SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 31 de janeiro de 2016

VIOLÊNCIA E INSEGURANÇA, NÓS E ELES


Paulo Gleich: violência e insegurança, nós e eles

"Com alguma melancolia, constato minha insuficiência diante dessa questão de tantos e tão variados matizes: todos têm alguma razão, ninguém tem A razão

"ZERO HORA 30/01/2016 - 15h03min



Foto: Marcos Nagelstein / Agencia RBS

Como você reage à notícia da morte de um ladrão durante uma tentativa de roubo ou assalto? Confesso que minha primeira reação, aquela mais instintiva, é de certo júbilo: a justiça foi feita, o mundo se tornou um lugar um pouco mais seguro, “nós” marcamos um gol contra “eles”. Ato seguinte, me assusto e me envergonho desse pensamento tão primário, cuja lógica me identifica a um fascista. No curto tempo entre júbilo e espanto, porém, não chego a expressá-lo para além de meu diálogo interior. Mas encontro essa reação refletida em muitas manifestações, que exaltam a ação do algoz (herói!) ao passo que xingam o morto (um a menos!).

Na morbidamente irresistível leitura dos comentários, me deparo com manifestações mais exaltadas: de “direitos humanos para humanos direitos” a soluções que vão da pena de morte à eugenia, passando pela volta da ditadura. Nesse momento, minhas tripas se revolvem contra seus autores, os “cidadãos de bem” que com seus brados alavancam a onda fascista que nos ameaça. Fico tomado do desejo de protestar, taxando sua lógica de maniqueísta e egocêntrica, e de desnudar, com ironia e sarcasmo, a puerilidade de seus julgamentos e valores. Mas novamente me detenho: é o mesmo sentimento de antes, a ira apenas mudou de alvo.

Com alguma melancolia, constato minha insuficiência diante dessa questão de tantos e tão variados matizes: todos têm alguma razão, ninguém tem A razão. Lamento o esvaziamento da possibilidade de diálogo, restrito a manifestações guturais, e vendo-nos entrincheirados em certezas mais ou menos frágeis, desde as quais se desmerece e deslegitima a priori a posição do outro. Bradando ao outro uma suposta razão ou superioridade, acaba-se mostrando apenas uma arrogância surda, que coloca o “sabedor”, no fim das contas, no mesmo patamar do “ignorante”.

A violência e suas filhas – como a raiva e a ira – surgem com frequência não como expressão de maldade ou força, mas de fragilidade e desespero. O recurso à violência, em palavras ou atos, pode ser uma derradeira tentativa de se proteger de uma insuportável ameaça, real ou imaginária. Um paranoico ataca não porque seja violento em sua essência, mas porque se sente tão acuado que a única forma de sobreviver é agredindo seu suposto algoz. Não há vacina contra a violência, a não ser tentar alongar o caminho entre sensação e reação, pavimentando-o com reflexão e diálogo. Mais forte não é quem grita mais alto, mas sim quem consegue escutar e acolher o desamparo contido nos gritos de ódio.

Violência e insegurança são duas caras de uma mesma moeda, uma potencializa a outra. Inseguros, somos mais propensos a atos carregados de violência; sofrendo violência, nos tornamos ainda mais inseguros. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, a questão da segurança pública é apenas a faceta mais tangível da Unsicherheit, palavra do alemão que significa “insegurança”, mas também “incerteza” e “falta de garantia”. Em um mundo cada vez mais escravo da solidão individualista, órfão de narrativas e instituições que sustentem a vida em comum e com perspectivas de futuro pouco animadoras, estamos todos mais ou menos vulneráveis e inseguros.

O desafio em relação à segurança pública é enorme: demanda mais efetivo e melhores salários para policiais e a reformulação de uma polícia herdeira de uma lógica que não cessa de fracassar. Precisaria também incluir condições mais dignas não apenas para os presos, mas para todos, pois a vulnerabilidade social comprovadamente potencializa índices de adoecimento e criminalidade. O desafio maior, porém, cabe a todos: conseguir aproximar “nós” e “eles”, em vez de aprofundar o abismo que empurra para o aumento da segregação e da violência. Para isso, precisamos reconhecer que padecemos de Unsicherheit, e que o caminho, seja ele qual for, precisa incluir o outro - inclusive o ladrão e o fascista. Por mais diferente e ameaçador que seja o outro, precisamos zelar para que ele jamais perca sua condição de nosso semelhante: esta sim é a verdadeira ameaça.

*Paulo Gleich escreve mensalmente no Caderno PrOA.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

OS ARRASTÕES E A IMPUNIDADE



ZERO HORA 29 de janeiro de 2016 | N° 18429



EDITORIAIS




Duas mazelas da segurança pública no Estado ficaram escancaradas no arrastão de jovens e adolescentes saqueadores que aterrorizou os passageiros do trem metropolitano nesta semana. A primeira é a falta de prevenção e policiamento ostensivo, que facilita a vida dos delinquentes. A segunda é a frouxidão da legislação, que propicia a impunidade e a reincidência. Os arrastões, a que os gaúchos assistiam de longe, como se fossem fenômenos restritos especialmente à paisagem carioca, proliferam pelo país e chegam a Porto Alegre. São uma das provas da falência da segurança pública, pois jovens que agem em grupo expressam total desprezo pelo risco, porque não serão contidos nem ameaçados.

No caso do assalto aos usuários do trensurb, pelo menos 10 criminosos atuaram em conjunto. A ausência de policiais em ambientes públicos assegura o êxito de ações como essa. Porto Alegre e a grande maioria das cidades gaúchas não dispõem mais de policiamento ostensivo. Soldados da Brigada Militar são raridade na paisagem do Rio Grande do Sul. O aspecto positivo é que, logo depois da ação, a maioria dos envolvidos foi localizada e presa. Mas é exatamente nesse momento, logo após a prisão dos assaltantes, que se expõe, mais uma vez, uma realidade que frustra assaltados e policiais dedicados à caça de criminosos. Muitos dos detidos são reincidentes.

E o que choca ainda mais é que parte do grupo foi localizada e presa porque continuou circulando pelo centro da Capital. São indivíduos, adultos misturados a adolescentes, com passagens pela polícia ou já condenados, que voltam a agir e logo depois se juntam aos pedestres, com a certeza de que, em algum momento, estarão novamente livres. A reação a episódios como este não depende, portanto, apenas das forças de segurança, mas de toda a estrutura institucional, que envolve legislação, Justiça e sistema carcerário e que continua falhando no enfrentamento da criminalidade.

ALERTA DEPOIS DO ARRASTÃO NO TRENSURB



ZERO HORA 29 de janeiro de 2016 | N° 18429



CRISE NA SEGURANÇA


Alerta depois de arrastão


O dia seguinte ao arrastão em um vagão do trensurb foi de atenção nas estações. Na terça-feira, um grupo de nove assaltantes levou celulares, dinheiro e pertences entre as estações Rodoviária e São Pedro, em Porto Alegre. A preocupação com ações semelhantes existe por parte da empresa, que promete intensificar a troca de informações e imagens com as polícias para prevenção e investigação.

– É o que vamos fazer para manter a confiança do usuário. Ontem (terça-feira), a ação foi rápida por causa disso – diz o gerente de Operações da Trensurb, Júlio César Brandi Castro.

Nas imagens cedidas à polícia, o grupo foi flagrado saindo do vagão e passando correndo pelas roletas. Até o final do dia, sete haviam sido detidos. Quatro, logo após o assalto, e outros três no começo da noite. A BM recuperou 17 celulares, mochila, dinheiro e uma arma de brinquedo.

Uma grávida teve de ir direto para o hospital dar à luz após o arrastão. A jovem, de 19 anos, grávida de 40 semanas, tinha a previsão de ganhar a criança até o dia 2 de fevereiro. Ela estava com a mãe, de 40 anos, a caminho de Novo Hamburgo, quando o ataque começou. Ameaçada, teve a arma de brinquedo usada pelos bandidos apontada para a barriga.

Depois da fuga dos assaltantes na estação São Pedro, ela passou mal e foi auxiliada por outros passageiros. Levada ao HPS de Canoas e, logo depois, ao Hospital da Ulbra, ganhou o bebê, um menino. Ambos passam bem e devem deixar o hospital hoje.

leandro.rodrigues@diariogaucho.com.brLEANDRO RODRIGUES

POR MAIS POLICIAIS E BOMBEIROS...

 Concursados da BM, da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros protestam em Porto Alegre Adriana Franciosi/Agencia RBS

ZERO HORA 29 de janeiro de 2016 | N° 18429


JULIANA BUBLITZ


CRISE NA SEGURANÇA

FUTUROS POLICIAIS MILITARES, civis e bombeiros que aguardam para serem convocados fizeram manifestação



Cansados de esperar pelo governador José Ivo Sartori, um grupo de aprovados em concurso público para Polícia Civil, Brigada Militar e Corpo de Bombeiros se reuniu para protestar, ontem, na Capital. No total, 3 mil pessoas esperam convocação desde o fim de 2014.

A manifestação foi na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini, com churrasco coletivo. Em faixas e cartazes estendidos nas árvores, a indignação tinha frases com dizeres como “economizar na segurança custa vidas” e “enquanto Sartori navega no Caribe, a população fica à deriva”, em referência às férias do governador.

– O objetivo é chamar a atenção para efetivar os aprovados imediatamente. A situação é gravíssima. Nunca a segurança pública viveu crise tão grande no Estado – adverte o vice-presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia, Fábio Castro.

O sindicalista diz que, para atuar como policiais civis, 661 pessoas esperam convoção – sendo que 72 delegacias de polícia do Estado, conforme a entidade, têm com apenas um escrivão ou inspetor e outras 144, dois. O número de aprovados é insuficiente para resolver a crise, mas, na avaliação dos manifestantes, ajudaria a amenizar a sensação de insegurança.

– Em 2015, tivemos 490 baixas, entre aposentadorias, mortes, exonerações e demissões. Só isso já comprova a necessidade de convocação – diz André Gonçalves, 30 anos, um dos selecionados.

Além dos 661 aprovados para atuar na Polícia Civil, há outros 2,5 mil na expectativa por vagas no Corpo de Bombeiros e na BM. Todos precisam passar por cursos preparatórios antes de começar a trabalhar, o que leva pelo menos seis meses.

O presidente da Associação de Bombeiros do Estado (Abergs), Ubirajara Ramos, afirma que 200 integrantes da corporação se aposentaram desde 2015 e não foram substituídos. Ele também reclama que, desde julho de 2014, após a separação formal da BM, três leis para regulamentar a atuação dos socorristas estão “paradas”.

– Falta gente, estrutura e viaturas. A emissão e a fiscalização de alvarás está prejudicada, assim como o combate a incêndios. São 400 municípios que nem sequer têm bombeiros – alerta Ramos.

Na BM, não é diferente. O presidente da Associação dos Cabos e Soldados (Abamf), Leonel Lucas, lembra que, por lei, o efetivo da corporação deveria ser de 36 mil PMs. Hoje, segundo o Comando da BM, são 21 mil.

– Só em 2015, tivemos 2,1 mil aposentados. Sem recursos humanos, não temos como fazer frente à violência – diz Lucas.


