, a Capital viveu momentos de pânico com uma guerra de traficantes, envolvendo os grupos de Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, 35 anos, e Cristiano Souza da Fonseca, o Teréu, 32 anos. Curiosamente, os dois foram executados longe de Porto Alegre – Xandi em uma casa em Tramandaí e Teréu no refeitório da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.

2,3 MIL CONDENADOS EM PRISÃO DOMICILIAR

Além da paralisação de serviços pela Polícia Civil e a dificuldade de patrulhamento pela BM, há outro componente que agrava a crise na segurança. Cerca de 2,3 mil apenados do regime semiaberto, entre traficantes, homicidas e assaltantes estão em prisão domiciliar ou em casa usando tornozeleira eletrônica por falta de vagas em albergues na Região Metropolitana. ZH procurou o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa para comentar o assunto, mas delegados evitaram falar devido ao parcelamento dos salários.

No final de agosto, ao apresentar planejamento de trabalho na Assembleia, o secretário Wantuir Jacini, da SSP, reconheceu que a crise financeira do Estado iria “impactar a proteção à sociedade”.


Vítima de bala perdida, comerciante morre


O relógio passava das 22h de sexta-feira quando Adriana Adamczuk, 43 anos, ouviu um tiroteio na rua onde mora, no bairro Menino Deus, na Capital. Saiu da padaria às pressas para ver se o marido, que passeava no local com os dois cães da família, estava bem. Viu apenas um dos cachorros correr em sua direção, solto da coleira. O outro estava parado ao lado do dono, Elvino Nunes Adamczuk, 48 anos, atingido por uma bala perdida no abdômen. Encaminhado ao hospital, o empresário foi operado e internado na UTI, onde morreu por volta das 6h45min de ontem.

– Como pode um trabalhador ser morto enquanto passeava com os cachorros? Hoje foi o Elvino, amanhã pode ser outro. Se o governo não melhorar a segurança, não vamos mais poder sair de casa – desabafa a comerciante Rosane Alves Pereira, 52 anos, amiga de Adriana há mais de uma década.

Casado havia 26 anos, Adamczuk deixa a mulher e os três filhos: William, 26 anos, Wagner, 24 anos, e Rafaella, 12 anos. Havia 14 anos, era proprietário da padaria Santo Antônio, na Avenida Getúlio Vargas, em frente à residência da família.

O empresário acordava diariamente às 4h para abrir o empreendimento às 7h. Trabalhava ao lado da mulher, responsável pela confeitaria, e dos filhos.

Com bom humor e dedicação aos frequentadores, conquistou clientes fiéis, que vão diariamente à padaria. A notícia de sua morte espalhou luto pelo bairro, que motivou uma nota de pesar do Movimento S.O.S. Menino Deus.

– Tiraram meu companheiro, meu único namorado, com quem vivi 28 anos. Nessa hora de dor, só o carinho dos amigos nos conforta. Todos os clientes são nossos amigos. Vamos para cima do governo para pedir mais segurança. Há poucos policiais, faltam viaturas e não fazem nada – diz a viúva.

O enterro está marcado para as 10h de hoje no Cemitério São Miguel e Almas.

– Não está tudo bem em um Estado onde há 40 assassinatos em um final de semana. Alguma coisa tem de mudar. O governo tem de equipar e valorizar mais a polícia, e os deputados têm de mudar as leis – argumenta a comerciante Rosane.



MANIFESTAÇÃO DE MORADORES DE RUA

Uma carta escrita por moradores de rua, com 18 assinaturas, foi entregue nas mãos de Jeracema Caloghero, amiga da família. Por ser considerada uma padaria de “preço justo”, a Santo Antônio era frequentada por todas as classes sociais. Vários moradores de rua eram clientes. Com poucas moedas, eles compravam cafés e salgados. Segundo eles, Elvino também dava comida de graça e ajudava a muitos. Na carta, um trecho cita: “Era uma pessoa que sempre esteve junto a nós”.



