SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

sábado, 19 de novembro de 2016

BONDES DO TERROR EM PORTO ALEGRE


Presos em confronto com a BM revelam os bondes do terror em Porto Alegre. Vídeo feito por policial militar após a prisão de integrantes da facção criminosa revela o perfil dos jovens que alimentam a guerra nas ruas da Capital

Por: Eduardo Torres

ZERO HORA 16/11/2016 - 11h03min |


Depois de presos em confronto com a BM, e de terem um companheiro morto, eles continuaram ameaçando rivais Foto: Reprodução / Diário Gaúcho

O primeiro chamado veio de boca em boca, nas ruas da Vila dos Sargentos, no bairro Serraria, zona sul de Porto Alegre. Um bonde partiria em alguns minutos para um ataque aos pontos de tráfico do Beco do Adelar, no Bairro Aberta dos Morros, controlados por uma facção rival. O jovem de 21 anos, que estava escalado para fazer parte do grupo, ficou contrariado. Era sábado à tarde e ele estava com a namorada. Comentou que não iria. Mas aí uma mensagem via WhatsApp reforçou a convocação.

— Quando chega essa mensagem, é proibido dizer não para a facção — avisa um amigo que prefere não ser identificado.

Um carro parou diante do jovem e um fuzil lhe foi entregue. O humor dele mudou imediatamente. Passou à euforia de quem está acostumado a partir para matar ou morrer. E foi com o bonde para a missão.


Era sábado, 22 de outubro. Cerca de três horas depois, uma pequena multidão aplaudia a saída de um ônibus da Brigada Militar do Beco do Adelar. O local havia sido cenário de uma batalha digna de guerra. Policiais e criminosos tiveram intensa troca de tiros. Um dos suspeitos, Régis Maurício Lima Alves, o Reginho, 27 anos, tombou no confronto com os PMs. Sete outros jovens foram presos e três adolescentes apreendidos. Todos foram colocados dentro daquele ônibus.

Alheios aos aplausos da rua, eles foram filmados por um policial militar em um vídeo de 17 segundos. Um recorte do principal alicerce das facções criminosas na Capital.

— O que realmente alimenta as facções é este conceito do "vida loka", que eles vivenciam no dia a dia. São jovens sem perspectivas e com uma missão. Não há preocupação com o futuro, nem com quem esteja mais próximo. Do tipo "se tiver que assaltar, eu assalto. Se tiver que matar, eu mato". A morte realmente faz parte. É rotina — acredita o delegado Rodrigo Pohlmann, do serviço de inteligência da Secretaria da Segurança Pública, que mapeia as facções criminosas da Capital.

O riso

Na imagem, eles pouco se importam que atrás da câmera esteja um policial. Seguem cumprindo a missão de atacar os rivais. Um garante que vai esquartejar, outro que matará, um terceiro, que usará o fuzil que carregava no ataque. O riso sarcástico — ou nervoso — é uma constante durante os 17 segundos.

— É a quebra de todo limite moral, eles não têm medo de sofrerem a punição da lei ou da autoridade. São vaidosos ao extremo. Não basta pertencer ao grupo, ser bandido. É preciso ser bandidão. Há uma outra escala de valores, então o arrependimento ou o sentimento da perda de um companheiro, por exemplo, ficam para segundo plano — diz o psiquiatra Luiz Carlos Illafont Coronel, que faz parte do Gabinete de Gestão Integrada da Secretaria da Segurança Pública.


Bonde foi preso com fuzil e pistolas no Beco do Adelar Foto: Divulgação / Brigada Militar/Divulgação

O crime e as drogas

Reginho, morto no confronto com a BM, era morador da Vila dos Sargentos, como a metade dos ocupantes do ônibus. Tinha trajetória semelhante a todos eles. Jovem, envolvido em outros crimes que o levaram cedo à prisão e usuário de drogas.

— Para uma pessoa tida como clinicamente normal, o uso de drogas liberatórias (álcool, maconha, crack ou cocaína) tem o potencial de multiplicar até três vezes o seu comportamento violento. Em alguém com transtornos mentais, esse potencial sobe para dez vezes — afirma Luiz Coronel.

