SEGURANÇA PÚBLICA - CONCEITO E OBJETIVO

No Sistema de Justiça Criminal, cada poder tem funções que interagem, complementam e dão continuidade ao esforço do outro na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A eficácia do sistema depende da harmonia e comprometimento dos Poderes de Estado em garantir a paz social. O Sistema de Justiça Criminal envolve leis claras e objetivas, prevenção de delitos, contenção, investigação, perícia, denuncia, defesa, processo legal, julgamento, sentença e a execução penal com objetivos e prioridades de reeducação, reintegração social e ressocialização do autor de ilicitudes. A finalidade do Sistema é garantir o direito da população à Justiça e à Segurança Pública, a celeridade dos processos e a supremacia do interesse público em que a justiça, a vida, a saúde, o patrimônio e o bem-estar das pessoas e comunidades são prioridades.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

A ARQUEOLOGIA DA CRIMINALIDADE



ZERO HORA 28 de fevereiro de 2016 | N° 18459


JOSÉ LUÍS COSTA


CRISE NA SEGURANÇA

A VIOLÊNCIA QUE NÃO ESCOLHE vítimas se transforma ao longo das décadas no Rio Grande do Sul. Com o passar dos anos, delitos que eram raros tornaram-se comuns a quase todos os cidadãos


HÁ 30 ANOS, QUANDO SE FALAVA EM VIOLÊNCIA, o que vinha à mente das pessoas era a figura do dragão da inflação que asfixiava a economia e engolia os salários. Grade nas portas e janelas era coisa de presídio. Tiroteio à luz do dia só se via no cinema. Nas ruas, o perigo eram os batedores de carteira e golpistas de boa lábia que aplicavam o conto do bilhete.

A criminalidade mais aguda se concentrava em assaltos a bancos, obrigando as agências a colocar segurança na porta. Mortes ocorriam na ponta da faca, provocadas por desavenças entre marido e mulher, amantes, irmãos, vizinhos e amigos de bar. O comércio de entorpecentes se alicerçava na maconha, e apreensão de qualquer quantia era notícia.

– Se pegasse cem gramas ia para a capa dos jornais – lembra o delegado Cléber Ferreira, 65 anos, diretor da Delegacia Regional da Polícia Civil em Porto Alegre.

– O Tribunal condenava quem portava maconha se a pessoa não conseguisse provar que a droga era para consumo próprio – recorda o advogado Décio Antônio Erpen, 79 anos, desembargador aposentado no Rio Grande do Sul.

No final de 1986, a descoberta de duas redes de traficantes no Estado com conexões em São Paulo e Mato Grosso do Sul para vender a universitários demonstrava a popularização da cocaína, até então consumida apenas pela classe A.

UMA DÉCADA DEPOIS, nos anos 1990, riminosos fortaleceram o poder, articulados em facções. Rebeliões em presídios sacudiram o Estado, levando a Brigada Militar para dentro das cadeias na tentativa de aplacar motins e mortes, diminuindo seu efetivo nas ruas. Com táticas semelhantes a de bandidos cariocas, quadrilhas armadas com fuzis começaram a atacar carros-fortes nas estradas.

Nas cidades, ladrões invadiam bancos, ignorando a presença de vigilantes e câmeras. As agências foram obrigadas a instalar portas giratórias com detector de metais, e, como resposta, quadrilhas “importaram” outra modalidade do Rio de Janeiro, o sequestro relâmpago. Motoristas eram abordados e levados para retirar dinheiro em caixas eletrônicos.

A solução encontrada foi limitar valores de saques e horários das salas de autoatendimento. Quatro anos depois, assaltantes passaram a invadir casas de gerentes de banco e familiares transformados em reféns, até que facilitassem o ingresso e o roubo nas agências.

Em meio à escalada da violência, uma nova droga surgiu para dizimar famílias, provocar uma endemia social e dar fôlego à criminalidade: o crack. A pedra desembarcou na Serra, em 2004, impulsionou o comércio de entorpecentes em larga escala e o consolidou como carro-chefe da criminalidade. Traficantes disputavam a bala com rivais o domínio de bocas de fumo, mudando o perfil dos homicídios – à época, 47% dos assassinatos estavam relacionados a essas desavenças.

A Polícia Civil tentava, em vão, inibir a proliferação dos entorpecentes, até com blitze em parques e praças. A Secretaria da Segurança Pública se obrigou a criar um setor específico para combater as drogas, o Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico, enquanto traficantes gaúchos radicados no Paraguai intensificavam remessa de fuzis e cocaína para o Estado. Em troca, carros roubados no Brasil chegavam a Assunção para serem legalizados. Da frota paraguaia de 400 mil veículos, 180 mil eram de procedência duvidosa.

O FINAL DE SEMANA DE ANO-NOVO DE 2006 dava uma mostra da escalada da brutalidade. Foram 20 assassinatos, incluindo o de um estudante de 20 anos, em Santo Ângelo, nas Missões, morto por assaltantes que levaram o automóvel dele para cometer furtos. O caso apontava para dois novos vértices da insegurança.

O primeiro: o avanço da criminalidade em áreas rurais e pequenas comunidades do Interior, influenciado pela fragilidade de estrutura e de pessoal da Brigada Militar – há mais de uma década, o número de PMs despencava em queda livre, motivada, em parte, por plano de demissão voluntária.

O segundo: o crescimento desenfreado dos roubos de carros para desmanches e clonagem, fazendo vítimas até policiais, e com resultados trágicos, elevando os números dos latrocínios (roubo com morte).

O momento se mostrava especialmente delicado. O Supremo Tribunal Federal tornava menos rigorosa a punição para autores de crimes hediondos. Três anos antes, alteração na Lei de Execução Penal criou facilidades para condenados progrediram para o regime semiaberto. Enquanto criminosos dentro das cadeias extorquiam famílias com o golpe do falso sequestro, apenados fugiam em massa de albergues para cometer estupros em série e ataques a blindados na Serra.

A situação deixava autoridades gaúchas atônitas. Nos gabinetes da SSP, se admitia que não havia plano para conter os roubos de veículos. Nas ruas, a polícia corria atrás de ladrões de automóveis e tentava conter assaltos a carros-fortes, lideradas por José Carlos dos Santos, o Seco. Na tentativa de prendê-lo, considerado foragido número um, policiais civis mataram a tiros uma criança de três anos, em um camping no Litoral Norte. Seco foi capturado sete meses depois. Em novembro passado, a polícia deflagrou uma operação para tentar reduzir o poder do assaltante de dentro da cadeia (na foto, levado para depor na Capital).

NOS ÚLTIMOS 10 ANOS, A CRIMINALIDADE GANHOU FÔLEGO por conta do colapso carcerário. A inércia do Estado em erguer unidades prisionais e investimentos equivocados no regime semiaberto geraram superlotação com consequências nefastas à segurança pública, e até motivo de vergonha mundial, por causa do Presídio Central de Porto Alegre. Com presos amontoados em pavilhões em ruínas, a cadeia é apontada como a pior do Brasil e, em 2013, se torna pivô de denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, organismo ligado à Organização dos Estados Americanos, em 2013.

Sem servidores suficientes e precários mecanismos de controle, as cadeias ganharam status de escritórios do crime organizado com centenas de apenados comandando de trás das grades, via celular, venda de drogas, roubos e assassinatos nas ruas. Oito em cada 10 homicídios em Porto Alegre eram provocados por guerras entre narcotraficantes.

O telefone virou o objeto de maior cobiça da bandidagem, tanto para trocar por drogas quanto para mandar para dentro das cadeias. Mesmo pedestres que evitam portar pertences valiosos como precaução contra assaltos, passaram a ser roubados por causa do celular, cujo valor em dinheiro as vítimas jamais levariam na carteira.

A falta de espaços e a insegurança em albergues levaram juízes a interditar esses estabelecimentos e a liberar milhares de homicidas, ladrões e traficantes para cumprir pena em casa.

– Sem espaços nas cadeias, o juiz tem de fazer uma seleção dos mais perigosos que devem ficar na cadeia. Antigamente não tinha essa crise prisional. Por isso, não tinha o prende e solta – analisa Erpen.

Em âmbito nacional, uma tentativa de reduzir a lotação nas cadeias veio com a Lei 12.403 em 2011 que criou nove medidas alternativa à prisão preventiva. Em paralelo a isso, quadrilhas intensificaram novas modalidades de ataques a bancos. Transformaram moradores de pequenas cidades em escudo humano para roubos em agências e, a partir de 2010, incrementaram furtos com maçarico e explosões com dinamite.



Começo de ano sangrento


O ANO DE 2016 SE INICIA COM O ESTIGMA DA VIOLÊNCIA desenfreada disseminada pelo poder do tráfico de drogas e pela crueldade das quadrilhas que disputam bocas de fumo e acertam contas a tiros em qualquer hora ou lugar. Em 2015, o Rio Grande do Sul bateu recorde de homicídios, com 70% de crescimento na última década. Na comparação com 1986, as mortes violentas aumentaram sete vezes mais do que a população.

E a tendência é seguir aumentando o banho de sangue. Números indicam que fevereiro poderá ser o mês mais violento nos últimos quatro anos em Porto Alegre. São pelo menos 63 homicídios (até quinta-feira). Desde 2013, não havia período com tantos assassinatos na Capital.

A cada final de semana são, em média, 10 execuções no Estado, com características semelhantes. Sejam em becos e vielas das periferias ou nas ruas movimentadas e também em regiões nobres, onde homens armados surgem em carros e motocicletas abrindo fogo diante de dezenas de pessoas, sem piedade.

São rajadas de 50 tiros, como em 11 de janeiro em uma lancheria a menos de cem metros do Quartel General da Brigada Militar, na Capital, resultando em dois carros, e até uma centena de disparos, em dois confrontos ocorridos na noite de sábado passado, na Vila Cruzeiro do Sul e no bairro Bom Jesus, na Capital, também com dois mortos.

Na madrugada de sexta-feira, mais de 30 tiros atingiram a frente de uma casa noturna da Cidade Baixa, bairro boêmio em área central da Capital, e deixaram sete pessoas feridas. Criminosos em um carro miravam acabar com a vida de um desafeto, mas além de acertar o rapaz, atingiram mais seis pessoas.

Estimativas apontam que oito em cada 10 homicídios em Porto Alegre são motivados pelo tráfico de drogas. Mas essa guerra não faz distinção entre facções. Cerca de 40% dos mortos neste ano na Capital nada tinham a ver com a criminalidade. São inocentes como Lucas Longo Motta, 12 anos, vítima de bala perdida no bairro Rubem Berta, em janeiro, e o comerciante Carlos Jesus Ávila, 69 anos, na Bom Jesus.

ALÉM DOS HOMICÍDIOS, OS ASSALTOS ESTÃO EM CURVA ASCENDENTE – 28,3% a mais em 2015 do que no ano anterior. São arrastões em restaurantes, em ônibus e em lotações, e comboios de gangues em carros roubados para roubar mais carros. No centro da Capital, sobem os assaltos com violência a pedestres – um caso a cada 47 minutos, sobretudo para levar celular – enquanto diminuem os furtos, leia-se os batedores de carteira.

O mais grave na escalada dos assaltos são os latrocínios (roubo com morte). Os casos quase dobraram (86,6%) em cinco anos. Em 23 de janeiro, o sargento da Brigada Arilson Silveira dos Santos, 42 anos, foi morto por ladrões que invadiram um bar e roubaram um carro em Dois Irmãos, no Vale do Sinos. Em 14 de fevereiro, o físico Alexandre Bueno, 51 anos, perdeu a vida ao ter a casa de veraneio invadida por ladrões em Tramandaí, no Litoral Norte.

O clima de insegurança no Estado se traduz em pesquisa do Instituto Index realizada no começo do mês com 2 mil pessoas em 30 cidades. Sete em cada 10 entrevistados afirmaram já terem sido vítima de ladrões.