Os personagens de um episódio violento


A ameaça de linchamento na manhã de segunda-feira no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, deixou marcas nos participantes do episódio. Procurados por ZH um dia depois, o dono do veículo e testemunhas garantem condenar qualquer excesso de violência, mas se dizem cansados do clima de insegurança (leia os relatos ao lado).

Santiago da Costa, 32 anos, teria tentado furtar um Gol 1996 na esquina da Avenida Ganzo com a Rua Vicente Lopes dos Santos quando foi flagrado pelo dono do carro, o segurança Bruno Gonçalves, 25 anos. Gonçalves reagiu e dominou o suspeito, que sofreu fratura no rosto e hematomas por todo o corpo. O homem acabou preso em flagrante.

Segundo testemunhas, pelo menos três pessoas agrediram Costa com socos e pontapés. O proprietário sustenta que o homem teria se machucado ao cair no chão. Várias pessoas formaram um cordão humano para impedir que a ambulância levasse Costa antes da chegada da Brigada Militar, após espera de mais de uma hora.

O episódio resultou em um ruidoso debate virtual. No site de Zero Hora e nas redes sociais, um grande número de internautas pregou que o ladrão deveria de fato ser espancado. Para o professor da pós-graduação em Ciências Sociais da Unisinos Carlos Gadea, as manifestações via internet não devem ser tomadas como um retrato fiel da sociedade:

– Pesquisas mais aprofundadas demonstram que as pessoas realmente dispostas a praticar um linchamento ou que veem isso como uma solução são minoria, embora muitas digam ser a favor. É mais um desabafo.

No próprio bairro, o dia seguinte às agressões voltou a uma rotina pouco tranquilizadora. As opiniões quanto ao episódio se dividem. Espectador da cena da véspera, o aposentado João Antunes, 80 anos, acredita que os agressores fizeram o “certo”:

– Roubam o dia inteiro aqui, a toda hora. Deviam ter batido mais.

Com um histórico de três furtos do carro sofridos, o casal Rochele Loguercio, 47 anos, e Luis Kroth, 52, diz que o controle tem de prevalecer.

– Todo mundo está irritado, mas parece que estamos voltando à Idade Média ao fazermos justiça com as próprias mãos – aponta Kroth.

MARCELO GONZATTO VANESSA KANNENBERG


O QUE SÃO
A FORÇA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA
-Coordenada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), em Brasília, foi criada em 2004 para auxiliar Estados em situações emergenciais, atendendo pedidos de governadores, mas também atua para dissolver distúrbios em áreas federais como invasão de usinas e de rodovias.
-É formada por cerca de 1,2 mil PMs e bombeiros de esquadrões de elite das polícias militares estaduais, contando com agentes civis (para investigações) e peritos criminais (para necropsias) escolhidos para missões por até dois anos. Os PMs atuam com capacetes e escudos, armados com carabinas calibre .556 e pistola calibre .40. Desde que foi criada, 11 mil policiais já atuaram em ações em 14 Estados como Rio de Janeiro e Santa Catarina.
A GUARDA MUNICIPAL DA CAPITAL
-Existe em Porto Alegre desde 1892 com a função de proteger o patrimônio do município, como escolas, postos de saúde, repartições, parques e praças.
-Está subordinada à Secretaria Municipal de Segurança, contando com cerca de 500 agentes divididos em equipes que atuam 24 horas, com efetivos fixos, e em carros e motos, habilitados a portar arma (usam revólver calibre 38).
-Por meio de central de operações, monitora 230 prédios municipais dotados de alarmes e também recebe queixas referentes a pichação e danos ao patrimônio público. A Guarda também atua em eventos na segurança de autoridades do Executivo municipal.

REFORÇO SERIA SAUDADO NAS RUAS



ZERO HORA 09 de setembro de 2015 | N° 18289



SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi



Basta dar uma espiada nas redes sociais e conversar com o povo nas ruas. A mera cogitação da vinda da Força Nacional para o Rio Grande do Sul é saudada com aplausos.