Segundo ele, 84% da população carcerária sofre de algum tipo de transtorno mental. Desde a dependência química, que aflige metade dos detentos, até esquizofrenia, bipolaridade ou depressão. A maior parte, não diagnosticada, muito menos tratada. No mundo do crime, eles se tornam úteis.

— Se atacássemos seriamente a questão da dependência química e do acesso às drogas, diminuiríamos drasticamente bondes como esse. É preciso criar presídios mas, principalmente, é preciso tratar os detentos.

Uma tropa espalhada pela cidade


O bonde, no jargão do crime, é como um grupo de assalto em uma guerrilha. É formado para uma missão ordenada pelo comando da facção. Não há tempo para questionar a ordem.

— É como uma "grenalização", eles agem apaixonadamente por uma causa que não explicam. É fé cega. Aí entra em cena o efeito manada — acredita o juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais da Capital.

Aquela missão de 22 de outubro foi iniciada dois dias antes, em um ataque errado no estacionamento do supermercado Zaffari, do bairro Cavalhada, vitimando o empresário Marcelo Oliveira Dias, 44 anos. Dois dos presos no ônibus foram denunciados pelo Ministério Público pela participação na execução do empresário.

Na tarde do sábado, o ataque não seria mais a um alvo do grupo inimigo, mas à base dele. Não são mais criminosos de uma comunidade que se reúnem para um ataque, mas os chamados para o bonde funcionam como uma tropa convocada.

— Eles vêm de diversos lugares geralmente controlados pela facção. Recebem mensagem pelo celular para estarem em tal lugar, tal hora, onde um carro tal vai apanhá-lo. Recebe uma arma e cumpre a missão. Depois, mensagens são enviadas ao comando para comprovar o cumprimento da missão. Muitas vezes os envolvidos nem se conhecem, mas negar a participação no bonde pode significar a morte deles. São como funcionários — aponta o delegado Rodrigo Pohlmann.


Empresário foi morto por engano por criminosos da facção criminosa em estacionamento de supermercado Foto: Marcelo Kervalt / Agência RBS

A recompensa

Naquele bonde, a facção usou jovens da Vila dos Sargentos — de onde teria partido o líder do grupo —, na zona sul, vilas Tamanca e Ipe, na zona leste, Viamão e Alvorada.

A recompensa por isso está bem longe de ser o glamour de uma vida lucrativa no crime. De acordo com a polícia, quem vai no bonde, já é funcionário do grupo. Recebe para atuar em assaltos e no tráfico de drogas, mas neste mundo em que matar ou morrer faz pouca diferença, não há espaço para o acúmulo. O dinheiro que ganham geralmente é consumido em uma noite, esbanjando ou na compra de armas.

Mesmo que a guerra entre facções represente muita lucratividade para quem está no topo da pirâmide do tráfico de drogas, para quem integra um bonde, a lógica é outra. A maioria dos integrantes daquele bonde é miserável.

— Contentam-se com o leite do dia, a comida do dia e amanhã veem como vai ser. O importante é a satisfação do momento — avalia o delegado.

A relação de emprego surge geralmente na cadeia. Na galeria controlada pela facção, o detento com menos condições financeiras passa a ser sustentado pelo grupo. E isso geralmente se reverte em dívida a ser paga nas ruas.

Nas prisões, como soldados

Mesmo que a estrutura de comando de uma facção criminosa tenha nas cadeias o seu escritório, a construção de um soldado disposto a matar ou morrer por essa causa começa muito antes. O aplauso da comunidade do Beco do Adelar depois da prisão do bonde, para o juiz Sidinei Brzuska, é inútil.


— As prisões hoje são como campos de treinamento do Estado Islâmico. Um preso já chega ao sistema como uma bomba prestes a explodir, e ela não é desarmada em uma galeria que vive e fala do crime o dia inteiro ociosamente e sob controle de facções criminosas. É o efeito contrário ao da ressocialização — define.

O psiquiatra Luiz Carlos Illafont Coronel vai além.

— Estamos depositando diariamente um exército de jovens, de mão beijada, para essa estrutura transtornada dos presídios. É resultado direto da desestruturação das famílias e da sociedade. As relações se liquefazem rapidamente — diz.

Pai ausente

É papel do pai, ou da figura paterna, por exemplo, na formação da personalidade, mostrar os limites. E este, de acordo com o psiquiatra, é o ponto principal de ruptura que se vê nas periferias.