A POSIÇÃO DO GOVERNO
Em entrevista a ZH no início do ano, o govenador José Ivo Sartori disse que avalia a possibilidade de convocação, embora a falta de recursos do Estado seja empecilho.
– Estamos estudando isso com tranquilidade e serenidade, avaliando o quadro. Mais cedo ou mais tarde, isso terá de ser feito. Agora, é evidente que isso precisa de condições. Como é que vou colocar alguém pra trabalhar aqui se eu não consigo pagar quem está em atividade? – questionou à época.
Na segunda, a ZH, José Paulo Cairoli, o governador em exercício seguiu o raciocínio:
– Não é simplesmente contratar novos ou mais policiais. Está na nossa meta. Teremos avanços nos próximos meses.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ROUBOS E HOMICÍDIOS ELEVAM INTERNAÇÕES DE ADOLESCENTES


ZERO HORA 26/01/2016 | 03h01


Entre 2011 e 2015, aumentou 79,2% o número de internados por assaltos e 77,4% por assassinatos – quase 70% dos que estão na Fase hoje cometeram um dos dois delitos



Foto: Diego Vara / Agencia RBS


José Luís Costa





Passava das 5h30min quando dois adolescentes de 16 e 17 anos foram flagrados por policiais militares (PMs) em um Honda Civic, na zona norte de Porto Alegre, na última quinta-feira. O carro havia sido roubado havia dois dias de uma mulher no estacionamento de um shopping. Além do roubo, a dupla, moradora de São Leopoldo, tinha abastecido o carro e fugido de um posto de combustível sem pagar a conta em Sapucaia do Sul.

O caso é mais um exemplo – da mesma forma que a proliferação de assaltos retratada nesta segunda-feira por Zero Hora na primeira reportagem da série Crise da Segurança – de como a criminalidade assola o Estado a qualquer hora e local. O detalhe é que os envolvidos nessa ocorrência em particular ilustram o perfil da maioria dos infratores recolhidos na Fundação de Atendimento Socio-educativo (Fase) no Estado. Autores de roubos representam 52,2% dos internados, e outros 15% cometeram assassinatos. É a violência que cresce sem controle e arrasta consigo cada vez mais jovens para o mundo do crime.


De 2011 a 2015, os casos de assaltos subiram 79,2% e os de homicídios, 77,4%, lotando unidades da Fase, que, no período, aumentou o número de jovens em cumprimento de medida socioeducativa, de 956 para 1.291 (35%). A estatística da Fase revela apenas uma parcela da violência protagonizada por jovens, estima o delegado Christian Nedel, da 1ª Delegacia de Adolescente Infrator do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente. Apesar de um terço das apreensões realizadas pela polícia ser de adolescentes com drogas, são cada vez mais raras internações na Fase por esse tipo de crime – reduziu 32,5% nos últimos quatro anos.


A queda pode estar associada a uma jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), criada em 2012 para pacificar interpretações do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O entendimento dos ministros é de que a internação pela primeira vez de um jovem só pode ser por ato cometido com violência ou grave ameaça à vítima. E o tráfico não pressupõe isso. Assim, adolescentes traficantes estão sendo recolhidos quando pegos pela polícia pela segunda vez em diante.

Escândalos abalam respeito pelo Estado, diz consultor da Unicef

Mas qual é a explicação para o aumento dos casos de roubos e assassinatos cometidos por adolescentes?

– O adulto criminoso morre cedo. E é natural que a "força de trabalho" se volte para os mais novos – avalia o promotor Júlio Alfredo de Almeida, da Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude de Porto Alegre.

O juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais da Capital, lembra que o puxador (motorista) das quadrilhas de ladrões de carros é sempre jovem – o roubo de veículo é o crime que mais cresce no Estado. O raciocínio é semelhante para casos de homicídio, na maioria deles, envolvendo execuções de facções rivais.

– É uma gurizada que faz a frente nas execuções e com armas pesadas – acrescenta o juiz.


Uma das razões para a criminalidade estar em alta, sobretudo a delinquência juvenil, é a crise de autoridade que varre o país motivada, em especial, pela avalanche de escândalos de corrupção, observa o advogado João Batista Costa Saraiva, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

– Quando as autoridades são colocadas sob suspeição, existe, naturalmente, um descrédito nas instituições e uma tendência à delinquência. O adolescente é muito suscetível a isso. Quanto mais jovem, maior o sentimento de que não vai ser pego, de que não vai dar nada – afirma Saraiva.

Para ele, há um processo de enfraquecimento do pátrio poder, que, de certa medida, o Estado tem sobre as pessoas:

– O que determina o pai ter autoridade sobre os filhos é o exemplo que ele dá. Com o Estado funciona de modo parecido. Quando perde a credibilidade, isso repercute na segurança pública.


Alta de internos foi limpeza social, diz presidente da Fase

Robson Luis Zinn, presidente da Fundação de Atendimento Socio-educativo (Fase), avalia que o aumento do número de infratores recolhidos na entidade se explica, em parte, pela Copa do Mundo, sediada no Brasil em 2014, e pelo debate em torno da redução da maioridade penal:

– Ocorreu uma limpeza social na cidades-sedes. Era um evento internacional, e o Brasil queria se apresentar melhor para os outros países. Além disso, a discussão sobre a maioridade gerou mais internações para demonstrar à sociedade que existe um sistema penal juvenil rigoroso. O tempo médio de internação, em média, aumentou em seis meses.

O dirigente assegura que a Fase trabalha para melhorar os serviços. Afirma que o índice de reincidência é de 32,8% (entre adultos é de 70%), por conta de programas de ressocialização e oferta de cursos profissionalizantes.

Para reduzir o déficit de vagas, Robson lembra de financiamento de US$ 23 mil (R$ 94,7 mil) pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para construção de três unidades, em Osório, no Litoral Norte (60 vagas), em Viamão (90) e em Santa Cruz do Sul (60). Segundo ele, o edital de licitação para o prédio em Osório deve ser lançado em março, e os demais, ao longo do ano. O recurso do BID também será investido em obras, reformas e ampliações no complexo da Vila Cruzeiro do Sul, na Capital.

Conforme Robson, a construção do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) POA III, previsto para o bairro Belém Novo, na zona sul da Capital, foi cancelada e a verba devolvida ao governo federal porque a Fase não obteve licença ambiental.



Estatuto em debate

Ao menos dois projetos tramitam no Congresso com intenção de alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente. Confira as principais mudanças propostas.

PEC 115, de 2015

A Câmara de Deputados aprovou, em dois turnos, proposta de emenda à Constituição (PEC) 115, em julho de 2015, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos para autores de crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte.

Prevê que esses jovens sejam recolhidos em estabelecimentos especiais, separados de apenados adultos e de adolescentes infratores. Por se tratar de PEC, não precisa do aval presidencial para entrar em vigor, mas tem de ser votada em dois turnos no Senado, para onde o projeto foi encaminhado.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), sinaliza que não tem pressa em colocar em pauta. Se ocorrer mudança no texto, a PEC volta para a Câmara. E, se deputados fizerem alterações, também terá de voltar ao Senado. As duas Casas precisam aprovar o mesmo texto para virar lei.

Projeto de Lei do Senado 333, de 2015

Também em julho, o Senado aprovou substitutivo ao projeto do senador José Serra (PSDB-SP), de autoria do senador José Pimentel (PT-CE), como alternativa à PEC 115 aprovada na Câmara.

A proposta dos senadores determina aumento de três para até 10 anos no tempo de internação de adolescentes autores de crimes hediondos ou com violência ou grave ameaça, a serem cumpridos em estabelecimento especial, em separado dos demais internos e também de adultos.

O projeto foi remetido à Câmara, podendo ir a discussão em plenário. Isso depende de decisão do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que define quando e quais projetos entram na pauta de votações. Com o processo de impeachment e medidas provisórias trancando a pauta, não há previsão de o projeto ser apreciado.

INEFICIÊNCIA DO ESTADO FAVORECE O CRIME



Foto: Gilmar Fraga / Arte ZH


ZERO HORA 25/01/2016 - 06h03min




EDITORIAL



Pior do que a sensação de insegurança vivida diariamente pelos gaúchos é a sensação de desamparo. Cada vez que os cidadãos reclamam da violência de que são vítimas, as autoridades policiais alegam falta de efetivo e os governantes alegam falta de recursos — isso quando não acusam a mídia de hiperdimensionar o problema. Mas a realidade é insofismável: com ou sem notícia, homicídios, roubos, assaltos a bancos, estabelecimentos comerciais e residências continuam ocorrendo cada vez com maior frequência. São os cidadãos — as vítimas criminalidade — que atestam esse descalabro.

Ainda que se reconheça que os policiais fazem o que podem e que o governo realmente passa por uma crise financeira, a solução tem que vir do poder público. As pessoas pagam impostos para receber assistência e proteção do Estado. Se não recebem esse retorno, têm o direito de reclamar, de cobrar, de exigir providências efetivas por parte dos responsáveis pela segurança pública.

À autoridade cabe agir. Ou dar lugar a quem tem mais competência.

Ninguém suporta mais as desculpas esfarrapadas e a estratégia de transferir responsabilidade para os outros. A polícia diz que prende e a Justiça solta. O Judiciário reclama de inquéritos policiais malfeitos, garante que faz a sua parte e que só não manda mais gente para a cadeia porque os presídios estão superlotados. O governo alega falta de recursos, além da má vontade dos municípios em receber novos estabelecimentos prisionais. A tudo isso soma-se a carência de efetivo, de equipamentos e até de armas por parte das forças policiais. Justificativas não faltam. O que falta são lideranças fortes, soluções integradas, punição efetiva para os delinquentes e investimentos em educação, programas sociais e ocupação para as populações marginalizadas.

A falência do sistema prisional é inquestionável. Os presídios estão superlotados e uma parcela significativa da população carcerária, como lembra o comandante da Brigada Militar em entrevista publicada nesta edição (a reportagem completa está nas páginas 6 a 8), passa a maior parte do tempo sem fazer nada ou simplesmente planejando novos crimes. Ora, essa é uma realidade que pode ser alterada sem investimentos volumosos, desde que haja vontade política, mobilização das autoridades e empenho dos legisladores. Será tão difícil assim fazer o que outros países já fazem, colocando apenados a trabalhar? Evidentemente que estamos defendendo trabalho digno e possibilidade de recuperação, em contraponto à atual ociosidade que degrada e estimula a criminalidade.

Há muito mais a fazer. O caos da violência urbana não se resolve com medidas isoladas. Mas também não se resolve com omissão. O Estado — todos os poderes, todas as autoridades investidas para servir ao cidadão — está devendo uma resposta urgente e eficiente para os gaúchos.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O editorial acerta ao afirmar que a "violência urbana não se resolve com medidas isoladas. Mas também não se resolve com omissão. O Estado — todos os poderes, todas as autoridades investidas para servir ao cidadão — está devendo uma resposta urgente e eficiente para os gaúchos". E que "ninguém suporta mais as desculpas esfarrapadas e a estratégia de transferir responsabilidade para os outros".  Falta sim "lideranças fortes, soluções integradas, punição efetiva para os delinquentes e investimentos em educação, programas sociais e ocupação para as populações marginalizadas", bem como leis claras e duras contra o crime, um sistema de justiça ágil e coativo e uma execução penal humana, segura, objetiva e responsável.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

VIOLÊNCIA SE MOSTRA PRESENTE EM TODO LUGAR NO RS



Traduzida em números, a insegurança dos últimos cinco anos espanta: só os assaltos aumentaram 60% no RS. Trazida para o dia a dia, ela está por todo lado e poucos gaúchos não têm uma história para contar

Por: Humberto Trezzi, Leandro Rodrigues e Marcelo Kervalt

ZERO HORA 25/01/2016 - 02h01min

Sarah tem 16 anos e já foi assaltada oito vezes, algumas a caminho da escola Foto: Félix Zucco / Agencia RBS


Os ladrões perderam o medo de agir no Rio Grande do Sul. Não respeitam mais horário, local ou farda. Atacam de manhã, na parada de ônibus. À tarde, roubando carros – nem só dos distraídos, mas de qualquer um. À noite, na saída de estabelecimentos de ensino, no saque a restaurantes, nos sequestro-relâmpagos junto a caixas eletrônicos.