O mesmo acontecerá se a Guarda Municipal for chamada a ser mais atuante, como sugere o secretário estadual da Segurança Pública. E se alguém levantar a bandeira de soldados das Forças Armadas patrulhando avenidas, o número de adeptos vai se multiplicar.

A verdade é que a população está tão cansada da escalada da criminalidade que qualquer fardado será festejado, se resolver se postar numa esquina ou, ainda mais, se percorrer em grupos os locais perigosos. O Exército fez isso dezenas de vezes no Rio de Janeiro, nas duas últimas décadas. Ganhou amplo apoio, com raras críticas. Mas não estamos aqui para defender a volta dos militares federais às ruas, até por não ser essa a missão deles, que é a defesa contra agressões externas ao país.

O necessário é analisar se a presença de outras unidades armadas – fora as polícias Civil e Militar – traria mais segurança. E não conheço gaúcho capaz de discordar de que a Guarda Municipal seria bem-vinda num vaivém ostensivo que o feito hoje, em parques, praças e diante de prédios públicos. Ladrão tem medo de uniforme e a simples aparição dos guardas, de forma mais constante, pode ajudar.

Ainda se aumentarem as prisões em flagrante de criminosos, incluindo arrombadores de escola – não apenas pichadores. Quanto à Força Nacional, quando intervém, costuma ser usada para patrulhamento e segurança em presídios, já que é formada por policiais forasteiros, que não conhecem os bandidos da região onde foram designados para atuar. É melhor que nada. Lógico que o ideal seria os policiais gaúchos receberem em dia e que o contingente deles fosse multiplicado. Mas isso é uma meta apenas – e a população quer reação imediata ao crime, que avança a cada dia.



Carolina Bahia: chama a Força



Presença da Força Nacional de Segurança no Estado é considerada pelo governador

Pressionado pelo caos na segurança, o governo do Estado não descarta solicitar o apoio da Força Nacional da Segurança para ao menos uma situação: se houver risco de crise nos presídios. Interlocutores do governador José Ivo Sartori confirmam que o estudo existe, mas hoje o Piratini considera que essa área está sob controle.

Na semana passada, em uma agenda secreta, Sartori foi até a sede da Força, em Brasília. Essa visita estava fora da pauta oficial, em uma dia em que o governador tinha reuniões marcadas com ministros do STF sobre a situação financeira do Estado.

Assessores da Secretaria de Segurança reconhecem que a pressão política para a solicitação de auxílio externo é cada vez maior. Essa ajuda federal não seria uma solução mágica. Mas negar a crise é pior.




terça-feira, 8 de setembro de 2015

A VIOLÊNCIA E A ESTRATÉGIA DO GOVERNO



Porto Alegre, 08 de Setembro de 2015
  


JUREMIR MACHADO DA SILVA



A população está desesperada.

A violência campeia.

Em Porto Alegre, o medo domina as pessoas.

Sair à noite é uma aventura.

O funcionalismo público padece sem poder pagar as contas.

O governo está blindado.

Quanto pior, melhor.

É uma questão de estratégia.

Com o drama da população, os deputados aprovarão tudo o que o governo deseja.

O que são algumas mortes diante disso?

O que são alguns assaltos?

O que são alguns dramas pessoais?

Só estatísticas.

O g0verno se mantém firme.

Quer vencer pelo desespero dos outros.

Tinha dinheiro para pagar o funcionalismo, mas não usou.

Não quis recorrer ao aumento dos saques dos depósitos judiciais.

Transferiu dinheiro para essa conta, diminuindo o seu poder de pagamento.

Quanto pior, melhor.

O que são tragédias pessoais diante de uma estratégia de raposa política?