O aumento da criminalidade tem uma razão. A segurança virou artigo de segunda linha por conta da crise financeira do RS. Com cada vez menos policiais, menos vagas nas cadeias e menos condenados atrás das grades – 5 mil apenados estão em casa – o resultado é mais violência.

– Enfrentamos uma guerra como se fosse contra o Estado Islâmico, mas sem recursos – lamenta um experiente policial.

– A polícia gaúcha já foi a melhor aparelhada no Brasil. Mas foi abandonada pelos governos e pelos tempos. Não temos mais vigilância noturna. E tem juízes que se negam a colocar na cadeia pessoas com 18, 19 anos por falta de vagas e porque sabem que elas sairão de lá formados no crime, e não na boa conduta – analisa o advogado Décio Antônio Erpen, desembargador aposentado.

O governo reconhece falhas na segurança, mas segue sem alternativas para contratar mais policiais e construir presídios.

A SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA APOSTA EM UMA ESTRATÉGIA: combater o comércio clandestinos de autopeças para tentar frear o roubo de carros recorde histórico em 2015 e e crimes conexos (latrocínios, tráfico).

Há duas semanas, a SSP deu início à ofensiva, fechando dois desmanches na zona norte da Capital, mas se viu diante de um constrangedor detalhe: dois ferros-velhos irregulares funcionavam em terrenos alugados pela prefeitura de Capital, a mesma que clama por ajuda da Força Nacional de Segurança para conter a criminalidade na cidade.

Percepções


-Em três décadas, o crescimento demográfico no Rio Grande do Sul atingiu 31%, enquanto o efetivo da Brigada Militar reduziu 3,3%.

-Em 1986, a BM tinha mais PMs do que atualmente. Além disso, o déficit em relação ao efetivo previsto era de 5,8%. Em 2016, soma 44,5%.

-No mesmo período, a massa carcerária subiu 129,3%.

- Em 1986, a taxa de homicídios no Estado era de 8,94 por 100 mil habitantes, atualmente chega a 21,3 homicídios para cada 100 mil gaúchos.

-Estudo da Fundação de Economia e Estatística mostra que o volume de ocorrências policiais cresceu 27% entre 2002 e 2014. No mesmo período, a taxa de registros relativos ao tráfico de drogas subiu de 15 ocorrências por grupo de 100 mil habitantes para 90,7.



A ESCALADA DO CRIME AO LONGO DE TRÊS DÉCADAS1986

Homicídios passionais e brigas


– A violência se reproduz em homicídios passionais, motivada por desavença entre irmãos e amigos, em sua maioria com uso de facas.

– O crime mais chocante daquele ano ocorreu em fevereiro, em Xangri-lá, no Litoral Norte, quando o estudante Alex Thomas, 16 anos, foi assassinado a socos e pontapés por uma gangue de delinquentes juvenis de Porto Alegre.

– O risco de ser roubado é por batedores de carteira. A maconha é a droga mais consumida, mas surgem as primeiras apreensões de cocaína.

1996

Assaltos a banco e proliferação das drogas

– A partir de Caxias do Sul, o crack se espalha pelo Estado como a droga mais acessível e devastadora, empurrando usuários para o crime para sustentar o vício. Crescem as apreensões de cocaína, e a Polícia Civil cria um departamento especial para enfrentar o avanço da droga.

– Traficantes gaúchos fogem para o Paraguai, remetendo drogas para o Estado em troca de carros. A internet ajuda a Interpol a procurar foragidos, com nomes e fotos divulgados em site.

– Se intensificam assaltos a bancos. Agências contratam empresas de segurança para abrir e fechar instituições, adotam cofre com abertura em horário programado e instalam portas giratórias com detector de metais. Os bandidos reagem com sequestros relâmpagos de clientes e, depois, de gerentes e familiares

2006

Ataque a carros-fortes e roubos com morte


– Justiça flexibiliza regras, beneficiando condenados por crimes hediondos e a progressão de presos para o regime semiaberto.

– A violência se alastra pelo Interior, disseminando o terror em pequenas cidades. O Rio Grande do Sul é assolado por uma onda ataques a carros-fortes protagonizada pelo assaltante José Carlos dos Santos, o Seco. Na tentativa de prendê-lo, a polícia mata o menino Francisco Daniel Talasca Ferreira, de três anos, em um camping no Litoral Norte.

Roubos ao comércio resultam em mortes –

Ladrões matam motoristas para levar carros até de policiais. Das cadeias, criminosos usam celular para aplicar golpe do falso sequestro. Detentos fogem do semiaberto para cometer roubos e estupros.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - EM TERRA SEM LEI E SEM JUSTIÇA, O CRIME TEM SEU CAMINHO LIVRE. SEM BARREIRA E SEM LIMITES. FAVORECIDO PELA IMPUNIDADE, PELA LENIÊNCIA DA JUSTIÇA E PELA PERMISSIVIDADE DAS LEIS SÓ PODE CRESCER, SE BANALIZAR E SE TORNAR CADA VEZ MAIS VIOLENTO. Enquanto a sociedade organizada aceitar passivamente a permissividade dos legisladores, a leniência da justiça, o descaso do governante e a irresponsabilidade sem culpados na execução penal, o povo e seus policiais continuarão sendo sacrificados nas ruas. Na noite do dia 21 de Abril poderemos mostrar toda a nossa revolta e indignação, acendendo velas para a JUSTIÇA e para a SEGURANÇA PÚBLICA, direitos perdidos para o crime.

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR....


- Se o problema é a falta de presídios, o tratamento desumano e a precariedade no atendimento dos objetivos da execução penal, para que servem os órgãos de execução penal e os poderes com competência para sanar este problema apurando responsabilidade e punindo os culpados?

- Se o problema é a falta de policiais nas ruas para que servem os deputados que representam o povo, mas se omitem em constranger o governador a recrutar, formar e nomear mais policiais? E diante da permissividade das leis, da leniência da justiça e da irresponsabilidade na execução penal, fatores que estimulam o crime no RS, por que se mantêm apáticos na defesa do povo que confiou o mandato representativo, fiscal e legislativo?

- Se a justiça é garantidora de direitos e implacável na aplicação das leis, por que ela só garante os direitos do bandidos, esquecendo dos direitos das vítimas, dos policiais, do cidadão e da população em geral, e é leniente da aplicação das leis e no exercício de suas obrigações? E na aplicação das leis, por que ela "esquece" de exercer a sua função precípua da aplicação coativa das leis? Quais são as utilidades dadas para a balança do equilíbrio e para a espada da severidade?


sábado, 27 de fevereiro de 2016

TIROTEIO ENVOLVENDO CRIMINOSO COM VÁRIOS ANTECEDENTES RESULTA EM SETE FERIDOS EM BAIRRO BOÊMIO DE POA



ZERO HORA 27 de fevereiro de 2016 | N° 18458


MAURICIO TONETTO VANESSA KANNENBERG

CRISE NA SEGURANÇA. Tiroteio resulta em sete feridos na Cidade Baixa

CERCA DE 30 DISPAROS partiram de dentro de um carro por volta das 5h no bairro mais boêmio de Porto Alegre. Alvo seria um criminoso foragido


Uma festa de pagode foi interrompida por tiros na madrugada de ontem no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Em frente à Estação 910, casa noturna localizada na esquina da Rua Lima e Silva com a Avenida Venâncio Aires, um grupo de 20 pessoas virou alvo por volta das 5h. Suspeitos passaram em um Logan e atiraram a esmo. Sete pessoas ficaram feridas, nenhuma com gravidade.

De acordo com a Brigada Militar (BM), o alvos seria Tiago Sérgio Fernandes, conhecido como Zoio, 30 anos, criminoso com antecedentes por dois homicídios e tráfico de drogas. A Polícia Civil também investiga o ataque como mais um capítulo da guerra entre quadrilhas dos últimos dias (leia ao lado). Zoio estava foragido e apresentou uma carteira de motorista falsa para entrar na boate. Ferido, foi levado sob custódia para o Hospital de Pronto Socorro (HPS), onde confessou ter fraudado o documento. Os outros seis feridos pelos disparos contra a casa noturna não tinham antecedentes criminais.

Um frequentador assíduo da Estação 910 relatou ter escapado de ser alvejado no ataque por questão de segundos. Ele saiu da festa e caminhou cerca de cem metros quando escutou disparos.

– Dois amigos foram baleados, vieram até o meu carro e os levei ao hospital. Outros foram atingidos de raspão e até em cheio ou por estilhaços de vidro. É triste o nível que a violência chegou – contou o homem, que pediu para não ser identificado.

Um amigo dele, que também pediu para ter o nome preservado, disse que havia ido buscar o carro e, quando chegou próximo da festa para dar carona a conhecidos, o tiroteio começou:

– Um tiro acertou meu carro, aí me abaixei. Depois, vieram outros, muitos. Mais cinco pegaram no meu veículo, nada em mim. Não sei como.


CÂMERA FLAGRA ASSALTO À LUZ DO DIA

O dono de um estacionamento vizinho à casa noturna, na Avenida Venâncio Aires, prefere fechar o local durante a madrugada para evitar episódios como o de ontem. Há três anos na área, ele nunca foi assaltado, ao contrário de seus clientes.

– Muitos vêm pela manhã pegar os carros e são assaltados na esquina, onde ocorreu o tiroteio. Isso às 6h, em plena luz do dia – diz Rogério Vilela.

Perto dali, na Travessa Comendador Batista, o relato de Vilela ganhou vida às 7h de ontem. Imagens de uma câmera de monitoramento flagraram um ladrão agindo com tranquilidade para levar os pertences de uma mulher, que chegava ao trabalho.

As imagens foram repassadas à BM, que tenta identificar as placas do veículo usado pelo assaltante, um Gol branco. Toda a cena dura menos de um minuto. O criminoso ainda teve o cuidado de estacionar o veículo enquanto a vítima, parada diante da entrada de um prédio, falava ao celular. O assaltante desceu do carro, apontou uma arma para a mulher e levou sua bolsa e o celular. Outra câmera à qual a BM teve acesso mostra o carro seguindo em direção à Rua José do Patrocínio.

Conforme o capitão Fernando Maciel, no instante em que a mulher era assaltada, uma das viaturas da 2ª Companhia do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM), que faz o patrulhamento na região da Cidade Baixa, estava escoltando os baleados do tiroteio.



Mais um ataque do tráfico


EDUARDO TORRES

A polícia investiga a possibilidade de que o tiroteio na Cidade Baixa seja mais um capítulo do confronto entre facções criminosas, iniciado na zona leste de Porto Alegre. Dessa vez, fora dos redutos das quadrilhas em disputa, o alvo seria Tiago Sérgio Fernandes, o Zoio, 30 anos, conforme a 3ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Com antecedentes por tráfico de drogas, homicídio e roubo, Zoio era procurado pela Justiça desde julho do ano passado, com pena de mais de nove anos de prisão a cumprir. No hospital, apresentou carteira de motorista falsa, mas foi reconhecido por brigadianos que atendiam a ocorrência.

Ele é apontado pela polícia por envolvimento no tráfico de drogas no Morro Santana, mas são seus relacionamentos entre a Vila Jardim e o bairro Bom Jesus que devem nortear a investigação. Informações ainda em apuração dão conta de que Zoio já teria integrado os Bala na Cara, mas, ao lado de um primo – também relacionado com o tráfico, no bairro Jardim Itu Sabará –, teria se aliado aos rivais, da Vila Jardim.

– Temos informações que levam a crer que foi um crime relacionado a esse confronto de grupos rivais do tráfico, e não um tiroteio causado por alguma desavença na festa. Não está claro, porém, qual grupo atacou – diz o delegado João Paulo de Abreu.

Os outros seis feridos nos disparos contra a casa noturna não tinham antecedentes criminais. Dois deles estariam com Zoio no momento dos tiros.

No intervalo de uma semana, este foi o terceiro ataque a bala contra aglomerações de pessoas promovido por grupos em guerra pelo tráfico. No último sábado, dois homens morreram no bairro Bom Jesus. Terça, um homem foi assassinado na Vila Cruzeiro, no bairro Santa Tereza.