— A sociedade precisa oferecer a essas famílias o suporte para contrapor ausência paterna, ou o enfraquecimento paterno. Seja com mais creches, escolas de tempo integral ou atividades comunitárias. Se o Estado não investir nessas questões básicas, o jovem busca um pai com valores errados — explica.

Não é à toa, lembra o psiquiatra, que os líderes de facções são chamados de "patrões". A maior parte deles, segundo ele, tem transtorno antissocial de personalidade. São frios, cometem as maiores atrocidades e não demonstram arrependimento, mas principalmente, são líderes e manipuladores. É a este perfil que um integrante de bonde tenta agradar e se identificar.

— As nossas comunidades precisam ter motivos para se orgulhar e dar destaque a esse jovem que hoje tem o crime como referência sem nenhuma concorrência. Ele precisa de uma razão para não matar ou morrer pelo crime — avalia o juiz Sidinei Brzuska.

Sem referências positivas, o comportamento violento tende a se multiplicar. Em 70% dos casos de criminosos com transtorno antissocial de personalidade, por exemplo, houve, sobretudo na infância, algum episódio violento — físico, psicológico, mental, abandono ou negligência — que o marcou para sempre.


QUEM É QUEM  


O raio-x dos integrantes do bonde mostra o caminho, desde os seus históricos familiares, que os levaram a matar ou morrer pelo crime.



1. Geovani Bueno, o Choupana, 22 anos - O bonde caiu

Morador da Vila dos Sargentos, Geovani fica em silêncio no vídeo, com olhar preocupado. Para a polícia há um motivo para isso. Ele teria sido alçado ao comando da quadrilha depois da prisão de um dos gerentes do bando dias atrás. Seria responsabilidade de Choupana organizar o bonde que atacou o Beco do Adelar, assim como a emboscada que acabou na morte, por engano, do empresário Marcelo Oliveira Dias. Na lógica da facção criminosa, ele deixou um prejuízo para trás. Tanto pelas prisões quanto pela perda de armas no confronto com a Brigada Militar. Até chegar ao bonde que atacou o Beco do Adelar, Geovani colecionou passagens pela polícia e os benefícios da impunidade. Em 2013, aos 16 anos, ele conseguiu a proeza de ser relacionado em quatro atos infracionais diferentes no intervalo de apenas quatro meses. Só foi internado na Fase depois do último caso, em agosto daquele ano. Na instituição, teve um histórico problemático. Envolveu-se em pelo menos quatro episódios de brigas e agressões. Em junho de 2012, com a participação de outro interno, teria tentado estrangular um adolescente dentro da Fase.

E se...

— Ele tivesse sido enquadrado em alguma medida socioeducativa logo depois do primeiro ato infracional que cometeu? Por ter cometido um delito de menor potencial ofensivo, um furto, ou ainda, o seu segundo delito, o tráfico de drogas, Geovani poderia ter cumprido a medida em uma unidade não tão restritiva, com praticas diárias de reeducação mais amplas. Em Pernambuco, essa experiência é feita em uma unidade de Jaboatão. Lá, os adolescentes são mantidos em um ambiente caseiro e saem da unidade com uma formação. O índice de reincidência é quatro vezes menor do que no sistema tradicional.

— Ele tivesse sido acompanhado após o cumprimento da primeira medida? Assim como no restante do Brasil, no Rio Grande do Sul o índice de retorno de adolescentes à Fase ultrapassa os 45%. Na Fase, há o programa POD Socioeducativo, que acompanha os egressos por um período, possibilitando a qualificação educacional e profissional, além de acompanhar a família deste adolescente. A participação, no entanto, é voluntária. O índice de reincidência reduz para 9% entre os que participam do programa.





2. Carlos Henrique, o Nego Beiço, 18 anos - "Aquele não era o meu filho"

Quando o vídeo inicia, Carlos Henrique é um dos mais agressivos. Fala alto, olhando para a câmera e, sem se importar que um policial militar é quem filma, dispara: "Vai ver, ET, nós vamos te esquartejar". A vigilante Mara Regina Silva dos Santos, 38 anos, mãe dele, ainda não acredita no que viu.