VIVER COM MEDO



ZERO HORA 08 de setembro de 2015 | N° 18288


FÊCRIS VASCONCELLOS*



Eu nunca fui roubada. E olha que eu cresci no Sarandi e já morei na Independência, no Centro e na Cidade Baixa – bairros de alto índice de criminalidade. Mas todo mundo que eu conheço já o foi. Uma amiga foi assaltada na Carlos Gomes e o namorado dela teve o carro arrombado e presenciou um tiroteio na João Telles, rua em que mora, na semana passada. Minha dinda foi roubada na esquina de casa no último final de semana, um amigo perdeu o quinto celular para um ladrão há dois meses, outro foi obrigado a deitar de costas para o chão no meio da 24 de Outubro no ano passado e minha mãe teve uma arma apontada para a cabeça em 2008. A situação já está ruim há muito tempo, mas agora tenho andado com mais medo.

Nunca me roubaram o celular, mas me roubaram a tranquilidade. Não me tiraram a carteira, mas me tiraram o direito de andar ouvindo música, distraída, olhando as árvores. Hoje, saio de casa já alerta, sem fones, olhando para os lados o tempo inteiro, pescoço duro de tensão, passos rápidos e braço agarrado na bolsa. São sete minutos a pé até o trabalho no meio da manhã. Quatrocentos e vinte segundos que poderiam ser o início perfeito para um dia ativo, mas viram um aperto diário no peito. Na volta, já no final do dia, a sensação é pior: especialmente se já escureceu, as quatro quadras de caminhada são ainda mais tensas e há dias em que prefiro pagar um táxi que me carregue em segurança até a porta de casa, mesmo que ainda não sejam oito da noite.

Viver com medo é muito triste, mas não nos é estranho. Já nos acostumamos com esse sentimento e isso é o que o faz ainda mais dolorido. Morei também em lugares tranquilos, sem violência. Em Londres, pegava ônibus de madrugada e, mesmo quando passei um ano e pouco em São Paulo, o caminho pela Avenida Paulista até a Rua Augusta para beber com os amigos era feito com muito mais tranquilidade – mesmo à noite. Quando voltei a Porto Alegre, há cerca de quatro anos, voltei também a ter medo. E já me acostumei, exceto nas últimas semanas.

Não dá mais para conviver com isso. Ao mesmo tempo, eu me recuso a pensar que não é mais possível viver na minha cidade. Eu gosto de Porto Alegre, não quero deixá-la nas mãos de quem não merece. A pergunta é: o que eu, cidadã, posso fazer para ajudar a resolver o problema da violência? O que os meus governos estadual e municipal estão fazendo para isso?





Jornalista, editora de entretenimento de ZH Digital

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

SOB O SIGNO DO MEDO

 

ZERO HORA 07 de setembro de 2015 | N° 18287


SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi 



Difícil permanecer tranquilo quando, em nervosos recados pelo telefone, uma voz feminina avisa que os chefes do crime organizado nos presídios decidiram fazer um “ataque” em massa a Porto nem tão Alegre assim. Quem tem filho jovem saindo para a balada, tem medo. O recado impressiona, inclusive aos que têm mais de 30 anos de cobertura criminal, como este colunista. Mesmo sabendo que a bandidagem gaúcha é rachada, cheia de rivalidades e jamais conseguiu organizar ataques sistemáticos, como os já ocorridos em outros Estados. Mesmo lembrando que os boatos arrasa-quarteirão coincidem com a semana da maior greve já feita pelos policiais gaúchos (só coincidem?).

Até pela greve policial – suspensa sexta-feira, mas que pode retornar em decorrência da falta de pagamento de salários – é correto imaginar que os criminosos estão se achando. Aproveitam o momento de fragilidade dos policiais, sem salário e desanimados, para escolher alvos e correr pelas cidades. Menos mal que policial que honra o cargo abraça a profissão a qualquer hora. Prova disso está nos PMs baleados por bandidos sexta-feira, no cumprimento do dever.

As estatísticas comparando crimes antes e depois da paralisação policial ainda não foram divulgadas, mas já se sabe que roubos e assassinatos cresceram exponencialmente.