BM nega alta de crimes no bairro


O tiroteio de ontem somou-se a episódios recorrentes de violência que assustam porto-alegrenses no bairro mais boêmio da Capital e levantam um questionamento: o que está ocorrendo com a Cidade Baixa? Para comerciantes, moradores e frequentadores do local, a insegurança está além do sentimento. É realidade. Para a Brigada Militar, “não há crise”.

– O crime mais característico é perturbação do sossego alheio. Com isso, furtos e coisas nesse sentido acabam acompanhando. Os percentuais, comparados aos do resto da Capital, estão dentro dos parâmetros – afirma o comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar, tenente- coronel Marcus Vinicius Oliveira, sem revelar estatísticas.

O funcionário de um estacionamento próximo de onde ocorreu o tiroteio ontem, discorda. O homem, que pediu para não ser identificado, foi agredido em 16 de janeiro por taxistas. Um táxi parou em frente à garagem e se negou a sair. O bate-boca transformou-se em pancadaria.

_ Tá virado nisso aí. Droga, prostituição, bagunça, ninguém quer saber de nada. Não tem segurança – afirma ele.

Um mês antes, uma mulher foi espancada por assaltantes. Uma câmera flagrou a agressão.



Volta de PMs temporários é dúvida

KARINA SGARBI* | Especial

PIRATINI NÃO CONFIRMA se irá autorizar a recontratação de 178 brigadianos com contratos vencidos

Mesmo após o governador José Ivo Sartori afirmar que a recontratação de 178 policiais militares (PMs) temporários, cujos contratos venceram na quinta-feira, teria solução “rápida”, a situação ainda não foi resolvida. Ontem, a demanda permaneceu em análise na Casa Civil sem sequer sinalização de que será atendida. Enquanto o processo tramita, os temporários, que atuavam na guarda de quartéis e presídios, terão de ser substituídos por PMs que trabalham em outras áreas. Na manhã de ontem, a Brigada Militar (BM) chegou a afirmar que o governo autorizaria a renovação, mas isso não foi confirmado pelo Piratini.

O contrato de dois anos venceu em 27 de outubro do ano passado, mas prorrogação permitiu que fosse mantido até as 23h59min de quinta­feira. Se for renovado, terá validade de um ano. Para que isso ocorra, precisa ser aprovado pelo governo. Mensalmente, os contratos temporários custam cerca de R$ 600 mil aos cofres públicos, conforme a Secretaria da Fazenda (Sefaz).

Diante da indefinição, comandos da BM em todo o Estado precisam escalar PMs do policiamento ostensivo e da área administrativa para as tarefas dos temporários excluídos. Conforme o presidente da associação de cabos e soldados da BM (Abamf), Leonel Lucas, a maior parte deles atuava em cadeias:

– Temos 178 policiais que estão sendo retirados a cada seis horas das ruas para ficar nos presídios e quartéis, suprindo a demanda que era atendida pelos temporários. É um prejuízo imenso aos PMs, que estão desempregados, e também à sociedade, com menos segurança nas ruas.

SECRETARIA FOI COMUNICADA COM ANTECEDÊNCIA, DIZ BM

O pedido de renovação foi encaminhado pouco antes do vencimento dos contratos. Por lei, após o encerramento do período de dois anos, os temporários podem atuar somente por mais um ano. A diretora interina do Departamento Administrativo da BM, tenente-coronel Cristine Rasbold, afirma que, no início de fevereiro, foi emitido aviso formal ao comando da corporação. O alerta foi comunicado à Secretaria da Segurança Pública (SSP), responsável por enviar à Casa Civil o pedido de renovação, que, por sua vez, deveria passar para aprovação da Sefaz.

– Nosso papel é lembrar o comando da BM sobre o assunto, que alerta a SSP de que o prazo irá se esgotar, e isso foi feito com antecedência, no início de fevereiro – disse Cristine.

A secretaria informou, por meio da assessoria de imprensa, que seguiu o trâmite habitual, e que encaminhou o pedido à Casa Civil ainda na quarta-feira – um dia antes do vencimento do prazo. A única justificativa dada pelo governo foi de que houve uma “questão administrativa”, sem esclarecer o que teria ocorrido.

Depois de ser analisado pela Casa Civil, que não deu previsão, o pedido deve seguir para o Grupo de Assessoramento Especial (GAE), vinculado à Sefaz. Somente após a conclusão do processo é que se terá resposta sobre a renovação ou não dos contratos.

*Colaborou Jaqueline Sordi


QUEM SÃO OS DEMITIDOS
-São recrutas egressos do serviço militar obrigatório. Assim que dispensados, eles podem atuar como policiais militares (PMs) em contratos temporários de, no máximo, dois anos, que podem ser renovados por mais um, mas apenas em funções administrativas ou fazendo a guarda de quartéis e cadeias.
-A legislação limita a 1,5 mil o número desses profissionais, que são contratos sob regime da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) ao custo de, aproximadamente, R$ 2,5 mil por mês cada.
-Em entrevista no início de janeiro, o governador José Ivo Sartori chegou a manifestar intenção de contratar mais temporários para ocupar funções administrativas e liberar PMs para o policiamento ostensivo. No mês seguinte, o secretário da Segurança Pública, Wantuir Jacini, explicou que, antes de poder contratar novos temporários, o governo precisa, por lei, chamar os 2,5 mil concursados que aguardam convocação. A BM amarga o menor efetivo em 33 anos, com déficit de 44,5%.





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

NEM O BATMAN

 CORREIO DO POVO,  23/02/2016 




OSCAR BESSI FILHO


O Batman não aguentava mais aquele povo chamando por ele, côsa e tal. Decidiu pedir ajuda. Convocou o pessoal da Liga da Justiça para uma reunião. Que reunião é bom porque reúne. Estavam lá o Superman, Aquaman, Mulher Maravilha, Ciborgue, Flash, a cambada toda. Menos o Robin, que não conseguiu remarcar a manicure.

– O Robin foi fazer as unhas, é? Humm. – Aquaman gostava de botar uma água na fervura.

– O que é que tem, Aqua?

– Nada, nada.

– Preconceito numa hora dessas? Não somos mais quadrinhos dos anos 50.

– Ih. Entendeu errado. Só quero que tome cuidado, Batman.

– Por quê?

– Olha a Fabíola…

O homem morcego ficou pensativo. Mas não estava ali para discutir relação.

– Ouçam isto. – ele falou, e acionou o celular. Fez-se silêncio na sala de justiça para ouvir a gravação. O Flash pensou que era mais uma delação premiada qualquer, mas não. Eram tiros. Tiros e mais tiros.

– O que é isso? Mercenários 4?

– Good morning Vietnã?

– Tá gravando filme no cinema, Batman? É crime!

– Porto Alegre.

– Hein?

– E não é filme. É vida real.

Desconforto. Ouviram os relatos de Batman sobre a capital gaúcha e seus homicídios, guerra do tráfico, roubo de carros, etc. E nada de chamarem mais policiais pra enfrentar os bandidos. E nada de ensinar as crianças que o crime não compensa. “Não dá pra deixar essa pros Vingadores?”, murmurou a Mulher Maravilha.

– Não dá. Os porto-alegrenses me chamam toda hora. Dizem que sou o único “capa-preta” em que eles levam fé.

– Ah.

– Mas não dá, tá demais, preciso da ajuda de vocês.

Depois de muito resmungo e muxoxo, concordaram. Não seria fácil. Porto Alegre não é Gotham City, Batman. Sabe o que é isso?

– Sei. Por isso, agora vou ligar o nosso super mega ultra hiper master detector de criminosos.

– Quê?

– Comprei no Mercado Livre. Liga aqui, ó, e aparece a lista com a foto e o endereço dos caras que mais cometem crimes contra seu povo. Com o covil dos principais malfeitores nas mãos, prendemos os caras antes mesmo que eles saibam o que está acontecendo. E salvaremos a cidade.

– Boa!

– Boa! Boa!

Batman apertou o botão “power” do aparelho. Que em seguida começou a projetar na parede fotografias e endereços.

– Mas Batman, esses aí…

– Esses lugares…

– Essa…

– Ihh…

– Psst! – fez Batman. E pegou o celular, apressado.

– O que vai fazer?

– Ligar pro 190. – ele suspirou. – É só o que dá pra fazer.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

NÓS, OS VIOLENTOS...



ZERO HORA 21 de fevereiro de 2016 | N° 18452


FLÁVIO TAVARES*


A violência se expande num ritmo tão assustador, que o latrocínio se incorporou ao cotidiano. Já não nos surpreendemos com o tiro que mata para roubar o telefone celular, o carro ou a bolsa. Nem com o disparo contra quem já entregou tudo ao assaltante e espera, pelo menos, que lhe poupem a vida.

Não esmiuçarei detalhes. O fundamental é buscar soluções sem preconceitos, cada um de nós assumindo responsabilidades. Só assim sairemos desse labirinto que a débil condição humana construiu em condomínio com a exibicionista sociedade de consumo.

Deixo de lado a violência das guerras, dos ódios religiosos e políticos. Ou a fúria das torcidas no futebol, pois as paixões são inexplicáveis. Limito-me ao medo e terror nas cidades em tempos de paz. Ou no campo, onde o velho abigeato viceja à ponta de pistola.

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Pouco adianta pensar apenas em “mais policiamento”. No ritmo em que as coisas vão (além dos marginais “de baixo” e dos graúdos “de cima”, até “astros” do futebol, como Neymar, respondem por fraude), precisaríamos de um brigadiano para vigiar cada pessoa, num imenso Estado policial que Hitler invejaria. E, logo, o insolúvel: como vigiar a polícia?

A violência não cai das nuvens. Nasce da deseducação e da vulgaridade, da vida miserável, prenhe de ignorância e sordidez, alimentada pela mentira e estimulada pela fantasia da cobiça. Nasce do desamor em que tudo isso desemboca e (como o Aedes aegypti) se transmite pelo individualismo que ignora a convivência solidária, ou a ética, e desconhece todo princípio moral.

Observem: tudo é violento e conduz à violência. O tum-tum-tum da pseudomúsica é embrutecedor, as letras vulgares e furiosas tratam a beleza do amor e do erotismo como cloaca. Nos desenhos da TV ou DVDs, a maldade surge como algo “natural” e passa à mentalidade infantil até quando a bondade triunfa. Nos videojogos (ditos “games”, em inglês), tudo é disputa em torno do mata-mata ou do enganar e levar vantagem.

A criança que “mata” no videogame, por acaso – ao crescer –, não toma o “matar” como normalidade?

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Pobres ou ricos, somos induzidos a estraçalhar ao outro (e a nós também) em cega competição. Na ânsia de “ganhar mais” para “ter mais e comprar mais”, empresários e empregados se expõem a sacrificadas condições de trabalho. A emulação seria benéfica (como na ciência) se criasse algo novo e melhor para a vida, mas isto importa pouco no cotidiano regado a cifrões.

Lembram-se das velhas churrascadas “regadas a cachaça, vinho e chope”, em que, após empanturrar-se, as pessoas vomitavam?

Hoje, nos empanturramos com o vulgar e o grosseiro, abrindo portas para a violência mandar e desmandar. Ser educado, atento, profundo e solidário é ser “careta” e ultrapassado.

A disputa tola virou “novo deus” e ajuda a entender o êxito de vulgaridades como o Big Brother Brasil na melhor rede televisiva do país. Para ver além do vulgar explícito, milhões de pessoas pagam para bisbilhotar grosseiras intimidades.

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Antes, os princípios religiosos se sobrepunham ao vulgar (ou o inibiam) e a violência tinha limites. Havia crime e criminosos, mas sem amparar-se em credo religioso algum. Cristãos, israelitas, budistas, islamitas ou quem mais fosse não venderiam a mentira em nome de Deus.