Isso tudo sempre existiu, mas nunca com tanta intensidade como agora. O Rio Grande do Sul atravessa um período crescente de criminalidade. Pior: o crescimento é maior entre os delitos graves. Os assaltos aumentaram 60% nos últimos cinco anos. Os roubos de carro, 68%. Os latrocínios (quando, além de roubar, os ladrões matam a vítima), 88%. Os homicídios, 42%. Já os furtos, que não envolvem violência, diminuíram 12%. A interpretação é clara: os bandidos estão menos habilidosos e mais violentos, inclusive na hora de acertar contas entre si (na maioria dos homicídios, as vítimas são criminosos).


Mais de 5 mil detentos ganharam direito a prisão domiciliar – mas quem fiscaliza se eles ficam no lar? Parte deles não fica: 129 foram presos ano passado assaltando, quando deveriam estar no trabalho ou em casa. Enquanto isso, os efetivos policiais diminuem. A Brigada Militar encolheu 7% em decorrência de aposentadorias e não reposição de quadros em 2015.

A soma de mais bandidos soltos e menos policiais faz com que não exista mais hora nem local para assaltos, como mostra esta reportagem que dá início à série Crise na Segurança – um esforço conjunto das redações de Zero Hora, Diário Gaúcho, Rádio Gaúcha e RBS TV. Duas ou três vezes por semana, matérias especiais irão cobrar e ajudar a buscar soluções para o problema.



Os relatos de quem foi assaltado




...na escolinha

A.K.R.T.*, 34 anos, enfermeira
*Preferiu não ter o nome completo publicado

"No dia 5 de março do ano passado, por volta de 13h30min, estava indo levar o meu nenê na escolinha (no bairro Menino Deus, em Porto Alegre). Ele tinha cinco meses na época. Quando estava descendo do carro, fui abordada por dois homens armados. Eles não queriam me deixar tirá-lo do carro (a ação foi fotografada por uma pessoa que estava em um prédio e as imagens, divulgadas por Zero Hora, ajudaram na identificação dos dois criminosos, segundo o delegado César Carrion). Mais duas pessoas estavam em um carro estacionado do outro lado da rua. Um desses dois que vieram até mim, falou: "Me dá a chave, e o nenê fica".

Aí comecei a gritar: deixa tirar o nenê, deixa tirar o nenê. Não adianta, mãe é mãe e eu só pensava nele. Tentava entrar no carro, mas eles me seguravam. Até que um atirou para cima. Pensei que iria me matar. Nesse momento, quando ele tirou uma mão de mim para sacar a arma, consegui tirar meu nenê de dentro do carro. Eles entraram no meu carro e fugiram. Sempre fui supercuidadosa, mas, infelizmente, a gente fica à mercê desse bando de gente. Agora, fico ainda mais atenta. Levo a criança em escolinha que tem segurança, não paro mais na rua, mudei de casa. E o pior é ir nas audiências e eles (os suspeitos) estarem cheios de advogados. Só faltam os advogados chamarem eles de coitadinhos."

Detalhe ZH

André Vargas da Silva, 36 anos, e Alison Soares Teles, 20 anos, foram condenados pela Justiça, após serem indiciados por roubo qualificado. A EcoSport da vítima foi recuperada.




...no lotação

Daniel Fernandes, 34 anos, diretor-executivo

"Tudo aconteceu em um dia normal de semana (25 de novembro de 2015), lá pelas 13h30min. Tinha ido em casa ao meio-dia pegar um documento e cortar o cabelo perto do Shopping Praia de Belas. Saí do cabeleireiro e peguei um lotação. Tive de contar as moedinhas no bolso, não tinha praticamente dinheiro nenhum. Estava totalmente desligado, com fone de ouvido escutando um programa de rádio, quando um homem sentado ao meu lado, só que do outro lado do corredor, agitou uma sacola e tirou uma arma de dentro. Ele pulou para o meu banco, me empurrou para o assento junto à janela e colou o revólver na minha barriga.

Ele pediu meu celular e falou: "Desbloqueia". Disse que meu celular não era bloqueado. Então, mandou sair do iCloud (dispositivo que ajuda a rastrear o aparelho). Nem sabia como fazer.

Então, entrou nas configurações, era bem entendido, mexeu e mandou colocar a minha senha do iCloud. Estava tremendo tanto que nem consegui. A gente já estava indo para o fim da linha quando ele me devolveu o celular e pediu a carteira. Abri e mostrei que não tinha nenhum real. Pediu a aliança. Era de noivado, não tinha casado ainda. Então, ele se levantou e desceu sem que ninguém no lotação percebesse. Quando ele saiu, gritei: aquele cara me roubou. Fui em uma delegacia e uma policial riu da minha cara e ainda disse que nem em lotação as pessoas estão seguras."

Detalhe ZH
A aliança de Daniel nunca foi recuperada. Segundo a Associação dos Transportadores de Passageiros por Lotação, em 2015, foram registradas 162 ocorrências de roubo em lotações de Porto Alegre. Em 2016, ainda não há dados.




...no apartamento

F.O.*, 29 anos, psicólogo
*Preferiu não ter o nome completo publicado

"Em setembro do ano passado, por volta das 20h, minha irmã e o namorado deixaram o nosso apartamento, no bairro Bom Fim, para irem a uma festa. Quando estavam na portaria, foram rendidos por dois homens armados com um revólver que os obrigaram a subir de volta ao apartamento. Eu estava na sala, assistindo à televisão, quando fui surpreendido com a minha irmã entrando e dizendo: ´Fica calmo, está tudo bem.´ Logo atrás dela, o namorado com a arma na cabeça seguido pelos assaltantes. Perguntaram quantas pessoas havia na casa – um amigo nosso estava em um dos quartos. Nos renderam por 10 minutos, levaram celulares, iPads, TV, relógios, até cueca de marca secando no varal. Pediram todas as chaves e também a do carro.

Falei que o meu carro estava sem bateria na garagem, o que é verdade, pois raramente utilizo. Pegaram a chave do carro do nosso amigo, mais algumas joias e saíram. Foi rápido e extremamente traumático. Nunca tinha sido assaltado, e jamais poderia imaginar que seria logo em um sábado à noite, em casa, o local que deveria ser o mais seguro para ficar. A sensação de insegurança é muito grande. Iremos morar em um prédio com segurança 24 horas."

Detalhe ZH
O assalto foi registrado na Polícia Civil. Segundo os policiais que os atenderam, ações como essa têm se tornado comuns na região.




...oito vezes

Sarah Araujo Cabral da Silva, 16 anos, estudante do Ensino Médio

"Fui assaltada oito vezes. Na primeira, quando tinha 10 anos, estava chegando em casa. Um jovem me abordou pedindo informações sobre uma rua. Logo depois, anunciou o assalto: ´Passa tudo porque sei que tem celular´. O pai de uma amiga parou de carro perto para ver quem estava comigo. Ele (o assaltante) pegou a bolsa que eu usava e saiu correndo. O último foi em outubro do ano passado. Eu e meu irmão, de 12 anos, estávamos próximos à parada de ônibus, indo para a escola, às 7h, quando percebi dois rapazes vindo no sentido contrário. Atravessamos a rua duas vezes e eles também atravessaram. Segurei na mão do meu irmão e disse que seríamos assaltados, para ele ficar calmo. Tinham uma faca. Tirei o dinheiro da mochila e entreguei, afirmei que era tudo o que a gente tinha. Eles pegaram e mandaram a gente sentar na calçada, fechar os olhos e contar até 60, para dar tempo de fugirem.

Depois disso, não podemos mais ir sozinhos para a escola (ela e o irmão são levados pelos pais ou são escoltados até o embarque na parada de ônibus). E, se vejo um grupo de jovens na rua, já tenho medo, porque em todos os assaltos eles eram jovens, adolescentes ou, no máximo, com uns 20 e poucos anos."

Assista aos relatos de Sarah e Daniel




...em frente a shopping

Carla Tentardini Alonso, 37 anos

"Era 22 de dezembro e eu e minha filha de 15 anos estávamos fazendo compras de Natal no shopping (BarraShoppingSul, zona sul de Porto Alegre). Saímos de lá e fomos até a parada ali na frente esperar o ônibus. Eram 21h. Havia outras pessoas esperando ônibus também. De repente, um Gol vinho, ou bordô, não sei direito, quatro portas, parou e duas pessoas desceram armadas. Outras duas ficaram dentro. Os que desceram já chegaram anunciando o assalto. Pegaram as sacolas que estavam nas nossas mãos, e mandaram que a gente entregasse as bolsas. Prontamente, minha filha e eu entregamos. Um deles ainda disse para ela: ´Passa o celular! Passa o celular!´.

Ela entregou e eles voltaram para o carro com os objetos. Foi tudo muito rápido. Mas, não contente com o assalto, antes de entrar no carro, um deles olhou para mim, apontou a arma e atirou. Só vi que fui baleada quando comecei a correr. A bala entrou no meu abdômen, perto do umbigo, e saiu nas costas. Não atingiu nenhum órgão, graças a Deus.

Como saio do serviço às 18h30min, e meu marido trabalha à noite, ia com frequência a shoppings e hipermercados fazer compras, pois são estabelecimentos que ficam abertos até mais tarde. Não vou mais. Agora vou do trabalho direto para casa. Tenho medo de andar na rua à noite depois do que aconteceu. Tenho medo de ficar em parada. Ouço qualquer barulho e fico com medo porque estamos supervulneráveis. O policiamento é zero. Não dá para pegar um ônibus, porque eles (os criminosos) estão soltos dentro dos ônibus. Não dá para esperar na parada, que te assaltam. Tive de mudar a minha rotina. Só saio para o Centro de carro com o meu marido."

Detalhe ZH
O suspeito de ter disparado a arma contra Carla foi preso preventivamente no dia 14 deste mês. Conforme o delegado Carlos Wendt, a irmã gêmea do suspeito estaria utilizando o aplicativo WhatsApp no celular de Carla. Os comparsas não foram identificados.



Como se precaver

O cidadão não pode mais terceirizar para o Estado sua segurança, já que o poder público está falido. A carência de policiais é realidade nas ruas e tão cedo isso não vai mudar. E a principal providência é a cautela, irmã gêmea da desconfiança.

Quem faz essas advertências é um dos maiores especialistas em segurança privada no Rio Grande do Sul, Gustavo Caleffi, autor do livro Caos Social – A Violenta Realidade Brasileira.

– O ladrão não faz mais diferença entre manhã, tarde e noite. Ele está em todas, na espera dos distraídos. Cabe ao cidadão não se distrair – resume Caleffi, que é administrador de empresas e faz consultoria em segurança privada.

O especialista ressalta que o criminoso trabalha com a supremacia da força e o fator surpresa.

– Em todos os assaltos tu vais ouvir a vítima falar que "tudo foi tão rápido". É a vantagem do ladrão – acrescenta.