— Aquele não era o meu filho. Aquele ódio não é dele. Porque ele sempre foi um guri alegre e brincalhão, que faz amizades com facilidade. Nunca foi agressivo — diz.

Horas depois da prisão, ainda no Palácio da Polícia, lembra a mãe, o filho desabou.

— Ele chorou muito, me pediu que eu ajudasse ele. No fundo, acho que pela ausência do pai, eu protegi ele demais. Talvez eu não tenha dado limites. Se ele fez mesmo tudo o que estão dizendo que fez, terá que pagar. Vai ter que aprender do pior jeito. Mas o meu filho não é um monstro — desabafa.

Morador do Bairro Viamópolis, em Viamão, Carlos Henrique completou 18 anos quatro meses atrás. O rapaz é apontado pelo Departamento de Homicídios como um dos atiradores que vitimou, por engano, o empresário Marcelo Oliveira Dias no estacionamento do Zaffari, no Bairro Cavalhada, dias antes de cair no bonde que invadiu o Beco do Adelar. Aos 15 anos, ele abandonou a escola tendo cursado até o 4º ano do ensino fundamental. Foi quando, lembra a mãe, ele resolveu procurar o pai. Chegou a conviver por um tempo com ele na Zona Norte de Porto Alegre, mas não deu certo. Aí o rumo do Carlos Henrique mudou. Em 2013, esteve envolvido em um caso de ameaça, com faca, na frente de uma escola de Viamão. Para a mãe, tudo não passou de um mal entendido. No ano seguinte, ele foi flagrado dirigindo um carro roubado na cidade. Outra vez, segundo Mara Regina, a culpa não era dele. Foi liberado na delegacia.

Ela atribui o envolvimento do filho às más companhias — e a uma certa dose de azar.

— Quando ele passou pela Fase um monitor me falou que ele é muito inteligente, é um guri bom, mas que acabaria entortando por causa das companhias — lembra a mãe.

Carlos Henrique ficou três meses na Fase depois de ser flagrado com uma pistola 9mm na Zona Sul da Capital. Deveria cumprir outros três meses de medida socioeducativa em semiliberdade. Acabou fugindo sob a alegação de que "os contras" dominavam a casa onde deveria cumprir a medida. Foi recapturado em agosto deste ano em uma ação do Deca nos inferninhos do Centro de Porto Alegre, mas voltou a fugir uma semana antes dos crimes na Zona Sul. Mara Regina reluta em acreditar que o filho tenha participação em tantos crimes como alega a polícia. Desde o ano passado, porém, quando foi interno na Fase, o filho se declara integrante de uma facção criminosa. E reforça ações do grupo onde é requisitado. Desde o ano passado, segundo a polícia, Carlos Henrique estava na Vila Tamanca, Bairro Agronomia, na Zona Leste da Capital. De lá ele teria partido para a ação no Beco do Adelar. Foi lá que, em dezembro do ano passado, foi baleado em um dos braços. A mãe acredita que o disparo foi uma bala perdida.

— Ele só estava assistindo um jogo de futebol com uns amigos e tentou se proteger — lembra.



E se...

— Ele não tivesse abandonado a escola? A relação entre o nível de escolaridade e o envolvimento com a criminalidade é direta. Entre os internos da Fase, 60% não passaram do 6º ano do ensino fundametal. No sistema prisional, 62% não completaram o ensino fundamental. Estatisticamente, a cada ano de estudo completado após o sexto ano, reduz em 10% a probabilidade de envolvimento na criminalidade.




3. Carlos Heitor, 26 anos - O recado

Morador da Vila dos Sargentos, Bairro Serraria, Carlos Heitor, algemado no último banco do ônibus, se sobressai no vídeo com um recado para o rival: "A gente caiu para a Brigada, não para ti, otário". Mesmo com a valentia demonstrada, entre os integrantes do bonde, ele é o que tem menor histórico criminal. Um dos únicos que não teve passagens pela Fase quando adolescente.



4. Vágner, 22 anos - Herdou o crime

Em uma das mãos, a tatuagem denuncia: BNC. É a abreviatura da facção dos Bala na Cara que Vágner carrega consigo como um carimbo. Para o pai, é uma sentença.

— Quando entra nesse negócio de facção é horrível. Só tem dois caminhos: a morte ou Jesus — diz.