Hoje, “novas igrejas” armam “milagres” pela TV, a Bíblia é utensílio à venda no varejo e Cristo vira fonte de lucro. Sem piedade, entronizam a mentira na boa-fé dos fiéis e, ao mentir, desfazem os preceitos morais.

Os partidos não têm doutrina, os políticos não têm partidos, só interesses. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é o modelo dessa desolação: apresenta-se como “religioso evangélico” e, até na internet, usa Jesus Cristo como escudo na milionária corrupção de que é acusado.

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A lei é benigna com o crime. E a Justiça se enreda em leis feitas por parlamentares ignorantes (palhaços, futebolistas, demagogos e outros) abrindo espaço ao crime maior – o narcotráfico e a droga.

Combateremos a violência sem combater a vulgaridade? Ou seremos violentos, todos nós?

*Jornalista e escritor

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O PRENDE E SOLTA



ZERO HORA 15 de fevereiro de 2016 | N° 18446



EDITORIAIS





A substituição na chefia de Polícia Civil do Estado, na semana passada, trouxe à tona um antigo debate sobre a responsabilidade pela soltura de criminosos que voltam a praticar crimes depois de já terem sido reiteradamente presos. Coube ao ex-chefe de Polícia Guilherme Wondracek exprimir um pensamento consagrado na corporação a que pertence e que pode ser resumido pelo bordão “a polícia prende e a Justiça solta”. Imediatamente, setores do Judiciário reagiram, por nota oficial e também pela manifestação do presidente da Ajuris, Gilberto Schäfer, que devolveu a insinuação, lembrando que os magistrados dependem de um trabalho mais eficiente da polícia, incluindo boas investigações, e que não se pode desconsiderar as carências da estrutura prisional, pois sequer existem casas para abrigar os beneficiados pelo regime de progressão. O juiz, explicou, limita-se a cumprir a lei.

Equivocam-se as autoridades quando entram nesse jogo de empurra. Os cidadãos sabem que a polícia está carente de pessoal, que a Justiça segue estritamente a legislação e que os presídios estão superlotados. Mas sabem também que pagam impostos para sustentar uma estrutura de Estado que lhes deve, no mínimo, proteção. Então, é obrigação de governantes, juízes e policiais buscar soluções para os problemas, e não utilizá-los como pretexto para a ineficiência.

O chamado prende e solta é uma realidade insofismável. Criminosos com várias passagens pela polícia estão livres e praticando delitos. Como fazer para impedir esse descalabro? Essa resposta cabe às autoridades, sejam elas políticos, magistrados ou delegados. De preferência, que venha uma resposta coletiva, harmônica e voltada para o interesse público.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

ELES TAMBÉM SÃO VÍTIMAS



ZERO HORA 14 de fevereiro de 2016 | N° 18445


JULIANA BUBLITZ


CRISE NA SEGURANÇA


DIARIAMENTE TENTANDO FREAR A epidemia de violência que se espalha pelas ruas, agentes da segurança pública têm momentos de descanso. Nestas horas, quando a profissão deveria ficar de lado, muitos acabam se tornando alvo dos bandidos


A violência que se alastra pelo Rio Grande do Sul não faz distinções. Sem farda ou uniforme, quando estão de folga, policiais civis, militares e agentes penitenciários também são alvo do crime. Tornam-se, eles próprios, vítimas da epidemia que tentam conter.

Nesta reportagem, ZH retrata os casos de quatro profissionais experientes, acostumados a atuar em situações de conflito, que acabaram na mira de ladrões quando menos esperavam, bem longe das delegacias, dos batalhões e das cadeias.

Dois deles reagiram e não sofreram ferimentos graves, mas poderia ter sido pior. No último dia 23, um colega das vítimas retratadas nestas páginas, o sargento Arilson Silveira dos Santos, tentou impedir um assalto e foi morto. Embora não sejam divulgadas estatísticas oficiais, os ataques contra servidores da segurança pública fora do expediente preocupam as entidades de classe. Os casos são cada vez mais comuns.

– Os bandidos não respeitam mais ninguém, nem quando descobrem que a vítima é um policial – lamenta o presidente da Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar, Leonel Lucas, que também foi assaltado recentemente.

– É sintomático. Toda semana ouvimos novos relatos – reforça Flávio Berneira Júnior, à frente do Sindicato dos Servidores Penitenciários do RS.

ÚLTIMOS DOIS CHEFES DE POLÍCIA FORAM ATACADOS POR CRIMINOSOS

Nem o alto escalão escapa. Os últimos dois chefes da Polícia Civil, Guilherme Wondracek e Ranolfo Vieira Júnior, em momentos distintos, foram atacados por bandidos. Exonerado na quarta-feira, Wondracek chegou a admitir que evitava sair de casa à noite, sinceridade que pode ter lhe custado o cargo.

O novo titular, Emerson Wendt, estudou a cultura do medo na sua dissertação de mestrado. E reconhece que, como qualquer pessoa, policiais de folga podem ser alvo de criminosos. Ainda diz adotar medidas preventivas, mas lembra que “riscos existem em todo o mundo” e que profissionais da área estão preparados para avaliá-los.

– O policial anda armado e precisa ter cuidado extra. Sabe quando pode reagir ou não – diz Wendt, que foi furtado em Madri, no ano passado.

Entre os agentes afetados pela onda de violência, a frustração é dupla. À paisana, sentem-se vulneráveis. No trabalho, reclamam, principalmente, da falta de recursos e de efetivo. O governo reconhece o problema, mas alega que a crise financeira impede novas contratações e grandes investimentos.



“Foi uma sensação horrível, de impotência”



Sargento Ricardo Agra, 51 anos, 33 deles na Brigada Militar. Atua no Quartel General da BM em Porto Alegre“Passei por uma experiência horrível em setembro de 2015. Saí do trabalho no fim da tarde e peguei a minha esposa no serviço. Fomos de carro até uma padaria, para comprar pão antes de ir para casa. Quando paramos, dois elementos surgiram, um de cada lado do veículo.

Os dois estavam armados. Um deles apontou uma pistola para a cabeça da minha mulher e mandou ela sair. Aquilo me paralisou. Também estava armado e preparado para reagir, mas decidi não fazer nada para evitar que ela se ferisse. O assaltante foi agressivo e disse que queria a bolsa. Ela respondeu que não ia entregar, e só lembro que gritei: ‘Fica quieta!’ Por sorte, ele não atirou.

Enquanto isso, saí do carro e deixei que eles levassem o veículo. Enquanto fugiam, podia ter disparado. Algumas pessoas viram o que aconteceu e gritaram para atirar, mas havia muita gente na rua naquele horário. Tinha muita gente na parada de ônibus. Decidi não fazer nada, porque havia o risco de alguém se ferir. Foi uma sensação horrível, de impotência. E a minha mulher ficou muito traumatizada. Naquele fim de semana, ficamos praticamente trancados em casa. O carro foi recuperado no dia seguinte, graças à minha vivência no mundo policial e ao apoio de colegas, mas o trauma permanece. Os bandidos não fazem distinção entre as vítimas. Todos podem ser alvo de delinquentes, e isso só piora com a falta de investimentos na segurança pública. Com tudo o que tenho visto e com a falta de incentivo para a gente continuar trabalhando, decidi que vou me aposentar. Vou deixar a Brigada Militar em março ou abril. Cansei.”


“Achei que ia morrer”

Comissário de 51 anos, 33 deles na Polícia Civil. Atua na Delegacia de Roubo de Veículos do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic“Sofri um assalto em janeiro do ano passado na zona sul de Porto Alegre. Eram 9h20min, e me preparava para viajar para a praia com a família. Fiz tudo o que a gente orienta as pessoas a não fazerem: carreguei o carro na rua, sem observar se tinha algum estranho por perto. Me descuidei totalmente.

Minha filha já estava dentro do veículo, quando abri a porta para entrar e seguir viagem. Nesse momento, do nada, apareceu uma arma na minha testa. Estava com um pé dentro e outro fora.

Já tinha tirado a arma da cintura e estava com ela no meio das pernas. Só que, quando saquei a pistola, ela não estava bem posicionada e caiu no chão. Foi tudo muito rápido.

O assaltante disparou contra o meu peito. A bala raspou o mamilo esquerdo. Ardeu muito. Já tinha orientado minha filha sobre o que fazer se algo assim acontecesse. Ela saiu correndo, e eu, também.

O criminoso pegou minha arma e entrou no meu carro. Já estava quase dentro de casa, quando me dei conta de que a chave do veículo estava no meu bolso, e o ladrão me mandou voltar. Entreguei a chave, e ele fugiu.

Quando olhei para o meu peito, vi sangue e achei que ia morrer. Foi sorte não ter acontecido nada mais grave. Sete dias depois, o sujeito foi capturado e acabou sendo condenado a oito anos de prisão.

Hoje, cada vez que alguém aparece do lado do meu carro, está na mira da minha arma. Não consigo mais ficar tranquilo. Se nós estamos à mercê da criminalidade, imagina o cidadão comum.”



“No momento de folga, estava diante da morte“


Agente penitenciária de 44 anos, 13 deles na Superintendência dos Serviços Penitenciários. Atua em diferentes presídios do Estado“Estava voltando pra casa a pé, com meu filho e a namorada, quando dois homens, um de boné e um de capuz, chegaram por trás gritando ‘entrega tudo’. Quando me virei, tinha um revólver apontado para a minha cabeça. Vi o pavor nos olhos do meu filho. Qualquer reação minha poderia implicar fatalmente o fim das nossas vidas. E ali, no meu momento de folga, de um trabalho que nos suga até a alma, estava diante da morte.

A sensação de impotência é cruel. Acho que qualquer pessoa que sofre situação de violência sente isso. Mas, para nós, que representamos a segurança do Estado, é bem pior. Porque, apesar de tudo, somos um ‘símbolo’. Ouvi muitas vezes de meus familiares e vizinhos: ‘Nossa, até vocês estão sendo assaltados! Estamos perdidos mesmo!’ Como se a violência pudesse atingir a todos, mas quando nos atinge, simbolicamente, está se dizendo à população que o jogo está perdido.

E estamos perdendo feio mesmo. Daí a gente vai trabalhar e lá depara com a falta de tudo. Principalmente com a falta de efetivo, pela ineficiência de todo esse sistema cada vez mais falido. Saímos vivos. Quantos já morreram nestes últimos tempos vítimas desta violência desenfreada? Quantos ainda precisarão morrer até que o governo reconheça a sua responsabilidade nisso tudo? Não tem como haver segurança sem policiamento. Não tem como investigar os crimes sem a Polícia Civil. Não existe possibilidade de ressocialização e controle da massa carcerária sem agentes penitenciários.”



“A criminalidade está em todo lugar”


Escrivão de 45 anos, seis deles na Polícia Civil. Atua na Delegacia de Capturas do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic“Fui alvo de dois assaltos quando estava fora do expediente. O primeiro foi em 2013. Estava chegando em casa e fui abordado por dois jovens bem vestidos, pedindo informações. Quando fui ajudar, me calçaram. Começaram a mexer nos meus bolsos, acharam a minha algema e ficaram nervosos. Então tentei distrair os dois e gritei: ‘Olha ali, tem uma criança no carro, deixa eu tirar!’ Quando olharam, reagi. Trocamos dois tiros (na foto, policial mostra as cápsulas deflagradas). Eles fugiram e ninguém se feriu.

O segundo episódio foi na noite de 5 de janeiro deste ano. Tinha ido ao supermercado com a minha mulher. Quando chegamos em casa, vi um Gol com vidros escuros, andando devagar. Minha mulher entrou em casa, e já fiquei com a arma na mão. O Gol passou por mim e parou. Dois homens vieram correndo, anunciando o assalto. Um deles estava armado. Só depois descobri que era arma de brinquedo. Abri a porta do carro e gritei: ‘Polícia!’. Dei dois tiros. Eles saíram correndo, e o Gol arrancou. Disparei nos pneus. Consegui prender um dos ladrões. Ele contou onde os outros moravam. Liguei para colegas das delegacias de Capturas e de Roubos, e vieram me ajudar. Resultado: três suspeitos acabaram presos e dois menores, apreendidos. Na casa de um deles, encontramos o Gol usado no assalto e quatro veículos, dois roubados e dois clonados. Deu tudo certo, mas a criminalidade está em todo lugar. Não está imune quem é policial. Temos de estar cada vez mais atentos.”