Mas, muito além de números, o que assusta é a ousadia. Dois supermercados em áreas movimentadas foram assaltados com a clientela ainda dentro. Um pub de luxo foi saqueado. Policiais fardados foram baleados. Transeuntes levaram tiros. Clientes do comércio foram vitimados por arrastões. Por trás de tudo, uma palavra: desrespeito. A bandidagem perdeu o freio. Muito pela paralisia oriunda do desânimo que contamina as decisões governamentais, nesses tempos de cofres vazios e esperanças também.

CRIMES E BOATOS ELEVAM TENSÃO



ZERO HORA 7 de setembro de 2015 | N° 18287


ASSALTOS OUSADOS, ARRASTÕES, PERSEGUIÇÕES e arrombamentos, em apenas um dia, em cinco agências bancárias pioraram ainda mais a sensação de insegurança como reflexo da paralisação de policiais no Estado


Ainda ressabiada por uma semana de greve na Polícia Civil e protestos por parte de familiares de PMs, a população de Porto Alegre teve um fim de semana tenso, agravado por ataques ousados de parte de ladrões e boatos que davam dimensões abissais aos temores. A jornada de atemorização começou ainda antes do feriadão, na noite de quinta-feira, quando arrastões na Rua Voluntários da Pátria, na área central, fizeram com que lojistas trabalhassem com portas cerradas. A precaução ocorreu após assaltos em série nas imediações do Camelódromo. Pelo menos 10 homens armados investiram ao longo da Avenida Júlio de Castilhos, levando dinheiro, celulares e bolsas dos transeuntes.

Na sexta-feira, a Polícia Civil suspendeu a greve e familiares de PMs levantaram os bloqueios que impediam a saída dos quartéis. A expectativa era de melhoria na sensação de segurança, mas ocorreu o contrário. Escaldados com tantos dias de paralisação das forças de segurança, comerciantes da área central fecharam portas – por temor de arrastões. Quem abriu, optou por encurtar o funcionamento. Duas padarias, na Rua Fernando Machado e na Rua da Praia, encerraram o expediente duas horas antes do habitual, que é às 21h.

Na manhã de sexta, a criminalidade explodiu, com uma série de assaltos na Zona Norte. Uma lotérica e a uma joalheria na Rua Gomes de Freitas (Vila Ipiranga) foram atacadas por ladrões, em episódios que terminaram em tiroteio com a BM e duas pessoas feridas. Uma das vítimas foi uma idosa de 64 anos, baleada em uma perna e atendida no Hospital Cristo Redentor. Na lotérica, um dos suspeitos de assalto, baleado, acabou preso. Portava revólver calibre 38. Outro suspeito foi detido na Avenida Sertório, em um carro usado na fuga e que acabou abandonado.

A noite da sexta-feira mergulhou em um redemoinho de violência. Na Rua José de Alencar, bairro Menino Deus, três assaltos ocorrem em sequência. O primeiro foi no supermercado Nacional da Rua José de Alencar, onde dois homens entraram armados, renderam os funcionários e os trancaram em um cômodo. Fugiram com cerca de R$ 2 mil. Ninguém ficou ferido.

Em seguida, foi atacada a farmácia Panvel no posto Ipiranga da esquina das ruas José de Alencar e Silveiro. Armados com revólveres, dois homens em um Gol branco roubado assaltaram a loja e levaram dinheiro do estabelecimento, dos clientes e dos frentistas. O roubo ainda vitimou um dos goleiros do Grêmio, Tiago Machowski, que desabafou pelo Facebook: “Só para avisar os amigos que acabei de ser assaltado. Levaram tudo, inclusive meu celular. Mas está tudo bem, graças a Deus”.