Vágner Reis, 41 anos, sabe do que fala. E tem noção da sua participação na chegada do filho até o bonde que invadiu o Beco do Adelar. Quando o filho tinha apenas 10 anos, ele se envolveu com as drogas, em pouco tempo estava no tráfico e acabou preso no Litoral Norte quando Vágner Júnior ainda estava com 14 anos. Na cadeia, ele reverteu o seu rumo. Converteu-se à religião.

— Tudo na vida é um aprendizado. Assim como eu aprendi, ele também vai ter que tomar essa atitude por ele mesmo. Porque o que fez foi muito errado e ele tem que ter consciência disso. Por enquanto, vou orar muito pelo meu filho — afirma.

No vídeo, Vágner Júnior, algemado, conserva um sorriso irônico e, entre os gritos dos companheiros de bonde, também solta os seus, em tom de ameaça aos rivais da facção.

A vida dele começou acidentada desde cedo. Aos quatro anos, a separação dos pais foi traumática. O menino viu-se envolvido em uma disputa pela sua guarda e acabou ficando com o pai. Na prática, foi criado pela avó. Ele repete o traço comum aos companheiros de bonde. Abandonou os estudos no 5º ano do ensino fundamental.

— Eu disse para ele não largar a escola, mas no final, só ia para lá fazer outras coisas que não estudar. Então eu consegui um bico aqui, outro ali para ele em obras. Mas o meu filho nunca parou em emprego nenhum — conta o pai.

O envolvimento de Vágner Júnior aconteceu na Vila Castelinho, área dominada pela facção em Viamão, aos 16 anos. Já no ano seguinte, quando se viu envolvido com crimes, ele voltou ao pai e pediu ajuda. A namorada estava grávida. O pai, já recuperado, deu uma casa mobiliada para que o menino iniciasse a sua vida em família. Em vão.

— Ele botou tudo fora. Eu dei um ultimato: ou agia como um homem, ou era melhor que fosse embora. Ele foi embora — lamenta Vágner.

Na última vez que tentou conversar com o filho por telefone, meses atrás, pressentiu que a prisão seria questão de tempo. Vágner Júnior só falava em armas, facção, "cheio de gírias". Antes de ser preso, ainda entregou o filho aos cuidados do pai. Com uma frase que ficou na memória do avô: "eu prefiro ele nas mãos do senhor do que como eu, com uma arma na mão".



E se...

— Ele tivesse referências positivas? Estudos clínicos mostram que a ausência paterna, ou de uma referência paterna positiva, pode trazer prejuízos ao desenvolvimento afetivo e social do adolescente. É papel da figura paterna estabelecer os limites, os conceitos do que é certo e o que é errado no mundo fora do ambiente familiar. Levantamento feito no país demonstra que um terço dos adolescentes infratores e jovens criminosos tiveram pais ausentes e 40% dos internos da Fase tinham, há dez anos, os pais presos. Conforme a ONG Brasil Sem Grades, em torno de 60% dos adolescentes internos da Fase, que usam drogas, não tiveram a presença positiva do pai nas suas formações. A referência não precisa ser necessariamente familiar. Ao abandonar a escola, mais uma possibilidade de busca de referências se esgotou. Na Vila Castelinho, em Viamão, onde Vágner Júnior teria iniciado sua trajetória no crime, a estrutura é precária. Não há praças ou espaços adequados para o convívio de crianças.



5. Jonatan, o Loucão, 23 anos - Profissão, soldado do crime


— Emprego para cadeieiro, nem pensar.

A frase calou fundo para o jovem, então com 20 anos, que acabara de passar nove meses no Presídio Central. Ainda não foi condenado pelo homicídio que o colocou preventivamente na cadeia. Mas foi como uma sentença, ou melhor, o recurso negado depois de pelo menos outras duas sentenças que a vida já havia lhe imposto. Primeiro, a perda do pai, morto a tiros, quando tinha seis anos. Depois, aos 16, teve outra porta fechada. Abandonou a escola no 6º ano do ensino fundamental para cuidar da primeira filha que estava para nascer — hoje são três. Mas foi depois daquela resposta que Jonatan tomou a decisão que o levou a estar no bonde que atacou o Beco do Adelar.