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A TRAGÉDIA DE NÃO SENTIR PENA



A flacidez da lei está produzindo terríveis distorções no Brasil

Por: David Coimbra
ZERO HORA 13/02/2016 - 04h02min



É feio, é vergonhoso, mas, confesso, não fiquei com pena daquele homem que apanhou e teve sua casa queimada, em Capão da Canoa. Tenho visto cenas de bandidos sendo agredidos na internet. Não aprovo, não gosto, algumas me dão náusea. Mas, desta vez, o que me veio foi indiferença. Não senti júbilo, é verdade, mas também não senti consternação. Ele é acusado de ter estuprado e espancado uma menininha de cinco anos de idade...

O crime é terrível. Mas também é terrível eu não experimentar nenhuma compaixão por ele. Pior: não me sinto mal por isso. Porque a culpa desta minha insensibilidade não é minha. A culpa é dos deputados e senadores do Brasil. Foram eles que elaboraram uma legislação que, nesta semana, o novo chefe de polícia do Rio Grande do Sul definiu, com propriedade, como "flácida".

A culpa também é dos maus governos que tivemos nos últimos anos, que nada fizeram para reformar o Código Penal, sobretudo do governo Lula, que reunia as melhores condições para promover as mudanças de que o Brasil precisava, mas que só trabalhou pelo seu projeto de poder.

Somos todos vítimas dessa lei flácida, todos: os brasileiros com medo, a menina violada, os que bateram no bandido e inclusive o bandido agredido. Porque, se há Justiça, não há justiçamento. Ele é um monstro, sim, mas é também um doente. Teria de ser tratado como tal.

O drama da segurança pública é o maior drama do Brasil. Acredite: não é a educação, não é a saúde. É a segurança pública. Costumo dizer que no Brasil, hoje, a construção de novos presídios é mais importante do que a construção de novas universidades.

E é.

Está tudo errado na segurança pública, e não por coincidência. A segurança pública foi abandonada de caso pensado, no Brasil. Tornou-se questão ideológica. A ditadura militar ficou muito identificada com questões de segurança. Nada mais natural: tratava-se de um regime "militar".

Lembro do famoso discurso de Ulysses Guimarães, ao aprovar a Constituição de 1988:

– Nós temos ódio à ditadura. Ódio e nojo!

Esse ódio e esse nojo se transferiram para tudo que fosse vagamente associado à ditadura. E qual, dentre todos os instrumentos utilizados pela sociedade, era o mais associado à ditadura? Pense na frase pichada clandestinamente nos muros do Brasil, nos anos 1960 e 1980:

"Abaixo a repressão!"

O brasileiro tinha ódio à repressão. Ódio e nojo.

Bem. Qual é o aparelho repressor do Estado?

A polícia.

O brasileiro passou a relacionar polícia com ditadura e a confundir autoridade com autoritarismo.

As polícias foram desvalorizadas. O policial ganha pouco e não conta com o respeito de grande parte da população. Seu trabalho é frustrante, ele prende o bandido hoje e o encontra na rua amanhã. In extremis, decide fazer a justiça que foi feita com o estuprador de Capão: ele é duro, já que a lei é flácida.

Aí ceva-se outra distorção: o policial acostumado a usar a força como punição compensatória, não como ferramenta legal de repressão, corre o risco de cometer crime, em vez promover a correção de injustiças. Tragédia idêntica se dá com o cidadão que lincha o ladrão ou que toca fogo na casa do tarado.

Ao mesmo tempo, como a segurança é considerada "de direita" e um instrumento de autoritarismo, ninguém se importa com quem prende nem com o que é feito com quem é preso. Os presídios são masmorras infectas. Estão lotados, não há mais vaga nem para molestadores de crianças.

Difícil ser pior. Por isso tudo, a cena do estuprador com o rosto inchado não me comoveu. É triste dizer isso. Mas é verdadeiro. A lei flácida está nos brutalizando.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

GOLPE NO NOVO CANGAÇO



ZERO HORA 09 de fevereiro de 2016 | N° 18440


HUMBERTO TREZZI



Deu tudo certo na operação do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e agentes da Polícia Civil de Soledade contra a quadrilha desmantelada no norte do Estado. É o maior golpe já efetuado, em uma só ação, contra adeptos do Novo Cangaço – tipo de assalto a banco realizado por bandidos que, como os antigos cangaceiros, atacam policiais, dominam pequenas cidades, fazem reféns e explodem alvos.

O Novo Cangaço é uma praga que se alastrou sobretudo em regiões do Nordeste (como Maranhão e Piauí) e Centro-Oeste (Mato Grosso), mas encontra seguidores no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Algumas quadrilhas, aliás, englobam gaúchos e catarinenses. A fórmula é conhecida: buscam localidades que possuem escasso policiamento e uma ou duas agências bancárias. Muitas vezes o assalto é múltiplo, envolve dois bancos ao mesmo tempo.

É nisso que estava especializado o grupo desarticulado domingo. Luciano Bishoff Comper, o Peru, é apontado como o sujeito que compra dinamite usada pelo bando. Já Leandro Borchartt é envolvido na quadrilha de Seco (José Carlos dos Santos), preso há nove anos e celebrizado por usar caminhões e explosivos no ataque a blindados.

Não foi um ato casual da Polícia Civil e, sim, resultado de meses de paciente rastreamento dos bandidos, tanto os foragidos quanto os que cumpriam pena (à moda brasileira, aquele semiaberto que ninguém fiscaliza). Foi uma ação sem erro – tanto que o bandido morto em confronto, Ronaldo Mack, era condenado, foragido e respondia a cinco inquéritos por assaltos. Hora de reconhecer o esforço policial. Só assim, com trabalho de inteligência, para driblar a escassez constante de efetivo.



NO SEMIABERTO, VINTE ATAQUES A BANCOS NO CURRÍCULO E 112 ANOS DE CONDENAÇÕES




ZERO HORA 09 de fevereiro de 2016 | N° 18440


EDUARDO TORRES

Vinte ataques a banco no currículo


CINCO PRESOS NO NORTE DO RS somam 112 anos de condenações. Quase todos deveriam estar na cadeia, mas semiaberto os beneficiou


A quadrilha de ladrões de bancos presa na madrugada do último domingo, em uma ação da Polícia Civil no norte do Estado, reunia um grupo de especialistas. A eles, o Deic atribui pelo menos 20 ataques a bancos com explosões entre Região Metropolitana, Serra e Norte em apenas um ano. Além de pelo menos um ataque a carro-forte.

– Já sabíamos que era a principal quadrilha atuando nos assaltos a bancos. Agora temos a certeza de que era também a mais especializada – afirma o delegado Joel Wagner, que comandou a investigação pela Delegacia de Roubos, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).

Ontem, a polícia revelou quem eram os comparsas de Ronaldo Bandeira Mack, 39 anos – morto no tiroteio –, e que acabaram presos no sítio ocupado pelo bando em Mormaço. O grupo era formado por criminosos da Região Metropolitana, todos com extenso histórico no crime e, pelo menos cinco deles ainda cumpriam penas que, somadas, dariam 112 anos de condenações. Poderiam estar na cadeia, mas foram beneficiados com progressões de regime.

A começar pelo suposto líder, Mack. Com condenações até 2028, em 2014 ele conquistou o direito de progredir para o semiaberto, mas desde janeiro do ano passado estava foragido. Natural de Esteio e com bases no crime em Canoas e no Vale do Sinos, a polícia tem a suspeita que, desde a sua volta às ruas, tenha formado a quadrilha na região.

– Já naquele momento, passamos a monitorá-lo. Era, sem dúvida, o foragido número um do Deic – aponta o delegado Wagner.

Agora, todos foram autuados em flagrante por porte ilegal de armas, munições e explosivos, receptação de carros, além de tentativa de homicídio contra os policiais e levados ao presídio de Soledade. Todos serão indiciados pelos três crimes e por roubos a bancos. Dois adolescentes, também apreendidos no sítio que servia de base à quadrilha, foram encaminhados à Fase. Eles seriam olheiros.

– Resta saber quanto tempo ficarão na cadeia – comenta o chefe de polícia, delegado Guilherme Wondracek.


Apreensões de armas não frearam bando


O primeiro crime bem sucedido da quadrilha teria acontecido com a explosão de uma agência do Banco do Brasil em General Câmara, no primeiro dia de 2015. Dias depois, a Delegacia de Roubos apreendeu dois fuzis, cordéis e explosivos em Canoas. Duas mulheres que guardavam o material da quadrilha foram presas, mas os agentes não chegaram ao bando.

– Acreditávamos que dariam uma parada, mas nada disso. Foi surpreendente como essa quadrilha tem acesso fácil a armamento pesado e se reestruturou muito rapidamente – conta o delegado Joel Wagner.

Em maio do ano passado, depois de outro ataque, novamente a polícia conseguiu apreender quatro fuzis, explosivos, carros clonados e coletes à prova de balas em Nova Hartz. Naquela ocasião, o assaltante conhecido como João das Couves – considerado um dos principais assaltantes de banco do Estado – foi preso. A suspeita é de que ele também fizesse parte da organização criminosa.

Antes que os policiais chegassem à base do bando, um sítio em Mormaço, no Norte, a quadrilha teria saído, mas voltou à propriedade no começo da madrugada. A suspeita é de que algo tenha dado errado no planejado. Investigações apontavam que nas horas seguintes eles pretendiam fazer uma série de ataques a bancos na região.

Na ação de domingo, outros cinco fuzis, explosivos e coletes à prova de balas, além de dois carros clonados, foram apreendidos.



5 fuzis

Foram apreendidos com os bandidos. Sendo três .223, um AK-47 e um 7.62. Pelo menos uma das armas, um .223 de origem canadense, a polícia tem certeza que é uruguaia. O armamento ainda conservava a numeração do país vizinho. Já o 7.62 é do Exército brasileiro. Ainda é apurada a origem dos outros três equipamentos.



A SEGURANÇA PÚBLICA DEVE ESTAR EM TODOS OS LUGARES



JORNAL DO COMÉRCIO  08/02/2016



EDITORIAL






Os Territórios da Paz foram uma ideia básica muito boa para que, de maneira lenta, porém irreversível, o poder público assumisse todos os recantos das cidades, e não apenas estivesse presente, de maneira talvez até involuntária, mas cedendo às pressões, nos bairros de classe média alta ou rica. É fundamental levar os serviços de saneamento básico, escolas, postos de saúde e muito esclarecimento à periferia. É preciso que os mais pobres voltem a confiar nos serviços públicos em todas as instâncias, e não apenas nas forças policiais. No Rio de Janeiro ou em Porto Alegre.

E, como sempre, a prevenção é mais importante do que, após, a aplicação do medicamento social. Não se deve, por isso mesmo, deixar que terrenos dos governos ou particulares sejam tomados por casebres. Ali, famílias se estabelecem, acabam colocando filhos em escolas próximas, homens e mulheres conseguem empregos ou tiram o seu sustento praticando pequenos serviços e, passados 10, 15 ou talvez 20 anos, com a valorização e a vontade de efetuar a obra prevista para o local décadas atrás, aí vem a dolorosa remoção.

Aconteceu em Porto Alegre com muitas vilas, uma delas em pleno Centro da Capital e ao lado de repartições das mais relevantes. E isso quando se sabe que a maior poluição que afeta o ser humano são o subdesenvolvimento, a fome e a miséria.