SECRETARIA RASTREIA ORIGEM DE RUMORES

A suspeita é que esses ataques, no começo da noite, tenham sido praticados pela mesma dupla. Por volta das 22h, ocorreram os incidentes mais violentos. Seis homens assaltaram o supermercado Nacional da Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto e fugiram. Na fuga, toparam, na Avenida Ipiranga, com dois patrulheiros da BM. Na troca de tiro, dois PMs ficaram feridos e foram atendidos no Hospital de Pronto Socorro.

Os bandidos continuaram a correria e toparam com outra patrulha da BM. Após novo tiroteio, ficou ferido o comerciante Elvino Adamczuka, 49 anos, que passeava com seu cachorro e foi atingido no abdômen. O estado dele é gravíssimo. Em Rio Grande, na mesma noite, o estudante Felipe Coelho Moraes foi morto em um assalto praticado por dois homens em uma moto (leia na pág. 17).

A violência avançou madrugada adentro na Capital e, por volta da 1h30min de sábado, quatro homens armados com pistolas e espingardas assaltaram o Dado Pub, no Moinhos de Vento. Gerente e funcionários foram rendidos. O grupo levou cerca de R$ 5 mil.

O sábado amanheceu com um arrastão realizado por jovens armados com facas nas proximidades da Lojas Americanas, no Centro. Por temor de invasão, clientes se trancaram dentro da loja. Ainda no sábado, ocorreu um assalto a uma joalheria em Venâncio Aires que terminou com um ladrão ferido e outro preso pela Brigada Militar.

No domingo, não houve descanso. Cinco agências bancárias foram atacadas desde a madrugada. Ontem à noite, entre 20h e 21h, pelo menos duas pes- soas foram assassinadas em Porto Alegre. No primeiro caso, dois homens foram baleados no bairro Jardim Itu-Sabará – um deles morreu e o outro ficou ferido. No segundo crime, conforme a BM, um homem foi morto a tiros durante um assalto na Vila Ipiranga.

Ao longo do domingo, os boatos via internet foram perdendo força. Conforme a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública, o órgão trabalha para desmentir as informações e para identificar de onde vêm. “A inteligência está atuando para procurar identificar a origem das mensagens falsas”, informa a secretaria.




UM LIMITE FOI ROMPIDO



ZERO HORA 06/09/2015 - 21h13min



Por: David Coimbra




Tempos atrás, quando era repórter de polícia, fui fazer uma matéria com adolescentes infratores. Entrevistava uma menina que havia cometido uma série de crimes, nem lembro quais. Na verdade, recordo de quase nada daquela reportagem, exceto de uma frase que ela formulou meio que como desabafo:

— Sabe... o que eu preciso é de disciplina.

Menina inteligente. Expressou ali uma necessidade universal do ser humano. As pessoas, crianças ou adultas, quando vivem em sociedade, precisam sentir que há uma autoridade acima delas — para que se sintam seguras.


O pior chefe é o chefe bonzinho, que não diz claramente aos subordinados o que eles devem fazer. A mesma coisa o pai. Pais que dão aos filhos pequenos direito de escolha são pais cruéis. O pai responsável toma as decisões pelos filhos.

Mas ter autoridade não é ser autoritário.

Agora, em setembro, aumenta o número de suicídios de jovens no Japão. Sabe por quê? Porque eles têm de voltar à escola, e os jovens japoneses se sentem oprimidos pelo excesso de disciplina e pelo clima competitivo das escolas do país.

É algo sutil. Os governantes brasileiros, traumatizados com o autoritarismo da ditadura militar, sentem-se constrangidos quando têm de exercer sua autoridade. O resultado é um povo oprimido pela falta de disciplina.

Neste feriadão, no Rio Grande do Sul, a frouxidão das autoridades do Estado, somada a um conjunto de circunstâncias sociais e políticas, instaurou o pânico entre a população. Foi rompido um limite. Foi quebrada uma barreira. Os bandidos compreenderam que podem ir além do que iam. Será necessária muita força, muito empenho, para que haja um refluxo dessa situação. Agora é a hora da liderança. Mas... haverá liderança?