Resta ao cidadão se prevenir, já que o poder público não tem mais como garantir segurança a todos. O especialista diz que a melhor saída é a atenção constante.

Caleffi enfatiza que a maioria das pessoas enxerga os suspeitos antes de ocorrer o assalto e, mesmo assim, não se afasta. Aceita correr o risco, porque pensa que o roubo não vai se configurar. Errado, aponta.

Também condena comportamentos de risco adotados no dia a dia, como o uso do celular (para falar ou enviar mensagens) ao subir em ônibus, dentro do lotação e no carro. E avisa: melhor esconder o aparelho e deixar a conversa para depois.



Algumas orientações de Caleffi

Busque lugares iluminados para esperar o ônibus se a parada for escura. Espere ali até o coletivo chegar.

- Esconda carteira e dinheiro dentro da roupa, nunca nos bolsos.

- Não use fones de ouvido em lugares ermos. Isso pode impedir ouvir avisos de outras pessoas sobre a aproximação de ladrões.

- No ônibus, procure ficar no meio do veículo, longe das portas, onde acontecem os assaltos rápidos.

- Quando abordado, entregue o que o criminoso pede. Sem gestos bruscos, diga em voz alta o que está fazendo: "Vou tirar a minha bolsa", "Estou tirando a carteira do bolso", "Estou tirando o cinto", "Vou abrir a porta e descer" ou "Vou pegar a criança no banco de trás".

- Evite roupas e adereços chamativos, que atraiam os ladrões.

- Evite locais escuros ao estacionar o carro.

- Jamais pare junto à garagem sem antes olhar em volta. Se tiver algum desconhecido, dê uma volta na quadra.

- Não corra ao ser abordado pelo ladrão.

QUAL É A SAÍDA CONTRA A VIOLÊNCIA, SEGUNDA BM E PC



Para comandante da Brigada, para mudar, só com educação e trabalho prisional. Para chefe de Polícia, a saída é nomear mais policiais


ZERO HORA 25/01/2016 - 02h02min



Coronel Alfeu Freitas (E) e o delegado Wondracek dão relatos sobre o que pode ser feito Foto: Montagem / Omar Freitas e Divulgação / Agência RBS


Entrevista com coronel Alfeu Freitas, comandante da Brigada Militar


"O telefone 190 não para de tocar"

Um dos mais experientes policiais gaúchos, o coronel Alfeu Freitas já comandou todos os principais batalhões da BM. Passou por fases em que o contingente de policiais era próximo do ideal e outras, como agora, quando a carência de efetivo é frequente. Nessa entrevista, ele comenta o que pode ser feito.

Já não há hora para acontecer assalto. O sujeito tem uma faca encostada no pescoço às 10h, ao meio-dia, com outras pessoas perto ou não... O que pode explicar isso?
As polícias fazem a parte delas, prendem gente todo dia. E a demanda é cada vez maior. O telefone 190 não para de tocar. Como não temos data para novas nomeações, o comandante de cada guarnição tem de gerenciar os recursos. A viatura só é liberada quando há efetiva missão, mesmo que seja para patrulhar. Tem de checar para evitar trote. E prever efetivo para eventos especiais, como a Operação Verão (patrulhamento do Litoral).

É um problema da lei?
Seria bom que o preso só ganhasse benefício após cumprir pelo menos um terço da pena. Mas a lei não é assim. E de que adianta enrijecer a legislação, encarcerar mais, se não há presídios ou albergues prisionais? Sem prisão, ele é enjaulado, fica por lá um tempo e volta para o crime. Não adianta mudar a lei se não há presídio.

A BM tem efetivo suficiente para enfrentar tanto crime?
Há uma defasagem histórica nas polícias. A BM está agora com cerca de 20 mil integrantes para cumprir todas as missões, bem menos que décadas atrás.

Os PMs fazem tudo o que podem? Algumas pessoas acham que a BM não se mexe o suficiente.
A fila de pessoas que cometem crimes não termina. Por quê? Porque em um presídio como o Central (em Porto Alegre), de 4 mil presos, apenas 500 ou 600 trabalham. Os demais fazem nada ou planejam crimes. Deveria existir pelo menos um presídio por município gaúcho. É muito? Só assim para garantir reeducação e poder cuidar de cada preso, como deve ser feito.

Qual a saída para enfrentar essa onda crescente de criminalidade?
Para mudar, só com educação e trabalho prisional. Mais efetivo policial também seria bom. É provável que a volta para a BM de alguns policiais cedidos ajude. Hoje, temos centenas emprestados a outros órgãos e até a outros poderes. Em alguns casos, como prefeituras e câmaras municipais, não renovei a cedência. Sugiro a volta, mas não tenho poder de exigir, a palavra final é do governador. Mas, veja, muitos desses PMs cedidos fazem atividades ligadas a policiamento: proteção de autoridades e força-tarefa do Ministério Público, por exemplo. Em troca, parte das multas arrecadadas volta em forma de equipamentos para a BM. Nesses casos, o empréstimo do policial é vantajoso para a BM.



Entrevista com o delegado Guilherme Wondracek
"A saída é nomear mais policiais"

O chefe de Polícia, Guilherme Wondracek, é um delegado "linha-de-frente". Esteve no comando da captura dos mais notórios assaltantes de banco do Estado e ajudou a esclarecer desvios de dinheiro público. A experiência o autoriza a comentar a carência de policiais e o liberalismo de leis.

Já não há hora para acontecer assalto. O sujeito tem uma faca encostada no pescoço às 10h, ao meio-dia, com outras pessoas perto ou não... O que pode explicar isso?
Existem cerca de 5,3 mil detentos dos regimes semiaberto e aberto que foram enviados para casa (prisão domiciliar) ou usam tornozeleiras, por falta de vagas nos albergues. É claro que grande parte deles não fica em casa. Sai às ruas e comete crimes. Não há como fiscalizar se eles estão realmente no domicílio, saber onde eles estão.

É um problema da lei?
Prendi um assaltante de bancos, com fuzil checo, há uns três anos. Tinha seis assaltos grandes no currículo. Já está solto, na rua, cometendo crimes. Tem de mudar a lei. O ladrão deveria cumprir dois terços da pena antes de conseguir liberdade condicional. Ou, pelo menos, deveria ser como na Lei dos Crimes Hediondos: exigência de um terço da pena para receber benefício de mudança de regime. Hoje, o assaltante cumpre um sexto da pena e tem direito a ir para o semiaberto (albergue).

A Polícia Civil tem efetivo suficiente para enfrentar tanto crime?
Falta efetivo tanto na BM quanto na Civil. A Civil tinha, em 1980, 27 policiais por delegacia. Hoje, tem nove. A população era de 7,5 milhões em 1980. Hoje, é de 11,5 milhões. Existiam 244 municípios em 1980. Hoje, são 497. Mas o efetivo da Civil é o mesmo: 5,5 mil agentes. Estamos apagando incêndio, focados em crimes graves.

Os agentes fazem tudo o que podem? Algumas pessoas acham que a polícia não se mexe o suficiente.
Não falta esforço dos agentes. O Rio de Janeiro enviou 70 mil inquéritos para a Justiça, em 2014. O RS remeteu 173 mil no mesmo ano, e outros 195 mil em 2015. E o Rio tem 11 mil policiais civis, nós temos 5,5 mil. O Instituto Falconi fez uma análise do trabalho cotidiano da Polícia Civil gaúcha, a pedido do governo. A conclusão é de que precisaríamos de 11,7 mil agentes no plano operacional, na linha de frente. Sem contar os que atuam em telefonia e informática.

Qual a saída para enfrentar essa onda crescente de criminalidade?

A saída é nomear mais policiais. Existem 670 aprovados em concursos para a Polícia Civil. Caso sejam nomeados, em seis meses, terão cursado a Academia e podem ir para as ruas. Substituiriam os 490 aposentados no ano passado. Outra alternativa é parar com as cedências de servidores. A Polícia Civil tem 129 cedidos para outros órgãos. A BM, me informaram, tem 700 cedidos.

NA PRAIA, NO CAMPO OU NA CIDADE



A violência se espalhou de tal jeito, que hoje não é possível ao cidadão sentir-se seguro em lugar algum

Por: Rosane de Oliveira
ZERO HORA 24/01/2016 - 22h29min |



Foi-se o tempo em que no Rio Grande do Sul a insegurança era associada às grandes cidades. A violência se espalhou de tal jeito, que hoje não é possível ao cidadão sentir-se seguro em lugar algum. A violência foi socializada: é um problema da cidade, da praia e, cada vez mais, do campo.

As estatísticas até mostram que o número de ocorrências diminuiu no Litoral Norte neste ano, em comparação com 2015, mas vá convencer uma família do Interior de que está segura na praia, depois de saber o que ocorreu no fim de semana. Em um dos casos, em Capão da Canoa, uma família foi feita refém por assaltantes que amarraram adultos e crianças e levaram tudo – até comida.

Nas cidades, grandes ou pequenas, estão virando espécie em extinção as casas sem muro ou grade. O velho hábito de dormir com portas e janelas abertas está desaparecendo. A violência chegou ao campo – e aqui não se fala apenas do abigeato, um crime que, historicamente, atormenta os produtores rurais. A novidade é a multiplicação dos casos de furto e roubo nas propriedades.

Na semana passada, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Espumoso, município do Alto Jacuí, a 275 quilômetros de Porto Alegre, se reuniu para discutir ações de segurança no Interior. Seria apenas uma reunião a mais, não fossem os números divulgados em um comunicado na Folha Espumosense: "Na comunidade de Campo Comprido, das 32 famílias que moram na localidade, 29 foram roubadas. Na Linha Seca, de 18 famílias, 16 foram roubadas. Algumas foram assaltadas três vezes em um ano. No Arroio da Prata, 11 famílias foram vítimas. Na Campina Redonda, além de 15 propriedades serem assaltadas, a escola foi arrombada três vezes no período de um ano. Levaram computadores, equipamentos de segurança, equipamentos de laboratório, entre outras coisas".


Ainda que o senso comum não faça distinção entre furto e roubo, a descrição é alarmante para um município de 15 mil habitantes. O ex-prefeito Mario Bertani, que mora em Canoas (onde já foi assaltado) mas é produtor rural em Espumoso, diz que o medo no campo é generalizado. E não é só na região: o presidente da Famurs, Luiz Carlos Folador, tem ouvido dos colegas prefeitos que a situação se agravou nos últimos meses. Na região dele, a Campanha, o maior problema continua sendo o abigeato. Hoje à tarde, Folador vai participar de uma reunião convocada pelo presidente da Farsul, Carlos Sperotto, para tratar exatamente de segurança no campo.

Com falta de policiais, as pequenas cidades viraram alvo das quadrilhas de assaltantes de banco, que explodem caixas eletrônicos e semeiam terror onde antes a vida corria sem sobressaltos.

A carência de policiais é uma das principais reclamações dos prefeitos. Em Pelotas, Eduardo Leite recebeu da Brigada Militar a informação de que não há como repor nenhum dos 78 brigadianos que se aposentaram em 2015.

domingo, 24 de janeiro de 2016

ANATOMIA DE UM ROUBO




ZERO HORA 24 de janeiro de 2016 | N° 18424


LUCIANO POTTER



Foi meu tuíte, uma hora após o ocorrido. Aconteceu na última terça-feira, pertinho das duas da tarde. O sol brilhava, a temperatura era de escorrer suor pelas costelas, e escolhi para o almoço o Centro. Tenho uma motoneta, estacionei-a na Borges de Medeiros, embaixo da Duque de Caxias. Essa junção de ruas e escadarias é a arquitetura urbana mais bonita de Porto Alegre. Tanto que Robie Van Persie, acostumado com as belezas europeias, postou uma foto durante a Copa que ilustra tamanha beleza.