Aí, em meio a vielas onde não passam carros de bombeiros, polícia ou até ambulâncias, como não abrir as portas para o domínio do tráfico, da promiscuidade e da desagregação - quando elas existem - das famílias? Pois, no Rio de Janeiro, uma chaga social, que vem desde pelo menos 30 anos, está sendo erradicada.

Porém, esse trabalho vem sendo executado - apesar das nódoas quase inevitáveis de truculência -, com a ocupação das favelas da zona Norte do Rio. A região que abrigava a maior "cracolândia" - área inteiramente dominada por traficantes e os graúdos compradores - do Rio, hoje sedia a 29ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da cidade. Trabalho ordenado, e evitando o enfrentamento - tanto que houve o anúncio da invasão antes do seu efetivo cumprimento -, a ocupação foi efetivada em apenas 20 minutos, sem disparo de nenhum tiro nem ameaça de confronto entre policiais e traficantes. Para alguns moradores, a região era a "Faixa de Gaza", comparação com uma das áreas mais violentas do Oriente Médio.

A Secretaria de Segurança do Rio não se preocupou "em fazer de um bandido um troféu". O mais importante foi devolver o território a 70 mil pessoas. Mas não basta ocupar, eis que a grande segurança social só advém da família, da escola, do posto de saúde, da moradia e, acima de tudo, do emprego e ocupação para os jovens. A prova do domínio do tráfico nestas favelas, sejam do Rio de Janeiro ou núcleos pobres de Porto Alegre, é o fato de que muitos moradores desconfiaram, no início, da presença policial.

Enfim, Porto Alegre deve seguir o exemplo. Deu gosto de ver as bandeiras Nacional e do estado do Rio de Janeiro serem hasteadas com a presença de muitas crianças. Incrivelmente, só há pouco o governo brasileiro, no amplo sentido, chegou a estas pessoas estigmatizadas, mesmo que a maioria seja composta por trabalhadores. Espera-se que para melhorar a vida delas, com ordem e progresso. É assim que se traz paz para um território. E isso o Rio Grande do Sul está precisando. E muito. Assim, urge agir, com trabalho do Estado e das prefeituras.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -Realmente, "os Territórios da Paz foram uma ideia básica muito boa" para aproximar os policiais das comunidades, mas inoperantes pelo tratamento político, partidário e eleitoreiro que foi dado a esta "ideia" que é uma estratégia policial que deveria ser planejada, gerenciada e aplicada por gestores e técnicos policiais sem vínculo de governo partidário. Também é "fundamental levar os serviços de saneamento básico, escolas, postos de saúde e muito esclarecimento à periferia", envolver a justiça e ter amparo em leis duras contra o crime, para coibir o crime e conquistar a confiança dos moradores locais no Estado, na justiça e na polícia, detalhes "esquecidos" na pacificação do Rio que permitiram o o retorno progressivo do domínio e poder do tráfico, o medo dos moradores e a rotina de enfrentamentos e mortes nas favelas ocupadas. Segurança pública não pode ser tratada como se fosse um aparato policial, pois é um DIREITO DE TODOS e dever do Estado uno e indivisível com seus poderes na consolidação do Estado Democrático de Direito, garantido pela força das leis e da justiça, sendo as polícias partes de um sistema de justiça criminal.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

UM TIME VÍTIMA DO CRIME



ZERO HORA 7 de fevereiro de 2016 | N° 18438



MARCELO KERVALT


CRISE NA SEGURANÇA


TODA SEGUNDA-FEIRA UM grupo de amigos se reúne para jogar futebol. Dos 16 que entram em campo, só um não foi vítima de bandidos



O zagueiro Alaor, do Alvará Futebol Clube, tinha acabado de capotar o carro. Ali mesmo, de cabeça para baixo, preso pelo cinto de segurança e com o carro destruído, foi furtado na Avenida Nilo Peçanha, em Porto Alegre. Diferente do que imaginou, as vozes masculinas que perguntaram se estava sozinho no Siena prata não queriam prestar socorro. Pelo contrário. O grupo passou a levar tudo o que estava ao alcance das mãos.

– Não sei quem eram, nem quantos eram. Não conseguia vê-los. Só ouvia as vozes – conta Alaor.

Alaor Veríssimo, 53 anos, é advogado e joga futebol todas as segundas-feiras com uma turma de amigos. O Alvará F.C., que tem esse nome em alusão à permissão que seus integrantes tiveram de suas mulheres para poder jogar semanalmente das 20h às 21h, bem que poderia se chamar Ocorrência Futebol Clube, já que apenas um dos 16 amigos que estiveram na partida da última segunda nunca sofreu algum tipo de violência.

– Não fui assaltado. Também não tive nada meu roubado e, por isso, me considero um cara de sorte – diz o goleiro e repositor de mercadoria Ita Scherer Rodrigues, 30 anos.

Entre os 16 amigos, 10 já foram assaltados – alguns, mais de uma vez –, quatro foram alvo de furto e um sofreu tentativa de furto, além de ter tido um funcionário vítima de roubo. Nesse caso, o criminoso levou o carro da sua empresa quando o empregado chegava no estabelecimento.

Todos os crimes foram cometidos em Porto Alegre, cidade que registrou somente nos primeiros nove meses de 2015 nada menos que 22,4 mil assaltos em geral, 6,9 mil roubos de veículos, 24 mil furtos e 3,1 mil furtos de veículos, conforme dados recentes divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP). Embora tenham sofrido ataques à mão armada, alguns dos atletas de segunda-feira nunca foram ouvidos pela polícia depois de registradas as ocorrências.

Conforme o diretor da Delegacia Regional de Porto Alegre, Cleber Ferreira, isso se deve à falta de efetivo da Polícia Civil, que prioriza casos mais graves. Ele garante que, praticamente, todas as vítimas de assalto são intimadas a prestar depoimento:

– Somos atropelados por ocorrências que chegam diariamente nas delegacias e não temos efetivo para atender a todas.



Confira, nestas páginas, as histórias de 15 vítimas do crime na Capital.

 
1 - PEDRO LOUREIRO CARDOSO ALVES, 31 anos, advogado e atacante
“Um menino me assaltou na Avenida Carlos Gomes, à tarde, quando eu voltava para casa a pé. Ele estava me seguindo com um canivete. Quando percebi, atravessei a rua e ele atravessou também. Logo na frente, me abordou e mandou entregar tudo o que tinha. Não pude fazer nada. Só entregar. No meio do ano passado, meu carro foi arrombado. Estava indo jogar bola, mas, antes, estacionei em uma travessa da (Avenida) Goethe. Não deu 20 minutos quando voltei, e o vidro do carro estava quebrado. Também no ano passado,duas pessoas entraram duas vezes na minha casa e furtaram objetos como cortador de grama, rádio, algumas coisas que estavam em cima da mesa e até umas cervejas. Depois disso, dobramos o número de câmeras, arrumamos a cerca elétrica e aumentamos o muro.”

2 - VINICIUS DE BARROS NEVES, 33 anos, advogado e atacante

“Faz uns dois anos, mais ou menos, que saí de casa para ir a um barzinho na Cidade Baixa e tive meu carro arrombado. Era início da noite e fiquei umas duas horas longe do veículo. Deixei o carro em uma rua ali no bairro, não lembro o nome, e, quando voltei, o vidro estava quebrado e tinham levado rádio, estepe e um óculos. Tentaram abrir a porta, mas não conseguiram. A sensação que fica é de frustração total. Tu deixas o teu bem e quando retornas, a expectativa é de encontrar ele nas mesmas condições. Não é por estar estacionado na rua que precisa ser danificado, arrombado, estragado. Agora, procuro evitar ruas pouco movimentadas e escolho as que têm mais claridade, pessoas na rua, prédios...”

3 - CLÓVIS MORAES DE ALMEIDA, 55 anos, porteiro e zagueiro

“Não lembro precisamente quando foi, mas era um sábado, por volta de meio-dia. Estacionei o carro na Avenida Sepúlveda, no Centro Histórico, e fui fazer algumas compras com minha mulher. Na época, era permitido deixar o carro ali. Quando retornamos, uma hora e meia depois, a Parati não estava mais lá. A Brigada Militar a encontrou no domingo à noite em Viamão, mas as rodas não eram as mesmas de antes, não tinha mais rádio... Foi um choque quando percebi que tinha sido roubado. Sou uma pessoa trabalhadora, que precisa suar para conseguir as coisas e, assim, do nada, acontece isso. É revoltante.”

4 - ALEX RAMOS DE FREITAS, 53 anos, comerciante, atacante e zagueiro
“Sofri um assalto à mão armada há um ano. Eu e um amigo estávamos saindo de um escritório da Avenida Pernambuco, eram umas 16h. Iríamos entrar cada um no seu carro, que estavam estacionados um atrás do outro, quando dois jovens encostaram as armas na gente, uma em cada um e disseram para entregarmos os carros. Deixamos eles levarem. Registramos ocorrência na polícia, mas nenhum dos carros foi encontrado. Meu amigo ficou sabendo que o carro dele foi utilizado para roubo a banco e outros crimes.”

5 - CLAITON CAMILLO PEREIRA, 32 anos, motorista, goleiro ou atacante

“A única vez que fui assaltado faz uns 15 anos, quando roubaram umas fichas de ônibus que eu recém tinha comprado. Foi até engraçado, porque eu disse: ‘como vou voltar para casa agora?’ E eles me devolveram uma ficha.Mas a minha sogra e a minha esposa foram assaltadas por dois motoqueiros no bairro Santo Antônio. Um estava armado e levou as bolsas delas e tudo o que tinha dentro. Isso faz quase um ano. Eram umas 20h. Eu vejo tanta coisa acontecendo por aí, tanta violência, que eu ando sempre ligado. Não descanso quando estou na rua. Fico atento a qualquer movimento suspeito. E acredito que eu tenha sorte. Afinal, hoje em dia pra não ser assaltado é preciso de sorte.”

6 - ALAOR VERÍSSIMO, 53 anos, advogado e zagueiro
“Capotei o veículo na Avenida Nilo Peçanha, perto da meia-noite. Não lembro exatamente a data. Esse tipo de situação,como é muito desagradável,procuro tentar esquecer. Mas quando estava ali, dentro do carro, de cabeça para baixo e preso pelo cinto de segurança, ouvi vozes masculinas. Perguntaram se estava sozinho. Disse que sim. Até pensei que fossem me socorrer. Mas, na verdade, começaram a pegar tudo o que estava ao alcance. Celular, carteira, isqueiro, minha cigarreira. Não sei quantos eram. Fiquei perplexo. Passaram alguns minutos e ouvi outras vozes. Imaginei que eles tivessem voltado, mas vi o coturno preto e percebi que dessa vez era a Brigada Militar.”

7 - CÁSSIO LUDWIG, 26 anos, engenheiro e meio-campo

“Estacionei o carro em frente à obra em que trabalho (em 7 de janeiro deste ano, no bairro Petrópolis, na Capital), desci, fechei o carro e, quando olhei para trás, vi duas pessoas suspeitas vindo em minha direção. Entrei de novo no carro para tentar fugir,mas vieram correndo com as armas nas mãos e me abordaram. Vi que era assalto e já desci. Fui para a obra e vi eles saindo. Depois de uma semana encontraram o carro em Viamão, batido. Sempre tomei cuidado. O que aconteceu foi um lapso. Estava na frente da obra, com bastante gente na rua. Pensei que estava seguro.”

8 - GAMAL FERNANDES, 52 anos, comerciante e meia-atacante

“Era fevereiro do ano passado e estava com a minha esposa em um restaurante da (Avenida) Getúlio Vargas, por volta das 22h30min, quando entraram dois caras armados e mandaram que todos deitassem no chão e olhassem para a parede. Reviraram todo o restaurante, pegaram carteiras, joias,celulares de todo mundo.Foi horrível,uma sensação de pânico, de não poder fazer nada. Depois, na Avenida Carlos Gomes, estava saindo de uma revenda de carros. Conhecia a gerente de lá. Três pessoas entraram e anunciaram o assalto. Era o único homem lá dentro, então eles me chutaram, me chamaram de vagabundo. Levaram celulares, carteiras, relógios. Limparam a loja e fugiram a pé.”