— Um dia ele voltou para casa muito revoltado mesmo e disse que não tinha mais jeito. Iria se virar e fazer tudo o que a facção mandasse. Seria o emprego dele — conta a companheira dele, Greice de Oliveira Correia, 22 anos.


Oficialmente ele é morador da Vila Castelinho, em Viamão, em um lugar que deveria ser uma casa de alvenaria. Mas ela está desabada, restou só uma peça, onde as meninas sobrevivem do jeito que dá. O pai, na verdade, não tem parada fixa. Vai para onde lhe mandam.

Quando foi preso, Jonatan já vivia em condições precárias. Na galeria dominada por uma facção, ocupou o lugar mais baixo na escala social do lugar. Era um "caído". A facção custeou a sua estadia e ele saiu devendo. Sem emprego formal, virou soldado do crime.

Por isso, Greice não se surpreendeu com o que viu no vídeo do bonde dentro do ônibus da Brigada Militar. O ódio de Jonatan, nas imagens, é quase automático: "Vai morrer!", ele grita.

Depois de conseguir passar a infância e a adolescência sem se envolver com a criminalidade, ao parar de estudar, ele mudou. Cursava o 6º ano do ensino fundamental aos 16 anos. Mesmo com o atraso nos estudos, nunca foi um "aluno problema". Foi trabalhar na construção civil mas, como não tinha nenhuma qualificação, quando os empregos ficaram raros, ele sobrou. E aí entrou para o tráfico em Viamão.

— Ele nunca me conta onde vai, às vezes some por uns três, quatro dias — diz a companheira.

Foi assim no ano passado, quando ele saiu cedo de casa dizendo que iria "ali em cima" e já voltava. Já era começo da noite quando Greice recebeu uma ligação. Era uma delegada de Santa Maria comunicando que o companheiro estava preso lá. Havia sido flagrado traficando em uma área onde a facção criminosa estava impondo seu domínio.


se...


— Ele recebesse qualificação profissional na prisão? Nas cadeias gaúchas, apenas 14% dos detentos trabalham, índice abaixo da média de 16% no país. Para agravar essa situação, em locais como o Presídio Central as galerias são controladas por facções criminosas. Agem como uma concorrência desleal diante da ausência de alternativa profissional a quem já cometeu um crime. Desde 1964 a Lei de Execução Penal prevê que o Estado crie meios de reinserção ao mercado de trabalho de ex-detentos, mas a resistência no mercado de trabalho — agravada pela baixa escolaridade e qualificação — é uma constante. Uma alternativa a essa realidade são as Apacs, que ainda não viraram realidade no Rio Grande do Sul. Neste modelo de prisão, todos os detentos trabalham e estudam, além de receberem cursos profissionalizantes. A reincidência criminal no modelo prisional tradicional é de 70% no Rio Grande do Sul. Nas Apacs não passa de 20%.




6. Josimar Bandeira Corrêa, 21 anos - O ódio de uma mente transtornada


Ele tinha os olhos vidrados, ainda estampando a tensão do momento. E falou assim, atropelando as palavras para o o policial militar que filmava os presos no ônibus da BM: "o fuzil que tava na minha mão, ia cravar ele no teu c..., seu f...".

Quando soube do que acontecia, o aposentado Línio Corrêa, 73 anos, não conteve o choro. Chorou, segundo ele, um dia inteiro. Era de tristeza, preocupação e, sobretudo de impotência.

— O ódio é normal na situação em que ele está. Tenho muito medo pelo meu filho e pelos outros que estão próximos dele — desabafa.

É que, mais uma vez, Josimar foi tratado pelas autoridades como um preso comum. Foi enviado à Pasc junto dos outros integrantes do bonde. Na casinha simples do fundo de um terreno no Bairro Guarujá, Zona Sul da Capital, o pai guarda uma mochila com um calhamaço de documentos, laudos e todo o tipo de registro possível demonstrando que Josimar sofre de transtornos mentais graves. Uma sacola plástica, igualmente cheia, expõe o risco. São os medicamentos que o jovem se negou a tomar.

Junte neste cenário crítico o uso de drogas e ao convívio do rapaz com o tráfico de drogas na Vila dos Sargentos, um dos núcleos de uma facção criminosa. E adicione uma arma em suas mãos. Sim, na tarde do sábado, dia 22, Josimar era uma bomba nas mãos de uma facção criminosa.