Quando deixei a moto, rumo à comida, um morador de rua, num colchão velho, levantou-se, mirou-me e a sentença “bem cuidado” saiu ao natural, comigo assentindo, sem problemas. No restaurante, atraquei-me numa à la minuta de frango, com a gema do ovo mole, misturada ao sal e arroz branco. Uma delícia. À la minuta é melhor que dormir até tarde! Mas precisava comer rápido porque uma reunião de trabalho se avizinhava no começo da tarde. Paga a conta no cartão de crédito, para acumular milhagens, separo R$ 2 para o flanelinha e parto para a motocicleta. Ao lado dela, meu smartphone toca, tiro-o do bolso e uma mão o puxa. Seguro firme, uma briga de dois segundos, mas os próximos quatro segundos são com uma lâmina no pescoço e um “larga o celular”.

O lancinante fincar da lâmina na pele me acalmou. Abri a mão – e aumentei as estatísticas de insegurança na cidade, no Estado e no país. Nada de mais. Aliás, David Coimbra já desabafou por mim na quinta-feira, escrevendo:

“Quando um cidadão sente o frio da ponta de uma faca na jugular, em pleno centro da cidade, em plena luz do dia, às vistas de outros cidadãos, e quando esse fato é tão corriqueiro, tão trivial, que não espanta ninguém nem sequer chama a atenção das autoridades, quando a situação chega a esse ponto, é sinal de que os limites da civilização foram cruzados”.

A culpa todos sabem de quem é. A direita chata pediu para eu levar o assaltante para casa e criá-lo, a esquerda modorrenta chamou-me “burguês”, o que é verdade, porque habito um burgo, inseguro, eu sei, mas um burgo. Todas as opiniões do mundo foram dadas nas redes sociais que me cercam.

O impressionante número de relatos de outros assaltos atesta a normalidade com que isso acontece na maior cidade do Rio Grande do Sul. O que aconteceu comigo não foi especial. A dor é de todos ou dos próximos, muito próximos, desse todo. Insegurança é um sentimento gaúcho. Tudo isso já sabemos.

Depois que o ladrão disparou, num 110 metros com barreiras com índice olímpico, foi que avizinhei a outra facada que viria: a do preço do novo telefone, que preciso para trabalho e vida moderna. Dividirei em 10 parcelas, a vida seguirá, ouvirei outros relatos de casos parecidos, nada mudará com urgência e é assim mesmo, até porque não foi o Papa que sofreu esse pênalti. Ninguém mais é especial por ter sido assaltado.

Ao encostar na moto novamente, já sem o celular, lembrei dos R$ 2 na outra mão. Eram do flanelinha, e precisava entregá-los. Ele até tentou pegar o larápio, disparando atrás, mas sem sucesso. Levei a grana ao encontro do rapaz, ele recusou com a cabeça e falou: “Irmão, relaxa… Depois disso tudo, não quero o seu dinheiro, não…”.

SEGURANÇA, O PROBLEMA MAIS URGENTE


ZERO HORA 23 de janeiro de 2016



A reunião de planejamento da Olimpíada dos jornalistas e comunicadores do Grupo RBS estava para começar. Sala cheia, dezenas de colegas se cumprimentando, quando chega o Luciano Potter, colunista de ZH e comunicador da Atlântida e do Pretinho Básico, agitado:

- Acabei de ser assaltado no Centro. O cara me botou uma faca no pescoço. Levou meu celular.

Potter contou a história para dois ou três colegas. Começou a reunião. Todos sentaram e começaram a trabalhar. No dia seguinte, alguém comenta comigo no corredor da Redação: sabia que levaram o carro da Célia Ribeiro (colunista do Donna)?

Entro na minha sala e uma pessoa da família me manda um link de uma matéria da própria Zero Hora: fizeram um arrastão em uma pizzaria conhecida do nosso bairro.

E segue a vida. Ninguém se surpreende mais com um colega ameaçado com uma faca no pescoço, com uma senhora de 86 anos vítima de roubo à mão armada, com arrastão no restaurante da esquina. Nossos leitores estão nos dizendo todo dia: a criminalidade virou epidemia.

Você aí deve estar lendo isto e lembrando de vários casos em que um colega, um parente, um conhecido, um amigo ou você mesmo foi vítima. Pense em qualquer familiar. Tem alguém na sua família que ainda não passou por isso?

Já vínhamos intensificando o número e a profundidade das reportagens sobre segurança nos últimos tempos, refletindo a realidade das ruas e a demanda de nossos públicos. Mas agora vamos fazer mais. Na reunião de editores de quinta-feira, decidimos que Zero Hora não pode se anestesiar para esse assunto. Não é aceitável. Não podemos nos conformar. E não vamos nos conformar.

Resolvemos criar a série de reportagens Crise na Segurança, acompanhada de editoriais com a opinião do Grupo RBS, que estreia nesta segunda-feira. Convidamos as redações do Diário Gaúcho, da Rádio Gaúcha e da RBS TV para se unirem à causa.

Queremos dar as mãos ao público que nos lê, nos ouve, nos assiste, na busca de soluções, na prevenção e na cobrança do Estado. Queremos que você participe. Conte sua história, ou a de um familiar ou conhecido. Ela poderá inspirar alguma pauta do jornal, do rádio ou da televisão. Envie seu relato pelo e-mail seguranca@zerohora.com.br ou pelo Facebook de ZH: facebook.com/zerohora. As reportagens especiais sobre o assunto, que serão publicadas duas ou três vezes por semana, serão sempre identificadas com este antetítulo e esta programação gráfica:



Em qualquer pesquisa com a população, segurança grita como o problema mais urgente, o mais grave, o mais preocupante. É nosso papel, como porta-vozes do que acontece com os nossos leitores, ampliar ainda mais essa cobertura.



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA
- Que este esforço de Zero Hora não tenha o mesmo destino das outras matérias e denúncias publicadas pelo jornal sobre a falta de garantia do direito à segurança pública no RS. Que seja realizada esta nova proposta especulando as responsabilidades e obrigações dos atores com que detêm a competência legal no Estado Democrático de Direito de solucionar de forma permanente a plena garantia deste direito focado na função pública e observando a supremacia do interesse público.

Continuar mostrando a realidade do cenário de violência é importante, mas o essencial é constranger e pressionar as autoridades lenientes e permissivas que estão deixando o crime rolar solto, identificando as responsabilidades e exigindo soluções sem fuga de obrigações, sem jogo de empurra e sem argumentos evasivos que evidenciam o próprio descaso, negligência, omissão e descompromisso. A nação precisa da indignação, da revolta e da intolerância de todos os brasileiros unidos contra a impunidade dos criminosos, especialmente aqueles que tiram a vida, o patrimônio, o bem estar e a liberdade das pessoas e comunidades. BASTA! Parabenizo a ZH po ressaltar e não se conformar da necessidade do direito de TODOS à segurança pública.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AOS DOIS ANOS E MEIO, DUAS VEZES VÍTIMA DE ASSALTO


Iotti: banco Iotti/Agencia RBS
ZERO HORA 22 de janeiro de 2016 | N° 18422


POLÍTICA + | Rosane de Oliveira




Maria Luiza tem dois anos e meio e uma incrível história que mal sabe contar, porque lhe falta vocabulário: foi vítima de dois assaltos em menos de seis meses. A menina é um símbolo da banalização da violência e a prova de que não se trata apenas de sensação de insegurança.

A família de Maria Luiza mora no centro de Canoas desde 2004. O pai, empresário e produtor rural, já foi prefeito de uma cidade do Interior e é amigo do governador José Ivo Sartori e de líderes do PMDB, como o ex-senador Pedro Simon.

Há uma semana, por volta das 19h, a mãe estava saindo com a menina da casa de uma amiga, a duas quadras do shopping, quando foi sequestrada. Os bandidos a obrigaram a sacar R$ 1,2 mil em um caixa eletrônico e a abastecer o carro. Libertaram as duas em Esteio e fugiram levando o carro, uma Hyundai ix35 ano 2015. Até ontem, o carro não tinha sido localizado.

Na escolinha, Maria Luiza resumiu para a professora:

– Um tio levou o carro da mamãe.

No dia do assalto o pai dela estava chegando de uma viagem ao Rio. Ele conta que a mulher não conseguiu ligar para o 190. Só dava sinal de ocupado.

– Tudo é grave, mas não poder ligar para o 190 é demais – desabafa.

Em outubro, o próprio havia sido assaltado ao abrir o portão do prédio quando chegava em casa, perto das 22h. Maria Luiza estava com ele.

Famílias traumatizadas é o que não falta no Rio Grande do Sul. Não adianta o secretário da Segurança, Wantuir Jacini, dizer que o problema é geral, que os homicídios estão ligados ao tráfico de drogas, que a maioria dos mortos tinha antecedentes criminais, que a polícia prendeu cerca de 100 mil pessoas em 2015 ou que foram apreendidas tantas toneladas de droga. Nada disso tranquiliza quem foi vítima de um assalto à mão armada.

Dez entre 10 aliados do governador cobram uma mudança de postura das autoridades da área de segurança. A população clama por ações. Os aliados, por uma mudança de postura. Querem que o secretário dê respostas mais convincentes e seja menos reativo. O discurso da crise e da falta de dinheiro para investir cansou. Os próprios companheiros de governo gostariam que Jacini se inspirasse no secretário da Saúde, João Gabbardo, que também enfrenta falta de dinheiro, mas não passa a ideia de que o governo está paralisado.



ALIÁS


Por mais que segurança seja da alçada do Estado, o tema deverá entrar com força na campanha para as prefeituras. Sem integração entre Estados, municípios e União, será impossível combater a violência.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

SEGURANÇA: CHAMEM A FORÇA LOCAL




ZERO HORA 20 de janeiro de 2016 | N° 18420
 



POR ALBERTO KOPITTKE WINOGRON*


O Rio Grande do Sul acaba de viver o ano mais violento da sua história. Uma triste realidade que piora a cada ano, há pelo menos três décadas. O mais fácil é culpar esse ou aquele governo, essa ou aquela instituição, as leis ou a economia, mas nada disso vai resolver o problema.

É hora de colocar diferenças políticas ou interesses corporativos de lado e sairmos do imobilismo. Precisamos mobilizar toda a nossa energia social, desde as universidades, líderes comunitários, empresários, terceiro setor, imprensa, redes de políticas sociais e educacionais dos municípios, órgãos estaduais, todos os poderes públicos e construir uma agenda unificada de curto e longo prazos. Somente a união de forças pode frear a barbárie que nosso Estado vive.

Não podemos mais nos contentar com discursos vazios ou esperar salvadores e continuar repetindo ações superficiais que têm se mostrado ineficazes. A crise financeira que perdurará por muitos anos não pode justificar a inação e deve nos motivar a unirmos forças. Precisamos conhecer a fundo as diversas experiências internacionais exitosas, nos abrirmos para pensar formas novas de atuar contra a violência. É fundamental aproximar pesquisadores, gestores e executores das políticas, para juntos produzirem e buscarem conhecimento científico sobre o que funciona e fazer as reformas internas necessárias.