9 - MAXIMILIANO JOSÉ LUDWIG, 39 anos, empresário e atacante
“Estava chegando na minha residência, no bairro Santo Antônio, e abri os dois portões automáticos. Um é da rua e o outro da garagem. Quando os dois estavam fechando, vi que um cara veio rolando por baixo deles. Eram umas 20h30min. O cara ficou preso na garagem comigo, e não sabia o que fazer. Não sabia o que se passava na cabeça dele, se queria meu carro, se queria assaltar a casa. Apontando o revólver, me disse que queria levar o Focus. Me afastei, mas ele se atrapalhou todo com o controle do portão da garagem. Não conseguia abrir e pediu ajuda. Abri para ele. Na rua, se atrapalhou com o outro portão. Meu pai, que mora do lado, viu toda a movimentação e saiu para rua. O bandido deu marcha a ré arrebentou tudo e fugiu com comparsas que o esperavam. Recuperei o carro quase um mês depois, abandonado no Centro, mas estava com rodas e pneus diferentes e sem estepe.”

10 - SANDRO SILVA, 53 anos, empresário e meio-campo

“Moro em um condomínio fechado da Zona Sul. Temos vigilância 24 horas, ronda, câmeras de segurança, muro, cerca elétrica e, mesmo assim, há mais ou menos um ano, dois ou três elementos entraram em algumas residências. Era madrugada de sábado e estava todo mundo dormindo. Como é um local aparentemente seguro, muitas casas não têm muros. Alguns moradores nem chaveiam as portas. Eles (bandidos) levaram celulares, carteiras e outros pertences. Tentaram entrar na minha casa, mas não conseguiram. Estávamos eu e minha mulher. Não vimos nada, mas acho que nosso cachorro (que fica dentro de casa) começou a latir e, como estava tudo trancado, eles desistiram. Só vimos no outro dia as marcas no muro perto da piscina e na área de casa. Chamamos a polícia, registramos a ocorrência, mas nada foi descoberto. Também não foram recuperados os objetos.”

11 - CLÁUDIO CEDENIR DA SILVA ALVES, 41 anos, consultor comercial e zagueiro

“Estava parado, com as portas destravadas, em uma sinaleira da Rua Marquês do Pombal. Tinha saído de um jogo do Grêmio, em 2008, era entre 23h30min e meia-noite. De repente, um rapaz entrou no banco de trás e me calçou com um revólver. Pensei que iria levar o carro, mas pediu as minhas coisas. O que tinha no bolso, foi tudo. Telefone, dinheiro, carteira. Outra vez, em Farroupilha (na Serra), deixei o carro estacionado e alguém entrou nele e fez a limpa: levaram o rádio e tudo o que estava dentro.”

MARCO ANTÔNIO RIBEIRO, 50 anos, representante comercial e centroavante
“Tive dois carros arrombados. Uma vez estacionei na Avenida Benjamim Constant, na Capital, e, quando voltei, um vidro estava quebrado e levaram o rádio. Outra vez, a mesma coisa, só que em Imbé. Estava saindo da praia e quando cheguei deparei com o vidro do carro quebrado. Furtaram o rádio. A sensação é de descontentamento com o prejuízo. Mas tem de seguir, né? Vida nova, vidro novo e rádio novo. Há dois meses, foi a vez do meu filho ser alvo de bandidos.”

ALEXEI SUSIN, 47 anos, engenheiro civil e meio-campista

“Estava chegando em casa sozinho, no Jardim Medianeira, na Capital, e fui assaltado às 17h de um domingo. Duas pessoas em um carro roubado estacionaram atrás e mandaram descer. Pelo menos uma estava armada. Disseram para eu encostar no muro e foram pegando carteira, celular, relógio. Até meus tênis levaram. Andaram com meu carro. Estava chegando de uma viagem a Gramado, e o carro estava carregado. O porta- malas estava cheio de malas com roupas. O que puderam, levaram.”

FERNANDO MARQUES MENEZES, 46 anos, empresário e centroavante

“Fui para a praia no Carnaval do ano passado aproveitar o feriadão. Fechei a empresa (na Capital) na sexta-feira e retornaria só na quarta para trabalhar, mas voltei de Imbé no sábado. Durante a madrugada, a empresa foi arrombada. Levaram computadores, televisores e notebooks. Na época, não tinha grade, apenas alarme. Depois disso, colocamos grades e cerca elétrica em toda a empresa e investimos em segurança privada.”

CRISTIAN DUARTE DA SILVA, 22 anos, promotor de vendas e goleiro

“Estava correndo na (Avenida) Ipiranga, quase em frente à PUC, quando um homem armado me abordou dizendo que era um assalto. Eu disse para ele: ‘Cara, não tenho nada, só a chave de casa.’ Ele atravessou a rua e saiu correndo. Isso foi há quase um ano, umas 21h. A gente convive com a violência diariamente e não há o que se possa fazer.”


O CÚMULO DO ABSURDO




Algo não vai bem quando criminosos armados de fuzis, metralhadoras e pistolas trocam tiros à luz do dia, em plena rua

Por: Humberto Trezzi
ZERO HORA 06/02/2016 - 10h19min



E chegou a vez de Porto Alegre vivenciar o cúmulo do absurdo, em termos de criminalidade. Como se estivessem nas ruas de Homs ou Aleppo, na Síria, sujeitos armados de fuzis, metralhadoras e pistolas trocaram tiros à luz do dia, em plena rua, correndo entre prédios e se emboscando. Cena de filme trash, só que não.

E não era uma rua qualquer. É um dos cartões-postais de Porto Alegre, um tanto degradado nos tempos atuais, mas ainda assim um símbolo: o alto do Morro Santa Tereza. Um lugar que sempre foi valorizado por permitir aos moradores e visitantes assistir, do alto, ao tão decantado pôr do sol no Guaíba. Quando cheguei à Capital, em 1980, ainda era comum junção de carros com namorados ali, para olharem a romântica paisagem.

Pois a guerra que opõe há meses facções criminais abrigadas no Presídio Central transbordou para as ruas e virou conflito sem quartel. A maior parte dos combates é travada na Vila Jardim, na Bom Jesus, na Conceição, na Vila Farrapos, no Santa Tereza. Mas como emboscada não tem hora e local para acontecer, soldados e líderes do crime têm sido mortos muito longe dos seus bunker. Tempos atrás foi no cruzamento das avenidas Farrapos e Cristóvão Colombo, dentro de um ônibus, pela manhã. Dias atrás, na Avenida Borges de Medeiros, também num coletivo. Sexta-feira, em frente aos prédios que concentram a maior parte das TVs e rádios de Porto Alegre.

Sei que as vilas vivem há muito essa violência que agora começa a ser constante nas áreas centrais. Mas, convenhamos, algo de muito errado acontece quando criminosos decidem que qualquer lugar serve para seus acertos de contas. Foi assim em Chicago, nos anos 1930. Foi assim no Rio de Janeiro, até os anos 2000. Será que vão parar quando o tiroteio for em frente à Assembleia, ao Palácio do Governo, à sede da BM? Ou nem assim?


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O que esperar numa nação abandonada pelas leis, pela  justiça e pelos governantes? Os EUA só encontraram soluções contra a violência quando a sociedade organizada reagiu contra a impunidade patrocinada por leis permissivas, pela justiça leniente, pelas autoridades corruptas e pelos governantes omissos e tolerantes ao crime. Eles vislumbraram que punindo com rigor os pequenos crimes podiam coibir os crimes maiores, e punindo com rigor máximo o crime capital poderiam inibir os crimes contra a vida.

OS DANOS DA INSEGURANÇA



ZERO HORA 06 de fevereiro de 2016 | N° 18437


EDITORIAIS




O fechamento temporário do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e as restrições impostas ao funcionamento de outros espaços culturais da área central de Porto Alegre, como a Casa de Cultura Mario Quintana e o Memorial do Rio Grande do Sul, são indicativos do quanto a insegurança está afetando a qualidade de vida dos gaúchos. De acordo com os diretores dessas instituições, o atraso no repasse de recursos por parte do governo está fazendo com que as empresas prestadoras de serviços reduzam o efetivo de vigilância. Sem garantia de segurança, as direções dessas casas estão preferindo restringir o acesso de público, até para que as pessoas não corram riscos.

Acuados pela violência, os gaúchos já evitam sair de casa para frequentar espaços públicos abertos, como praças e parques. Agora, também os centros culturais mantidos pelo poder público começam a restringir a presença de visitantes, por medo da criminalidade. A continuar neste ritmo, em breve estará concretizada a profecia catastrófica da reclusão dos cidadãos decentes atrás das grades de suas residências enquanto os criminosos circulam livremente pelas ruas.

Como a crise financeira do Estado não terá solução a curto prazo, cabe aos gestores públicos encontrar alternativas para o funcionamento desses espaços culturais, com segurança e sem restrições de qualquer espécie. Os cidadãos pagam impostos para receber da administração e dos servidores uma contrapartida que lhes está sendo sonegada.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - A REALIDADE É DE TERROR, ESTRESSE, INDIGNAÇÃO, IMPOTÊNCIA E RETRABALHO POLICIAL. A população está acuada diante da perda de direitos individuais e coletivos. Perdeu-se o direito à liberdade de ir e vir, à viver com qualidade e felicidade, à ostentar o patrimônio, à praticar um lazer e à ter justiça, ordem  e segurança, para criminosos favorecidos pela permissividade de  leis obscuras, por uma justiça tardia e leniente, pelas punições brandas, pelo enfraquecimento da autoridade e do poder de polícia, e pela irresponsabilidade na execução penal continuada e sem apuração que vem servindo de argumento para manter a impunidade do crime.

O pior é que NÃO há nos poderes constituídos e nas lideranças a vontade de mudar esta realidade, mas apenas medidas pontuais, promessas nunca cumpridas, discursos ilusórios, argumentos falaciosos, omissão, jogo de empurra, fuga de obrigações, segregação, discriminação, desarmonia e interesses corporativos políticos e judiciais submetendo a finalidade, a eficiência, a moralidade, a economicidade e o interesse público.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

SOBRE A VIOLËNCIA


JORNAL DO COMÉRCIO 03/02/2016.


Fabiana Alves Pereira




O que reivindicam, afinal? Violência, desrespeito humano, descaso com a vida e com os valores são questões que permeiam nosso dia a dia. Diariamente me sinto exposta e atingida diretamente a estas situações; pode ocorrer com qualquer um de nós. Não se trata mais de um caso isolado ou restrito. Tivemos que conviver e digerir fatos e acontecimentos que chocam pela violência física e moral. Mas não podemos deixar de registrar as pequenas ocorrências cotidianas, que por serem já tão corriqueiras, já não são mais noticiadas.

Estamos perdendo nossos referenciais, nossos valores. Não precisou muito tempo e estamos de novo atingidos e convocados a pensar a selvageria de alguns taxistas contra o motorista do Uber. Reivindicam o que afinal essas pessoas? Nada justifica tamanha intolerância e atos violentos. Fui vítima de uma violência no trânsito. Estava eu parada num sinaleira quando uma caminhonete passou em alta velocidade pela minha esquerda e arrancou meu retrovisor. O motorista viu que bateu no meu carro. E não era para seguir em frente, pois a sinaleira estava fechada, era apenas para assegurar um lugar à frente naquela fila onde todos esperavam a vez de seguir! Esse sujeito mexeu comigo, não só pela avaria no meu carro, mas pela avaria que me causa esse gesto. Ele sequer perguntou se eu precisava de alguma coisa, ou tentou reparar o dano. Quando viu que aproximei meu carro do dele para perguntar o que houve, baixou o vidro e me encheu de desaforos, com baixarias, dizendo que eu não tinha do que reclamar, porque afinal de contas não aconteceu nada!