O transtorno cognitivo grave, que se mostrou um dos sinais da esquizofrenia, foi diagnosticado aos 12 anos. Antes disso, o pai já o havia retirado de uma escola do bairro. É que Josimar era um menino agitado demais, vivia envolvido em brigas. Línio então conseguiu um lugar para o filho no Pão dos Pobres. Lá veio o alerta.

— Um dia a psicóloga me chamou e contou que o Josimar era um guri muito inteligente, mas do nada, ele virava. Eu precisava de uma consulta para ver o que era isso — lembra.

Iniciou o tratamento, mas à medida em que a adolescência avançava, a revolta também crescia.

— Ele dizia "não sou louco, pai". E não tomava os remédios. Aí na rua sempre se prevaleceram dele — conta Línio.

Quando foi internado na Fase, nos primeiros meses, foi medicado. Depois, ao ser transferido de unidade, uma falha de comunicação por pouco não foi fatal. Deixaram de medicar o Josimar. Descontrolado, envolveu-se em uma rebelião, em pelo menos duas brigas e ainda foi flagrado com maconha lá dentro.

— Quando me chamaram, eu só tinha uma pergunta a fazer: Por que não medicaram o meu filho? Eles disseram que eu não tinha avisado — lembra o aposentado.

Quando as confusões passaram e novamente Josimar ficou sob controle, ele evoluiu. Completou o ensino fundamental, fez um curso de técnico administrativo e viveu até um reencontro que lhe encheu de esperança. A irmã, por parte de mãe, que ele nem sabia existir, é hoje engenheira sanitária na Itália. Ela foi adotada por um casal de italianos quando tinha quatro anos. Um projeto da Justiça promoveu um encontro virtual entre os dois. Na época com 17 anos, Josimar disse à Zero Hora:

— Quero mudar de vida. Ela é engenheira, eu queria ser engenheiro mecânico. Tudo é possível.

Assim como ele, a irmã também herdou os transtornos mentais da mãe, que era moradora de rua e sofre de esquizofrenia. A diferença é que ela, na Itália, recebeu oportunidades.

Já o Josimar, quando saiu da Fase, deparou-se novamente com a sua realidade. Até procurou um emprego. E foi chamado de maluco.

— Eu tentei uma aposentadoria para ele. Mas ele nunca aceitou. Eu não canso de pensar nele quando menino, tão alegre, vivia junto comigo quando eu trabalhava de zelador, mas isso ficou no passado. Hoje só penso em tratar o meu filho — desabafa.


E se...
— Ele recebesse tratamento e oportunidades? Ser portador de doença mental na adolescência em Porto Alegre pode representar uma barreira intransponível. O tempo de espera por uma consulta no CAPsi da Zona Sul para esta faixa etária, por exemplo, chega a um ano. Quando se trata de uma doença como a esquizofrenia, a demora no início do tratamento só agrava o problema. Que vai bem além das dificuldades clínicas. Mesmo que o Plano Nacional de Saúde Mental preveja a inclusão social e no mercado de trabalho, a realidade do mercado é oposta. A esquizofrenia acomete 1% da população mundial. Sob controle de medicação, o portador pode, e deve, exercer funções no mercado de trabalho. Josimar fez um curso de auxiliar administrativo na Fase, mas nunca foi empregado. No crime, foi aceito.



7. Dênis, 29 anos - Morador do Bairro Serraria, não tinha antecedentes criminais.

8. Adolescente, 17 anos -Morador do Bairro Jardim Carvalho, tem dois registros policiais anteriores neste ano por tráfico de drogas e receptação.



9. Adolescente, 16 anos - Morador do Bairro Guarujá, passou pela Fase por envolvimento em roubo a taxista. Na instituição, tem histórico em brigas.

10. Adolescente, 17 anos - Morador de Alvorada, desde os 14 anos tem envolvimento com a criminalidade. Tem registros policiais por tráfico de drogas, porte ilegal de arma e receptação. Uma semana antes de cair com o bonde, foi flagrado com uma pistola 9mm no Bairro Restinga, Zona Sul de Porto Alegre.


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