É hora de as lideranças se unirem e discutirmos coletivamente o que está dando errado e buscarmos novas estratégias de atuação, sérias e comprovadas, não retóricas inflamadas pelo medo ou pelo ódio que a violência multiplica. Continuamos exigindo que as polícias resolvam um problema que é muito mais amplo e exige políticas integradas, planejadas e proativas.

Respostas simplistas nessa área, normalmente, têm resultados catastróficos. Simplesmente jogar centenas de jovens para dentro de um sistema prisional totalmente degradado é a resposta mais cara e mais ineficiente e se tornou o motor do crime organizado. Força Nacional, Guarda Municipal ou um mero aumento de policiais sem um novo plano estratégico, são respostas pontuais que seguem o mesmo caminho das ações desintegradas.

O crime só é organizado, quando a sociedade é desorganizada. Por isso, acima de tudo, é hora de mobilização, diálogo e inteligência. Mais do que nunca, é hora de chamar a força local que nosso Estado e nossas cidades possuem!

*Vereador de Porto Alegre (PT)


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - A chamada está correta - "chame as forças locais". Também acerta  em afirmar que não adianta criticar os governos e que precisamos sair do "imobilismo" para "mobilizar toda a nossa energia social" pela sociedade organizada, unindo forças para "frear a barbárie que nosso Estado vive". De nada adiantam "os discursos vazios", as "respostas simplistas", "jogar para dentro dos presídios degradados" e "mero aumento de efetivos policiais". É necessário parar de fugir de obrigações, de lavar as mãos para os direitos à vida e ao patrimônio, de empurrar responsabilidade e de agir com irresponsabilidade, para produzir ações e reformas concretas e permanentes.

Realmente "o crime só é organizado, quando a sociedade é desorganizada", principalmente quando este sociedade e seus poderes não são capazes de entender que o Brasil se constitui num Estado Democrático de Direito onde TODOS os direitos, entre eles a segurança pública, devem ser garantidos por força de lei e de justiça, e não somente pela força das armas e poder de polícia usados pelos regimes totalitários para manter o controle e o poder.

Assim que esta proposta de "mobilização, diálogo e inteligência" chamando "a força local que nosso Estado e nossas cidades possuem", sirva para acabar com a permissividade das leis, leniência da justiça, penas brandas, irresponsabilidade e desumanidade na execução penal e enfraquecimento da autoridade e das forças policiais.


DICAS PARA SE PROTEGER DA VIOLÊNCIA URBANA

DIÁRIO GAÚCHO 20/01/2016 | 07h56




Leandro Rodrigues


Manual de Sobrevivência. Confira dicas para se proteger da violência urbana. O Diário Gaúcho foi às ruas com o BOE para elencar informações que ajudem a população a driblar o crime


Em locais como o Centro da Capital, criminosos procuram as vítimas mais distraídas Foto: André Ávila / Agência RBS




A criminalidade, em níveis sufocantes, não escolhe hora ou lugar. Assaltos, furtos e tiroteios entraram na rotina de quase todos os bairros da Capital e da Região Metropolitana. No sentido contrário, o efetivo da Brigada Militar atinge recorde negativo. No segundo semestre de 2015, o contingente chegou ao menor número desde 1982, conforme a própria corporação.


Para ajudar o cidadão a se proteger em algumas das situações mais comuns do dia a dia, o Diário Gaúcho foi às ruas da Capital. Com o capitão Gustavo Fávero Prietto dos Santos, do BOE (Batalhão de Operações Especiais), foram elencadas dicas para que o cidadão se torne menos “atraente” aos criminosos em qualquer local com características semelhantes.

Comportamentos que precisam ser pensados e debatidos em família. Até mesmo para que o instinto de reação ou fuga, por exemplo, possa ser controlado e substituído por uma atitude que minimize a chance de ser ferido em um roubo.

— A pessoa precisa saber que, ao ser abordada por um assaltante, a única surpresa é a dela. O criminoso já a observou, a avaliou, a seguiu e escolheu o ponto de ataque. É uma vantagem muito grande. Por isso, nesse momento, o melhor é deixar o bem ser levado e se preocupar em acionar o 190 assim que possível — ensina o capitão Prietto.

O cuidado começa antes de sair de casa, colocando a chance de ser assaltado como uma das variáveis a serem consideradas em todos os deslocamentos necessários durante o dia. O “direito” à distração não existe mais.

— A distração atrai o crime. É preciso atenção em todos os momentos, sempre fazendo uma leitura do ambiente ao redor — orienta o major Mário Augusto Ferreira, que responde interinamente como subcomandante do BOE.

A seguir, confira as dicas:


Na parada de ônibus

Aguardar um ônibus à noite, em qualquer ponto da Região Metropolitana, é tarefa para corajosos. Mas a coragem acaba sendo obrigação para quem não tem opção ao transporte coletivo. E não precisa ser uma parada escura em uma rua deserta.

Um dos casos mais graves de ataque em parada, no dia 22 de dezembro passado, foi em frente a um shopping, na Zona Sul da Capital.

A professora Carla Tentardini Alonso, 37 anos, e a filha de 15 anos esperavam um ônibus depois das compras de Natal. Com sacolas nas mãos, foram abordadas por bandidos pouco antes das 22h. Mesmo sem reagir ao assalto, Carla foi baleada no peito. Levada ao hospital em estado grave, submetida a uma cirurgia, sobreviveu e se recupera.

— Eu estou sempre agarrada na bolsa e olhando de longe quem chega perto. A onda de assalto está muito grande — diz a cuidadora Fátima Silveira Lopes, 46 anos, que esperava ônibus no mesmo local, semana passada.

- Procure um ponto iluminado, mesmo que a alguns metros.

- Segure pertences à frente do corpo, nunca ficando totalmente de costas para uma área aberta. A dica é ficar encostado em uma grade ou muro. Não fique no meio da rua, isso o deixa mais à vista de um assaltante.

- Dentro do ônibus, procure ficar no meio do veículo, longe das portas, onde acontecem os assaltos rápidos.

- Se abordado, entregue o que o criminoso pede. Sem gestos bruscos, diga em voz alta o que está fazendo: “Vou tirar a minha bolsa” ou “Estou tirando a carteira do bolso”.



No meio da multidão

Um local de intensa movimentação de pessoas pode ser uma armadilha. Justamente por essa característica, é atrativo para os chamados crimes patrimoniais: furtos e roubos de bolsas, carteiras e celulares, sem contar as tentativas de golpes.

Um exemplo é o Centro. Um local em que o pedestre precisa ser discreto. Tudo o que chama atenção das pessoas chamará ainda mais do ladrão.

— O ideal é evitar roupas ou adereços, como joias ou tênis com uma cor muito chamativa — observa o capitão Prietto.

- Defina a rota que fará. Desorientação pode levar a um caminho perigoso e atrair criminosos.

- Evite falar com estranhos que pedem informações. É uma das abordagens usadas para assalto. A tendência é que ele desista.

- Só use o celular em local seguro. Além de deixar o aparelho visível, se perde a atenção sobre o entorno.

- Carregue o menor volume possível. Segure firme em frente ao corpo, isso desestimula o ataque.

- Se for puxado, não faça cabo de guerra. O criminoso já o escolheu e pode ter comparsas.



Para se proteger em um tiroteio
O ano passado terminou com um número alarmante na Região Metropolitana. Levantamento do Diário Gaúcho revelou que 13 pessoas foram mortas por balas perdidas: sete crianças e adolescentes. Em 2014, sete pessoas haviam morrido dessa forma, nenhuma delas era menor de 18 anos.

A Vila Cruzeiro é um dos pontos mais conflagrados da Capital, com constantes disputas entre facções criminosas. No ano passado, uma dessas disputas terminou em tumulto dentro do Postão, quando um dos supostos líderes do tráfico na área foi executado. No meio disso, a comunidade foi pega de surpresa.

— A curiosidade, muitas vezes, é uma inimiga. O instinto é ver o que está acontecendo. Isso não pode acontecer — alerta o capitão Prietto.

- Não corra durante um tiroteio. Você pode acabar indo rumo aos disparos. Deite no chão com as mãos sobre a cabeça.

- Se estiver dentro de casa, jamais vá para a janela ou pátio. Procure a parte mais central da casa, com mais paredes entre você e a rua e fique deitado até o fim dos disparos.

- Depois, olhe em volta e procure abrigo, sempre abaixado. Poste, árvore ou o motor de um carro são boas proteções.

- Tire crianças da cama e as leve para esse ponto também. Elas devem ser protegidas junto ao seu corpo, também no chão.



Em roubo de veículos

Levantamento do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em outubro passado, apresenta Porto Alegre como a capital líder no ranking do roubo de veículos no país. Em 2014, foram 6.938 roubos, índice de 833,8 casos para cada 100 mil carros, quase o dobro da média nacional de 476,4.

A conclusão é de que a cada 2min30s, um carro foi roubado ou furtado nas 27 capitais brasileiras em 2014. Ataques que também terminam em morte. Na semana passada, no Bairro Jardim Ypu, Zona Leste de Porto Alegre, Isabel Cristina Grandini Dias, de 47 anos, foi assassinada com um único disparo, que a atingiu na testa. Tentativa de roubo a veículo é a principal hipótese para o crime.

Logo após dar partida no carro, foi surpreendida por um Corolla prata. Dois homens desceram com arma apontada para a motorista. A suspeita é que ela não tenha conseguido tirar o cinto de segurança.

- Ao estacionar na rua, projete a hora que vai sair. Uma boa sombra à tarde se torna um ponto escuro à noite. Não deixe pertences visíveis.

- Não pare junto à garagem sem antes olhar em volta. Se tiver algum desconhecido, dê uma volta na quadra. Caso o estranho permaneça no portão, ligue para o 190.

- Se o assaltante o abordar não há mais o que fazer. Já saia de casa preparado para conter o instinto de fuga que faz o criminoso atirar.

- Não faça gestos bruscos, tire as mãos da direção e diga em voz alta o que vai fazer: “Estou tirando o cinto”, “Vou abrir a porta e descer” e “Vou pegar a criança no banco de trás.”



Em parques e praças

Parques, praças e áreas verdes representam perigo por oferecerem esconderijos, principalmente à noite. Mesmo bem iluminados, como o Parque Farroupilha (Redenção) e o Parque Marinha do Brasil, por exemplo, persistem pontos de sombra, sobretudo sob as árvores. Nesses locais, o atrativo é consumir drogas e poder realizar, ali perto, roubos que sustentem o vício.

— O foco desse criminosos são os objetos de uso pessoal, nada de grande valor. Para ele, o relógio, o tênis já serve — explica o capitão Gustavo Fávero Prietto dos Santos.

Em áreas assim é preciso se movimentar olhando para todos os lados. Essa postura atenta, diz o capitão, manda um recado para quem estiver observando: essa vítima é difícil de ser surpreendida.

- Olhe para trás mais de uma vez até completar o percurso. Isso mostra atenção e desestimula o criminoso.

- Não use fones de ouvido até cruzar toda a área de risco. Sons de vozes ou de passos ajudam a avaliar os riscos.

- Se for à noite, faça o contorno pela calçada.

- Se desconfiar de alguém no sentido contrário, desvie a rota e procure um ponto movimentado.

- Se tiver que passar, procure a rota mais usada, a trilha de outros pedestres ou a iluminada, que permita observar à longa distância.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

VIRADA NA SEGURANÇA É O MAIOR DESAFIO DE SARTORI



ZERO HORA 18/01/2016 - 21h27min

ROSANE DE OLIVEIRA


Aliados do governador defendem a saída do secretário Wantuir Jacini. Para eles, a situação da segurança pública no Estado passou dos limites.