Esse é o sentimento de descaso, tratar as coisas como se não tivesse acontecido nada! Sim, aconteceu, e está acontecendo muita coisa. Coisas graves, sérias, que ferem a convivência humana, que violam nossos direitos, que nos invadem e nos agridem. Excesso de razão, de pressa, de agressividade, de cobiça. Em meio a tanta intolerância, selvageria, violência e descaso humano; em meio a tantas "reivindicações", eu tenho uma especial: quero continuar tendo esperança na humanidade, nas pessoas de bem, na gentileza, no respeito.


Psicóloga

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

VALOR RELATIVO




ZERO HORA 03 de fevereiro de 2016 | N° 18434


EDITORIAIS



A Secretaria de Segurança Pública divulgou nesta semana números parciais (e convenientes para o governo) sobre a violência e a criminalidade no Estado, na tentativa de convencer a população de que a situação está melhorando. A divulgação mostra redução de homicídios dolosos e de furtos na relação com o mesmo período do ano passado, mas omite informações sobre outros delitos, como latrocínio e roubo de veículos. Ficou a impressão de que os dados oficiais obedecem à estratégia de um antigo ministro da Fazenda, que perdeu o cargo depois de deixar escapar a célebre frase: “O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”.

É um equívoco agir assim, especialmente no momento em que o governo, em meio a uma evidente crise na segurança, ensaia ações concretas para combater a criminalidade. São visíveis – e dignas de reconhecimento – operações como a intensificação de barreiras policiais nas ruas da Capital e decisões administrativas como o pagamento de horas extras para policiais durante o Carnaval. Quando o governo responde com ações concretas, a população reconhece.

Mas números incompletos só suscitam mais dúvidas. Enquanto esses números contrastarem com a realidade dos homicídios, assaltos e arrombamentos, não haverá contabilidade criativa que atenue a sensação de insegurança dos gaúchos. O que as pessoas querem ver é policiamento ostensivo inibindo os criminosos, retirada de circulação dos delinquentes e garantias de que todos podem circular livremente sem correr risco de vida.

Se isso ocorrer, o balanço estatístico certamente será favorável – e confiável.

NO CAMPO E NA CIDADE, HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA



ZERO HORA 03 de fevereiro de 2016 | N° 18434


POLÍTICA + | Rosane de Oliveira


ANA LUÍSA APELOU PELO FILHO QUE VAI NASCER

Cinco dias antes de sentir a ponta de uma faca encostada em sua barriga, a psicóloga Ana Luísa Dornel, 42 anos, recebeu a confirmação de que estava grávida do primeiro filho. Era 21 de dezembro de 2015, 13h10min de uma tarde nublada. No estacionamento do Supermercado Nacional da Assis Brasil, próximo ao Triângulo, em Porto Alegre, ela colocava as compras no porta-malas do Fox Vermelho, com placas de Dois Irmãos, quando ouviu uma voz masculina às suas costas:

– Posso ajudar?

– Não, obrigada.

O homem encostou uma faca na barriga de Ana Luísa e anunciou:

– Fica quieta, que é um assalto. Entra no carro senão te mato.

Ana Luísa pensou no bebê e obedeceu. Sentou no banco do carona e achou que era o fim. Lembrou da jovem Dóris Terra Silva, assassinada na véspera em São Francisco de Paula, por um homem que a abordara também em um supermercado. Ana Luísa pediu a Deus que não deixasse sua mãe, de 80 anos, sofrer.

O homem, que aparentava ter entre 28 e 30 anos, usava óculos escuros do tipo “gatinho”, camiseta branca e bermuda, atrapalhou-se com o câmbio automático do Fox e pediu que ela ensinasse como engatar a ré. Ana Luísa ensinou. O ladrão arrancou e prosseguiu com as ameaças:

– Se gritar, te mato. Eu te mato.

– Por favor, não faça nada comigo, que estou grávida – implorou a psicóloga.

O homem andou mais duas quadras e disse que iria deixá-la descer.

– Desça sem fazer alarde. Se gritar, te mato. Eu te mato – advertiu.

Antes de descer, ela ainda conseguiu pedir para levar dois molhos de chave, um pen drive e o cartão de entrada na Unisinos, onde faz mestrado. O ladrão consentiu. Ela fez menção de pegar no banco de trás o envelope que continha o resultado positivo do teste de gravidez e as requisições para o pré-natal, mas o bandido impediu:

– Não vai levar mais nada. Desce e não grita, senão eu te mato.

Cambaleando, Ana Luísa desceu. Esperou que ele arrancasse e saiu correndo e chorando. Duas quadras adiante, deparou com uma unidade do POE, o Pelotão de Operações Especiais da Brigada Militar, e contou que tinha sido assaltada. O sargento de plantão a acolheu, ofereceu água e um telefone para avisar a família, mas ela não conseguia lembrar o número de ninguém. Lembrou do telefone do trabalho do marido, mas tudo o que conseguiu foi pedir que ele cancelasse o cartão do banco. Intrigado, o marido ligou de volta e foi atendido pelo sargento.

Mais de um mês depois, o carro ainda não foi encontrado. Para poder trabalhar, Ana Luísa passou a vir para Porto Alegre de ônibus de Dois Irmãos. Anda sempre sobressaltada. Se um estranho lhe dirige a palavra na rua, corre. No Ano-Novo, estava no estacionamento de um supermercado na praia com o marido quando um homem se aproximou e disse alguma coisa. Ela começou a gritar e saiu correndo, certa de que era um assalto. Não era. O sujeito queria apenas usar o carrinho que o casal acabara de liberar.

– Não sei mais o que fazer. Ficar em casa não dá, preciso trabalhar. Não há lugar seguro. É o caos, um horror. Não vou a nenhum lugar que tenha estacionamento, morro de medo. Vai levar um tempo para me recuperar – desabafa.

No dia de Natal, ela perguntou à mãe:

– Onde estava meu anjo da guarda?

– Ao lado do ladrão, para ele não te esfaquear e te deixar ir – respondeu a mãe.

Com 12 semanas de gravidez, Ana Luísa espera que o anjo proteja o bebê que vai nascer em agosto. Se for menino, vai se chamar Pedro. Se for menina, Heloísa.



CINCO QUILÔMETROS

Ao lado do ex-governador petista Olívio Dutra, do secretário da Segurança, Wantuir Jacini, e da mulher, Maria Helena Sartori, o governador José Ivo Sartori caminhou ontem cerca de cinco quilômetros na procissão de Navegantes, na zona norte de Porto Alegre.

Logo depois da caminhada, entre centenas de pessoas, o grupo assistiu à missa campal presidida pelo arcebispo dom Jaime Spengler.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

APREENSÃO DE FUZIS NAS MÃOS DO CRIME BATE RECORDE NO RS



ZERO HORA 02 de fevereiro de 2016 | N° 18433


RENATO DORNELES


APREENSÃO DE FUZIS BATE RECORDE.

NÚMERO DE ARMAS PESADAS recolhidas em operações em 2015 mostra poder de quadrilhas que investem em equipamentos letais


O número de mortos se assemelha ao de uma guerra. Somente em Porto Alegre, são mais de 40 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. O índice considerado “não epidêmico” pela Organização Mundial da Saúde é de 10 mortes. As armas são, cada vez mais como as de guerra: no ano passado, em todo o Estado, foram apreendidos pela polícia 45 fuzis, um recorde. No ano anterior, haviam sido recolhidos 26, o que representa um aumento de 73%. Desde 2011, o número mais alto de apreensões fora registrado em 2013, com 37 armas.

Para o diretor do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), delegado Emerson Wendt, o recorde tem duas causas principais. A primeira delas está relacionada à sempre crescente guerra do tráfico de drogas. Para defender seus territórios e também expandi-los, as quadrilhas e facções têm buscado aumentar seu poder ofensivo. Fuzis, mesmo que não sejam usados com frequência, simbolizam poder.

– É uma forma de ameaçar e amedrontar rivais. Por isso, seguidamente, criminosos aparecem ostentando esses armamentos – explica o delegado.

A segunda causa para a apreensão recorde, de acordo com Wendt, está no reconhecimento por parte da polícia de que os bandidos se armam cada vez mais.

– Foram realizadas várias operações ao longo de 2015, que resultaram na apreensão de armas. Só pelo Denarc, foram mais de 200, e a metade delas de uso restrito, como fuzis – explicou.

Por delegacias vinculadas ao Denarc, foram apreendidos nove fuzis e cinco submetralhadoras. Segundo Wendt, esse tipo de arma costuma ser contrabandeado e chega ao país pelas fronteiras com Uruguai, Argentina (ambas no Rio Grande do Sul) e Paraguai.

QUADRILHAS OSTENTAM PARA INTIMIDAR

A ostentação de armas pelos bandidos referida pelo delegado Wendt é feita principalmente por meio de publicação de fotos em redes sociais. Recentemente, essa atitude foi utilizada supostamente por traficantes do bairro Vila Jardim, que estão em guerra declarada com a facção Bala na Cara, que tem base no bairro Bom Jesus.

Circulam fotos em que um grupo de homens aparece, sem mostrar o rosto, segurando armas como revólver, pistola e um fuzil, e outra em que as armas aparecem sobre um piso frio.

Na mesma semana da divulgação das fotos, um jovem havia sido decapitado e, em um recado macabro e direto, os autores do crime publicaram foto de sua cabeça entre armas e de um cobertor envolto por um edredom, no qual foi pichada a frase: “Bala nos Balas”.

Além disso, moradores das regiões conflagradas relatam que ouvem tiros de armas pesadas durante as noites e as madrugadas.


Nove vítimas no ano passado


Na quarta-feira passada, Isaac Pereira da Rosa, 23 anos, tornou-se um exemplo de que armas pesadas, como fuzis, não são utilizadas apenas para ostentação e intimidação pelas quadrilhas que disputam territórios do tráfico de drogas. Ele foi morto a tiros na Rua Itapuã, no bairro Mario Quintana, na zona norte de Porto Alegre. No local, foram recolhidas cápsulas de fuzil 223, que são compatíveis também com fuzis 556.

De acordo com a planilha de homicídios do Diário Gaúcho, em 2015, nove pessoas foram mortas com tiros de fuzis na Região Metropolitana. Uma delas foi a menina Laura Machado Machado, sete anos, na Capital. Ela dormia na casa da família, no Condomínio Campos do Cristal, no bairro Vila Nova, na Zona Sul, quando foi atingida por uma bala perdida. O tiro foi disparado em um confronto entre integrantes dos grupos Bala na Cara e V7, que disputam territórios do tráfico na região. O crime segue sem esclarecimento.

TRAFICANTE FOI ASSASSINADO COM TIRO DE FUZIL EM TRAMANDAÍ


A morte por tiro de fuzil de maior repercussão e consequências ocorreu em Tramandaí. Em 4 de janeiro de 2015, a uma quadra da orla, tombou o traficante Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, 35 anos. Sua morte, até o momento, também é um crime não solucionado pela polícia e desencadeou uma série de outros homicídios.

Os ferimentos e as mortes por tiros de fuzis ainda não impactam hospitais e o Departamento Médico Legal da Capital, de acordo com médicos. Por meio da assessoria de comunicação, o Hospital Cristo Redentor, cujo setor de urgência recebe boa parte dos baleados nas zonas norte e leste da cidade, informou que a maioria dos casos ainda são de vítimas de tiros de revólver. Já nas necropsias realizadas no DML, os tiros de pistolas há algum tempo predominam, ao lado dos de revólveres. Mas os casos de fuzis, ainda que em porcentagem pequena, têm suas peculiaridades.

– Muitas vezes, dificultam a identificação das vítimas, mas não a impede – explica o perito médico-legista Oscar Carvalho de Lima Filho, diretor substituto do Instituto Geral de Perícias.

A dificuldade de identificação ocorre principalmente quando o tiro atinge a região da cabeça da vítima, devido à gravidade das lesões provocadas pelo projétil.