Por mais que o governador José Ivo Sartori e seus secretários insistam em tratar os problemas da segurança pública do Rio Grande do Sul como um contratempo que todos os Estados enfrentam, nos bastidores existe o reconhecimento de que a situação passou dos limites. Aliados do governador cobram uma virada na segurança, temerosos de que a apatia e o discurso conformista contaminem as candidaturas dos aliados na eleição municipal.

Até no PMDB, partido do governador, a convicção é de que chegou a hora de trocar o discurso caótico da crise das finanças por uma postura mais propositiva.

– Não se trata uma doença sem ter o diagnóstico, mas o diagnóstico em si não cura – diz o presidente do PMDB, Ibsen Pinheiro.

O segundo ano do governo Sartori é o item 2 da pauta do próximo encontro estadual do PMDB, ainda sem data definida. O primeiro é a eleição municipal, incluindo a definição de reuniões regionais para tratar de candidaturas e a discussão do financiamento da campanha, agora que as doações de empresas estão proibidas.

Aliados de diferentes partidos querem a demissão do secretário Wantuir Jacini. Argumentam que a Secretaria da Segurança precisa de alguém capaz de mudar a percepção de que o governo está conformado com resultados pífios no combate à violência. Não está em discussão a capacidade técnica de Jacini nem sua lealdade – elogiadas por Sartori –, mas a postura excessivamente defensiva do secretário.

O perfil do eventual substituto de Jacini varia conforme o interlocutor. Há quem defenda a indicação de alguém como o deputado Enio Bacci (PDT), que marcou sua rápida passagem pelo governo de Yeda Crusius pela performance de caçador de bandidos. Como esse perfil não combina com a visão de Sartori, o mais provável é que, se Jacini sair, o governo escolha um substituto com as qualidades de Ana Pellini (Ambiente) e João Gabbardo (Saúde), dois auxiliares elogiados pela competência e pela objetividade.

O governo sabe que trocar o secretário não basta. Para virar a chave, será preciso nomear mais policiais civis e militares, investir em presídios e tomar medidas que devolvam ao cidadão a percepção de segurança nas ruas.


 COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - De nada vai adiantar a saída do Secretario na solução definitiva do problema, porque a simples substituição não vai alterar a falência da justiça criminal que é quem garante a ordem e a segurança pública no Estado Democrático de Direito. As forças policiais e prisionais exercem funções essenciais à justiça, mas hoje estão submetidas aos interesses da gestão partidária que governa o RS. A solução começa na substituição da secretaria de segurança pelo Gabinete de Crise junto ao Governador do Estado, com a devolução dos efetivos aos seus órgãos de origem e da central de operações à BM,  e envolvendo nas análises, propostas e soluções os demais poderes e dos órgãos responsáveis pelos subsistema policial, judicial e de execução penal. As forças policiais e prisionais já sabem de seus deveres e incumbências e não precisam de gerenciamento partidário, intervenções políticas indevidas para as exercerem com integração; plenitude e eficiência. Basta que a vontade política capacite estas forças, especialmente no valor do potencial humano, e fortaleça os esforços em leis severas sendo aplicadas por justiça ágil e coativa e por órgãos da execução penal propositivos, diligentes, fiscais e responsáveis.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

TREZE ASSASSINATOS NO FIM DE SEMANA



ZERO HORA 18 de janeiro de 2016 | N° 18418

REGIÃO METROPOLITANA


Pelo menos 13 pessoas foram assassinadas no fim de semana


Além da morte do vendedor Geovani Pereira de Melo, 35 anos, que teria sido perseguido e alvejado por taxistas, e da localização de um homem decapitado na Capital (leia na página 22), ocorreram outros 11 homicídios na Região Metropolitana neste final de semana. Ainda em Porto Alegre, no bairro Vila Jardim, três pessoas da mesma família foram assassinadas na manhã de sábado.

Segundo a Brigada Millitar (BM), um dos corpos foi achado em uma casa na Rua Ernesto Pelanda e outros dois, em uma residência na Avenida dos Prazeres – as vias são paralelas. As vítimas foram identificadas pela polícia como Sanderson Mano, 41 anos, e os sobrinhos dele, Ismael Mano, 16 anos, e Robson Jonatan Mano dos Santos, 17 anos. Os disparos teriam vindo de dentro de um veículo, mas ainda não há suspeitos.

Ontem, outra família foi vítima de matadores na zona leste da Capital. Heliton Fagundes dos Santos, 18 anos, e Adelmo Fagundes dos Santos, 15 anos, que seriam primos, segundo a BM, foram executados dentro de uma casa na Rua Luiz Pogorelski, no bairro Lomba do Pinheiro. Cerca de 10 homens teriam invadido o local e atirado contra os jovens por volta das 15h. Não há suspeitos.

Na Zona Norte, ontem à noite, um homem identificado pela BM como Robson Garibaldi Rodrigues, 37 anos, foi morto a tiros na Rua Doutor Alberto Barbosa, próximo à Avenida Saturnino de Brito, na Vila Ipiranga. Os disparos, que também feriram uma mulher não identificada, teriam partido de um Siena, um Peugeot 307 e um Prisma, encontrados abandonados na entrada do bairro Bom Jesus. Ninguém foi preso.

ADOLESCENTE TERIA SIDO MORTO A PEDRADAS


Em Gravataí, um crime chocou moradores do bairro Marrocos. Kelvin Machado Aguirre, 17 anos, foi encontrado sem vida por volta das 9h de sábado. Segundo a polícia, os ferimentos no corpo, principalmente na cabeça, apontam que ele foi morto a pedradas. Há ao menos um suspeito do crime. Conforme a polícia, Aguirre tinha antecedentes como menor infrator por tráfico, furto e roubo.

Ontem, também em Gravataí, um policial civil matou um dos dois ladrões que tentaram roubar o carro dele no entroncamento da RS-118 com a Estrada Itacolomi, por volta das 20h30min. O policial foi baleado pelo outro assaltante, que fugiu em um Golf preto, mas não corre risco de vida.

Ainda no sábado, por volta das 5h, em Sapucaia do Sul, Ataíde Marques, 48 anos, foi morto a facadas, na Rua Salgado Filho.

Em Viamão, dois homens foram mortos no intervalo de menos de três horas ontem. Por volta das 5h, Humberto Conte, 53 anos, foi executado a tiros na Rua General Vargas, bairro Santa Cecília. Conforme a BM, ele tinha antecedentes. Por volta das 7h45min, outro homem, não identificado, foi baleado e morreu na Rua Cultura, bairro Vila Augusta.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ARGUMENTAÇÃO DESMONTADA



ZERO HORA 15 de janeiro de 2016 | N° 18415


EDITORIAL



Os gaúchos podem finalmente ficar livres de um argumento repetitivo sobre as causas do aumento da violência no Estado. É o de que a delinquência cresce aqui na mesma proporção do Brasil. Não é verdade, como comprovam estatísticas divulgadas ontem por Zero Hora. Uma amostragem nos 11 maiores Estados, no período de janeiro a setembro de 2015, revela que homicídios, assaltos e roubos vêm caindo, apesar da crise econômica e da carência generalizada de recursos públicos. Rio Grande do Sul e Pernambuco são os únicos Estados que andaram em direção contrária. Crescem aqui os números de assassinatos, de assaltos, de roubos e furtos de veículos, enquanto, na média, caem em todo o país.

É mais um conjunto de dados constrangedores, que desmontam a retórica oficial, repetida não só por este, mas também por governos anteriores. Deixa de ser cômodo atribuir o aumento da criminalidade à crise ou à escassez de verbas, que submetem os Estados aos mesmos problemas. Se as outras unidades da federação conseguem resultados efetivos, que mudam as estatísticas, o Rio Grande do Sul deve fazer uma reavaliação de condutas nessa área, para que as desculpas sejam abandonadas.

Algumas causas são bem identificadas, e o que falta é enfrentá-las. O Estado é deficiente crônico em policiamento ostensivo, aspecto decisivo para que a população tenha sensação de segurança e a delinquência seja desestimulada a agir. Quadrilhas se aperfeiçoaram e o sistema penitenciário faliu. O crime evolui, enquanto o Estado retrocede. A gestão da área de segurança também é precária, há muito tempo, ou os números seriam outros, e faltam ações inovadoras, que podem e devem ser copiadas de outros Estados. Se a maioria consegue reduzir os índices de violência, está claro que as exceções não têm o que argumentar. Espera-se que pelo menos busquem conhecer as experiências de fora, para que o discurso e as estatísticas sejam alterados.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

COMO RIO E SÃO PAULO DIMINUEM TAXAS DE CRIMES


Enquanto o RS registra alta de índices de violência, os dois Estados conseguiram reduzir as taxas de assassinatos, assaltos e roubos de veículos em 2015


ZERO HORA Por: José Luís Costa
14/01/2016 - 02h01min



No Rio de Janeiro, instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) em 38 regiões aumentou o policiamento em áreas conflagradasFoto: Fernando Gomes / Agencia RBS


O Rio de Janeiro e São Paulo aparecem no topo no ranking de 11 Estados como os únicos que, simultaneamente, baixaram os índices de assassinatos, assaltos e roubos de veículos em 2015.

São Paulo apresenta queda de 11,7%. Foram 2.965 assassinatos (até setembro), o mesmo número de vítimas no Ceará, Estado com cinco vezes menos habitantes. No Rio, o recuo dos homicídios em 2015 foi ainda mais representativo, 18,9%.


Os homicídios em São Paulo estão em queda há pelo menos 15 anos, e atingiram em 2015 o índice mais baixo no período, com taxa de 6,7% casos para cada 100 mil habitantes (até setembro). E a projeção para 2016 é de baixar mais as taxas de violência. Em 8 de janeiro, a capital paulista alcançou marca invejável. Com 11,9 milhões de moradores — mais habitantes do que o Rio Grande do Sul —, a maior cidade da América Latina comemorou 24 horas sem registro de homicídios, fato parecido tinha ocorrido em dezembro de 2007.

Mais rico Estado brasileiro, responsável por um terço do PIB do país, São Paulo vem investindo pesado em segurança há quase duas décadas. Algumas ações: ergueu mais de 50 penitenciárias, construiu cerca de 500 bases comunitárias para a policia militar – metade fixadas em bocas de favelas e áreas conflagradas –, e vem contratando policiais, à medida que outros se aposentam. A PM paulista tem cerca de 90 mil servidores e perdeu 3 mil (3,3%) em 2015. A Brigada Militar tem 21,4 mil PMs e deixaram a corporação 2,1 mil (10%) no ano passado, sem perspectivas de contratação de novos servidores a curto prazo.



Premiação por cumprir metas

No Rio de Janeiro, uma das estratégias foi a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em 38 regiões, 37 na Capital, aumentando o policiamento em áreas conflagradas e interromper o que é chamado de lógica de guerra, onde vivem 1,5 milhão de pessoas — equivalente a população de Porto Alegre.

Também foi estabelecido um sistema de metas compartilhadas para melhoria dos serviços que são cobradas em conjunto, tanto da PM quanto da Polícia Civil, o que as obrigou a trabalhar em parceria. Nas unidades que atingem os índices de produtividade, todos os servidores são premiados com dinheiro, variando de R$ 4,5 mil a R$ 13,5 mil para cada policial por semestre (os valores estão sendo revisados por conta da crise financeira que o Estado enfrenta este ano).


É verdade que parte desses investimentos é fruto de ajuda federal por causa de eventos internacionais como Jogos Pan-americanos, em 2007, depois para Copa do Mundo, em 2014, e Olimpíada, que ocorrerá em agosto deste ano.

— O aporte de recurso foi proporcional aos desafios. Esses eventos exigem muito das polícias – afirma Roberto de Sá, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Secretaria de Segurança do Rio.






COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - É claro que as medidas impostas por Rio e SP deram mais capacidade às forças policiais e prisionais que amenizaram a insegurança nestes dois Estados, mas as vejo como superficiais, pontuais e paliativas diante de leis permissivas criadas por nossos políticos, da justiça leniente, da omissão da União em patrulhar as fronteiras, da gestão política das forças policiais e prisionais, e de uma execução penal branda, irresponsável, sem controle e sem objetivos. Assim, não há comprometimento dos poderes e nem envolvimento da justiça para dar continuidade, força ou autoridade aos esforços policiais e prisionais contra a impunidade, o poder das facções e o aumento dos crimes.

RS ENTRE OS MAIS VIOLENTOS


Avanço na taxa de homicídios coloca RS entre os mais violentos. Nos 11 maiores Estados do Brasil, apenas RS e PE tiveram avanço no índice de homicídios. Dificuldades financeiras para reforçar polícias e combater crimes são justificativas dos governos para crescimento da criminalidade

Por: José Luís Costa
ZERO14/01/2016 - 02h01min



Ônibus foi incêndiado em setembro, após morte de jovem no Morro Santa Tereza, em Porto Alegre Foto: Diego Vara / Agencia RBS


Diferentemente do que muita gente pensa ou diz, a escalada de violência não é generalizada no Brasil. Ao comparar estatísticas divulgadas por secretarias estaduais de Segurança o sinal é de que o crescimento da criminalidade não é um fenômeno nacional.

Levantamento nos 11 maiores Estados, onde vivem 78% dos brasileiros de norte a sul do país, aponta que os homicídios — o principal indicador internacional de violência — cresceram somente entre gaúchos e pernambucanos de janeiro a setembro do ano passado, ante igual período de 2014. E, no mesmo intervalo, o Rio Grande do Sul ainda registra os maiores aumentos de assaltos e de roubos de veículos entre sete Estados pesquisados.


Em média, os homicídios nos 11 Estados reduziram 6,3%. Mas, no Rio Grande do Sul, subiram 3,5% e, em Pernambuco, 11,6%. Os índices estão em ascendência há pelos menos três anos. Neste período, o governo gaúcho, na tentativa de conter as mortes, lançou projetos especiais em áreas conflagradas, como os Territórios da Paz, formou força-tarefa conjunta entre PMs e policiais civis e criou delegacias especializadas para investigar homicídios em 11 cidades. As iniciativas não tiveram o resultado esperado.
Em Pernambuco, a principal medida para enfrentar crimes de sangue foi o chamado Pacto pela Vida, criado em 2007 e regulamentado em decreto como política de segurança cinco anos depois. O programa até colheu bons frutos por algum tempo, mas dá sinais de fragilidade.

O curioso neste paralelo é que, nos dois casos, as explicações para o aumento das mortes são parecidas. Autoridades pernambucanas lamentaram as dificuldades financeiras no país e uma espécie de boicote de policiais em cumprir metas, por causa de congelamento de salários. Em entrevista semana passada, o governador José Ivo Sartori justificou como uma das razões para a elevação da violência no RS a crise na economia nacional e o desemprego.


Mas uma análise da estatística indica outra realidade nacional, sobretudo no centro do país. Os melhores índices de redução da violência pertencem a São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente os Estados com maior destaque e visibilidade.

Além da elevação dos homicídios, o Rio Grande do Sul amarga números nada invejados em crimes contra o patrimônio. Veja no quadro abaixo:

Tentativas que naufragaram no RS

Os assaltos cresceram 26,3% em 2015, e os roubos de veículos ainda mais, 30,4%. Parte disso pode ser atribuída à queda drástica do efetivo de policiais militares nas ruas e ao aumento de criminosos condenados em prisão domiciliar por falta de vagas nas cadeias, como noticiou ZH no último fim de semana.

Assim como para evitar homicídios, autoridades gaúchas já experimentaram ações para frear os ladrões de carros, responsáveis, também, por latrocínios (roubo com morte). Algumas não saíram do papel, como a que prevê câmeras de vigilância inteligentes em vias de grande circulação, que alertam a uma central de monitoramento sobre a passagem de veículos em situação irregular.


A última promessa, prevista para entrar em prática no mês que vem, é a nova lei dos desmanches, com objetivo de inibir os crimes relacionados aos roubos e furtos de automóveis, combatendo o comércio clandestino de autopeças entre ferros-velhos ilegais.

— O grande desafio é investir em segurança e na qualificação da gestão — avalia José Vicente da Silva, coronel reformado da PM de São Paulo e professor do Centro de Altos Estudos de Segurança da corporação.

Para especialistas, autoridades amenizam responsabilidades


A cada manifestação de uma autoridade, sua responsabilidade tenta ser minimizada, empurrando o problema para o contexto nacional, afirma o consultor em segurança José Vicente da Silva. O especialista lembra que fatores sociais e econômicos influenciam na violência, mas assegura que a polícia pode e deve fazer diferença no combate à criminalidade.

— Não adianta dizer que tem problemas em todo o Brasil. Existem problemas de segurança no país? Existem. Mas existem áreas de sucesso. Em algum momento, o Rio Grande do Sul tem de reagir para a situação não piorar ainda mais — opina o consultor, coronel reformado da PM de São Paulo e professor do Centro de Altos Estudos de Segurança da corporação.


— Os discursos são tentativas de justificar o fracasso da política de segurança — opina o sociólogo Rodrigo Azevedo, professor da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Azevedo elenca três pontos que considera fundamentais para reprimir a criminalidade:


1 — Investir em policiamento ostensivo, com foco da melhoria na sensação de
segurança e no recolhimento de armas.

2 — Maior articulação entre Estado e prefeituras, com participação das guardas municipais e outros organismos para ampliar serviços essenciais, como iluminação das ruas e evitar a degradação de ambientes públicos.

3 — Necessidade de investir em presídios para reduzir o poder de facções, propulsoras da violência.



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Política de segurança só existe nos regimes totalitários em que o Estado enquadra as forças policiais sob gestão política, partidária e ideológica, usando-as para garantir o controle da população e a segurança do regime. O professor Rodrigo tem toda a razão em dizer que os "discursos são tentativas de justificar o fracasso", mas o fracasso dos poderes e dos órgãos que deveriam garantir o direito à justiça e segurança, mas preferem fugir de obrigações e empurrar a responsabilidade nos outros, especialmente nas forças policiais e no Executivo. Além dos três pontos, acresceria a criação do sistema de justiça criminal, a autonomia das polícias, a extinção da SSP, o fim das leis permissivas e o exercício da função precípua da aplicação coativa das leis por parte dos magistrados começando pela apuração de responsabilidade na execução penal.

  No Estado Democrático de Direito, a segurança pública é um direito a ser garantido por leis e por justiça. As leis devem ser severas para prevenir e punir as ilicitudes aplicadas dentro de um sistema de justiça criminal ágil e coativo envolvendo o judiciário, o mp, a defensoria, a execução penal e as forças policiais, fortalecido na autoridade, focado na finalidade pública de seus poderes e órgãos, e observando a supremacia do interesse público em que a vida, o patrimônio e a liberdade das pessoas são prioridades.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ESTAMOS VIVENDO TEMPOS DE BARBÁRIE

ZERO HORA 12/01/2016 - 12h45min


Por: Vanessa Kannenberg e Caetanno Freitas




Sapatos usados por Isabel ainda estavam dentro do veículo que ela dirigia ao ladro dos vidros estilhaçados Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

"Estamos vivendo tempos de barbárie", diz cunhada de vítima



Isabel era contadora, trabalhava em um escritório de contabilidade. Solteira, não tinha filhos, mas deixa três irmãos inconformados com mais uma vítima da insegurança da Capital. A cunhada dela, que preferiu não se identificar, falou a ZH e fez um desabafo sobre a criminalidade e o medo que amedronta a população.


Como era a Isabel em casa, com a família?


Ela era uma pessoa muito honesta, muito boa com todo mundo. Muito querida no bairro onde morava, em um apartamento no Jardim Ypu. Atuava profissionalmente com a maior integridade possível. Fazia voluntariado, doações.

O que vocês já sabem sobre o crime?


A gente sabe o que a polícia está divulgando. Ela realmente tinha ido cuidar dos animais da irmã e foi surpreendida por um assalto na rua. A gente não quer sensacionalismo, sabe? Só queremos que isso sirva de alerta por toda a insegurança que se vive na cidade. Estamos vivendo tempos de barbárie. Não tem outra explicação. É um toque de recolher em Porto Alegre a partir das 22h. Qual a segurança que se tem em andar em qualquer bairro à noite? Isso tem de ser dito. É uma barbárie. Segurança zero.


Polícia analisa imagens da morte de motorista em Porto Alegre


Tentativa de roubo a veículo, no bairro Jardim Ypu, é a principal hipótese para o assassinato de Isabel Cristina Grandini Dias. Imagens devem ajudar na busca aos suspeitos do crime



Corsa da vítima está em um depósito do Detran, na Zona Norte de Porto Alegre Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS


Poucos segundos separaram a tentativa de roubo de um Corsa e a morte da motorista do veículo na noite de segunda-feira, no bairro Jardim Ypu, zona leste de Porto Alegre. Imagens de câmeras de segurança flagraram o crime as 22h04min, na Rua Altamira. A vítima, Isabel Cristina Grandini Dias, de 47 anos, foi assassinada com um único disparo, que a atingiu na testa.

Conforme as investigações, Isabel havia acabado de sair da casa da irmã, onde estava cuidando dos animais de estimação dela. Mal deu partida no carro, foi surpreendida por um Corolla prata, que cortou a frente do seu veículo. Dois homens desceram e se aproximaram com arma apontada para a motorista.

Ainda não se sabe o que motivou o tiro de um dos homens, mas a suspeita da polícia é que ela tenha feito algum movimento brusco ou não tenha conseguido soltar o cinto de segurança _ moradores que tentaram socorrer Isabel a encontraram ainda presa ao equipamento. O disparo fatal atravessou o vidro lateral do carro.


A 15ª Delegacia de Polícia investiga o caso como latrocínio, mesmo que os autores do crime tenham fugido sem levar nenhum pertence da vítima, nem o veículo. Segundo o delegado responsável, Ajaribe Rocha Pinto, ainda não há suspeitos.

— Não temos elementos para acreditar em execução. Nossa linha de investigação é de crime patrimonial, com objetivo de levar o carro ou até alguma bolsa, celular. Mas até agora não identificamos ninguém. Por isso estamos trabalhando nas imagens que temos — afirma o delegado.

— Pode ser que eles acharam que ela estava armada, ou então ela ficou nervosa e não conseguiu sair do carro ou se assustou q acabou assustando eles. Não sabemos, o certo é que eles reagiram e atiraram — acrescenta o chefe de investigação da 15ª DP, Emerson Ayres.

A análise dos vídeos devem ajudar a elucidar de onde vieram os assaltantes e precisar o modo como o crime foi cometido, além de tentar obter a placa do Corolla usado pelos criminosos.